Depressão

1 Capítulo Único - Depressão


Notas iniciais
Baseado em factos e sentimentos reais.

~~* Depressão *~~

Dizem que as pessoas que sofrem de depressões, sofrem. Mas eu sempre me perguntei… e as pessoas que convivem com alguém que sofre de depressão? Sofrem? Não correm o risco de terem uma depressão? Não são afectadas também?

Sinto-me sufocada.

Quero chorar…

Sem parar…

Não tenho depressão alguma. Pelo menos… creio que não. Mas convivo com alguém que sofre. Vejo-a chorar e abraço-a. Vejo-a com um sorriso fraco e abraço-a. Vejo-a zangada… e não sei o que fazer. Não sei o que fazer…

A vida continua.

Mas as lágrimas não se detêm.

Mas eles não as vêem.

Não posso chorar à frente dela, porque não a quero preocupar mais. Não posso desabafar com ela. Não mais. Esperei que o tempo passasse e ela melhorasse. Mas enganei-me. O tempo tornou tudo ainda mais insuportável.

Olho-me ao espelho.

Não sou eu quem ali está.

Não me conheço. Quando desaparecerá?

Por vezes, penso que a odeio. Cada vez mais, a convivência com ela me irrita. Já não suporto o seu bem-estar e sua felicidade, por vezes, fingida. Já não suporto a sua má disposição. Tudo o que faz… provoca-me raiva. Odeio! Simplesmente, não suporto.

Sinto-me sufocada.

Quero estar sozinha.

Mas ela quer companhia.

Evito estar com ela. Peço a Deus as forças que não tenho, a paciência que perdi… e o amor que… penso que não existe. Chego a casa e ela está lá, à minha espera. Uns dias, com lágrimas que deslizam pelo rosto… Outros, com um sorriso… Ainda assim… Odeio chegar a casa.

A vida continua.

Ainda estou com ela…

Ainda que ela não esteja comigo.

Diz-me que eu estaria melhor sem ela. Diz-me que eu seria mais feliz, se ela se fosse embora. Diz-me que se sente sozinha, que está sozinha. Diz-me que tem medo… “De quê?” eu pergunto. “Não sei…” ela responde, num sussurro.

Olho-me ao espelho.

Não vejo nada.

Cobardia. Medo. Nada.

Zangamo-nos. Ouço-a chorar na cozinha. Antes… eu descia as escadas e consolava-a. Agora… apenas abafo o seu choro sofrido, com uma música calma e triste… As músicas alegres, deixar-me-iam alegres… Prefiro as tristes… assim, choro e sofro. Castigo-me a mim mesma… culpo-me mesmo quando sou inocente.

Já não aguento!

As lágrimas caiem pelo meu rosto.

E não tenho a quem pedir ajuda!

Ela veio ao meu quarto. Falou comigo… Perguntou-me porquê. Mas eu ignorei. Fingi que ela não existia, que não era ninguém. Não posso mais ouvi-la! Não consigo, não suporto. Grito por ajuda… mas ninguém me ouve!

Sinto-me sufocada.

Estou sozinha…

E o sofrimento não pára.

Chorava. Atropelava-se nas suas palavras chorosas. Falei… Gritei. Senti raiva. Gritei. Discutimos uma e outra vez. Por causa de uma mísera situação. Não aguento. Senti-me a afundar mais e mais. Um buraco no meu coração aparece… A frieza e o desprezo preenchem-me. Sinto medo. Torno-me em algo que não sou… Odeio no ser em que me transformei. Vêem-me como uma pessoa alegre e despreocupada, mas não passa de uma mentira.

Minto aos que me rodeiam.

Finjo o que não sou,

Esquecendo no que me tornei.

Desde que a vejo sofrer… Sofro também. Choro em lugares escondidos e limpo as lágrimas… e desenho um sorriso quando alguém aparece.

Já não suporto mais esta vida… Quero sair de casa e caminhar pelas ruas sem destino… Sem parar, até sentir as dores dos meus pés descalços e feridos. Procuro a paz… Um lugar… onde não tenho que sofrer. Apenas quero… preencher o meu coração, com algo que perdi… que já não sei o que é… já não me lembro.

Apenas caminho…

Na direcção do Desconhecido.

Quem sou?

Mas não saio. Porque só de pensar… Dói-me o coração. Porque, apesar de tudo, sei que não posso abandoná-la. Porque tenho medo de realmente me sentir sozinha. Porque a vejo viva na minha frente. Porque ela precisa da minha ajuda. Ela chora e dou-lhe o meu sorriso… apesar de chorar profundamente no meu interior. Mas ela está lá. Viva, ao meu lado… E diz-me que mudei… Que a vida me pregou uma partida.

A vida abandonou-me. A felicidade saiu de mim num suspiro. Vivo num mundo onde o céu é nublado e a chuva cai sem cessar. O chão que piso é cinzento, húmido e triste. Caminho nele… procurando a luz.

Eu sou…

Uma pessoa que convive com outra,

Que sofre de depressão.

Que precisa do meu sorriso.

Que precisa das minhas lágrimas.

Que precisa da minha mão amiga.

Que precisa das minhas palavras amorosas.

Que, simplesmente, precisa de mim.

Mas… e eu? Também quero um sorriso. Uma mão amiga que se estenda na minha direcção. Umas pequenas palavras que soltem o meu sorriso. E ela… não me pode oferecer isso. Não mais.

Sinto-me cansada, mas ainda estou lá.

Amanheceu… e permaneço lá.

Anoiteceu… e ainda aqui estou.

A vida continua… e ainda caminho ao seu lado.

Estou aqui… mesmo aqui.

Preciso de forças para continuar… Mas ninguém me rodeia no mundo cinzento. Sei que estou sozinha. Que não há luz no meu caminho. Não sei como pedir ajuda… Não têm como me ajudar. Sento-me no chão molhado… esperando pela luz. O cansaço consome o meu corpo. Fecho os meus olhos lentamente.

Ainda aqui estou…

Permaneço… aqui…

Dando-te… a minha mão.

O meu corpo cai exausto de caminhar. Já não há nada cinzento… Agora… tudo é escuro.

Sozinha, caminho atrás de ti.

Para que quando caias…

Eu te segure.

Mesmo que… haja um abismo atrás de mim.

Apenas eu… cairei nele.

É por isso… que desta vez…

Não te dou a minha mão.

Dou-te o meu sorriso.

O que acontece às pessoas que convivem com aquelas que sofrem de uma depressão? Também elas sofrem… sem depressão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!