Desafios do Destino II - Prelúdios e Premonições
5 A Foice Cega
Eu me sentia dentro de um vórtex. As águas me moviam drasticamente e isso me causava um enjoo, uma tontura enorme. Com as mãos ainda presas às do anjo, que me levava para o fundo daquela pequena poça de chuva, eu tentava imaginar qual seria a próxima visão. A anterior ocorreu enquanto eu estava no Bosque dos Sussurros. Bons tempos aqueles, em que eu nem imaginava o que me estava esperando.
Uma forte luz surgiu da superfície das águas. Com a força dos pulsos do anjo, fui jogado para fora e caí sobre as areias fofas de um pequeno deserto. Mais em frente, o terreno mudava drasticamente e pequenas folhas de grama surgiam do solo macio, que se metamorfoseava em uma terra bem vermelha e fértil.
—Acho que estamos no lugar certo.
—E onde é aqui?
—Como você está reparando, o terreno muda a todo o momento. Nesse exato instante, ocorre uma desertificação de tudo.
—E o que isso quer mostrar?
—Você irá descobrir daqui a pouco. – E apontou para uma enorme construção.
Era um castelo abandonado. Enormes correntes iam de um lado a outro, dificultando a nossa passagem. Sem eu reparar, ele havia guardado as asas. Eu não teria pensado nisso... Bom, eu acho que teria que fazer isso, visto que são enormes e ficariam presas nas argolas das correntes. Ganchos pendurados eram o nosso maior obstáculo. Suas pontas afiadas quase arrancaram minha cabeça algumas várias vezes.
O solo macio transformou-se em um duro e seco, todo coberto por concreto e pedregulhos. A luminosidade ia desaparecendo vagarosamente, dando lugar a uma pitada de trevas com um arranjo de frio e medo.
—O que viemos fazer aqui?
—Esqueceu o que eu disse? Viemos ver o passado dos Mestres.
—Eu achei que veríamos o passado de cada um deles.
—Ficaríamos anos se eu contasse o passado de cada um deles. São muito antigos, cada um deles viveu em uma época da história humana antes de serem integrados à Tríade.
—Eles fazem parte dela?
—Como servos. A principal função deles é assegurar o equilíbrio do mundo.
—Bom, graças ao Destino, eles não conseguiram.
—Não foi apenas por causa dele que tudo isso está ocorrendo. A ganancia não é fruto dele, dos pensamentos dele, ou das ações dele. – Ele fez aquela pequena pausa dramática que eu detesto com todas as minhas forças. – A culpa é dos humanos, da sua espécie. Sem eles, não haveria nenhuma das destruições ou sentimentos que estamos sentindo.
—Se vocês são tão poderosos, como conseguimos influenciá-los?
—Acho que você não percebeu nada sobre Platina. – Depois de passarmos uma enorme estrada, ele se virou para mim e terminou. – Platina, reluzente e brilhante, é o núcleo das demais Cidades. Tudo lá é brilhante, tudo reflete, tudo o que vocês fazem ela sentirá, pois Ela reflete.
—Por isso ela tem esse nome?
—Cidade de Espelhos não ficaria legal, mas a mensagem seria mais nítida. – Uma explosão chamou a nossa atenção. Uma onda de fumaça cobriu nossa visão e nada mais vimos. No pico de uma enorme torre, faíscas brotavam e um imenso rio de lava escorria pelas paredes. – Isso é péssimo!
Abrindo as enormes asas, o anjo segurou a minha mão e impulsionou pelo ar. A velocidade do vento nos jogava para longe da construção e para o alto.
—Se continuarmos nesse caminho, ficaremos fora da redoma.
Que redoma era essa? Mais ao longe, eu vi um certo reflexo. Acho que aquilo era a redoma, uma enorme cúpula de vidro. As asas bateram fortemente e nos jogou para perto do princípio da fumaça. Assim que aproximamos, uma força estranha apertou meu coração e eu comecei a ficar sufocado. Quando estava próximo de uma pequena janela, eu vi uma foice pendurada na beirada e um corpo caindo rio abaixo.
—Não pode ser!
