Descendants.
4 Auradon
Notas iniciais
O vento fresco parecia eclodir em um manto gélido sobre sua pele, deixando cada parte do tecido arrepiado.
Ao mesmo tempo em que o sol parecia pronto para toca-la intensamente quando o passeio acabasse; as folhas balançavam na copa das árvores e o som d’agua corrente aumentava mais e mais.
O cavalo corria a galope embaixo dela, selvagem e livre. Cada mecha de cabelo dançava para trás e, assim como a crina do corcel, açoitava seus ombros desnudos em um vai e vem toda vez que o animal saltava.
Inclinada sobre ele e sem proteção nenhuma contra uma possível queda, Ryan se via obrigada a manter o equilíbrio enquanto se segurava onde podia.
Relutava na ideia de machucá-lo sem intenção, colocando toda responsabilidade em como se mantinha em cima do animal nela e em mais nada.
Ambos estavam acostumados com a corriqueira adrenalina do passeio.
Pressionando as pernas contra a pele do cavalo de forma que não perdesse o equilíbrio, começou a erguer o tronco perigosamente.
Mais um pouco. Pensava compulsivamente, desejando alcançar seu objetivo.
O vento parecia espesso. Era a mesma sensação de quando botava a mão na banheira e balançava os dedos imersos no líquido morno. O manto suave e molhado que evolvia a pele era facilmente diferenciado na divisa do tecido seco, fosse pela temperatura ou pela consistência. Algo naquela situação assemelhava-se exatamente ao momento de agora. Não na água, mas sim no espesso manto palpável e gélido do vento.
De braços abertos, respirou fundo.
As pálpebras cederam e caíram sobre os olhos claros, escurecendo parcialmente a vista. De repente, quando tudo o que via em verde tomou a coloração de uma parede alaranjada, Ryan sentiu-se nas nuvens.
O vento. O sol. Os sons da mata ao redor. Tudo junto em um misto de liberdade e deleite jamais apreciado por ela na terra.
Aquilo era liberdade. A emoção de pertencer sem necessariamente fazer parte do cenário.
Dentro do peito, o coração batia forte como um tambor.
Ela vibrava em uma adrenalina muito íntima e familiar, sentindo tudo dentro de si emergir e se desprender em um grito livre que cortava o vento junto dela.
Não soube por quanto tempo permaneceu daquela maneira — de olhos fechados e peito aberto à liberdade —, mas toda euforia daquele momento esvaiu quando o cavalo saltou e ela tombou pra frente com a sensação de ter levado um banho de água fria.
Abriu os olhos imediatamente, esperando a visão desembaçar com impaciência. Piscou uma, duas, três, quatro...
Ansiava por enxergar o que era a massa marrom embaçada mais a frente.
O Corcel começava a abaixar a cabeça para passar debaixo da raiz de uma árvore no relevo acima da depressão onde corriam, quando Ryan finalmente viu o obstáculo perigosamente próximo.
Abaixou mais o corpo e acabou escorregando para a lateral esquerda do animal.
Assim que passaram, tentou voltar para cima do cavalo com muita dificuldade.
Spirit nunca permitiu que botassem uma cela nele, nem mesmo Ryan — a única pessoa que ele deixava se aproximar —, por isso, toda vez que saia com o animal nunca usava o apetrecho, o que dificultava em muito a montaria.
Ele mais uma vez saltou, fazendo a princesa se desequilibrar e cair em um arbusto nada macio.
Um pouco atordoada pela queda e com falta de ar devido ao impacto que suas costas tiveram no contato inesperado com o chão, Ryan segurou o fôlego por alguns segundos tentando racionar.
Com os olhos semicerrados, cegada pela luz, avoada pelo acidente e sem saber como respirar sem dificuldade, tentou ao máximo controlar o próprio corpo. Tentou erguer as costas enquanto tateava lentamente tudo ao redor.
— Ai — murmurou quando algo duro cutucou a coluna ao se mexer.
Por um momento havia esquecido da bolsa que carregava e a mesma parecia ter se tornado um calombo desagradável embaixo dela.
Rolou para o lado sendo atingida por um galho abaixo do seio. Fez uma careta dolorida e se ajoelhou com dificuldade, ainda um pouco tonta. Apoiou-se na árvore mais próxima e saiu do chão com os pés descalços incomodados. Não se lembrava da quantidade de galinhos ser tão grande no percurso da trilha, muito menos que os mesmos conseguiam ser tão doloridos como uma peça de lego.
