Desabafo
1 Capítulo Único
A janela ainda estava fechada, as muitas folhas de papel rabiscadas de idéias se espalhavam por todo o cômodo, as canetas permaneciam espalhadas por toda mesa exibindo suas cores vivas e únicas, a pequena poltrona servia como estante para os muitos livros que ali estavam. O pequeno feixe de luz que conseguia atravessar a madeira falha da janela batia no olho esquerdo do jovem sonhador que permanecia inconsciente no seu inconsciente. Ele manteve-se em seu estado de profundo sono, ate que não pode mais aguentar e acordou.
Os olhos minúsculos destacados por uma olheira profunda que ele certamente a teria por muitos e muitos dias. O motivo de sua insônia, seus pensamentos. Já diziam que antes de dormir, é o momento perfeito para pensar na vida, infelizmente não era o caso do jovem sonhador Tom. Todos temos nossas dores, porém, alguns não conseguem enfrentá-las e superá-las.
Tom se dirigiu ao minúsculo banheiro, após alguns minutos ele finalmente acordou de verdade, a primeira coisa que fez em seguida foi um bom e quente café, Tom certamente viciou-se em café, quando olhou pela primeira vez o relógio branco que agora estava mais para bege, este marcava exatas 9h. Ao abrir à única janela do apartamento, a brisa gelada de outono o envolveu, a luz do sol era grande, no entanto não havia calor, apenas o vento gelado que os raios de sol não puderam derrotar, Tom certamente amava aquelas manhãs.
Depois de passar um bom tempo pensando em varias coisas lembrou-se do café e correu a fim que este pudesse ser salvo – se aquilo fosse uma corrida Tom certamente teria ganhado –, por sorte, o café não havia derramado, Tom sabia que ia precisar dele naquela manha. Tom, apesar de muito jovem, teve muitas frustrações ao longo do caminho que chamamos de vida. Perguntas nunca respondidas o torturavam e o fazia querer desistir da vida, afinal, o que ele havia feito para merecer tal destino.
Após ter colocado o café na enorme caneca de porcelana, Tom dirigiu-se a sua sala onde fitou o pequeno caderno ainda novo em cima da mesa repleta de canetas, na noite passada ele havia desenhado bastante, desenhar o acalmava e o fazia manter a mente ocupada. Ele encontrou um lugar onde pudesse deixar sua caneca, e recolheu todas as canetas colocando-as em seu devido lugar – um pequeno porta canetas decorado com flores, em sua lateral a seguinte frase “Para Tom, o melhor irmão do mundo” –, puxou a cadeira e se aconchegou nela, segurou uma velha caneta e preparou-se, havia chegado a hora de escrever, colocar em palavras todas perguntas que ele tanto comprimiu no mais profundo abismo de seu ser. No mais profundo de sua alma.
~ღ ~
Meu nome é Tom, Tom Márcio da Silva.
Eu não sei bem qual o motivo de eu estar escrevendo isto, porem, algo dentro de mim, algo mais forte me convenceu de tal.
Eu tenho tantas perguntas pra fazer, mas não há quem possa me ouvir. Eu preciso tanto saber destas respostas, mas não há quem possa respondê-las para mim. Eu questiono-me todos os dias e não obtenho resposta alguma. É tão difícil alguém me responder?
Por que tem tanta gente ruim em situação melhor que pessoas boas?
Eu passei minha vida toda me dedicando aos estudos, nunca vivi no luxo, mas vivi com conforto, no entanto, muitas vezes presenciei pessoas boas, honestas, gentis, pessoas de caráter passar dificuldades enquanto pessoas horríveis, cruéis, falsas, desonestas se darem bem e viver uma vida de pleno luxo.
Eu dediquei-me ao máximo, fiz de tudo para ser digno das coisas, sempre que me mandavam fazer algo eu me esforçava e dava o meu melhor, mas por que aqueles que faziam de qualquer maneira, sem nenhum capricho ganhavam mérito? Não dá pra entender.
Eu fiz dois cursos, um aperfeiçoamento e poderia muito bem estar na faculdade, no entanto, nunca consigo manter um emprego sequer enquanto pessoas relaxadas e sem o mínimo caráter conseguem. Não consigo entender isso, o que estou fazendo de errado? Será que o problema sou eu?
Como todo adolescente ou jovem, eu me apaixonei. Uma em especial, chamava-se Bárbara, ela era uma bárbara mesmo, tinha cabelos loiros e curtos, tinha a pele levemente bronzeada, olhos castanhos cor de mel, e uma boca, nossa... Passei a adolescência inteira babando por ela, éramos amigos e meu medo era que alem dela não me querer como namorado, não quisesse mais a minha amizade. E assim foi, quando me declarei, ela fez uma cara como quem dizia “o que está fazendo”. Ela poderia apenas ter dito “não” ou ter dado uma desculpa como “eu gosto de outro, desculpa”, mas ela preferiu fazer bonito e me humilhar.
Isso ocorreu aos meus 19 anos, hoje, com 24, não quero e não desejo um relacionamento amoroso. Não que às vezes eu não sinta falta de uma companhia, mas eu decidi trancar tudo que sei, penso e sinto com relação e esconder no profundo e imenso abismo que há dentro de mim.
Aos meus 22 anos, veio a morte da minha irmã caçula Larissa e acompanhada dela veio a depressão. Ela tinha apenas 16 anos, era linda, sonhava alto e cantava como ninguém. Quando ela morreu foi como se eu tivesse ido junto com ela, cheguei a culpar Deus por ter permitido que tal coisa acontecesse. Esse sentimento passou quando deixei a casa dos meus pais e me mudei para um apartamento – um minúsculo e apertado apartamento –, onde pude esfriar a cabeça e tentar continuar a vida.
E aqui estou eu, escrevendo estas coisas porque se eu continuar comprimindo-as vou enlouquecer, é demais pra mim! Não suporto mais isto, não suporto mais passar cada dia da minha vida fazendo-me perguntas, e nunca obter uma resposta. Estou cansado de entregar currículos pela cidade, ficar parado não vai me fazer sair daqui, mas eu estou tentando e não consigo sair do lugar, o que devo fazer?
Sei lá...
~ღ ~
Após ter concluído o texto, Tom levantou-se e correu para cama, onde chorou até seus olhos queimarem por faltar-lhes lágrima, até sua garganta queimar e peito doer. Ele estava aliviado por ter colocado tudo aquilo para fora e ao mesmo tempo estava destruído, sentiu que uma ferida havia se aberto novamente e ele não poderia fechá-la.
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