Vazio. Era como me restava sentir, depois de tudo.

Eu havia voltado para “casa”, mas a solidão abrasadora não tomara proporções tão grandes desde a minha infância. Eu vagava pelos dias — que duravam séculos — como um fantasma, carregando correntes invisíveis presas aos meus pecados. Desde a morte de Itachi qualquer objetivo que um dia eu acreditei ter, perdeu completamente o sentido. Meu clã, Konoha, uma família... Nada disso parecia pertencer mais ao meu mundo, apenas trevas e desespero tinham lugar em minha mente perturbada.

E então, eu te vi... E soube que era você. Eu não sei como ou por que... Mas eu soube no exato instante em que seu olhar aplacou o ódio dentro de mim. Eu entendi que não haveria nada no mundo capaz de fazer com que meu coração morto voltasse a bater da maneira como você fazia. Seu corpo, sua voz, tudo em você era inevitavelmente inebriante e não demorou muito para que eu me viciasse inteiramente.

Levou algum tempo para que eu me aproximasse e ganhasse sua confiança, mesmo porque, minha fama àquela altura já não era das mais positivas. Porém, você era doce e gentil, de uma maneira que ninguém jamais fora e esqueceu rapidamente sobre o meu passado. Seu coração era como um livro aberto, não houve dificuldade alguma em me tornar alguém importante para você. Mas qual não foi a minha infelicidade quando descobri não ser recíproco o sentimento que mais me interessava.

Você não estava, nem de longe, interessada por mim, estava caída de amores por outro. Mas não um outro qualquer... Estava apaixonada por ele.

Ele, que sempre teve tudo o que me faltava, que sempre fora alvo da minha inveja... Me vi incapaz de aceitar a ideia de que ele possuía a única coisa boa que já desejei. Ele não precisava de você. Não como eu. Eu disse isso a ele, disse que você me pertencia. Ele falou que eu estava louco, quis tirá-la de mim, como todos fizeram com tudo que já tive, e eu não podia permitir.

Há muito eu não me sentia vivo, você fez com que a vida voltasse a pulsar dentro de mim, eu já não estava perdido, eu sabia para onde ir. Queria ter sido eu, ao menos uma vez, a causa do rubor em seu rosto, a razão do teu sorriso envergonhado, o patético príncipe no cavalo branco que você tanto esperava. Mas de todas as outras — comuns e entediantes outras -, você foi a única a não me notar.

Seria tão mais fácil se você me amasse como deveria.

Eu ainda não sei como você descobriu, como soube que fui eu... Mas você me leu novamente, como em todas as outras vezes. Foi doloroso te ver chorar compulsivamente pela morte dele, você parecia repentinamente tão vulnerável que eu senti que poderia acolhê-la em meu colo como uma criança. É uma pena que você não tenha compreendido, ele tinha que morrer.

E então eu esperei por sua ânsia de vingança. Era justo, eu matara o homem que você amou por toda vida. Mesmo assim ela não veio. Pelo contrário. Seus olhos, embora molhados pelas lágrimas, ainda eram serenos quando você tentou me convencer a me entregar e pagar pelo meu crime. Talvez quisesse até salvar a minha alma. A sua ingenuidade era encantadora.

Não, mais que isso... Era excitante.

Fui tomado pela arrebatadora necessidade de tê-la. Eu não pude me controlar, você era inacreditavelmente boa... Eu precisava possuir algo tão puro. Você era o único ponto de luz na minha escuridão, eu não podia deixar você ir. Ainda assim, você me negou. Debateu-se e chorou, soluçando de medo. Eu acreditava que me amaria se ele não estivesse mais em nosso caminho, mas eu nunca fui sua escolha.

Eu tive que fazê-lo. Você tentou lutar, tentou se salvar... Você queria tanto viver, era comovente. Mas eu não podia abrir mão de você, eu sabia que iria embora e me odiaria para sempre, então eu tive que fazer você ficar.

A lâmina da Kusanagi te perfurou com facilidade, como se houvesse sido feita pra você. Eu vi quando maculou a pele alva de suas pequenas mãos tentando, inutilmente, estancar a ferida. Seus joelhos fraquejaram quando eu retirei a Katana e você se apoiou nos meus ombros. Me embriaguei com seu perfume adocicado, quando sua cabeça pendeu em meu peito, frágil como porcelana.

Você certamente não gostaria de ouvir isso, mas até mesmo te ver cair foi bonito.

Seu cabelo negro se espalhou pelo chão, como um travesseiro feito da noite, enquanto os olhos cor de lua ainda me fitavam, sem, no entanto, poder me ver. Um suspiro longo me tomou involuntariamente, no momento em olhei para seus lábios entreabertos, ainda macios e corados. Eu fiquei zelando por você enquanto o sangue morno ensopava aos poucos suas vestes e cerrei suas pálpebras com a delicadeza que você, mais que qualquer um, merecia.

Eu não pude me despedir, mas sei que você entenderá. Você sempre entende. Eu não pude deixar de admirar seu sangue vívido que ainda pingava da Katana, quando eu posicionei a ponta no rumo do meu coração. Antes de ir, olhei para o seu corpo belo, ainda quente, estirado no chão, como se esperasse por mim.

E como a declaração de amor que eu nunca fizera, sussurrei para você e só para você:

‘Eu logo estarei contigo’.

Notas finais
Eu tenho pouquíssima experiência com histórias em primeira pessoa, então foi um desafio bem interessante escrever essa fanfic, espero ter feito um bom trabalho.

A fanfic nasceu da proposta do evento "Uma imagem vale mais que mil palavras", do grupo "Curtidores de Sasuhina/BR OFICIAL" no facebook, cuja regra principal consistia em escrever uma fanfic baseada em fanart's.
A arte (cá entre nós, maravilhosa) é da Warrior-of-Ruin, todos os créditos a ela e ao seu talento absurdo. Link: (http://warrior-of-ruin.deviantart.com/art/SasuHina-Mirrored-256345823)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!