Depois que saí de casa
1 Como tudo começou
Notas iniciais
Olá. Meu nome é Charlotte, tenho dezessete anos e moro com meu tio Olaf. Vivo aqui há sete anos e justamente sobre isso que falarei.
Era maio, faltavam três dias para o meu aniversário de dez anos. Minha mãe estava grávida da minha irmã Henrietta e meu pai passava horas no escritório. As coisas estavam estranhas. Lembro-me que perguntava à mamãe o motivo de papai passar tanto tempo no escritório, ela me dizia que ele estava ocupado com o trabalho.
Numa noite de quarta-feira, estávamos todos jantando. Meu pai tinha a expressão preocupada. Na TV, passava um comercial de uma linda boneca que respondia o que falávamos. Era algo completamente surreal e inteligente. Assim que vi, pensei que a evolução existente nos filmes havia chegado à realidade.
Na quinta, não fui à escola e nem papai ao trabalho. Mamãe disse que eu não precisaria me preocupar. Estavam bem mais calmos. Brinquei o dia inteiro! Não me lembro até hoje de ter brincado tanto como naquela quinta-feira. No final do dia, jantar. Sentamos à mesa e perguntei ao meu pai o motivo de ele não estar trabalhando, ele me respondeu que estava desempregado, mas que já havia arrumado algo para começar na segunda, um emprego até melhor que o antigo.
Quando a sobremesa foi servida, minha mãe comunicou que tio Olaf passaria uns dias conosco. Chegaria no sábado, dia do meu aniversário. Eu sabia pouco desse tio. Até então, o tinha visto pouquíssimas vezes, contudo, eu gostava dele. Tudo que tinha em mente era os presentes maravilhosos que o homem me levava e toda a fortuna que ele tinha. Fiquei feliz, pois imaginava que ganharia algo muito bom, talvez até a boneca do comercial!
Na sexta, também não fui à escola. Perguntei o motivo e mamãe falou que eu estudaria em outro lugar. Fiquei frustrada, pois sequer tive tempo de me despedir de meus amigos! Fechei a cara para ela o resto do dia e fui brincar com meu cão Bob no quintal.
— A mamãe é uma besta! – resmunguei para o cachorro – Fui na quarta para o colégio e combinei que na sexta faríamos um concurso de miss da sala! Sabe o quanto eu queria ganhar, Bob? Estou muito chateada! Agora eu nem posso explicar o motivo! Com certeza aquela chata da Margot ficou com o título, mas EU sou muito mais bonita que ela. Não é justo!
Sentei numa pedra a qual estava lá desde que me entendia por gente fazendo cara feia.
— Sabe de uma coisa, Bob? Um dia, eu hei de ser miss de verdade!
Chegou o tão esperado dia! Acordei por volta de umas dez da manhã e desci as escadas. Meus pais cantaram “parabéns a você” assim que me viram. Recebi um beijo dos dois e vi uma mala encostada no canto da sala. Sentei à mesa para tomar café. Eu sabia que tio Olaf havia chegado, mas não o via em lugar nenhum. Resolvi perguntar, pois pensava no presente que ganharia.
— Mamãe, tio Olaf já chegou?
— Chegou, meu amor. Ele só foi resolver algumas coisas no centro da cidade e já volta.
Meu pai estava tenso como em dia anterior. Perguntei se ele havia perdido o emprego de novo. Ele sentou ao meu lado e pegou em meu ombro.
— Filha, você já tem dez aninhos, não é? Responda, você gosta do tio Olaf?
— Não sei, papai – respondi –, eu gosto dos presentes que ganho.
— Já pensou em ganhar esses presentes sempre?
— Seria um sonho! – falei sorridente.
— Charlotte, a partir de hoje, você vai morar com o tio Olaf.
Fiquei espantada com a notícia. Como morar com o tio Olaf? Eu nunca havia nem saído sem meus pais, como eu poderia morar com um homem cujo contato havia sido muito pouco?
— Como assim, pai?
Ele abaixou a cabeça, envergonhado.
— Mãe, isso é verdade? – perguntei.
— É sim, Charlotte. Mas veja pelo lado bom! Pense em tudo que você terá morando com seu tio! Eu e seu pai só estamos fazendo isso porque a amamos!
— Eu também amo vocês! Amo Henrietta e amo Bob também! Como podem fazer isso comigo?
— Queremos que tenha tudo que sempre quis...
Onde eles estavam com a cabeça? Por acaso eu parecia algum tipo de mercenária para abandonar minha família em troca de brinquedos?
— Não, eu não quero! – supliquei – Papai, não deixe isso acontecer! Eu o amo! Por favor, não permita isso!
Meu pai estava com os olhos marejados. Minha mãe escondeu o rosto com as mãos e chorou. Não há nada pior que ouvir os soluços da própria mãe. Ofereceram-me água. Ao bebê-la, peguei no sono, acordando num lugar completamente diferente.
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