Desaparecendo
14 Escondido sobre nuvens densas, lá está o sol... Assim espero
Notas iniciais
— Eu não sei se deveria continuar com isso.
Mais algum tempo passando em seu quarto decidindo o que iria fazer, pediu para se encontrar com Langston, mesmo local de antes. Ao chegar em seu escritório, viu que a doutora Zhang também estava por lá. Sara não fez cerimônia; na verdade, achou boa a presença da cientista por ali também.
— É direito seu estar com raiva.
— Raiva? — Ela arqueou as sobrancelhas. — Eu não posso dizer se o que eu sinto é raiva — completou sem economizar o tom áspero em sua voz. — Eu acho que já passou disso.
Era muito mais que isso. Era nojo, indignação, revolta. A frustração por saber que milhares de pessoas que não tinham nada a ver com a história — assim como ela — foram envolvidas num jogo de roleta russa e corriam o risco de estarem na mesma situação que a dela. Não importava quantos pedidos de desculpas recebesse, aquilo não iria passar tão cedo.
— Sei nada do que fizermos aqui vai poder reparar os danos que você sofreu. Mas eu peço que permaneça aqui e deposite um voto de confiança em nós.
Sara moveu a cabeça em negativa e mudou o foco de seu olhar. Não havia outro lugar que pudesse oferecer o mesmo tipo de ajuda, então se encontrava de mãos atadas. Era aceitar a própria permanência ali ou morrer.
— Que outra escolha eu tenho? — Ela os questionou retoricamente. — Se eu for embora vou morrer, não é? Porque eles não vão me ajudar.
Nenhum deles se manifestou. Acharam melhor respeitar seu momento em vez de serem passíveis de adicionar mais lenha. Restou apenas a Sara dar a palavra final: sua decisão.
— Antes de continuar — ressaltou falando entredentes. Ela respirou fundo e deixou sua raiva de lado. — Eu tenho uma condição.
— E o que seria? — Langston perguntou curioso. Em sua conversa inicial com Sara, sequer tinha ouvido sobre alguma condição para aceitar sua ajuda.
— Que um amigo meu venha e fique aqui também.
Foi uma pergunta corajosa, para falar a verdade. Mesmo se valendo de uma posição aparentemente desvantajosa, bateu o pé ao afirmar que não seguiria com eles se não permitisse a presença de Grissom. Poderia se meter em problemas depois, mas não custava tentar, afinal, de uma forma ou de outra ele já estava a caminho mesmo.
Os dois cientistas trocaram olhares duvidosos, óbvios para Sara, que já imaginava encontrar alguma resistência por parte deles. Restava saber o que iria encarar pela frente.
— Eu receio que isto não seja possível — respondeu com um semblante sério. — Nem consigo enumerar os riscos de que a vinda de alguém de fora pode acarretar.
— Sei disso. Mas ele é alguém de confiança. Ele sabe o que tá havendo comigo e sabe manter a boca fechada.
— Achei que não tinha compartilhado sua história com ninguém — comentou surpreso.
— É por isso que eu estou dizendo: ele é alguém em quem confio.
Langston visou a doutora Zhang novamente, que parecia preocupada. Imaginou até que seria uma boa ideia deixar a sala e deixar a decisão entre os dois. Todavia, manteve sua posição e ficou por ali caso precisassem de uma mediadora.
— Nós sentimos muito, mas é arriscado demais permitir a vinda dele. Isto é para o bem dos dois.
— Olha. Eu nem sei se eu vou sair daqui com vida. — Ela ergueu os braços inconformada. — Não é possível que eu não possa ter alguém que eu conheça por perto? Nem pra me despedir? — Encarando-os de sobrancelha erguida, tentou perceber alguma mudança em suas expressões faciais. — Como querem que eu fique tranquila se não há nada, nem ninguém aqui para me confortar?
Inconcebível pensar algo parecido dias atrás; ou melhor, horas atrás. Porém era impossível parar aquela força independente, aquele impulso rebelde que Grissom emanava, vencendo ainda por cima seu desejo de ficar sozinha.
— Eu não posso continuar com isso — declarou de repente. — Não dá.
— Está me dizendo que está disposta a largar tudo isto por causa de um pedido como este, senhorita Sidle?
— Ele é a única pessoa que eu tenho — As últimas palavras tiveram um peso significativo. Ela mesma foi tocada pelo que disse. Talvez nem teria coragem suficiente de dizer aquilo perto de Grissom.
