Desabafo Bi

1 Eis que me achei bi


Notas iniciais
Espero que seja bem explicativo..... Boa leitura...

“Primeiro, que pra alguém ser promíscuo a pessoa precisa sair de casa, e eu já falho aí. Segundo, tem algum ser mais promíscuo que o macho hétero? Nunca vi.”

Sim, eu me considero bi. Só que isso não tem muito tempo. Não mesmo! Tem uns dois anos que entrei na faculdade, e foi a primeira vez que me deparei com um ambiente tão diverso. Já havia conhecido uma menina bi antes e um ou outro LGBT+, mas nada se compara. Agora eu estava num espaço onde não tinha uma professora culpando os pais e escolhinhas de futebol por determinada menina ser lésbica (a menina não estava mais na escola e era uma fofoca enorme ela estar saindo com meninas). Na época em que lidei com essa professora, eu não tinha como pensar tão diferente assim dela, afinal piadas homofóbicas e “demonização” de LGBT+ eu tinha na escola e em casa, com pouquíssimas pessoas tentando me mostrar um outro lado. Nunca achei justo alguém sofrer por essas coisas de sexualidade, mas também eu simplesmente não entendia nada do que estava acontecendo ali. Acho que o “gaydar” de alguém apitou comigo, o que não era assim tão difícil de acontecer, já que eu não era lá um exemplo de feminilidade... Eu rejeitei alguns meninos, pois estes eram muito idiotas, e não era vista com nenhum namoradinho ou ficante (eu tentei, só que homens são um desafio...), então convenhamos que era de se esperar boatos sobre a minha sexualidade. Eu, logicamente, não sabia lidar, não reagi nada bem, até porque os meninos já viviam fazendo da minha vida um inferno e esse foi mais um jeito de pessoas tentarem me diminuir.

E é esse o ponto: sua sexualidade te diminui para as pessoas. Isso foi me mostrado a vida toda quando eu ligava a TV. Lá estavam gays estereotipadíssimos sendo motivo de piada ou capacho de madame, ou ambos. Quando ouvia tantos comentários esdrúxulos sobre esse assunto, acabava entendendo duas coisas: “se as pessoas criticam tanto e desse jeito, deve ser algo ruim, né?” e “se é algo tão ruim, que vai fazer todo mundo me tratar assim, então não quero ser uma pessoa dessas”. Entende? Todos acabam te ensinando a nunca parar e pensar sobre sua sexualidade, pelo menos não de maneira honesta consigo mesmo. Você não é ensinado a se aceitar do jeito que você é, simples assim. E triste assim também... Quantas coisas eu fiz e disse que hoje me arrependo tanto? Quantas coisas que só fui entender mesmo depois dos 18 anos? .....Ah os 18 anos...

Depois de alguns meses de convivência com um espaço mais diverso, comecei a tentar adaptar aquilo à minha escrita. Eu gosto de escrever, criar histórias e personagens é algo muito natural pra mim. Não sei como encontrei tantos canais de YouTube sobre negros, LGBT+, mulheres e minorias em geral, mas o fato é que passei a consumi-los muito. Alguns vídeos eram um soco no estômago, cheios de verdades dolorosas que levei alguns dias para digerir. Chegava na faculdade, muitas vezes, e conversava sobre isso com minha amiga (no caso, bi e gênero fluido, ou seja, ela hora se sente menino, hora se sente menina e hora apenas está neutra). Nossas conversas eram muito boas e ela foi importantíssima para eu entender muito do universo LGBT+, principalmente pessoas transexuais/transgêneros (eu não conseguia entende-los de jeito algum). Entretanto, até aqui eu só ia na curiosidade, tentando me informar de coisas que sempre me privaram. Eu estava descobrindo o mundo, literalmente, descobri quase tudo que sei sobre negros nessa época (já que convivi com muito poucos e ninguém me explicou muita coisa...). É engraçado pensar que lidei com garotas bissexuais e lésbicas, vi tanta coisa sobre e demorei meses para me fazer uma perguntinha tão simples: “será que eu gosto de garotas?”.

