Desabafos de Um Adolescente
1 Introdução da Ansiedade e 20 de Julho
Notas iniciais
Transexualidade, anorexia, depressão, auto-mutilação, ansiedade social.
Sabe aquela falta de noção que todo o adolescente tem? Pois é.
Eu não tenho isso.
Eu tenho noção de sobra das coisas. Das consequências delas.
E às vezes me faz falta não ter isso. Porque daí eu não posso fazer as coisas sem problema algum. Eu sempre vou saber que vai dar merda depois. E acho que isso é pior do que não ter noção.
Eu não sou muito normal, também.
Eu nasci num corpo de menina. Eu nasci menina. Nasci com os pronomes "ela" e "dela". Nasci com o nome de Alice. Nasci menina. Com uma vagina, e tal.
Nos meus primeiros treze anos de vida, isso não foi um problema. Eu gostava de ser menina, até. Porém à partir dos treze, eu não gostava nem de respirar. Nem de viver. Nem de ser um ser humano.
Nem de ser menina.
E sabe, não querer mais ser menina nem foi o problema principal. Foi a anorexia, eu acho.
Aos meus treze anos, eu começei a sofrer de problemas, de sinotmas de depressão, disordem bipolar, e de anisedade social também. A ansiedade era o pior. Me assombra até hoje, o dia em que escrevo estes segredos para vocês.
Ninguém nunca soube que eu sofria destas coisas. Ninguém nunca saberá, também. Ou, pelo menos, ninguém que eu conheça.
Voltando ao assunto, estas disordens me assombravam aos treze anos. E delas, partiram a auto-estima baixa, e, consequentemente, o desgosto de ser eu mesma. Eu começei a sofrer de sintomas de anorexia e bulimia desde então.
E até que foi tranquilo, até meu aniversário de quatorze em dezembro, até janeiro, fevereiro, março.
Mas depois tudo fodeu bastante. Porque eu começei a pular o almoço. Passava 24 horas sem comer. Passava horas morrendo de fome. Sofrendo. Mas eu me orgulhava daquilo. Pra mim, era um prêmio. Eu me sentia feliz por não ter comido. Porque eu era forte. Porque minha força de vontade de emagreçer era forte. Porque eu ia, finalmente, ser feliz.
Até que chegou o dia que eu percebi que estava com amenorreia. Por um tempo, me deu um desespero do capeta, porque eu planejava ter dois filhos quando fosse adulta. Eu queria ter dois filhos, morar fora, ter um marido foda, ser feliz, e magra. Mas isso não seria possível se eu perdesse a fertilidade, se eu perdesse o ciclo menstrual.
Todavia, depois não foi mais fazendo tanta falta e não foi mais tão importante pra mim, sabe. Aos poucos, eu fui me esqueçendo disso, e, aos poucos, fui quererndo virar homem. Eu queria ser um menino, e me cortava o coração cada pronome errado. Cada "filha", "menina", "Alice", "ela". Eles me matavam por dentro e nem sabiam. Então, não menstruar não seria problema.
Eu preferia não ter filhos por não ter um pênis do que não poder ter filhos por não menstruar.
Aos poucos, então, fui me recuperando um pouco da senhorita Ana (Anorexia Nervosa, como formalmente chamamos a disordem tão popular dentre adolescentes com auto-estima baixa.) E, aos poucos, minha alimentação foi voltando ao normal.
E eu fui engordando.
Em pouco tempo, ganhei os cinco quilos que tinha suado tanto pra perder. Na hora, não me importei. Mas depois de um tempo, eu percebi. E cara, fodeu meu coração. Estava cinco quilos mais longe da minha meta. Mas isso é outra história.
Como falei antes, fui "recuperando-me" da senhorita Ana. E, aos poucos, meu organismo foi voltando ao normal. Depois de semanas, a menstruação voltou. No dia 18 de julho, se não me engano. Aos meus quatorze anos, o ciclo menstrual voltou. Foi como se fosse a primeira vez.
Na hora, não me impressionei. Mas alguns dias depois — dia 20, para ser exato-, eu percebi o quanto eu tinha errado em ter voltado a comer normalmente. Eu contava as calorias das coisas com menos preocupação, e tinha coisas que eu comia sem me preocupar em quantas calorias tinha.
Por que diabos eu fui tão idiota? Puta que pariu, que pessoa burra eu fui. Engordei cinco quilos, minha menstruação voltou. Como fui deixar isso aconteçer? Agora sim, nunca podeira virar um menino.
Meninos não menstruam, até onde sei.