— Sapato idiota. — resmungou após ajeitar a bolsa novamente na cintura e ver um salto pendurado para fora e o outro caído onde antes estava deitada.
Um barulho nada discreto de gravetos quebrando chamou sua atenção para o cavalo que voltava devagar pela trilha em passadas mansas, mas barulhentas.
— Esqueceu-se de mim? – indagou ao animal que se aproximava. — Pelo menos voltou. Dessa vez.
O corcel relinchou levemente agitado.
— Eu que cai do lado errado do cavalo? — Ergueu uma sobrancelha — Você que me derrubou em um arbusto.
O bicho ergueu a pata e a bateu com força no chão, quebrando mais alguns galhos.
Ryan abriu a boca para responder, mas nada conseguiu dizer.
Os sinos de Notre Dame ecoaram pela trilha trazendo a princesa não só a noção da hora, mas também uma memória brevemente esquecida.
— Os meninos da ilha!
Ela estava atrasada.
(...)
O sol ardia, o céu era muito claro e a banda da escola do lado de fora da limusine era demais para uma recepção agradável. Essas foram as principais críticas que Hyacinth e Maya tiveram em concordância, sem saber necessariamente o que se passava na mente uma da outra.
Após presenciar a discussão acirrada de Jay e Carlos — para ver quem ficaria com um cobertor azul achado no compartimento próximo ao carrinho dos doces —, uma apresentação vergonhosa do futuro rei com os jovens e uma fala desnecessária de sua namorada, Hyacinth já desejava voltar pra casa.
O ar ali em Auradon era tão limpo, que chegava a incomodar as narinas.
No entanto, nenhum desagrado ou estranheza momentânea conseguia ser pior que a falsa simpatia da princesa Audrey — a qual tentava insistentemente manter um sorriso no rosto por mais forçado que parecesse.
— Uma pergunta — Hyacinth se pronunciou repentinamente, surpreendendo o trio a sua frente —, qual a idade mínima pro Botox? É que, parece que você usou e teve algum efeito colateral no bigode chinês. — Olhava diretamente para a princesa.
Se já não gostava da menina a sua frente pelo sorriso falso, gostou menos ainda quando tentou rebaixar Evie por sua posição real “inválida” no país.
— Não fazemos uso de substâncias desse tipo aqui. — Forçou outro sorriso, esse com um aspecto mais amargo.
— Ah, então isso aí é natural? — Fez uma careta — Sinto muito.
Maya mordiscou o lábio, segurando uma risada.
Hyacinth podia perseguir Evie diariamente sobre sua aparência, mas quando via alguém fazer algo parecido com a colega, acabava se tornando muito protetora.
A fada Madrinha lançou um olhar enigmático ao príncipe, antes de continuar:
— Ben, Audrey e Ryan vão mostrar tudo a vocês.
Alguns dos jovens franziram o cenho durante a citação do último nome.
Ali diante deles estavam apenas o futuro rei, sua namorada, a fada e a banda.
Maya lançou um olhar minucioso para cada integrante fardado, esperando que o suposto Ryan desse um passo a diante. Nada aconteceu. Ao invés disso, uma fada madrinha muito confusa olhou para trás a procura de algo ou alguém.
— Onde foi que...
Os acontecimentos seguintes pareceram rápidos demais.
Ben fixou o olhar em um ponto específico atrás dos seis delinquentes e logo depois correu para falar algo com a fada Madrinha — mantendo-a de costas para o grupo.
Audrey lançou um olhar muito crítico ao mesmo ponto, contraindo a cara por alguns segundos antes de vestir a máscara de falsa simpatia novamente.
Antes que alguns deles pudessem virar para ver o que tanto príncipe e princesa olharam, uma menina se aproximou de forma silenciosa. Estava descalça e carregava um par de sapatos na mão direita.
A mesma, sem muita cerimonia, se apoiou na primeira pessoa que viu, calçando os saltos de forma rápida e desajeitada.
O incômodo podia ser palpável ao redor de um Jay surpreso pela aproximação. Ela usava o ombro do delinquente como ponto de equilíbrio e ele não gostou muito do toque surpresa, franzido todo rosto enquanto lançava um olhar afiado a pessoa.
Alguns integrantes da banda seguraram risinhos ao verem Ryan tentar chegar sorrateiramente, achando-a muito corajosa por se apoiar em um desconhecido daquela maneira e por tentar ludibriar a Diretora daquela forma.
— Ah, ai está você — disse a Fada após Ryan se posicionar ao lado de Audrey como se estivesse ali o tempo todo — Atrasada, de novo.
