Desabafos

5 Sobre Minhas Férias


O mundo é uma merda...

...

Eu tinha escrito umas 900 palavras. Aí o PC apagou tudo e eu não consegui recuperar.

Se o texto parecer bambo, você já sabe o porquê.

O fato é que abri isso daqui sem saber muito bem o que ia escrever. Também refleti, por um momento, sobre a necessidade de falar sobre isso, afinal, quem realmente sabe o que vai escrever no diário quando o abre?

Algumas pessoas talvez saibam, ok, mas eu não funciono assim. Eu nunca sei exatamente o que vou escrever até que já tenho escrito.

Então, eu comecei a refletir sobre mim mesmo e acabei falando da "minha" família. Parece uma boa trilha a seguir, então vou tentar de novo.

Estava lendo alguns textos antigos meus, aqui. Separando o que ainda podia seguir, o que dava para desenvolver melhor, as coisas que eram um lixo completo... E notei que, antes dos meus treze, catorze anos, as minhas histórias eram muito diferentes.

Não, não digo estilo de escrita, afinal, isso não é nada além do esperado e, se meu estilo de escrita não mudasse em todos esses anos, eu ia ficar deveras preocupado.

Estou falando de outras coisas.

Meus primeiros textos eram bonitinhos, iluminados, inocentes. Tinham alguma coisa de amor, umas amizades legais, famílias felizes e algum tipo de esperança na humanidade e no futuro do mundo.

Aí alguma coisa aconteceu e no ano em que fiz treze anos (quando dá isso? Sétima série? Por aí), todos os meus textos para a aula de Redação envolviam morte. O personagem morria, assistia alguém morrer, tinha pais mortos — um ou dois eram assassinos.

E foi ao perceber esse padrão que notei outra coisa.

Desde então, quase todos os meus textos — digamos, 98%? — são cruéis. Sombrios. Frios.

Não sei como defini-los. Mas todos os meus personagens não apenas são mais complexos do que costumavam — porque, como eu disse, escrita evolui — mas também se tornaram mais sombrios. Todos eles viram alguém morrer, são torturados, assassinados, ou cometem um assassinato — não raro, o próprio.

Isso sem comentar que meus protagonistas não são mais pessoas de bem que fazem o bem porque é o certo a se fazer, como antes, mas sim são ladrões, assassinos e prostitutas que, ao fazerem ou buscarem algo por simples egoísmo, acabam fazendo o bem; ou não [e esse é literalmente o plot da minha Original. Shiu.]

E é aqui que eu me pergunto o que aconteceu comigo? O que houve com o Yurie de 13 anos para de repente deixar de ver toda aquela luz e esperança na humanidade e passar a só ver sombras e crueldade e rejeição? Onde foi parar a doçura e a inocência que havia nas minhas histórias antes?

[e não, você não vai realmente encontrar coisas tão sombrias no Nyah!, porque eu me sinto mal em postar coisas tão horríveis por aqui.]

E aí entra a ponte meio frágil que pode parecer vitimismo (na minha cabeça parece), mas que é a única explicação possível.

Yurie se apaixonou.

E não, isso não foi flores e abraços e "quando se ama, só se quer amar", "a vida é linda", "eu amo ter um coração" e sei lá mais o quê você pode querer pensar sobre essa merda de sentimento.

Ou melhor, essa porra de sentimento.

Primeiro: amar só é legal se te amam de volta. Se não, é só dor.

Segundo: amar só é legal se é por alguém de quem você não é muito próximo — porque romance entre amigos nunca (e eu friso o nunca) dá certo [meus pais são exceção].

Terceiro: se você é, segundo dizem, uma garota e se apaixona por outra garota, quer dizer que tem alguma coisa errada com você.

Pelo menos, foi o meu primeiro pensamento.

Veja bem, nunca fui um homofóbico. Meus pais nunca tiveram essa postura — um erro aqui, outro ali, mas isso é mais cultural que preconceito próprio. Quando me apaixonei por Isabela, já tinha meus irmãos postiços — dois gays viados até a alma e uma bi com o caminhão de brinde.

Não, eu não tinha preconceitos.

Mas entrei em pânico mesmo assim.

Porém, meu complicado e quebrado relacionamento com a Isa não importa nesse Desabafo. O que importa é que isso mudou completamente tudo a respeito da "minha" família.

Coloco "minha" entre aspas porque é a família da minha mãe. Meu conceito de família não tem nada a ver com sangue e acaba excluindo grande parte dele [vide a minha família "postiça" que é só um punhado de pessoas direto do Vale que caíram lá em casa de paraquedas e continuam até hoje].

Mas enfim.

Para você entender melhor, vamos a um rápido rascunho genealógico.

Guilherme e Júlia têm três filhos: Margareth, Fred e Marie.

Guilherme tem uma irmã, Lúcia, casada com Marcelo, e eles têm dois filhos: o Ricardo e o Paulo. Cada um tem dois filhos que não vêm ao caso.

Júlia tem uma irmã desprezível, Renata [que é basicamente a tia Petúnia, de Harry Potter], que é casada com o Rui e tem quatro filhos, dos quais só dois importam: o João e a Camila. Não sei idades aqui.

Bom, a Margareth se mudou para São Paulo, se pronunciou atéia, casou com um carioca ateu e hoje tem mais duas ovelhas negras: a Lúcia (homenagem à tia preferida) e uma coisa estranha e sem certezas, não tão popularmente chamada de Yurie.