Franzindo as sobrancelhas ao administrar a ousada (e talvez insana) resposta, Langston, a princípio, pensou em rebatê-la ou até mesmo persuadi-la para fazer Sara abandonar aquela ideia. Pelas últimas conversas que teve com ela, imaginava-a disposta a aceitar quaisquer condições para continuar com o tratamento.
— Pelo anel em sua mão imagino que você pensaria a mesma coisa que eu. — Ela apontou discretamente para a aliança na mão esquerda do cientista.
Sara não soube dizer se o silêncio e a visão de Langston tocando a pequena joia como que por instinto indicasse uma resposta positiva para o seu pedido. Mas de uma coisa ela percebeu de cara: alcançou o cientista num ponto sensível e soube muito bem como fazê-lo.
— Dê-nos meia-hora. Vou falar com o restante da minha equipe.
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O começo, o tal começo, foi estressante; não pelo tempo, mas pelo desconhecido. Dispostos numa sala de mais ou menos dez metros de largura por quinze de comprimento que fora adaptada às pressas para atenderem Sara, vários cabos de espessuras diferentes ligavam um complexo de lasers apontados para o objeto de estudo. O interior do cômodo era tomado pelo cinza carvão, um ambiente completamente fechado e isolado.
A princípio a ideia de ficar de frente a um projeto de raio-x não lhe agradava muito.
— Vamos começar por aqui — disse o doutor ao mostrar cada componente daquela sala.
— Tá. Me explique bem o que vamos fazer.
Raymond garantiu que o procedimento era seguro. Explicando-a de um jeito simples, contou que seu corpo seria "escaneado" pelos vários feixes invisíveis de lasers dos quais indicariam o estado de cada uma das partículas presentes em seu corpo. O processo, que tinha chance de levar bastante tempo até ser concluído como certificou o cientista, diria a eles a real situação da qual ela estava passando.
— Devo me preocupar com isso?
— Não. Sem isto aqui não poderemos continuar. A partir dos dados que vamos coletar é que vamos basear nossos próximos passos. Em outras palavras, iremos registrar toda a informação quântica contida em você e para mandá-la ao nosso sistema.
— Era isso o que vocês faziam com aquelas experiências? — perguntou logo após se afastarem dela.
— Mais ou menos. Trazíamos os objetos de pesquisa até aqui para serem escaneados antes de depois da experiência. Tivemos que nos adaptar após conhecermos a sua história.
Novamente ela visou de canto a canto aquela sala tentando buscar algum alento ou alguma imagem que lhe causasse paz. Algo nela a incomodava; talvez tenha sido a resposta de Langston que a fez observar o espaço com um outro olhar.
— Este procedimento é seguro, senhorita Sidle. Não precisa se preocupar.
Era isto ou encarar um destino incerto que provavelmente a levaria à morte. Mas depois de tudo que ouviu e leu sobre a concepção daquele projeto um incômodo em seu peito a deixava com o pé atrás. Sozinha do outro lado do mundo, não havia ninguém a quem recorrer para ouvir uma opinião. Era ela e ela mesma. Ao menos por enquanto.
Se estava ali foi porque toda a equipe de Langston entrou em um consenso e eles permitiram a vinda de Grissom até o Complexo. Era uma vitória. Bastava continuar com os procedimentos e aguardar por sua vinda. A vinda do único homem que lhe arrancava calafrios e causava-lhe borboletas no estômago. O homem que estava largando tudo para viajar a meio-mundo no intuito de fazer-lhe companhia.
Pensando bem, talvez tivesse se precipitado um pouco ao se deixar convencer por Grissom. Em outros tempos nunca o veria tão obstinado a conseguir o que queria quanto agora. Mas agora já era tarde.
Sem outra escolha teve de acatar às orientações deles. Deram-lhe um macacão confeccionado com um material apropriado para que pudesse continuar com o "exame". Com os cabelos presos num coque, teve de usar ainda uns óculos de proteção que a impediam de enxergar quaisquer coisas no intuito lhe proteger dos efeitos nocivos que os lasers causariam em seus olhos.
— Tente não se mover muito enquanto realizamos este procedimento — orientou a doutora Zhang, pedindo que ficasse no local marcado por uma pequena faixa vermelha. Foi ela a pessoa a lhe acompanhar e a ajudar com os preparativos.
— Ok... E falar, eu posso?
— Não recomendamos fazer isso. A não ser que seja necessário, caso você sinta algum incômodo, por exemplo — explicou. — Não deixe de nos avisar.
— Tá.