O olhar desgostoso da mulher conseguia deixar a princesa muito constrangida.
Ela abriu a boca, mas foi prontamente interrompida com um erguer de mãos:
— Depois — pediu, sabendo não ser a hora e nem o local para uma possível bronca. No segundo seguinte continuou, reafirmando: — Ben, Audrey e Ryan vão mostrar tudo a vocês.
Lançou um sorriso amável a todos os seis delinquentes.
— As portas da sabedoria nunca estão fechadas — falou de forma teatral —, mas a biblioteca funciona das oito as onze. Já devem ter ouvido que sou muito rígida.
Ryan enrubesceu levemente com o comentário, sentindo alguém mexer em seu cabelo. Lançou um olhar confuso na direção, dando de cara com um Ben concentrado em tirar uma folha verde brilhante dos fios escuros.
“Tem mais?”, indagou a ele da forma mais discreta possível, apenas com os lábios.
O mesmo lançou um olhar avaliativo rápido e disfarçado pelas madeixas, negando com a cabeça logo em seguida.
Ambos voltaram o olhar para frente, se despedindo da Diretora com um aceno de cabeça.
Os alunos da banda e o motorista da limusine, apenas esperaram para ir embora quando a mesma dispersasse — deixando o trio com os seis delinquentes.
O príncipe deu um passo à frente, abrindo um largo sorriso aos jovens.
— É muito, muito bom — se aproximou para cumprimentar Jay com um aperto de mãos, recebendo um soco “amigável” no peito ao invés — finalmente conhecê-los.
Ryan segurou o riso, quando o amigo pareceu prender o ar em uma surpresa fugaz.
— É uma ocasião importante. — dizia ele enquanto cumprimentava Mal — Eu espero que isso vá para a história. — Pareceu parar quando segurou a mão de Carlos — Isso é chocolate? — questionou gentilmente após soltar a mão do menino, que assentiu pondo o dedo sujo na boca.
Ryan mordiscou o lábio, erguendo as sobrancelhas enquanto sorria com os lábios.
Observou o amigo dar continuidade cumprimentando Evie, que faltava suspirar com o contato, e segurar a mão de Maya por um segundo — antes da mesma largar sem cerimonias — e Hyacinth negar o contato com um maneio de cabeça.
— Como o dia em que começamos a nos curar.
— Ou o dia em que você mostrou a seis pessoas onde fica o banheiro. — Mal simplificou a seu ponto de vista.
— Acho que exagerei.
— Um pouco.
— Bastante — afirmou Hyacinth, intrometendo-se no diálogo da colega e do príncipe. — Mas iremos reconsiderar, não se preocupe.
Benjamin abriu um sorriso muito sincero à menina.
— Nesse caso, eu agradeço.
Pela primeira vez, Ryan se viu sob os olhares completamente fixos dos delinquentes — alguns curiosos, outros analíticos.
Havia agradecido tanto aos deuses pelo short não ter rasgado na queda, mas mais ainda pela blusa não ter manchado de terra.
Mesmo tendo caído em um arbusto, continuava supostamente apresentável.
— É um prazer conhecê-los — disse finalmente — Meu nome é Ryan. Sou filha da Branca de Neve.
— É sempre pontual assim? — questionou Hyacinth, de repente e em um tom claramente provocativo.
— Normalmente, não. — A princesa abriu a boca um pouco envergonhada, soltando uma risada nasal sutil e dizendo o mais bem humorada possível: — Minha primeira impressão já era.
— Longe disso — um rapaz murmurou, olhando-a de cima a baixo.
O mesmo parecia muito interessado em analisá-la daquela forma, como se a avaliasse e gostasse do que via.
— Eu me chamo Jay — disse se aproximando de forma “sedutora”.
Ryan piscou lentamente.
— Eu sei quem é, Jayden — respondeu com um sorriso simpático — Fui eu quem ajudou Ben na seleção de vocês.
— Que surpresa — a voz de Audrey surgiu baixa e em um tom que a mesma dificilmente usava na presença de outras pessoas. Sarcasmo.
— Nós escolhemos juntos — afirmou o príncipe.
— Em parte. — continuou a princesa.
— Em todas elas. — reafirmou com insistência — Estão olhando para a responsável de toda papelada.
— É um cargo muito exaustivo, diga-se de passagem — comentou enquanto passava uma mecha de cabelo para trás da orelha. — Bom, tenho certeza que a última coisa que querem ouvir agora é algo sobre papeladas...
