Desafios
6 Quero
Abraçaram-se com força, prendendo-se nessa prisão sufocante. Ela perdia-se sempre nos braços dele, desligando-se e escorregando mole para o mundo que lhe era oferecido, sem pensar, pestanejar, hesitar ou desconfiar. Mas ela não queria mais perder-se, queria encontrar-se.
Onde estava ela, naquele complexo meandro de sentimentos, sensações e deslumbramentos? A pergunta era fácil de formular, mas difícil de responder. Não sabia, não ousava descobrir o seu papel naquela relação em que ele dominava, ordenava e esperava ser obedecido. Havia então os abraços fortes, camuflando as mentiras e as dúvidas, os momentos tristes e de solidão, aqueles instantes negros onde ela mergulhava no inferno da dor. Fechava os olhos, deixava abraçar-se e acreditava no amor.
E o amor era aquilo? Um abraço que pedia desculpa, que a tornava cativa? Outra pergunta fácil mas de resposta intrincada que a deixava zonza.
“Quero que me largues agora”, pensava ela, mas ele mantinha os braços em redor do seu corpo, quentes, ferventes, ferro em brasa, empurrando-a novamente para o consolo ambíguo, esquisito, repulsivo.
“Quero que me libertes agora”, pensava ela a seguir, reunindo a pouca coragem que ainda sentia antes do abandono definitivo da sua pessoa, antes da anulação voluntária da sua alma.
“Quero que me beijes agora”, pensava depois, estonteada com a persistência dele e, mais ainda, com a insistência dela em prosseguir naquilo.
“Quero que me ames agora”, pensava por fim, desligada, convencida, mente vazia, corpo em chamas, alma muda.
“Quero que pares a dor agora”, exclamava num pensamento delirante, enquanto ele a cobria de beijos, sempre no abraço apertado, transformando-a no seu brinquedo favorito.
“Quero que me deixes de abraçar”.
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