Desavenças do Amor
1 Primeiras Impressões
Notas iniciais
Annabeth
Mesmo antes de descer do carro, Nova York já parecia muito cinza. O céu era num tom entediante de inhame cozido, as pessoas se moviam mecanicamente e o ar cheirava à borracha queimada das fábricas. No que você foi se meter, Annabeth?, lamentei-me.
O táxi, que cheirava a cigarro e menta estragada, parou em frente ao conjunto de prédios no subúrbio do Brooklyn. Certo, o Brooklyn em si já é meio que um subúrbio, mas ali, na Rua 47, tudo era mais crítico. Os becos mais perigosos, as pessoas mais reservadas. Uma bela vizinhança acolhedora.
— São quarenta dólares — o taxista grunhiu, seu sotaque sulista fazendo com que soasse como se ele houvesse dito Sã carenta dólar.
— Você sabe que isso é um roubo, certo? — perguntei, entregando duas notas amassadas de vinte dólares.
Ele não respondeu. Bufei, agarrando as duas bolsas de mão que levava. A maior parte das minhas coisas havia chegado antes de mim no caminhão de mudança, então eu só levava coisas como livros da universidade, pasta de projetos, mais livros da universidade, barras de cereais e balas de café.
Assim que eu fechei a porta, o táxi amarelo saiu em disparada pela rua, fazendo meu sobretudo se arregaçar. Soltei um palavrão básico, odiando a população de Nova York — São Francisco sempre havia sido uma cidade mais acolhedora —, e corri na direção do conjunto de prédios que serviria como minha moradia nos próximos cinco — repito, cinco — torturantes anos.
Gostaria que a melhor faculdade do país de Arquitetura e Urbanismo não fosse em Nova York. Mas era, e eu não poderia fazer nada quanto a isso. Como a faculdade não era em tempo integral, eu tive a "sorte" de poder me mudar para o apartamento da minha antiga amiga do colégio, Thalia Grace, que havia se mudado para Nova York onze meses antes para estudar Artes Visuais e Contemporâneas.
Assim que passei pela péssima portaria do prédio — cinza, como o resto da vizinhança —, subi as escadas na direção do terceiro andar. Thalia morava no apartamento 24D, um lugar com dois quartos minúsculos, uma sala minúscula, uma cozinha minúscula e um banheiro minúsculo. Pelo menos o preço também era minúsculo, e eu poderia pagar tudo com o meu emprego de meio expediente que havia arrumado na livraria da minha tia que morava em Nova York.
— Hey, Annie! — ela cumprimentou ao abrir a porta. Havia uma mecha azul em seu cabelo preto espetado que combinava com o tom eletrizante de seus olhos. Ela usava uma blusa do Green Day cortada a mão, calças jeans rasgadas nos joelhos e, curiosamente, uma meia azul com imagens de unicórnios. — Achei que fosse chegar mais tarde.
Algum tipo de rock soava de caixas de som atrás dela, fazendo com que ela precisasse gritar para se comunicar comigo. Evitei uma careta e respondi:
— Não tinha trânsito, então o taxista se deu a liberdade de correr a 100km por hora.
Ela riu, abrindo mais a porta com o quadril num sinal que dizia para eu entrar. E foi o que eu fiz. A sala cheirava a Doritos, e uma porta aberta apontava para o meu novo quarto. Dali, dava para ver minhas malas e caixas empilhadas no chão e a janela revelando o prédio vizinho.
— Lar, doce lar — murmurei, suspirando.
Thalia correu para abaixar o som e me olhou com olhos estreitos.
— Eu te abraçaria se isso não fosse tão meloso — ela comentou, dando de ombros. — Senti saudades.
— Pois é, eu também — concordei, despejando minhas bolsas sobre o sofá apenas levemente rasgado. — O que tem feito?
Ela me lançou um olhar de lado enquanto pegava uma tigela cheia de Doritos mergulhados em queijo quente. Senti meu estômago roncar.
— Acho que o horário não permite a história inteira — ela permanecia sorrindo maliciosamente. — Mas posso dizer que me diverti bastante, Annie.
Revirei os olhos, desenrolando o cachecol do pescoço. Tirei o sobretudo e o pendurei num gancho ao lado da porta que, na verdade, deveria servir como chaveiro, mas estava cheio de casacos.
— Se quer saber, o meu último ano foi deplorável — falei, suspirando. — E metade da turma ficou reprovada, também. Foi hilário, de fato.