Foi num dia ou noite em que eu estava mexendo no celular, deitada na cama. No meu silêncio de sempre... Estava anotando algo, acredito que uma cena de beijo entre duas meninas (tinha tirado uma personagem lésbica e uma personagem bi do armário para mim, recentemente). Nascia ali um rascunho bem fofo de um casalzinho de uma história de ação, com magia, poderes e tudo o que tem direito. Enfim, lá estava eu, imaginando o beijo entre duas meninas, possivelmente pela primeira vez na vida. Talvez eu até tivesse imaginado antes, mas não teria sido com sentimento, claro, eu me apego às personagens que crio, principalmente às meninas (que costumam ser um lado meu ou alguém que eu queria ser). Em algum momento desse rascunho, ou de quando tentava imaginar a cena, a famigerada pergunta surgiu. Foi um silêncio mental enorme. Óbvio que veio um não. “Eu gostando de meninas? Nunca. Eu sempre gostei de menino, gente, nunca nem olhei pra mulher...” foi algo assim que pensei por uns dias. As cenas fofas que eu imaginava para o casal fictício não mexiam tanto comigo, mas mexiam em algo que nem eu sabia que estava lá, e lá ia eu negando até a morte. E tudo isso foi só dentro da minha cabeça, sem comentar nada com ninguém. Com absolutamente ninguém! Teve um dia em que não dava mais para negar para mim mesma, eu olhava sim para as meninas. Afinal, depois de a pergunta surgir, foi inevitável não passar a reparar no que eu fazia e não percebia, ou fazia e reprimia sem pensar. Ligava a TV e lá estava uma linda mulher num comercial, lá estava eu olhando, mas não nos olhos e... “AH! CONSERTA ESSE OLHAR” um pensamento automático, que nunca antes passou por uma reflexão... Isso é só um exemplo, dentre tantos. Comecei a lembrar de vários meninos que gostei no colégio. Não era difícil entender que estava a fim de um garoto. E aí lembrei das minhas “admirações” por certas meninas. Eu queria ficar perto delas, ser legal com elas, em alguns casos até tentar impressionar, mas nunca me passou pela cabeça que aquilo, simplesmente, não era só uma admiração. Nisso, foram meninas que eu reparava muito na beleza, que eu era muito agradecida às coisas legais que me fizeram, que me deixavam tristes quando não vinham à aula e que tinham um talento em algo ou eu considerava fofas.

Ah! Se posso contar por volta de 10 meninos por quem já me apaixonei (de tentar conquistar, mandar cartinha, ouvir músicas românticas e viver pensando sobre o quanto era lindo, engraçado, inteligente ou qualquer outra coisa), imagino que seja um número parecido de meninas... 3 delas eu simplesmente não sei como não notei... Uma foi logo quando pequena, ela me defendia do bullying, era muito gentil, fofa e tão linda... Realmente ela era incrível. Até hoje dou um sorriso quando lembro dela (a mais óbvia). As professoras nos achavam parecidas (talvez pela cor do cabelo e da pele), confundiam nossos nomes, algo que contribuiu para eu amar aquele nome... Lembro da minha angústia quando nossa turma chegou na idade de pensar em beijar e ela começou a ficar com meninos. Que medo doido era aquele? Só entendi quase 10 anos depois....

E no fim do fundamental e ensino médio a coisa continuou acontecendo debaixo do meu nariz....