— Que bom que sabe — interrompeu Hyacinth com um sorriso afiado, levando uma cotovelada de Maya.
Ryan achou graça do humor da ruiva.
— Bom, caso tenham alguma duvida antes de começarmos o tour...
Os seis se entreolharam.
— Vocês escolheram todos juntos? — Evie ergueu uma sobrancelha a filha da inimiga de sua mãe. Não havia gostado nem um pouco da princesa.
Talvez fosse pelo atraso ou pelo histórico familiar, mas a certeza do desagrado se encontrava na aparência da outra. Bonita. Muito bonita. Não mais que ela, obviamente e também pouco apresentável.
Ryan abriu a boca, depois fechou sem saber o que dizer. Lançou um olhar rápido ao amigo, antes de respirar fundo e tentar formular a resposta:
— Em partes. Nós avaliamos muitos jovens em muitas etapas. A cada uma delas, escolhíamos um separadamente e...
— E quem você escolheu? — Jay a interrompeu. Em seus olhos era possível ver um interesse muito grande, assim como em sua postura e sorriso despojado.
Ele está tentando flertar comigo? Ela se perguntava a cada momento em que ele parecia se aproximar e lhe direcionar um olhar muito direto e desejoso.
— Eu escolhi o... — Pareceu divagar por um momento — O Carlos.
Benjamin franziu o cenho, lançando a amiga um olhar muito confuso.
— E a Evie. — Observou a azulada com um olhar amistoso — Espero verdadeiramente, que possamos nos dar bem. Sem que o histórico familiar atrapalhe, é claro.
A outra forçou um sorriso em sua direção, estava pouco confortável e muito menos disposta a continuar o diálogo entre ela e a princesa.
— Você é a filha da Malévola, não é mesmo? — indagou Audrey a Mal.
Por um segundo, havia esquecido quem deveria ser a roxa antes de resolver direcionar sua atenção a ela.
— Quer saber? — Com um olhar cumplice a Ryan, que estranhou profundamente, desabafou de forma afiada: — Eu não culpo a sua mãe por tentar matar meus pais.
Mentira. Mentira. Mentira.
— Ah, sim — Sorriu mais largamente — A minha mãe é a Aurora — Olhou para Evie como se quisesse impor algo implicitamente. Algo que a amiga de Ben não compreendeu muito bem. — A Bela...
— Adormecida.
A voz afiada e pouco amigável de Mal cortou a fala da outra como uma lâmina fria, cheia de ressentimento.
— Eu conheço o nome — Lançou um olhar analítico à Audrey, que parecia sorrir com mais força. — Eu também não culpo seus avós por terem convidado todas as pessoas do mundo, exceto minha mãe, para aquele batizado ridículo.
Perigo. Perigo. Perigo.
— São mágoas passadas!
— Claro que sim.
Ryan observou as duas rirem do mesmo modo, com a certeza de que se não fizesse algo, os primeiros momentos dos jovens fora da ilha não seriam pacíficos.
— Voltemos à escola — Interrompeu o contato visual feroz entre ambas ao tomar a palavra. Seu olhar encontrou o de Benjamin, que observava a cena anterior com o mesmo desconforto da amiga, e o incentivou a continuar com um erguer de sobrancelha.
— Ah, sim — Assentiu ele tendo o antebraço tomado pela namorada, que o segurava carinhosamente — Escola Auradon — Apontou para a propriedade atrás deles —, originalmente construída há trezentos anos e convertida em escola por meu pai quando se tornou Rei.
Ao se aproximarem da grandiosa estátua do atual Rei na entrada, Ben bateu palmas e o metal rangeu. O braço, antes posicionado no peito, abaixou assim que a obra mudou de aparência. Diante deles agora havia uma grandiosa fera alta, corpulenta e deformada.
Carlos em um movimento inesperado saltou ao colo do amigo mais próximo, assim que ouviu o rangido e a transformação da peça, gritando automaticamente.
— Está tudo bem, Carlos — Apaziguou o príncipe olhando para o menino no colo de Jay — Meu pai quis que essa estátua mudasse de fera para homem pra sempre nos lembrar de que tudo é possível.
— Solta muito pelo? — questionou Mal com o olhar fixo na peça a sua frente.
— Madrinha não o deixa subir no sofá — Ryan deu de ombros, arrancando um sorriso divertido do amigo.
— Isso é verdade.
A Roxa franziu a testa com um sorriso discreto nos lábios. Ambos se encararam por um longo segundo, antes que Audrey puxasse o namorado para que ele desse continuidade ao tour.