Obviamente não menstruam. Como é que eu queria ser um menino se iria continuar menstruando assim? Eu já tinha desistido de ter filhos. Eu ia ter dois pugs. Ia morar só, ia ser uma pessoa feliz, magra, com dois pugs, um sorriso no rosto, e um peso que me agradasse. Além de um corte de cabelo maneiro. E roupas masculinas. E uma voz grave. E os pronomes que me deixavam feliz. "Ele", obrigado.
Sinceramente, como fui deixar tal coisa acontecer?
E, em meio à tantos pensamentos melancólicos, a vontade inebriante de ascender um maço de cigarro me consumia. Eu nunca havia fumado, uma vez apenas havia tragado um gole minúsculo de vinho, qual fora dado a permissão por meu pai.
E, mesmo nunca tendo fumado antes, em toda a minha vida, esta vontade me consumia o peito. Eu queria recorrer à droga para esqueçer dos problemas, provavelmente. Algo assim, pode ser.
E eu queria muito fumar. Queria muito. Nem que não fosse um cigarro. Nem que fosse outra droga, ou até uma bebida, não sei. Eu queria alguma coisa para me fazer melhorar. Eu queria que algo pudesse me sentir vivo. Queria algo que me deixasse sentir a dor. Pra mim saber que estava vivo.
Foi aí que me veio a ideia de pegar uma lâmina novamente. Havia deixado as amiguinhas frias e cortantes de lado haviam uns quatro ou cinco meses atrás. Ah, não teria como. Estava posando na minha avó e ficaria por lá durante uma semana.
Sem lâminas então. Além disso, onde é que eu poderia fumar, ou beber, ou seja lá o que for? Até onde eu sei, não tem nada disso aqui. E mesmo que tivesse, como eu poderia fazê-lo sem deixar as pessoas sabendo? Não teria como.
Eu teria que ficar sofrendo aqui, em silêncio, com esse sentimendo de dor que eu nem sabia descrever direito, queimando no meu peito, a angústia ali na minha garganta, e a ansiedade ali presente. Sempre presente. Ela sempre estava ali.
E a única droga a mim não proibída, o remédio. O remédio de que minha avó não sabia da existência. Eu e minha mãe haviamos prometido não contar à ela, dado que era velha e se preocupava à toa. Inclusive subia a pressão sanguínea hora ou outra devido à essas preocupações banais.
Então eu fui no meu quarto. Peguei duas pílulas do remédio para ansiedade. Remédio fraco. Tão fraco, que nem de receita precisava. Eu pedi para ela comprar porque eu me sentia mal, com essa ansiedade sempre presente.
Ela comprou só pra mim parar de reclamar, porque pra ela, e pra todos os outros, pras duas psicólogas, pros médicos, pra todos eles, eram só hormôneos. O único que acreditava em mim era o meu pai. Pai que também sofria da ansiedade. E ele tomava remédios com receita.
Remédios que sempre me fora proibído tocar.
Mas então, fui à cozinha, com as duas pílulas na mão esquerda. Pílulas do tamanho de uma lâmina de apontador. Divididas nas cores branco e roxo. Tinham uma textura meio borrachuda, e traziam consigo este formato de bala de revólver. Cilíndricos e compridos. Um copo de água bem gelada. As pílulas são jogadas pra dentro.
Duas balas adentrando minha garganta, assim como a ansiedade sempre fez. As balas sempre levavam a ansiedade de volta ao covil escuro no abismo do meu estômago. Sempre o faziam. Mas a ansiedade sempre voltava.
Como já falei antes, a ansiedade estava sempre ali. Sempre presente. Sempre comigo. E o sentimento de querer ser um menino me corroendo o peito. Junto com a ansiedade. E a vontade de fumar.
Resumindo a história toda: lá estava eu, 20 de julho, aos meu quatorze anos de idade, sendo consumido pela vontade entorpecida de fumar, o desejo de ser um menino me consumindo o peito, duas pílulas de um remédio inútil no meu esôfago, a ansiedade queimando minha garganta, lágrimas lutando para se libertar, sujando e lambuzando meus óculos, o cabelo curto bagunçado, os pés frios por causa do inverno, a chuva caindo, minha avó me chamando de "moçinha" e "menina" JUSTAMENTE enquanto escrevo essa porra, e a mensturação me encomodando. Além do desgosto de ter o corpo que tenho e a comida que fora empurrada goela abaixo digerindo-se e convertendo-se em gordura.
Oba, que férias de inverno prazerosas.
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