Descendência do mal

4 A ovelha, o lobo, o corvo


Notas iniciais
Esse é o ultimo capítulo da PRIMEIRA PARTE da fanfic. Espero que gostem, boa leitura!

Capitulo 3 –

O lobo, a ovelha, o corvo

...

‘’O amor, em sí, é um exagero da humanidade. Criou-se durante toda a existência humana, uma infinidade de adereços, superstições e historinhas sobre ele, todas com a intenção de enfeitar a verdade irreprimível de que esse e qualquer outro sentimento é só uma linha que move a nós, marionetes, e não o palco central. Amar é se deixar ser manipulado, ser amado, é receber o gracioso dom de manipular.’’

Sebastien acordou em uma cabana velha e com cheiro de mofo, coberto de unguentos e folhas que o fazia parecer um espirito do pântano. Assim que se sentou na cama, foi ajudado por uma jovem moça, de feição alegre, porém cansada, talvez pelo trabalho no campo ou talvez por não ter dormido esperando-o acordar.

— Como eu vim parar aqui? – Perguntou Bastien tirando algumas das folhas que tapavam seu rosto.

— Estávamos na cidade, papai e eu – respondeu – quando te vimos no chão, achamos que você poderia morrer se ficasse ali, então te colocamos na carroça e te trouxemos para casa.

Bastien olhou brevemente em volta, tentando manter a descrição. Era uma cabana simples, obviamente pertencia a camponeses, pelo tamanho e pela quantidade de camas, apenas duas pessoas moravam ali, talvez a jovem moça e o seu pai.

— Qual seu nome mesmo? – Perguntou então.

— Amelie, senhor – respondeu ela, fazendo uma leve reverencia, e abaixando a cabeça. Talvez não esperasse a pergunta.

— Me chamo Sebastien – retrucou Bastien, que já sabia que pela modéstia educação típica dos camponeses e principalmente a timidez clássica das mulheres daquela classe, ela não iria perguntar de volta.

Não demorou muito para que o pai de Amelie, Sr. Benard, chegasse a cabana. Era um homem velho, porém robusto, mas acima de tudo com um olhar calmo, que trouxe a Bastien a impressão de que se fosse ele próprio um demônio, o olhar de Benard seria como água benta. Jantaram em moderada simplicidade, e durante o jantar, naturalmente foi perguntado a Bastien sobre sua identidade.

Sebastien, incapaz de mentir olhando aqueles olhos, desviou seu olhar para Amélie e contou a seguinte história: Viera da Itália, de uma pequena vila e prospera vila nos arredores de Parma; era o filho mais novo de um casal de comerciantes, e na morte dos pais, seu irmão mais velho, Gasppar, roubou-lhe tudo a que tinha direito e o expulsou de casa. Desde então ele vivia em busca de um lugar que pudesse viver, trabalhar e servir a deus – falou isso fazendo o sinal da cruz.

Benard ficou encantado com sua história, e sem muito enrolar, prometeu-lhe a mão de sua filha, Amélie, que aceitou o matrimonio.

Amélie não era uma divindade grega, mas não chegava a ser feia ou deplorável. Tinha longos cabelos loiros que escapavam sorrateiramente pelo pano que usava amarrado a cabeça, seus olhos azuis lembravam o do pai, tirando a força que não havia no seu olhar. De corpo era comum, ou talvez as camadas de saias ou os aventais dispersassem sua forma.

O casamento havia sido marcado as pressas, não era de boa aparência aos vizinhos que o marido e a esposa já morassem juntos, mas após prometido ao pai da moça de que não tomariam outras liberdades, foi acertado que continuariam como estavam.

Duas noites antes do casamento Bastien e Amélie estavam a cavalo voltando da cidade, e então decidiram que seria melhor parar em certo trecho e continuar a pé, pois o velho cavalo estava nos últimos anos de vida. Bastien então apeou de seu cavalo e a ajudou a descer do seu, segurando-a pela cintura e a tomando em seus braços.

Foi quando pela primeira vez Bastien sentiu Amélie. Não podia negar que já fora pra cama com mulheres que fariam a própria Afrodite entrar em ira, mas naquele momento, nenhuma mulher no mundo poderia ser tão atraente ou pudesse ter uma pele tão macia quanto ela. Amélie ao contrário, era virgem, nunca havia ao menos beijado alguém durante seus dezessete anos e também não podia negar um fato: desde que vira Bastien deitado na sua cama, sentira algo que não conhecia, mas que descreveu mentalmente como uma ovelha que quisesse ser devorada pelo lobo, e não protegida pelos cães.

A mão de Bastien que já estava na cintura dela, foi subindo até seus seios pequenos, enquanto a outra agarrava o pano envelhecido de seu vestido. Bastien sentia-se novamente como o acompanhante de luxo italiano, ao modo que a luxuria e o desejo consumia cada energia de cada célula. Amélie temia a dor, temia a traição da promessa que fizera ao pai, mas não tentou parar. O desejo era passado de um para o outro como uma corrente elétrica enquanto Bastien beijava incessantemente seu pescoço.