Benjamin apresentou quase todos os cantos da escola aos seis jovens. Por onde andava, era observado por milhares de olhos curiosos e muitos celulares com câmeras nada discretas.
Passaram pelos corredores, campos e jardins externos, antes que o mesmo prometesse lhes mostrar os clubes mais tarde.
Passaram pelo refeitório grande e iluminado, por algumas salas de aula e, brevemente, pela biblioteca.
Quando o passeio chegava ao fim e tudo que restava a lhes mostrar eram os quartos, Mal — com o ocorrido de mais cedo martelando em sua cabeça — resolveu questionar ao pararem no meio do hall que levava para os quartos:
— Então, vocês tem magia em Auradon? Como varinhas e... Essas coisas.
Ben abriu a boca e fechou, depois sorriu e lançou um breve olhar a Ryan, antes de responder:
— É evidente que tais artefatos e forças existam, mas no momento eles estão aposentados. A maioria dentro e fora destas instalações são apenas mortais comuns.
— Que por conveniência do destino, são Reis e Rainhas — murmurou ela um pouco decepcionada com a resposta.
— De fato — Ele riu um pouco nervoso com o comentário.
Ryan viu Audrey abrir a boca para falar alguma coisa, mas de repente sua expressão mudou e ela fechou os lábios ao fixar seu olhar critico e desgostoso em um ponto atrás dos jovens.
— Aí está minha garota! — Uma voz familiar praticamente cantarolou enquanto se aproximava. O dono era alto, possuía pele bronzeada e um cabelo na altura dos ombros, onde jaziam duas mechas de um vermelho opaco emaranhadas nos fios grossos, cada um em lado da cabeça. — Fugindo de mim?
A princesa derreteu um pouco com o tom usado, quando o rapaz de preto se aproximou de onde estava.
— De maneira alguma — Ela respondeu um pouco contida.
Quando o mesmo se inclinou para beijá-la, Ryan desviou o rosto um pouco tímida. Ele franziu o cenho estranhando a atitude, mas assim que desviou o olhar para o ponto que ela mirava com a sobrancelha erguida, entendeu o porquê do afastamento.
— Ah — murmurou ele um pouco confuso — Achei que viriam quarta-feira.
— Hoje é quarta — Ben sorriu ao companheiro de quarto.
— Achei que fosse segunda. Erro meu. — Ele resmungou ainda confuso, mas logo lançou um sorrido muito amistoso aos jovens — Sou Alandrir de Agrabah, mas todos me chamam de Alan. Não que isso signifique alguma coisa, podem se referir a mim como quiserem. Por exemplo — Listou nos dedos —, Drir, Al, cara do cabelo grande, maluco do time de luta...
— Irresponsável.
Os olhos de Alan fumegaram na direção de Audrey.
— Peçonhenta, não te vi por aqui.
A princesa fez uma careta nem um pouco adequada ao momento.
— Enfim — disse voltando sua atenção aos seis —, se precisarem de ajuda, sintam-se livres para me procurar. Não desmerecendo os esforços do meu companheiro de quarto e minha adorável namorada — Passou o braço pelos ombros de Ryan —, mas ajuda extra é sempre bom. Principalmente quando se é novo na cidade, digo isso por experiência própria.
Hyacinth o olhou de cima a baixo de forma nada discreta. Maya forçou um sorriso rápido, Evie e Mal o observaram discretamente por alguns segundos, Carlos assentiu e Jay cruzava os braços de forma defensiva.
Antes que qualquer coisa fosse dita por algum dos jovens, a voz aguda e ríspida de Audrey preencheu seus ouvidos:
— Ou peçam ajuda a qualquer um, já que ele tende a não ser a melhor pessoa para esse trabalho. — Lançou um sorriso afiado de pura inimizade — A genética não foi muito boa nesse sentido e nem em muitos outros.
Alan parou de sorrir no mesmo instante. Seus olhos fuzilaram a princesa de uma forma que até mesmo ela pareceu entender que tinha ido longe demais com o comentário.
— Eu juro por Alá, Audrey, que estou tentando ser o mais civilizado possível com você. Nunca falo nada de você ou faço insinuações sobre a porra da sua família. Então para, por favor.
A princesa pareceu ignorar o comentário, não dizendo nenhuma palavra depois do corte que recebeu.
A convivência de ambos nunca foi boa.
