Desastre Perfeito
1 Uma noite na cidade da rainha

Me despedir dos meus pais foi a coisa mais difícil e fácil que já fiz em toda a minha vida, eu sei, isso é um pouco cruel, mas foi o que aconteceu. Por um lado, sei que vou sentir muita a falta deles, por outro, tenho uma maravilhosa sensação de liberdade, não sei dizer se foi pelo fato de ser a filha mais nova, ou a maneira que meus pais foram criados e me criaram, mas eu me sentia presa, sentia como se eu não pudesse ser quem eu realmente sou perto deles, manter a imagem de filha perfeita por anos enquanto meu irmão mais velho fazia o que queria na velha Veneza me fez realmente ser uma garota certinha, sem vontade de experimentar coisas novas ou sair por aí vivendo aventuras, mas desde que coloquei os pés em Londres e deixei meus pais com suas vidas e trabalho perfeitos em Veneza, com todo o resto e passado da minha vida, sinto que posso recomeçar, ter uma vida nova, finalmente cursar medicina como meus pais sempre planejaram, e esquecer minha ultima e mais profunda decepção. Deixar toda a minha vida na Itália me fez perceber que existe um mundo cheio de possibilidades fora daquela cidade cheia de canais e pontes, e a ideia de deixar tudo pra trás, conhecer novos lugares e pessoas, construir novas histórias em outra cidade me deixava cada vez mais animada.
Esfreguei os olhos com força e tentei canalizar toda aquela animação para levantar da cama e trocar meus lençois e travesseiros macios pelo primeiro dia na universidade de Oxford, fiquei em pé no chão frio de uma das muitas casas de meus pais que estão espalhadas pela Europa e vesti um roupão, desci as escadas e quase morri de susto quando esbarrei com Annie, uma empregada que meus pais contrataram para morar comigo e meu irmão mais velho Lorenzo, que por sinal ainda não tinha pisado em casa desde ontem a noite quando saiu para a primeira festa dos calouros de arquitetura, que por algum motivo que eu nunca iria conseguir entender, começava antes mesmo das próprias aulas de arquitetura.
— Que susto Annie! Não fique andando por aí igual a uma rata, ainda vai me matar!
— Me desculpe senhorita Julieta, estava tão distraída que nem vi você. – ela se desculpou.
— Lorenzo não apareceu ainda né? – perguntei
— Não senhora, antes de sair disse apenas que não teria hora pra voltar.
—Pelo visto não tem mesmo. – meu irmão sempre foi totalmente o contrário de mim, nunca fez nada para agradar os nossos pais, rejeitou cursar medicina e quebrou a tradição familiar, vai para todas as festas que é convidado, e assumiu o papel de ovelha negra da família, deixando pra mim a tarefa de ser a filha perfeita, já que meus pais esperavam e planejaram a vida inteira para que eu mantivesse a tradição familiar e fosse uma médica renomada futuramente, estudando na mesma faculdade que algum parente muito, mas muito antigo meu ajudou a fundar, e torciam até para que eu me especializasse em cardiologia, já que os dois obtiveram muito sucesso em sua escolha. Olhei para o relógio e vi que se demorasse mais que cinco minutos tomando o café da manhã iria me atrasar no primeiro dia de aula.
A primeira coisa que o professor pergunta na sala de aula é: "Por que motivo vocês escolheram cursar medicina?" Queria muito ter um motivo que não fosse a tradição da família, ouço as diversas respostas dos colegas de turma, uns dizem repetidamente que entraram no curso para salvar o máximo de vidas que puderem, outros dizem que querem sentir a adrenalina de ter a vida de alguém em suas mãos, acabo refletindo no quanto minha vida foi totalmente planejada por outras pessoas, de acordo com seus gostos e não com os meus, e se não estou ficando maluca por ter uma crise existencial no meio da minha primeira aula, isso não está nada certo.
— Quero poder salvar vidas! — digo quando chega a minha vez, e não tem nenhuma mentira na minha fala, sempre fui uma pessoa que gosta de ajudar os necessitados, ser medica vai me proporcionar isso, salvar a vida de alguém, mas também salvar a minha própria vida das mãos dos meus pais, poder decidir como fazer algo, ter vidas nas minhas mãos, inclusive a minha.
Caminho para fora da sala de aula com duas colegas de classe, verifico o celular enquanto elas falam sobre festas e garotos, duas coisas que pretendo ficar longe por um bom tempo. Primeiro, nunca gostei de festas, segundo, garotos não prestam para nada além de decepcionar as garotas certas. Vicenzo Ferrazza é o nome do garoto que me fez passar a pensar desta maneira, ele é o filho de um dos amigos da faculdade dos meus pais, então desde que éramos crianças já era esperado por todos que ficássemos juntos, e foi o que aconteceu, os dias passavam e eu estava cada vez mais apaixonada, até que no meu aniversário de dezesseis anos minha melhor amiga Francesca Carminatti e meu namorado decidiram que eu não ia ter o final feliz, pelo menos não com Vicenzo. Doeu. Doeu muito, mas me fez ser quem sou hoje, mais madura e certa de que nada é tão perfeito, e muito menos para sempre.