O Fred se mudou para São Paulo e depois voltou para aquela cidade minúscula do interior e mora em frente aos pais. Casou com uma paulista, tem um filho de onze anos que finalmente virou gente, e um enteado que mora na Itália, eu acho.

E Marie era minha tia preferida. Desde que a conheço, estava namorando/noiva de um cara que também era meu tio preferido, o Henrique. Virou católica (a família é luterana), e tem dois pestes: o Guilherme (não sei se pelo avô, mas também não ligo) que faz meu gaydar disparar e apresenta todos os sinais de psicopatia, e o Nando, que é fofo e legal e provavelmente vai virar preconceituoso que nem a mãe. Yey!

Ou seja, se eu conseguir cumprir minha meta e sair do armário, podemos riscar aí seis pessoas que não vão mais olhar na minha cara. Guilherme, Júlia, Marie, Henrique, Guilherme 2.0 e Nando. Quanto a Fred, não tenho certeza de nada, mas estou tentando não torná-lo meu tio preferido porque não quero me cortar ainda mais.

Passemos para a tia Petúnia e seu marido que não é tão chato quanto o Varney e os dois filhos que importam.

Pelo apelido, acho que você já sabe que a Renata me risca da árvore genealógica no mesmo segundo. O Rui também — porque ele pode ser mais legal, mas para você casar com alguém babaca, você tem que ser um babaca. Aí temos Camila e João. Camila não importa muito, mas o marido dela é muito legal. Sabe aquela pessoa que sempre sabe fazer todo mundo rir independentemente do que está acontecendo? Felipe.

E João importa por si mesmo. E pela esposa. Ele não sabe fazer rir como Felipe, não é cativante como Henrique e não é tão próximo quanto Fred. Mas eu gosto dele.

E tudo o que eu penso agora quando estamos na praia é que esse é provavelmente o último verão que passarei com eles. Porque depois disso, tudo vai por água abaixo. Certeza. Perdemos mais... Renata, Rui, Camila, Felipe, as duas filhas que eu literalmente não sei o nome, João, a esposa Regina e a filha Clara. Nove.

Isso tá ficando bom...

Aí chegamos às pessoas que eu realmente mais gosto aqui. A Lúcia e o Marcelo são muito mais legais e tolerantes que Renata, Rui, Júlia e Guilherme juntos. Eles são divertidos, calmos, são os avós que eu queria ter. Mas né...?

Então há uma chance de que eles não me odeiem.

Temos o Paulo, a quem eu não vejo muito mas adoro. Maestro, desapegado da vida, calmo, é capaz de me manter cativo por horas enquanto discorre sobre tudo e sobre nada. É o tipo de pessoa que eu queria ser no futuro. Se temos uma chance com os pais dele, com ele a chance ainda aumenta.

Ricardo, que eu, até uns anos atrás, achava se chamar Caco, porque ninguém chama ele de outra forma. Na verdade, ele só tem um filho (escrevi lá em cima que tinha dois), o Luís, que é quase tão legal quanto o pai e a mãe, Débora, mas o foco aqui não é ele nem ela.

É o Caco.

Sabe rir e fazer rir. Tem cada história que só ele. Gosta de prestar desserviços às mães "ensinando" às crianças que, por exemplo, quando o gato vai beber água, é preciso bombeá-la pela cauda do bicho. Ou que se você arrancar as antenas de uma formiga, ela fica zonza, mas as antenas crescem. Esse tipo de coisa.

E tem um sotaque... Ah, o sotaque do Caco.

É um sotaque carregado, arrastado, mas fluido. Sou capaz de ouvi-lo falar por horas e horas da mesma coisa e não me cansar. Sua voz é tranquila e seu sotaque é delicioso. Amo ouvi-lo, amo saber de suas histórias. Não estou nem brincando. Ele é maravilhoso.

Seria, talvez, uma das pessoas que eu mais lamentaria perder.

Também tem a família por parte de pai, que eu não coloco aspas, mas aí são outros quinhentos e merecem um Desabafo por si só.

Mas o ponto é esse, entende? O que eu falei lá em cima.

Estamos na praia, comendo milho, as crianças enterrando pés na areia, Fred cavando um buraco até achar água, Marie me comprando um picolé, João tentando impedir a filha de se queimar, Henrique e Felipe tentando cada um fazer a gente rir mais.

E tudo o que eu consigo pensar é "essa vai ser a última vez em que eles vão ficar aqui. Vai ser a última vez em que isso vai acontecer. Que eles vão me tratar feito gente."

Puta que pariu. Belas férias, hein?

Não sei se tenho uma frase bonitinha para acabar esse Desabafo. Não sei se tem uma moral, ou se há algum consolo. Algo que valha a pena ser comentado.

Sei que queria tirar isso do peito, porque dói. E porque não posso falar disso pra mamãe porque senão ela chora.

Então, pois é.

Essas são as minhas férias. Esse é o motivo pelo qual tudo o que escrevo acaba saindo triste e mórbido.

Estou meio trancado em um armário, sozinho, sempre irritado, sem ninguém com quem posso reclamar cara a cara e pedir um abraço, cercado de pessoas que não sabem nem a diferença entre "promiscuidade" e "pansexualidade". Imagine entre "drama" e "agênere".

E a cada abraço, cada sorriso, cada vez que alguém diz que me ama, só consigo pensar "é o último. Depois do meu aniversário, nunca mais."

Puta que pariu. Belas férias, hein?

...

... ou é só essa porra de família?