Quando completaram quatorze, as coisas pareceram piorar já que Audrey debochava de como o menino se portava e de alguns costumes que tinha. Além disso, ela julgava muito o pai dele por ter sido ladrão quando mais novo — apesar de nunca ter dito em voz alta.
— Retiro o que disse — Hyacinth comentou com um sorriso largo —, eu vou amar esse lugar.
Ben pareceu menos tenso após o comentário da ruiva, assim como seus dois amigos. Audrey permanecia imparcial.
— Não deveria estar no treino? — sussurrou Ryan para o namorado, que arregalou os olhos, mirando o relógio no pulso.
— Atrasado quinze minutos, Jenkins vai me matar! — Ele resmungou muito preocupado — Foi ótimo conhecer todos — Lançou um olhar rápido aos jovens —, apesar de não saber quem são e, muito menos, seus nomes.
Sorriu após beijar a têmpora de Ryan.
— Te vejo depois.
E tão rápido quanto apareceu, ele sumiu.
Jay permaneceu com a postura intacta, mesmo após o outro deixar o local.
Mal pareceu se agradar muito com o comentário do rapaz, assim como Evie e Maya o faziam. Já Hyacinth preservara seu sorriso largo e cheio de uma malícia oculta.
— Desculpem por isso — A princesa lançou um olhar sifgnificativo, incluindo o amigo e sua namorada —, Alan pode ser meio...
— Gostoso?
Audrey fez uma careta surpresa com o comentário da ruiva.
Benjamin olhava de Ryan a Hyacinth sem saber o que dizer.
— Também. — A princesa afirmou, arrancando da outra princesa um olhar alarmado e enojado.
— Filho único? — Perguntou muito interessada.
— Tem três irmãos.
Mal fitou a ruiva de forma incrédula. Seus olhos a fuzilaram em uma repreensão muda que foi prontamente atendida.
— Doug! — Ben pareceu extremamente aliviado ao encontrar o colega de classe, que descia as escadas com uma prancheta em mãos.
O menino abriu um largo sorriso ao príncipe. Era alguns centímetros menor que o outro, tinha olhos azuis, usava óculos quase retangulares e o uniforme da banda que a pouco fez a recepção dos delinquentes.
— Ele os ajudará com o horário das aulas e Ryan mostrará seus dormitórios. Até mais tarde. — seus olhos focaram particularmente nos de Mal por alguns segundos demorados — Se precisarem de alguma coisa não hesitem em...
— Perguntar ao Doug! — Audrey se apressou em interromper, agarrando-se ao braço do namorado a fim de cortar contato visual dele com o da menina à sua frente.
Ryan observou ambas sorrirem da mesma forma que antes e fixou um olhar significativo em Benjamin, antes do mesmo ser arrastado por uma princesa muito ansiosa e decidida.
Doug, que observava a cena em silêncio, pigarreou antes de se apresentar:
— Oi, gente. Eu sou filho do Dunga. — Sorriu nervoso ao ver um ponto de interrogação pairar nas feições dos jovens — Tipo Dunga, Mestre, Atchim, Dengoso, Feliz, Zangado, Soneca...
Enquanto o menino listava nos dedos os nomes dos tios, Ryan lançava um olhar avaliativo na papelada da prancheta por cima de seu ombro. Quando o mesmo parou de falar, a princesa mal notou devido a concentração no documento.
— Sou Evie — murmurou a voz conhecida que se aproximava de ambos. — Filha da Rainha Má.
Doug travou. Abriu a boca e fechou, no mínimo, três vezes antes de murmurar alguma palavra que a amiga não entendeu.
— A-as suas aulas — continuou ele com certo nervosismo — Eu já preenchi os horários. Tem — Olhou para princesa ao seu lado e logo depois a prancheta — Historia de lenhadores e piratas, Regras de segurança para internet e... Bondade curativa para iniciantes.
Hyacinth abriu um sorriso afiado, Maya direcionou um olhar zombeteiro a Jay e Carlos, Evie assentiu lentamente e Mal pareceu querer rir.
— Deixe-me adivinha — disse a roxa, tirando um doce do bolso e pondo-o na boca —, matéria nova?
Ryan soltou uma risada nasal, recebendo todos os olhares sobre ela.
— De novo só o para iniciantes. — comentou com a voz carregada em um tom debochado.
Mal ergueu uma sobrancelha desconfiada do ato, mas mais surpresa com a resposta do que qualquer outra coisa.
— Me sigam — A princesa pediu enquanto soltava os papeis da prancheta do amigo. — Vou mostrar seus quartos.
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