Desalmados
2 Xadrez e rancores — capítulo 2
Notas iniciais
Seis anos atrás...
A lama tomara conta da Estrada de Sal com o outono. Se não marchassem rápido o suficiente, precisariam voltar para Rovaniemi debaixo de neve, arriscando não só um motim como a captura da cidade pela general Vento Vermelho. Leon agarrou as rédeas da mula com tanta força que seus dedos rangeram como uma porta velha. Era Rei. Ou pelo menos, a maioria das pessoas naquele séquito meia boca dizia que era.
— Sorria — murmurou Jesperi ao seu lado, uma mão sempre na espada. — Você está indo se casar, não morrer. Todo mundo tem certeza de que sua noiva é brilhante.
Leon revirou os olhos. — E mesmo se ela for louca, que diferença faz?
— A sua cara com certeza não vai deixar ninguém mais são, Vossa Majestade.
Jesperi deu uma risadinha. Leon precisava de guardas melhores que não o conhecessem desde que era um menino bastardo sem qualquer ambição. Agora que era um rei bastardo fingindo ter objetivos, a sua imagem era essencial. Mas as fileiras de soldados recém-saídos da Academia e cheirando a canções de batalha e disciplinada forjada eram todas de rostos desconhecidos. Ele se casaria com Klara Vestergaard em uma semana e meia e ficaria rodeado por ainda mais estranhos, nobres e família agregados por sua noiva aparentemente brilhante e, acima de tudo, amada por seu território enorme.
Väster prenderia outra corrente de ouro Vestergaard nos pulsos, mas o trono seria seu. O que faria com ele, só o Olhos Vendados sabia, e Leon não rezava há anos.
— Continua dando um gelo na Nora? — Jesperi perguntou despretensiosamente.
— Ela não... — engoliu a explicação apressada e desastrada que quase escapuliu de sua cabeça. Era Rei ou estava tentando se tornar um. Monarcas não davam explicações daquele jeito. — Enquanto não houver um pedido de desculpas, sim, eu continuo.
— Leon, sério. Você está quase travando uma guerra pela coroa, e ela faz a ponte entre a resistência Maj e, deixa eu ver, a sua cara de pau. Você quer governar.
O vento soprava frio e afiado naquela manhã pálida. Seus soldados não cantavam, e o silêncio solene reinava imperioso além da cacofonia habitual de um exército em marcha. Leon contou o barulho dos cascos de sua mula contra a pedra da estrada. Contou os da de Jesperi, também. Contou até que a fúria congelasse e se tornasse algo que podia ignorar e usar em outro momento. Era o único conselho de Nora que ainda fazia sentido.
Ou Leon se tornava Rei, ou ele morria.
Em Kiruna, a Vento Vermelho enforcou Nicklas o Dançarino e Victoria de Väster. Do outro lado do reino, a infame Kristina Qvist tinha desaparecido — provavelmente descobrindo os deleites de uma prisão nas mãos do Marquês de Pedersen. Restavam dois dos primos de Elias com sangue real suficiente para a Dinastia Dourada. Um clérigo eremita que se metera nas cidadezinhas rurais do sul depois de recusar o sobrenome e os títulos, e Hannah a Sutil, autoproclamada Rainha da Ponta do Dragão Marinho. Nora o tinha entregado traidores e assassinos demais para acreditar que estava em segurança.
Se ele queria governar? Bem menos do que queria morrer, mas quando as duas coisas se misturavam... o que poderia fazer se não aceitar a coroa?
E com ela, o diabo do casamento.
— Você não deveria falar dessa forma com seu Rei, Jesperi. — disse suavemente, num tom quase dócil. — E não deveria opinar sobre assuntos os quais não entende. Isso vai diminuir e muito o risco de acabar com a cabeça em um cesto, eu garanto.
Jesperi não lhe respondeu. E não deveria.
