É sério, como foi que eu fiquei tão...

...

Faz um tempo que não desabafo...

Em parte, porque eu não tenho tempo nenhum, agora que voltei às aulas.

Em parte, porque tudo tem me parecido tão... Vazio.

Sei lá, esse diário. Essa vida. Essa rotina. Tá tudo parecendo tão sem sentido, tão sem significado... É como se minha existência tivesse começado a rodar ao redor de uma prova e ninguém mais ligasse para o mundo fora dela. O que talvez seja exatamente o que tá acontecendo.

Eu nunca fui o que se pode chamar de "popular" (por motivos bastante óbvios), mas eu pelo menos sempre tive um grupo. As Três Maricotas, as ADSDs, mesmo o grupinho de nerds filhos de professor. Sempre em algum grupo, de alguma forma.

Agora... Não sei. Quase não falo mais com minhas "amigas". A galera do ano passado, sabe? A Lari, a Ju, a Bea, a Lia. As pessoas que ano passado viviam junto comigo, vivíamos indo na casa de alguma delas... Esse ano, se troquei vinte palavras com a Ju e a Lia, é muito. E a Lari e a Bea...

Começamos pela aniversário da Lari, que eu perdi porque estava naquela porra de casa dos meus avós, em um verão miserável. Então, todo mundo está organizando uma viagem de formatura no meio do ano, para Porto, e eu não posso ir, porque sou... Bem, pobre. Ou pobre o suficiente para não ter condições de pagar uma viagem pra Porto e/ou Floripa, nem para ir no cinema semana que vem, nem para nada, na verdade.

Todo mundo tá combinando de pular Carnaval, mas eu

1) não tenho dinheiro para ir pular Carnaval;

2) não gosto de pular Carnaval;

3) sou incapaz de me divertir com o babaca do Pedro por perto.

Meio idiota, abrir mão das minhas amigas e da minha diversão por causa de um imbecil? Talvez. Mas não consigo ser eu mesmo e me sentir bem sabendo que tem um homofóbico/transfóbico/falso/imbecil de marca maior bem do meu lado, e sabendo o que ele já fez.

Mas acho que essa questão sobre minha vida merece um Desabafo por si só. Vamos focar em problemas que não têm nada a ver com o babaca da escola.

Bom, como as minhas queridas amigas não parecem dar a mínima para o que eu tô pensando ou sentindo, já que ninguém mais parece notar a minha existência, eu meio que "migrei" de grupo.

Lucas, Felipe, Henrique, Gabriel e Thiago. Os nerds da sala (ok, o Lucas não é da nossa sala, mas ele era).

Eu não era muito amigo deles. Mesmo porque eu achava que a gente não tinha papo. Mas aí a Helô começou a falar mais com o Felipe, a Lari virou a BFF do Henrique, a Bea a mesma coisa com o Gabriel, e quando eu vi estava batendo altos papos com o grupo de geeks que são, basicamente, o que você poderia esperar de um grupo de cinco amigos geeks de dezessete anos em um seriado norte-americano.

[eu ter ficado com o Lucas provavelmente contribuiu, mas, de novo, melhor fazer um Desabafo só sobre isso]

Então temos a Júlia e a Gabi, que também "estão" no grupo que nem eu, por uma ponte chamada Thiago.

Mas essa é a questão, não vê?

Eu não sou exatamente um deles. Eu não sou exatamente nada.

A Júlia e a Gabi são melhores amigas autossuficientes — só uma dupla é um grupinho de bom tamanho. Bea, Lari, Ju e Lia mal notam a minha existência; animadas demais com Porto, Floripa ou a puta que me pariu (no hard feelings, though; maybe a little). Os geeks, é, estamos mais juntos, mas não diria que sou um deles, porque anos de amizade não se abrem tão fácil (os da Bea e da Lari sim, mas talvez aí o problema seja eu). A Mari e o Arthur? Esquece, outra sala, outra vivência, um Desabafo só sobre isso.

O problema sou eu, talvez? Talvez eu seja muito dependente. Talvez eu esteja me trancando para fora. Talvez o fato de eu não suportar o babaca tenha mais peso do que pensei. Ou talvez tudo esteja na minha cabeça.

Esse era para ser o melhor e o pior ano de nossas vidas. Era para tudo estar melhor do que nunca, enquanto nos afogamos em lição e listas de vestibular. Mas ao invés disso...

Não, não sou totalmente solitário. Às vezes, a Lari e a Bea ainda falam comigo. Passo todo o recreio com os nerds. Talvez a gente saia semana que vem. Mas... Às vezes, eu me sinto tão sozinho. Como se ninguém ligasse, ninguém se importasse, ninguém visse o quanto eu estou quebrado.

Isso algum dia vai passar?

Me disseram que o Ensino Médio às vezes não quer dizer nada. Que às vezes tudo o que aconteceu ali fica para trás e a gente esquece todo mundo.

Mas...

Porra. Faz a gente pensar, não faz? Se a gente tá quebrado. Se de repente tá tudo meio esquisito porque a gente é esquisito. Se o problema é a gente, que tá além de conserto.

E se isso não mudar? E se isso continuar no ano que vem? E se eu nunca conseguir voltar para aquela época gostosa, em que eu sabia que tinha amigos e não me isolava? Ou isso foi só uma impressão saudosista e eu nunca fui assim? Ou tá todo mundo na merda que nem eu e ninguém mostra?

Talvez eu esteja sentindo demais. Pensando demais.

Talvez quanto mais eu me preocupe com isso, pior fique, porque eu realmente não tenho conserto. Ou talvez isso seja real e eu vou acabar triste, sozinho e solitário para o resto da vida. Importa? Não sei. Talvez mais que sim, talvez menos que não.

Não sei.

Por que tá tudo tão complicado? Como foi que eu me quebrei tanto? De onde vieram essas rachaduras, e por que ninguém mais consegue vê-las?

Fui eu que fiz isso? Ou foi o mundo? Talvez a falta de cuidado. Talvez a vida tenha sido mais dura do que eu pensei, e eu sou ainda mais frágil do que pareço. Deveria vir com uma faixa de "manuseie com cuidado", ou talvez eu já tenha nascido assim. Quebrado. Trincado. Estilhaçado.

Como foi que cheguei aqui? Era para ser um desabafo sobre como a escola é uma merda, mas...

Ah, vai se foder, Yurie.

Vai se foder.

...

... bizarro?