— Tem uma festa hoje — a garota chamada Holly fala — Na Cheney Student Village, um lugar onde só moram universitários, fica perto do South Park, você devia aparecer Julieta, com esses olhos azuis e esses cabelos loiros de sereia você vai roubar a cena. Todo mundo vai pra lá depois da luta de hoje.
Dou uma risada baixa.
— Acho melhor não, não gosto de festas, muito menos de roubar a cena. — por um momento penso no que ela disse. — Espera, que negócio é esse de luta?
— Você não sabe? — Sophie, a outra garota pergunta. — Tem umas lutas ilegais que acontecem entre os estudantes daqui, tipo um campeonato, coisa séria mesmo, e só vai quem é escolhido para ir, ninguém nunca sabe onde são essas lutas, eles só divulgam local e hora no dia, é meio complicado, mas você precisa ver quantos gatos tem nessas lutas! Sem contar que é muita adrenalina ser convocada para assistir uma coisa dessas. — ela termina a fala mais empolgada do que deveria estar.
— Quem sabe nos vemos lá! — digo somente para poder sair de perto sem ser mal educada. — Foi um prazer conhecer vocês, nos vemos amanhã na aula.
As duas acenam para mim enquanto caminho pelo estacionamento a procura do carro de Lorenzo. Decido passear pelo centro da cidade a fim de conhecer mais o plano de fundo do início da minha vida.
Já passa das sete da noite quando chego em casa e encontro uma Annie preocupara por Lorenzo não pisar em casa desde ontem a noite.
— Onde foi que esse garoto se meteu? — digo com raiva — Lorenzo nunca vai criar responsabilidade. — Vou tomar um banho e vou tentar ligar pra ele.
— Tudo bem, enquanto isso vou colocar sua janta na mesa. — ela diz enquanto subo as escadas.
Depois de uns dez minutos sem pensar no meu irmão irresponsável e cabeça oca, desligo a ducha e pego um Valentino branco no closet. Enquanto desço as escadas tento ligar para Lorenzo e nas cinco vezes seguidas não sou atendida.
— Não há nenhum lugar onde ele possa estar senhorita Belinazzo? — Annie pergunta e automaticamente uma luzinha se acende na minha cabeça.
— Isso Annie! Tem a droga de uma festa com gente que não presta e com certeza Lorenzo está metido lá. — digo já pegando as chaves do carro — Não se preocupe, todos os calouros vão estar lá, e tem umas meninas da minha sala que me convidaram mais cedo, se eu ver que não devo ficar lá volto para casa imediatamente, por favor, só não ligue para meus pais. — ela concorda com a cabeça e antes de mais nada saio pela porta e entro no carro.
Não preciso nem perguntar onde é a tal festa, o som estava em um volume absurdo. Por incrível que pareça Lorenzo é a primeira cara que vejo. Com uma cara de pau dos infernos ele vem sorrindo e me abraçando.
— Maninha! Não esperava ver você aqui.
— É, nem eu esperava isso. Como você tem a cara de pau de não dar notícia por um dia inteiro?
— Juntei a calourada de ontem com a aula logo cedo e depois um de meus amigos ia lutar num lugar muito louco que ninguém imaginaria ficar dentro da faculdade e então viemos pra cá, foi incrível. — ele diz entusiasmado. Reviro os olhos. — Venha, vou te apresentar para uns amigos.
— Tudo bem, mas não vamos demorar, não quero que nossos pais saibam que em nossas primeiras quarenta e oito horas em Londres aprontamos tudo isso.
— Relaxa Julieta, pelo amor de Deus, você nunca sai — ele diz passando a mão nos cabelos loiros — E outra, isso nem chega aos pés de aprontar. — ele diz com um sorrisinho maroto e me conduz festa a dentro. Vejo de tudo por aqui, ponche, vodka, maconha, gente se pegando nos sofás e na piscina. A casa em que estamos ao contrario de parecer um lugar que estudantes moram, mais se parece uma mansão, vidros em todas as paredes, do teto ao chão deixam a casa iluminada e com a aparência luxuosa. Lá fora ao lado da piscina estavam os prováveis amigos de Lorenzo, garotos com o corpo definido, com garrafas e cigarros nas mãos.
— Bom, esse é o meu pessoal. — ele diz apresentando o bando de garotos. Aceno com a cabeça e ouço o barulho de alguma coisa quebrando pela sala onde acabamos de passar. Uma parte dos garotos corre para ver o que aconteceu e acabo ficando com uma expressão assustada por conta do movimento. Olho para Lorenzo com os olhos arregalados quase implorando silenciosamente para irmos para casa. — Relaxa, eles só gostam de uma boa briga, esses são os caras que lutam. — como se isso fosse me deixar mais calma...
