— Você quer namorar comigo? — Ele disse da forma mais envergonhada e desajeitada que eu já o tinha visto, observar ele naquele lugar de vulnerabilidade que provavelmente nunca havia sido frequentado por ele antes foi simplesmente único, pensar que embora eu não tenha sido a única a visualizar isso, tive a chance de vivenciar essa experiência me fez sentir muito especial, mesmo no meio desse caos do que podíamos ter chamado de “ficar”.

Meus pensamentos passavam como uma sequência de easter eggs colocados em ordem aleatória, porém não havia um pano de fundo estável, eram somente imagens colocadas sequencialmente e que me fizeram visualizar em flashback tudo que tínhamos, desde o início de tudo até onde chegamos, talvez sem qualquer intenção, pelo menos da minha parte não havia alguma. Pensar em como ele foi vital nos meus últimos dias me fez pensar na sorte que tinha por estar ali, naquela posição, e não era só isso que me fazia sentir sortuda. Olhar aquela pessoa que eu já era atraída por tanto tempo, que realmente eu achava linda, embora não conseguisse dizer isso, novamente me colocou no posto de uma pessoa que realmente deveria estar grata por estar em uma situação onde o que pedi realmente me foi dado.

Enfim, depois de muito pensar, cheguei a minha conclusão — Não, me desculpa. Eu simplesmente acho que a gente nunca daria certo. — Há alguns dias eu havia desenvolvido o hábito de olhar nos olhos das pessoas enquanto falava, mas embora eu tentasse não conseguia ter a coragem de olhar diretamente para seus olhos, foi como se olhar nos olhos dele fosse tornar tudo aquilo verdade, mas eu precisava ter a mesma coragem que ele teve para se colocar vulnerável na minha frente para só olhar e ver realmente a reação dele, ele parecia normal como sempre mas olhava para baixo e de repente só levantou a cabeça e me disse — Eu não ia mais falar sobre isso mas não posso ficar com essa dúvida, porque você acha que a gente nunca daria certo?

Recolhi todo o meu instinto de dizer o clássico “Não é você, sou eu” e comecei a explicar tudo — Eu passei minha vida toda fingindo ser uma versão mais interessante de mim mesmo para agradar as pessoas, a garota maneira que não liga para a maioria das coisa foi a faceta que eu escolhi para manter você de alguma forma mas eu não quero mais isso, se quiser me conhecer verdadeiramente a porta sempre vai estar aberta, você não tem culpa de não ter me conhecido efetivamente, mas eu não tive outra opção senão ser outra pessoa. Eu amo quem eu me tornei pra agradar você, não me entenda mal, mas eu amo ainda mais quem eu realmente sou.

Continuei — Eu sou o riso frouxo dos meus amigos, eu gosto de rir até passar mal, até chorar ou parecer uma chaleira. Eu sou o ombro amigo para quando as pessoas caem, mas também gosto de ser o alicerce para que se levantem. Eu sou a pessoa que conta mil vezes a mesma história porque simplesmente não lembra que já contou, e meus amigos de verdade amam ouvir essas histórias mesmo quando nem eu aguento mais contar elas. Eu sou a pessoa que dá tudo pelos que eu amo, mas sou também a pessoa que odeia dividir comida e falta bater em quem pega comida do meu prato. Eu sou a pessoa que monta um monte de armadilhas para que meus amigos caiam onde eu espero elogios e se eu receber críticas fico revoltada, mesmo quando eu digo que não vou ficar, mas todos os que realmente me amam acham engraçado esse meu jeito e já me falam da armadilha que eu montei. Eu não preciso de ninguém e sempre reafirmo isso, mas quase sempre eu quero alguém comigo, embora eu seja orgulhosa demais para admitir. Eu sou a pessoa que assiste filme de terror 3h33, que pode receber um diagnóstico horrível e fica de boa, mas também sou a pessoa que morre de medo de inseto, tsunami e estranhamente corpos desproporcionais. Eu sou a pessoa que vive reclamando de tudo que meus amigos gostam só pra ver eles ficando irritados e me divertir com isso. Sou a pessoa teimosa que nunca assiste o que me indicam mas eu posso do nada decidir ver o que me foi sugerido, mesmo que seja 10 dias ou 10 anos depois. Eu sou a pessoa que gosta de dormir ouvindo gameplay do Felipe Neto, vídeo de maquiagem ou gameplay de um jogo de macacos estourando balão que preferencialmente tem que estar em inglês. Eu sou extremamente leal, tanto que dói e muitas vezes eu sou machucada pela minha própria intensidade. Eu sou a pessoa que ama ir no natal em família porque a ideia de contar mil vezes a mesma história é simplesmente perfeita, um lugar onde todos são como eu, esquecidos e exagerados. Eu posso querer me isolar em momentos tempestuosos, sumir por um dia mas o que eu realmente sempre quis foi que alguém viesse me resgatar desse estado que eu fico, mas eu nunca fui realmente resgatada. Eu nunca experienciei um amor tranquilo, um amor em que eu não desse tudo de mim e recebesse migalha, um amor onde eu pudesse ser eu mesma, onde eu estivesse segura, onde eu pudesse ser carinhosa, onde eu pudesse pelo menos dedicar uma música para alguém sem imaginar que a pessoa me achava ridícula. Onde eu pudesse dar um presentinho que fosse sem pensar mil vezes se a pessoa acharia que era demais, eu nunca tive espaço pra amar no máximo que eu sei que consigo, eu consigo amar tanto, eu consigo doar tanto, eu sei que consigo. Mas nunca consegui realmente dar todo o amor que eu sempre esperei receber, mas também nunca recebi um terço do que realmente dei, mesmo que tivesse dado bem menos do que eu acho que podia. Eu vivi minha vida amorosa inteira com medo, medo porque eu estava com pessoas que não me amavam e eu sabia que um momento a pessoa perceberia que eu não era aquela pessoa que ela esperava, sabia que meu amor nunca poderia ser devolvido por alguém que não sente como eu, eu sempre soube…

Agora tudo que eu quero é um amor simples, leve, com alguém que verdadeiramente me admire, que queira ouvir o que eu tenho pra dizer mesmo que eu repita mil vezes a mesma coisa, que entenda que do nada eu vou chegar com a pergunta mais aleatória possível sobre um assunto X, que sabe que eu posso do nada falar por 2 horas seguidas sobre um novo musical ou sobre um capítulo novo de One piece, porque essa simplesmente sou eu. Alguém que entende meu amor por Psicologia e Sociologia e não ligue de ouvir eu falando sobre tudo que eu aprendi. Alguém que possa me abraçar quando eu disser que não preciso mais de ninguém, alguém que ria das coisas que eu falo, que seja apaixonado pela vida assim como eu, mas que entenda meus dias nublados e esteja ali por mim, alguém que eu possa andar de mãozinha dada na rua e entenda que quando tá muito calor é foda, alguém que me escute até quando eu não fizer mais sentido algum, algo que pode acontecer constantemente, alguém que valorize quem eu sou por dentro e por fora, me veja como uma grande gostosa, que entenda os mil hobbies que eu arranjo por semana e que queira realmente construir uma história. Eu não quero mais estar por estar, eu quero 100%, não me contento mais com 10%, 50% e nem 95%. É como diz aquele texto que ouvi faz tanto tempo: ‘’Migalhas de amor, não quero, nem dou’’.