Ao se colocar por detrás do painel junto de Langston, prontos a ligarem aquela máquina, Sara respirou fundo e moveu os ombros de leve para relaxar os músculos. Seria um processo demorado, já avisado antes. Um processo demorado, realizado numa sala fria e quase totalmente quieta. Ao visar aquele aparato de fios e circuitos que se assemelhavam a maquete de uma cidade futurística, Sara teve pensamentos destoados. A maioria deles não se arriscaria a dizer em voz alta em outra oportunidade.
Teoria da conspiração.
Forçou-se para não curvar os lábios num sorriso zombeteiro. O que mais poderia fazer se essa gente já soubesse de tudo? Era refém deles e daquela tecnologia. Talvez poderia se encontrar numa situação melhor caso pedisse ajuda em seu próprio país. O mesmo país que foi conivente ao permitir uma experiência daquelas.
Ou talvez poderia estar a sete palmos debaixo da terra. Silenciada.
Aqueles pensamentos começaram a se tornar nocivos. Ansiedade batendo às portas. A última coisa que precisava no momento era estragar tudo. Um voto de confiança fazia falta naquela hora, porém era necessário acreditar que aquela gente possuía a solução para seu problema.
Antes de fazer uso daqueles óculos ela respirou fundo. Preparava o corpo para o que viria a seguir.
Eu tô ferrada.
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— Me diz. Por que Hong Kong?
Foram quase duas horas de uma análise cansativa e entediante. Foi extremamente incômodo passar aquele tempo todo em pé, em quase total silêncio e sem poder enxergar o que estava acontecendo. Não sentiu nada. Foi como se nada tivesse acontecido e ela estivesse sendo enganada. As teorias loucas e desgastantes não iriam abandonar sua mente tão cedo.
Após o procedimento não foi seu desejo retornar para o quarto. Quis saber mais no que estava se envolvendo e que tipo de pessoas eram eles.
— Você não se... exilou por livre e espontânea vontade e veio parar aqui por acaso — indagou ela ao se virar para o cientista. Sentada ao lado dele, sentia-se completamente exausta pelo tempo de penitência ao ficar em pé naquela sala. Ou câmara de tortura como apelidou internamente.
No momento se encontrava numa espécie de sala de controle junto de Langston, lugar aonde os dados coletados anteriormente seriam processados. O restante da equipe havia se retirado há pouco. Uma dezena de supercomputadores posicionados no meio da sala causavam-lhe uma sensação de impotência; eram tão silenciosos que, somados ao ambiente gelado davam-na a impressão de estar num filme de suspense.
Virando-se para ela com um semblante surpreso, Langston percebeu logo quais eram suas intenções. Não a culparia por isso; em seu lugar duvidaria até da própria sombra.
— Não me... sentia mais à vontade morando no meu país depois de toda aquela história.
— Estavam te ameaçando? — A resposta esquiva chamou a atenção de Sara.
— Eu não diria 'ameaçar' — retorquiu ele num tom aparentemente amenizador. — Não podia provar isso. Mesmo depois de receber uma visita me recomendando se afastar da... região.
Ela começava a entender os pormenores.
— E por que este lugar?
— Recebi uma oportunidade para continuar meus estudos aqui por um empresário honconguês. A ideia era desenvolver tecnologias, com incentivo do governo, que pusessem o país em destaque no cenário mundial — explicou ao se virar de frente para ela. — Eu não fui o único. — Deu de ombros. — Depois que Hong Kong se tornou independente, o governo tentou criar um chamariz para cientistas e pesquisadores prometendo recurso e estabilidade.
— Querem mostrar que são bem grandinhos para baterem de frente com outras potências — presumiu ela sem citar nomes, imaginando que ele já os tivesse em mente.
— Querem mostrar estabilidade, progresso...
— E isto deu certo com você? Esta ideia do convite.
— Já estou há dez anos aqui.
— Um homem de sorte, pelo visto. — Sara comentou por comentar.
— Para quem pensava ter a carreira acabada, parece que fui contemplado por esta oportunidade.
Ao visar seu rosto, Langston notou que ela se encontrava um pouco distante. Seus olhos estavam direcionados à tela na sua frente, mas não parecia focar no conteúdo expresso ali.
— Se eu soubesse há dez, vinte anos atrás que meu envolvimento desencadearia isto, eu largaria o projeto. — declarou ele ao continuar a trabalhar naqueles dados.
— É o que todo mundo diz, não é? — Sara replicou com um sorriso irônico. — Todo mundo queria voltar no tempo e mudar alguma coisa...