— Lorenzo! — um garoto de cabelos meio ruivos se aproxima e cumprimenta meu irmão com um soco no ombro.
— Nathan! Eai cara. — ele diz rindo como se o soco não tivesse doído nada. — Esta é minha irmã, Julieta.
— Olá Julieta, pro seu irmão sou o Nathan, mas pra você sou Romeu. — ele diz como se fosse o primeiro a me fazer essa cantada idiota, dou um sorriso amarelo pra ele e finjo estar gostando dessa conversa.
— Então, enquanto vocês dois trocam uma ideia, vou ver o que aconteceu lá dentro. — Lorenzo diz soltando o braço que estava em volta do meu pescoço e olho pra ele com uma cara que pede socorro e pra não me deixar aqui com um idiota que vê graça em lutas ilegais e faz piada com o meu nome. — Eu já volto, prometo. — ele diz e faço uma cara de quem vai matar o irmão quando chegar em casa.
Para não ficar constrangedor, decido que vou pegar um ponche e beber pela primeira vez coisas que evitei minha vida toda.
— Vamos pegar um ponche? — pergunto educadamente para Nathan.
— Quer pegar um ponche só para não ficar aqui sozinha comigo? — ele diz
— Se estou te chamando é porque não tenho problema em ficar perto de você. — digo ele ri e me segue. Enquanto passamos pela piscina, um maluco está enchendo ela de sabão em pó enquanto outro agita a água deixando a piscina cheia de espuma.
Enquanto pego o meu ponche, avisto Lorenzo se agarrando com uma garota de cabelos castanhos e um short jeans quase menor que sua blusa colada. Nathan falou que iria ao banheiro enquanto eu terminava de pegar a bebida, e por cinco minutos tive paz no meio do caos.
— Se tomar bebidas alcoólicas conto para a sua mãe. — uma voz interrompe meu momento de paz.
— O que? — digo me virando e dou de cara com um dos "amigos" de Lorenzo.
— Me chamo Brian. Você com certeza é a irmã de Lorenzo.
— Sim eu sou, mas isso não é da sua conta. — digo me virando e colocando de volta na mesa a colher de servir o ponche.
— Essas festas sempre funcionam para meninas como você não é? — ele diz com um sorriso maldoso.
— Meninas como eu?
— Sim, patricinhas doidas para pirar. Pode pirar a vontade, te levo pra casa. — reviro os olhos sem paciência pra conversar com um lutadorzinho de quinta. Encaro ele séria esperando mais alguma merda que ele tenha a intenção de falar. Seus olhos são castanho claros, os cabelos bagunçados do mesmo tom da cor de seus olhos, como se fosse uma regra para andar com os tais lutadores, seu corpo era bem definido e com várias tatuagens espalhadas no braço, no fundo ele tinha uma cara de mau.
— Quer alguma coisa Brian? — Nathan o idiota chega por trás de mim provocando o outro idiota.
— Uma coca cola por favor! — ele diz e sinto seu corpo aproximar de meu pescoço — Tenho que dirigir sabe? — ele diz bem próximo ao meu ouvido.
— E você Julieta? Quer alguma coisa? — Nathan pergunta.
— Não obrigada. Já me servi.
— Não fica tão feia quando é gentil. — Brian fala novamente em meu ouvido.
— O que você disse? — Nathan fala alterado por conta da bebida e sem pensar em nada jogo o ponche no rosto de Brian.
— Feia é a sua mãe! — digo e Nathan dá uma risada alta. Em menos de um segundo Brian arremessa Nathan para o outro lado da sala. Olho para os lados e nada de Lorenzo, provavelmente foi terminar o que estava fazendo com a garota. — Você ficou maluco? — olho para Brian enquanto ele tira a jaqueta e joga na mão de um de seus amigos. Seus braços fortes e definidos saindo de uma regata branca me pegam e me jogam por cima de seu ombro me fazendo ficar de cabeça para baixo. Esperneio, bato em suas costas, até mesmo mordo, mas ele não me põe no chão e sai em direção a piscina.
— Shhhhhh.
— Me põe no chão seu idiota! — grito em meio a tapas e murros em vão. — Não, não, não por favor! — grito quando vejo que ele vai mesmo me jogar na piscina. — Me desculpa não devia ter te jogado ponche.
— O mal já está feito Julieta, e pro seu azar, eu não sou um Romeu. — ele diz e em seguida pula na piscina comigo em seus braços.
Sinto a água gelada em meu corpo e o gosto do sabão em minha boca. Ele ri descaradamente quando voltamos a superfície.
— Você é maluco! — grito — Eu estou usando um Valentino! — ele só consegue rir. — A água está gelada!!!
— É bom para a circulação, manda mais sangue para o seu cérebro, pra ver se você entende que ponche se bebe e não se joga na cabeça de um lutador. — ele diz enquanto saio da piscina com o vestido transparente e grudado no corpo por conta da água. — Ah, e diga a esse Valentino que o vestido fica bem melhor quando está molhado.
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