Deriva
5 Efeito dominó

Acredito veementemente que todos devem ter acesso a compreensão de todo um objeto, deve vê-lo em todos os ângulos possíveis, de todos os lados possíveis, porém acredito que poucos abrirão a mente para de fato compreender que cada parte compõem um todo, um todo complexo, que pode ser ampliado, dividido e fragmentado sem perder nem uma de suas partes.
Em uma outra perspectiva as coisas são mais ou menos assim. Denomino como efeito cascata ou reação em cadeia.
Tem-se uma prática comum de utilizar o dominó para enfileirar um após o outro ou colocar posto um em cima do outro, o que chamamos de efeito dominó ou castelo de dominó.
Essa imagem é perfeita para a narrativa.
Digamos que algumas pessoas vivem exatamente dessa forma, tentando equilibrar peças uma após a outra.
Entrar, tomar cuidado para não esbarrar, não tropeçar e não parecer tensa.
Falar com um, falar com outro, pensar se deve sorrir, achar que está sorrindo demais. Perceber que alguém estendeu a mão e você não percebeu, voltar imediatamente e pegar na mão dessa pessoa.
Pensar onde sentar, querer o lugar mais distante, menas conversa, menos olhares, menos esbarrões; mas as outras pessoas não concordam, querem o centro ou o mais perto possível do dono da festa; respira e contém.
O vento batendo, as conversas fiadas, tentar prestar atenção. Não notar que a pessoa do seu lado pega em você de tempo em tempo, ter que prestar atenção na pessoa que está contando a história e no garçom que pergunta se você quer bebida, ter que responder rapidamente se sim ou se não, pensar se aquela bebida te agrada ou não. Seu prato ainda está cheio mas deve-se levar em consideração que ele passe novamente na mesa após um longo tempo.
A criança atrás está tendo uma birra; o senhor está reclamando; e a menina está rindo alto.
A tia indelicada e inconveniente chegou, tentar pensar nos possíveis desconfortos que podem ser gerados, para evitar um conflito emocional interno que não dê para controlar. O primo que faz brincadeira sem graça e sem sentido achando que todos adoram ele está vindo em minha direção, conter as emoções, ser educada e ficar na minha.
A priminha vem em minha direção chorando porque caiu e não sabe onde a mãe está; "aí meu Deus, o que eu faço com essa criança?!", reflito enquanto vejo sua boca desfigurada e seus olhos caídos, ouço a voz de sua mãe por perto perguntando "o que foi Malu?", minha voz interior suspira aliviada, "menos um problema".
Conversa vai e vem na mesa, alguém fala algo a qual julgo ser para mim, fico em dúvida, minha mente e roubada subitamente e agora meu cérebro só pensa naquilo, "será que aquela pessoa me vê como incompetente?, será que eu sou mesmo?, aconteceu isso que comprova, aquilo que comprova". Alguém entregou lembrancinhas na mesa e me pulou, "não devia ter vindo, foi um erro", pensa em outra coisa, controla as emoções, você está no meio de muitas pessoas.
Só penso em ir embora.
Quando esse evento acaba?
Está difícil equilibrar todas as peças. Está se tornando quase impossível.
Esse é um efeito cascata, uma reação em cadeia.
Cada coisa é meticulosamente colocada sobre ou após a outra. Sustentar isso, sustentar aquilo, manter isso, manter aquilo, parecer sempre em perfeito estado e harmonia. Basta um simples vento e tudo desmorona, porque é sempre peça sobre peça, eu não lido com uma estrutura inteira, e quando uma peça cai é efeito cadeia, cascata, dominó. E assim segue a simplicidade de minha vida.
Surpreendo até a mim mesma.
Por isso sempre afirmo, estou bem; um malabarista acaba achando comum ter que sustentar objetos no ar, o que para muitos é um problema para ele é um detalhe.
O ruim é que uma hora algo cai, não dá para sustentar coisas no ar para sempre.
Ouço constantemente "lá vai a eremita".
Essas pessoas não sabem o que é viver um constante malabarismo, não sabem o que é viver uma reação em cadeia.
Uma peça cai, desin—cadeia—---to–das–as—-----ou—---tra—-s—--.Esse—--é—---mais—--um—----dia—--‐—comum‐—----de—-‐um—---‐malabarista.

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