Seu capitão de guarda deixou que Leon cavalgasse a frente. Relaxou a postura, deixou que a raiva escorresse de sua expressão, respirou fundo o ar gélido. Lembrava-se de Elias sempre com um leve sorriso rosto — sempre educado, nunca assustado. Um Rei não deveria ser uma estátua de mármore e bronze, tão duro quanto os invernos de Väster. E, no entanto, estava igualmente proibido de se derreter em emoções histéricas.
Batucou os dedos no dorso de sua leal mula, afagando o pelo cinzento. Queria voltar para Rovaniemi. Na cidade, Leon tinha alguns momentos para si. Quando não queria encontrar o nobre bajulador da semana que lhe trairia antes da lua mudar, podia afundar a cara nas informações que seus espiões traziam ou nos acordos propostos. E lá, não precisava ficar passando frio: havia sempre combustível para acender a lareira.
Um banho quente também não cairia mal...
O barulho de cascos se aproximando o alertou. Seria Jesperi de novo? Preparou-se para ralhar com ele — não queria lidar com mais comentários invasivos, obrigado.
Não era Jesperi.
Os cabelos escuros e longos estavam trançados como sempre, o rosto continuava magro e inexpressivo, e os olhos dançavam com precisão pela multidão que os cercavam. Usava o mesmo casaco surrado que Leon lhe dera há uns seis anos. Ele não sabia se aquilo era um apelo sentimental ou mera praticidade no frio. Nora gostava tanto de manipular e jogar para ganhar que nem fazia diferença. Trinou os dentes, voltando seu olhar para frente. Não a daria a satisfação de quebrar o silêncio sepulcral. Podia ser paciente.
— Tenho dois presentes de casamento para você, Vossa Majestade. — Nora só usava seu título. Se era reverência, satisfação, mágoa ou triunfo, não importava.
— Você superestima meu interesse.
— Eles não são exatamente opcionais. — Ela sorriu. Na sua cabeça, ainda eram bons amigos brincando e bebendo nos corredores do palácio? — Seus conselheiros ficarão ofendidos se recusar uma proposta de aliança formal com a resistência Maj.
— Uma aliança formal. — repetiu incrédulo.
Tinham certos laços, uma cooperação mútua e bastante desconfortável, mas todas as ofertas que Leon e sua corte enviaram retornaram com meros bilhetes. Os Majska recusavam todas as propostas com incrível educação, mas ainda eram recusas. Sete séculos de injustiça, escreviam. Leon bufou, esperando que Nora continuasse. Maj dera seu último suspiro patético há setecentos anos, e eles continuavam com aquilo.
— O Conselho de Sal está oferecendo um acordo. Em troca, podem lhe dar não só pessoal como comida e informação, duas coisas que estão em falta.
— E o preço? — sibilou.
— Sob as pétalas da rosa, encontraremos a casa limpa de sangue. — Ela deu de ombros, equilibrada na mula marrom e descarnada. — Você sabe o preço.
Não fazia sentido continuar naquele assunto. — E o outro presente?
Nora abafou uma risada. — Esse é surpresa, mas você vai adorar.
— Assim como adoro ser Rei?
— Então, entregue a coroa para qualquer um que achar melhor. Eu vou garantir que saia ileso. — Ela o olhou nos olhos, de repente tão séria quanto pedra talhada e duas vezes mais fria que gelo. — Ou só é covarde demais para admitir que a quer?
— Quando eu encontrar alguém que lide com espiões tão bem quanto você, vou te jogar na porra da cela mais escura e mais fétida que puder imaginar para morrer lá.
— Isso envolveria escolher seus conselheiros, algo que não anda fazendo.
— O que é o segundo presente? — perguntou entredentes.
— Talvez tenha algo a ver com a cabeça de Kristina Qvist. O Marquês de Pedersen e todo o leste vão se juntar a você, Vossa Majestade. — Nora bateu de leve nos flancos da mula com os calcanhares. — Pode me agradecer com uma cela melhor, suponho.
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