— De vez em quando eu me pego pensando se não fui ingênuo demais. — Ele riu. — Todo o conceito do transporte de matéria de um lugar para outro... As pessoas olham para você e riem da sua cara. Sempre imaginam um cenário de filme de ficção ou coisa parecida. Essa coisa de... mudar o mundo.
— E não era o que vocês queriam?
— A que preço? — Quando disse aquilo, Langston a encarou diretamente nos olhos. — Olhe só para você. Deus... Muita gente deve ter morrido naquela base, e centenas, talvez milhares de pessoas correm o risco de estarem na mesma situação a sua.
Ainda bem que você sabe.
— Por que vocês não levam tudo o que conseguiram para alguma autoridade? ONU, sei lá. Droga, tem tanta coisa que você me mostrou naquele documento...
— E tem mais — ressaltou ele.
— Vão deixar que aquilo vire um outro Chernobyl? — Sara o questionou, sentindo aquela raiva de outrora retornar. — E quando eles derem por si já vai ser tarde?
— Não é sobre "deixar ou não", senhorita Sidle. Trazer tudo isso a público neste momento faria com que todos nós, inclusive o governo honconguês, fôssemos acusados de espionagem. Iria envolver um país que mal começou a andar com as próprias pernas numa situação extremamente delicada.
Ela era "grandinha" o suficiente para entender sobre relações internacionais e que um atrito, por menor que fosse, poderia desencadear uma série de problemas. Mas nada, nem se ouvisse horas e horas de explicações sobre isto tirariam seu desconforto, sua indignação de que nada poderia ser feito. Os culpados — se não estivessem mortos —, ficariam impunes.
Que ótimo, pensou ironicamente. Se já não bastasse todo seu martírio, se via então entre a impunidade de um crime ou um conflito internacional.
— Envolver-se com o país que mais lhe deu apoio na Assembleia da ONU em defesa de sua independência não seria uma boa ideia, até para um leigo — explicou. — Sei que você não vai me perdoar, mas novamente eu peço um voto de confiança. — Langston deixou todo o orgulho de lado e falou-lhe com sinceridade. Nem se daria ao luxo de pedir desculpas.
— E se isso for... contagioso? Ou radioativo? Não podem ficar parados sem fazer nada.
— Não acredito na segunda opção. Se você fosse um risco para todos nós o Complexo já teria sido alertado pelo sistema interno.
Ela arqueou as sobrancelhas por alguns instantes.
— Vocês pensam em tudo, não é? — falou de modo sarcástico. — Que maravilha.
— Nós temos de estar preparados para tudo. — Langston respondeu por conta própria. Vendo que ela não esboçou reação, mudou de assunto. — Não quero que saia daqui sem estar curada.
— Conseguem mesmo resolver isso? — Ela ergueu a mão direita.
— Como eu disse antes: A prioridade deste lugar todo é ajudar você.
Confiança, confiança. Tinha de crer que aquela viagem lhe traria boas notícias, que de alguma forma aquilo pudesse ser revertido. Há pouco provara a si mesma que não estava louca e que haviam pessoas com total conhecimento do assunto. Já era um passo enorme para fora do lamaçal em que havia se metido.
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Dia seguinte. Faltavam menos de cinco horas para o avião que Grissom pegara aterrissar em Hong Kong; para a infelicidade de Sara, claro.
Quanto mais a hora se aproximava, mais ela se sentia mal. Um sentimento de arrependimento foi cultivado e não sabia como ou o porquê. De repente, odiou-se a si mesma e ao seu coração mole que cedeu com tanta facilidade ao pedido do supervisor. Era uma péssima ideia deixá-lo se deslocar do outro lado do mundo até onde ela estava por mera preocupação de um chefe — talvez melhor amigo — e arranjar problemas futuramente. Já conseguia até enxergar o cenário em que ele seria demitido.
— Não tem medo de... tentarem ir atrás de você alegando que está usando a pesquisa deles? — perguntou Sara ao cientista. — Hong Kong e os Estados Unidos são parceiros agora. Não acho que seria difícil uma extradição até lá.
A pergunta desconfortável atraiu os olhares daqueles cientistas sobre Sara. Olhares diferentes dos anteriores. Eram surpresos, curiosos, um tanto incômodo.
Fim de tarde, ela e o restante da equipe de Langston se encontravam numa sala de conferência. Era simples se comparado a tudo que já viu anteriormente naquele Complexo: uma larga mesa no centro disposta de cadeiras acolchoadas. Enquanto terminavam um café eles explicavam a Sara os detalhes que se seguiriam adiante, como por exemplo o fato de que os dados só seriam processados ao final de alguns dias. Nem mesmo os supercomputadores conseguiriam finalizar o trabalho mais rápido que o estimado. Mais um motivo para aplacar ainda mais sua angústia.