O anjo estava desesperado e quase não me segurava com tanta força. Eu estava com medo de cair. Acredito que não morreria, visto que eram tantas as chances que eu tinha, mas a profecia me protegeria. Talvez ficasse com uma dor no corpo, apenas.
—O que está acontecendo?
—Alguém a jogou para fora da janela.
—Então vamos ver quem é.
—Não podemos interferir em nada. Se fizermos isso...
—Haverá um lapso temporal e blábláblá... Esse papo ocorre em muitos filmes.
—Não sei de nada disso. – Novamente, a torre explodiu e nos jogou para mais longe ainda. Sem querer, o anjo soltou a minha mão e eu fui parar perto da cachoeira de lava. Por pouco, não caí sobre ela, mas fui escorregando até atingir o chão.
Caí de costas, o que deixou minhas pernas sem movimento algum, mas por tempo limitado. Eu me levantei assim que ouvi uma voz perto de mim. Era uma espécie de gemido em um murmúrio. Sem força alguma, a pessoa tentava se levantar. Era uma mulher, cuja pele descolava de seu corpo. Seus ossos saltavam para fora e andava torta em minha direção.
Quanto mais ela se aproximava, menos movimento eu tinha, contudo, ela parou assim que escutou um impacto atrás dela. Era outro homem, com cabelos negros e uma foice nas mãos. Eu não via o seu corpo, pois uma enorme túnica negra cobria tudo.
—Pare de correr. Não tem mais nenhum lugar para você correr.
—Destino, você não irá me derrubar.
A mulher esticou a mão e soltou um cântico estranho. Do chão, uma ossada surgiu e um enorme lobo se formou.
—Que bonitinho. Não se esqueça que sua foice está comigo. – Ele levantou a foice e a apontou para a criatura, que recuou um pouco. – Ele sabe reconhecer quem manda aqui. – Depois de a girar no ar, cortou o vento e a ossada se desfez em pó e chamas.
—Não!
—Ainda acredita que sua força é maior que a minha?
Ele fez o mesmo movimento que fez para matar o lobo; então, eu me coloquei diante da mulher. Escutei um grito ao longe e o ar rodopiava diante de mim. Era o anjo. Seu aspecto estava fechado e furioso. Ele estendeu a mão e me tirou dali.
—Por que fez isso?
—Estou em uma lembrança. Nada mudará.
—Você não entende! Essa é a lembrança dele! Se ele viu o seu rosto, jamais o escolherá! As profecias caírão sobre outra pessoa! – ele estava muito irritado. Eu sentia uma forte vibração vinda da sua visão e aquilo me amedrontava. – Vamos embora daqui! Você já causou problemas demais!
Entretanto, no momento em que levantamos voo, uma corrente se soltou e caiu sobre a asa dele, ficando totalmente presa.
—Acho que não deixarei! – Era o Destino. Em suas mãos, uma cabeça sangrava. – Muito bem, meu Anjo, trouxe exatamente quem eu pedi.
—Corra! – Mas eu não conseguia me mexer. Tinha algo familiar naquela pessoa, em seu jeito de andar, de falar, de ser. Ao invés de me virar e correr, eu segui em frente. Pulei sobre ele e arranquei a foice. Ela estava cega, sem corte nenhum. Aquilo representava a morte da Morte. E como isso era possível? Como o próprio fim poderia terminar? – Não! Largue isso e fuja daqui! – Não dei ouvidos ao anjo. Somente me virei para o homem e fiz os mesmos movimentos que ele.
—Eu ouviria o seu anjo. Você não conseguirá me derrotar.
—Não! Ainda não é a hora! – Porém, a foice cortou o ar e estourou a cabeça. Gritos esganiçados percorreram o lugar todo. Nisso, eu olhei para o anjo e o vi desaparecendo em meio a uma nuvem de pétalas rosadas.
—Que nem aqueles que me ajudaram. Como?
—Você precisa pensar sobre os seus atos, mas não é o momento exato. – Ele jogou uma pedra para mim e ela manchou as minhas mãos e minha roupa. Era um pedaço de carvão.
Essa seria a minha próxima parada, mas como eu chegarei lá?
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