Outra foi óbvia também, pois ela era encantadora, amava o seu jeito de falar e fiquei triste por não conseguir impressiona-la. Já que ela me impressionava com tudo, bastava respirar. Era chato vê-la com seu ficante, “como ela consegue gostar daquele idiota” pensava eu, sem nem suspeitar de nada. Fiz um desenho dela, de um jeito tão espontâneo que chego a ficar besta de lembra-me de quando o fazia, com muito capricho, no meio de uma aula (quieta no meu canto) e fiquei extremamente feliz quando ela elogiou (eu dei o desenho de presente pra ela, com assinatura e tudo, como se eu fosse uma profissional). Depois que todo mundo viu o desenho, muita gente ficou me pedindo um, mas eu não tinha vontade nenhuma de desenhar mais ninguém ali, algo que só hoje entendo a razão. Parando pra pensar, isso também pode ter levantado suspeitas sobre minha sexualidade na escola... Enfim, ela estava de intercâmbio, teve que voltar para o seu país. Ela fez uma cartinha pra todo mundo na turma e que amei a minha, guardei com tanto carinho... O dia da despedida me deixou tão mal, mas tão mal... Eu passei uns dias bem triste.

A terceira foi uma “paixão mais branda”, se é que posso dizer assim. Não sabia o porquê na época, mas eu tinha que impressionar essa menina. Linda e muito inteligente, além de madura. Era incrível. Talvez por ter tidos namoros mais duradouros (nos padrões adolescentes é tipo 1 ou 2 anos) com meninos do colégio, eu tenha demonstrado ainda menos sentir qualquer coisa por ela. Todo mundo amava essa menina, tanto professores, quanto alunos (qualquer um queria ser namorado dela) e alunas de qualquer turma... Mas eu tenho esse jeito mais bruto e desleixado (o que era ainda pior nessa fase) e não era lá muito exemplar, então como impressionar alguém que já é muito impressionante? Não dá. Então eu convivia com essa frustração. Além de reparar muito na aparência dessa menina, é sério. Muito! Eu adorava o jeito que ela arrumava os cabelos, o desenho do seu corpo, o desenho do seu rosto e, principalmente, o desenho da sua boca. “Como não estranhei o fato de achar tão bonita assim a boca de alguém?” eis a maior dúvida do meu dia.

O mais engraçado é que hoje é tão obvio que esses casos eram paixões, “crushes”. Contudo, na época que essas coisas aconteceram eu nem sonhava. Jamais me passaria pela cabeça a menor possibilidade de estar a fim de uma menina. Eu não parava para pensar nesses sinais, nesses detalhes. As coisas só aconteceram e fim.

Voltando à minha fase universitária... O caos na minha cabeça era grande demais e eu demorei a entender minimamente a situação. Então entendi: “sou bi”. E me achei tão incapaz de lidar com isso... Já tinha 18 anos e nunca (repito, nunca) tinha sequer beijado alguém. Como explicar minha sexualidade ou sequer começar algum relacionamento? Eu estava tão bem com a ideia de não casar, nem namorar, nem ficar, apenas viver minha vida e adotar uma criança em algum momento da vida... E ser bi é uma questão complicada, pois eu já sabia há um bom tempo que a grande maioria dos meus parentes não me aceitaria. Talvez nem meu pai e meus irmãos... Eu saberia lidar com uma mudança tão brusca e, ainda por cima, sem volta na minha vida? Não, definitivamente não. Uma pessoa depressiva e, possivelmente, anciosa não tem estruturas pra isso. Então pensei numa “solução”: me permitir olhar para meninas, me amar e me aceitar desse jeito, mas não deixar ninguém descobrir que sou bi. Ou seja, mesmo sabendo que sou bi, ainda fiquei e fico me declarando hétero por aí.

Assim eu enterrei essa história por dois anos.

E chegou essa linda semana, numa infernal segunda-feira, dia 29 de abril de 2019. Euzinha, aos meus 19 anos (perto de completar 20), “explodi”. O quão destrutivo é esconder de todo mundo algo tão importante sobre você? O quão triste é não ter qualquer válvula de escape para algo que aconteça em seu “lado enterrado”? ...Eu passei por uma “explosão interna”. Ninguém viu, ninguém ouviu, mas eu senti uma angústia e era enorme... Desde que vim parar nessa cidade (há um mês), me deparei com muitas meninas lindas na rua, no ônibus, na sala... É como se eu quase não olhasse mais para meninos! E o fantasma veio: “Ué? Então sou lésbica? NÃO, EU NÃO SOU”. Esse conflito interno me inutilizou por quase um dia inteiro. Aparentemente, era fácil lidar com a situação se eu olhasse tanto para meninos quanto para meninas, pois havia um “equilíbrio” compreensível pra mim. Além de que é mais fácil ainda lidar com um “desequilíbrio hétero”, mas dessa vez não foi assim. Quando “desequilibrou”, o que também é normal acontecer (acabei de descobrir isso), a coisa fugiu do controle dentro de mim. Precisei sair do armário para mim mesma, outra vez.