— Pare de falar coisas como "de fato" e "deplorável"— repreendeu Thalia.— Desse jeito, você não vai sobreviver à faculdade. Precisa fingir que é legal.
— Está insinuando que eu não sou legal? — perguntei, mas estava sorrindo.
Thalia pareceu ter levado a sério.
— É exatamente isso que eu estou insinuando, Chase.
E então, antes que eu pudesse sequer ter alguma reação, ela aumentou o som de novo, e dessa vez estava mais alto que antes. Balancei a cabeça, me perguntando se os vizinhos não se incomodavam com isso.
Caminhei para o meu quarto para organizar as caixas. Havia uma cama ali, o que era bom. Fiquei vasculhando minhas coisas encaixotadas, exausta demais para conseguir mover um músculo para organizá-las. Apenas fiquei remexendo livros antigos da Agatha Christie e Conan Doyle que cheirava a mofo, mas que eram meus bebês.
Foi quando escutei alguém socando a porta. Girei os olhos para entrada, apenas para ver quem era, e vi Thalia já caminhando para lá. Me levantei, pois curiosidade sempre havia sido um dos meus piores defeitos, e me juntei a ela para atender a porta.
Do outro lado, havia dois garotos, um loiro e claramente irritado, e um moreno, genuinamente curioso — assim como eu. Devo ressaltar que ambos eram como duas partes de um todo muito saboroso?
— O que foi dessa vez, Luke? — Thalia respirou fundo, irritada.
O loiro, que aparentemente se chamava Luke, respondeu:
— É a música. Dá pra escutar lá em Chicago. E é horrível
— Se as pessoas em Chicago estivessem tão incomodadas, elas viriam reclamar — Thalia disse. Pude perceber que seu rosto estava corado, mas não sabia dizer se era de raiva ou de outra coisa. — Por que você não vai assaltar um banco com o seu pai, Castellan?
Luke piscou, parecendo aturdido por um momento, mas se recuperou logo. Tanto eu quanto o garoto moreno alternávamos o olhar entre Thalia e Luke, acompanhando de perto a discussão.
— Você quer jogar sujo? Tudo bem — Luke sorriu, e não era exatamente um sorriso agradável. — Talvez você devesse ir tomar banho no lago Michigan com a sua mãe.
— Ei! — surpreendi a mim mesma ao gritar. Eu sabia por que Luke havia dito aquilo. Quando Thalia tinha doze anos, sua mãe havia dirigido embriagada e sofrido um acidente. Seu carro foi encontrado durante a madrugada no lago Michigan, e seu corpo também. — O que você disse?
Luke pareceu ter percebido minha presença pela primeira vez. Ele levantou uma sobrancelha, mas não foi ele que se pronunciou, mas sim o garoto moreno, com o cenho franzido:
— Está surda?
Era a minha vez de levantar a sobrancelha.
— Não se meta — grasni.
— Foi você quem se meteu primeiro — ele deu de ombros. Os olhos verdes estreitaram para mim, e, de repente, o fato de que ele era bonito não importava mais tanto assim, porque ele era um idiota.
— Olha, eu sequer te conheço — esclareci, me esforçando para soar madura. — Não seja tão petulante desse...
— Sou Percy Jackson, me mudei para o apartamento 23D hoje— ele me interrompeu, estendendo uma mão. Eu apenas a encarei. Ele a abaixou de novo. — Agora que você me conhece, eu já posso ser petulante?
Fiquei sem reação por três segundos, apenas encarando-o. Thalia parecia estar entretida, nem sequer se esforçando para esconder o sorrisinho. Bela amiga eu tinha.
— Vá ser petulante na boate gay mais próxima — rebati.— Idiota.
Bati a porta com força, sem parar para ver sua reação. Escutei Luke reclamar: "Ai, ela acertou meu nariz!", mas não me importei. Quando me virei, o rosto corado de raiva, encontrei Thalia rindo para mim.
— O que foi?— perguntei, irritada, mas então comecei a rir também. — Belo começo, não acha?
Ela continuou rindo.
— Realmente, é uma vizinhança muito amigável, não é? — ela concordou. — Acha que devemos abaixar o som?
Revirei os olhos.
— Nah — comecei a caminhar na direção da mini caixa de som e girei todo o dispositivo que controlava o som. Quase fiquei surda, mas valeu a pena. Gritei para Thalia: — Vamos mostrar pra esses idiotas quem manda nisso aqui!
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