Em um só impulso Bastien arrancou o corset e as vestes de Amélie. A luxuria o fazia se sentir mais forte. A incitação ao sexo o fazia sentir imortal. Totalmente nua, ela se agarrou ao corpo de Bastien que também não reservava mais roupa alguma.

Fizeram amor em meio ao escuro do bosque, protegido pela penumbra das arvores e condenados pelo ato em si. Apenas duas vezes em toda sua história aquele pequeno vilarejo havia sido palco de coisas incomuns, e Bastien protagonizava ambas.

O barulho de passos e o clarão da tocha não foram suficientes para interromper Bastien e Amélie, e em questão de poucos minutos o próprio Benard estava diante da cena. Apenas quando a luz da tocha havia se transformado em duas, depois cinco, e chegado a vinte pontos de fogo em meio ao escuro do bosque, eles perceberam o que se passava: não apenas Benard, como outros vinte homens bem armados e igualmente chocados estavam ali. Aconteceu que se preocupando com o sumiço e a demora do casal, Benard temeu que eles pudessem se tornar vitimas de uma alcateia de lobos que habitavam as proximidades do vilarejo, e reuniu os chefes de algumas famílias para que pudessem procura-los, e ao encontrar os cavalos no meio da estrada, deduziu que pudessem ter fugido, por desespero, para o bosque, onde entrou com os homens.

Sem que Bastien pudesse ao menos pronunciar uma ultima palavra, Benard avançou com a tocha sobre ele, que desviou rapidamente por baixo e partiu sobre a vegetação.

Porém mesmo que corresse o máximo que conseguisse os outros homens a cavalo o perseguiam e se aproximavam cada vez mais. O medo e o desespero tomavam conta de sua mente, que apenas se ocupava em correr no campo aberto. Após o campo, ele encontrou uma estrada que avançava lado a lado com um rio bravo e cheio. Sem ter pra onde fugir, ele se jogou no rio, que o engoliu.

Entre segundos debaixo da água e segundos em que podia puxar um pouco de ar, seu corpo era arremessado e jogado contra troncos caídos e pedras soltas. Seu corpo rapidamente adaptou-se as condições de sobrevivência graças a imortalidade. A pele que se dilacerava a cada vez que se chocava com os obstáculos, se tornava mais dura, além de não passar para seu cérebro qualquer sensação de frio. O pouco de ar que conseguia quando podia colocar sua cabeça fora da água tornava-se suficiente para todo o corpo. Sentia-se mais vivo, mais alerta, menos denso.

Tentou inutilmente olhar para trás e ver se estava ainda sendo perseguido, mas tudo que conseguiu captar foi escuridão, o que lhe pareceu que os homens haviam visto sua tentativa de escapar pelo rio como uma morte obvia e dolorosa. O próprio Bastien se jogou em um ato de desistência, talvez porque centenas de anos andando sobre a terra não o tivessem comprovado que a morte não era uma opção para ele.

Ao virar seu corpo para frente bateu em um tronco posto transversalmente ao rio, como uma ponte. Agarrou-se ao tronco e se orientou no espaço. Teve então duas surpresas: Ainda estava sendo perseguido, porém pelo outro lado do rio, por outra estrada que também corria rente a corrente das águas; E havia uma mulher do outro lado do tronco, não apenas havia uma mulher, como a própria mulher estava segurando todo o tronco e o sustentando contra a corrente d’agua. Parecia uma ilusão, talvez um engano de sua mente perante o medo.

Era uma mulher bela, incrivelmente arrumada para o lugar, em um vestido negro adornado em pequenas joias. E o mais incrível era que a mulher estava sozinha segurando aquele tronco, que deveria pesar varias vezes o peso dela, mas com uma facilidade um tanto surpreendente.

Ao perceber que ele se dera conta, a mulher puxou o tronco até a margem, para que Bastien pudesse se agarrar a vegetação e fugir da força do rio. Ao chegar à margem a face da mulher variou de um sorriso afetuoso a uma feição ranzinza em questão de poucos segundos, como se houvesse sido jogada uma máscara em seu rosto. Bastien percebeu também que havia uma charrete como as que costumava andar na Itália quando pertencia a realeza, antecedida por dois majestosos cavalos de corrida negros. A mulher segurou em seu braço encharcado e sem pronunciar uma palavra o ajudou a ir até a charrete e entrar nela, o que o fez rapidamente, pois três dos vinte homens que o perseguiam estavam novamente do outro lado da estrada, e os alcançariam rapidamente.

Em um aceno da mulher, o cocheiro fez os cavalos corressem tão rapidamente que o brilho das tochas dos camponeses foi ficando cada vez mais distante, até desaparecer. Bastien olhou para a mulher, que fumava um charuto prateado enquanto parecia analisar cada traço de seu rosto – que tomava agora sua cor normal – e procurava em seus olhos algo em sua alma. Seja lá quem fosse, o havia ajudado, e sendo ela rica como parecia ser, não seria a primeira vez que se passaria por um personagem por dinheiro.

— E qual seu nome? – perguntou a mulher, com rispidez.

— Sebastien... ou Bastien – respondeu, se sentindo mais calmo por ouvir a voz dela, e havia algo naquela voz que o trazia real calma – posso saber seu nome?

— Lanore McIlvrae – respondeu com um sorriso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.