Só que um desequilíbrio desse tamanho não dá pra esconder assim. Contei para uma amiga, que nunca me julgou por nada, via textão, o que ajudou muito. Sentir que haverão pessoas que vão te abraçar independente de tudo, é muito importante. Ainda preciso sair do armário para outras amigas, mas já fico muito feliz de já ter um espaço seguro. Foi muito significativo para mim quando contei para as meninas lá no grupo que uma garota talvez estivesse dando em cima de mim na faculdade, e elas reagiram com uma grande naturalidade, sem perguntas, como fariam se fosse um menino. Dá vontade de chorar de alegria, eu as amo muito! Contudo, eu ainda vou ficar nesse armário por mais um tempo, até ter independência financeira (no caso da família).

Um ponto engraçado de ser bi é que ninguém imagina que é. E se descobrir assim é muito louco. Ou você descobre ainda novinho (naturalmente na infância ou adolescência). Ou você descobre perto dos 18 ou 20, quando vai numa festa ou balada (ou qualquer coisa parecida) e acaba pegando alguém do mesmo sexo (geralmente, ambos bêbados). E o meu caso foi muito diferente, pois sigo sem ter pegado ninguém ainda. Além de que eu não sou uma pessoa muito aberta e sociável... Ainda é meio louco pensar que sou LGBT+, porque sempre me pareceu uma sigla tão distante de mim... Ver a minha pessoa ali dentro ainda será um processo. Quero chegar no ponto de gritar aos quatro ventos quem eu sou, ter bandeirinha bi em casa e falar abertamente sobre isso. Mas, como não sei lidar com mudanças bruscas, vamos com muitíssima calma, com um passo de cada vez.

Escrevi esse desabafo, pois estou no laboratório de informática da faculdade, matando aula por questões de “não quero olhar na cara de certas pessoas hoje, ainda mais durante uma cólica”, mas eu queria mesmo era berrar essas palavras pra ver se o furacão dentro de mim diminui. Olhar com naturalidade para quem sou e para o que sinto parece bem distante ainda, é complicado mesmo. É como se eu escondesse algo muito terrível de todos e um deslize pudesse fazer bombas explodirem. Preciso cuidar para não machucar ninguém, mesmo sabendo que isso não deveria machucar pessoas que realmente me amam. ..... Estou muito “Elsa”, tentando me adaptar a mim mesma (não era à toa que sempre me identifiquei com ela). Ainda não sei como se conta que é bi pra alguém, mas tudo bem. É isso que repito para mim mesma há quase dois anos: “Tá tudo bem. Eu me amo e me aceito desse jeitinho que sou e tá tudo bem em ser assim”.

...Bom, pra concluir, independente de quem esteja lendo isso agora, ou quando esteja lendo... Entenda que algumas coisas a gente nunca sabe sobre si mesmo e isso não quer dizer que essas coisas sejam ruins ou que escondemos por pura vontade própria. As vezes a gente simplesmente tem medo de aparecer num jornal pelo motivo errado. As vezes você quer muito ser livre disso, mas você pode ser onde está? Nem você sabe e é essa dúvida que te coloca na defensiva.

.....

Notas finais
100% Bi Nunca tive tanta certeza de algo na minha vida!! Eu amo gostar de meninos (cis ou não) Estou aprendendo a amar gostar de meninas (cis ou não) E tá tudo bem, absolutamente tudo bem em ser assim. Se você também é assim, me dê a mão e vamos ser cada dia mais livres. Um passo de cada vez, amigues.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!