— Não podem me acusar por algo que nunca existiu antes — respondeu convicto. — Não arriscariam a própria reputação com meras acusações.
Cada vez mais ela começava a acreditar que a mudança de país soava mais como um asilo político que oportunidade em si.
— Está bem convicto de suas garantias — comentou impressionada.
— Eu tenho de estar. Se eu viver sob o medo como sombra eu não vou a lugar nenhum.
Terminada a sua xícara de café, Sara — que não se sentia tão à vontade sentada naquela cadeira — veio a se levantar e caminhar até seu ponto de refúgio que não fosse a porta: a janela que ocupava quase metade da parede aos fundos. A paisagem era de tirar o fôlego. O céu era tomado por nuvens em contornos sinuosos cor de rosa, enquanto que no centro do pôr-do-sol, o laranja e o dourado prevaleciam sobre todas as outras cores, finalizando-o com mais um espetáculo diário. Logo, nuvens densas tomariam os céus trazendo uma chuva típica da estação. Foi confortante para os olhos e mente admirar o crepúsculo do dia; focava-se tanto em grandes coisas, que se esqueceu de parar e prestar atenção em pequenos detalhes.
Foi com este pensamento que deu meia-volta rumo em direção à mesa. Hora de tratar todo aquele assunto com calma.
Mas então Sara parou de caminhar.
Uma forte dor acometeu a nuca. Ela tocou na região por instinto, porém sua visão escureceu de repente. Tão rápido quanto a perda da visão, seus sentidos também foram atacados. Mal teve tempo de fazer qualquer coisa, pois perdeu o equilíbrio em sua perna e caiu no chão pendendo para o lado direito.
— Sara...? — ouviu a voz distante chamando por ela. — SARA!
Não havia mais nada.
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— Você é louco, Gilbert Grissom. Não percebe isto? — murmurou para si mesmo.
Grissom acabara de cometer uma das maiores loucuras — senão a maior — de sua vida ao largar tudo e se deslocar para o outro lado do mundo. Tudo por causa de uma única pessoa. Uma única pessoa. Em seus dias de "lucidez", pensaria duas, três vezes antes de tomar uma decisão parecida. Ou melhor, sequer pensaria duas vezes; simplesmente não a tomaria.
— Percebe o que fez?
Tarde demais para dar conta de suas ações. Movido por puro desejo emocional, pôs em risco tudo o que cultivou por ela. Não que ele acreditasse totalmente no que ouviu, mas o fato de saber que Sara estava morrendo abalou completamente suas estruturas.
Ele acordara do sono umas quatro horas antes de aterrissar em Chek Lap Kok. Zonzo e com uma considerável dor no pescoço, visou o lado direito até a janela. Seu companheiro de viagem, um rapaz de vinte e poucos anos continuava a dormir enquanto seu corpo pendia para a janela.
Pegando o celular para saber das horas e focar em outra coisa a não ser o ciúme por não ter conseguido um lugar à janela, Grissom esperou ter recebido alguma novidade. Alguma boa notícia ou qualquer coisa de Sara. Não pôde esconder a decepção que sentiu ao não receber ligação ou mensagem sequer dela antes de seguir viagem. Nem um email ou tentativa de videoconferência, inclusive. Ele não insistiu ou fez tentativa alguma de entrar em contato por respeito a ela, mas vontade não lhe faltou. Limitou-se apenas a informar o plano de voo, acreditando piamente que ela estaria lá esperando por sua chegada.
Talvez ele tivesse mesmo um coração de carne em vez de lata. Um coração que ainda por cima sangrava por alguém. Não era qualquer pessoa que o fazia mentir no trabalho, arriscar seu emprego e toda uma carreira apenas para ele se certificar se estava bem. Ao mesmo tempo que achava uma loucura o que estava fazendo, não pensaria em seguir por outro caminho caso voltasse no tempo. Ele o faria de novo.
Grissom teve o desejo de voltar a dormir, torcendo que acordasse somente na hora da aterrissagem, porém sabia que o sono era seu pior inimigo e por isso teve que se distrair usando outros meios. Tudo para afastar sua mente alguns por cento de uma única mulher. Isto, e todas as suas preocupações sobre como ela estava no momento. Rezava para que estivesse bem e sã enquanto culpava a si mesmo por não ter se saído melhor em seus próprios argumentos.
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