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Morar sozinha não era tão difícil depois de um longo tempo se acostumando com tal coisa, só que meu principal problema era a desorganização. Minha desculpa era meu horário não fixo de trabalho. Durante 2 anos estudei como uma louca para atingir o patamar que queria na fotografia, o fotojornalismo. Meu curso no Museu de Arte Moderna de Nova York estava acabando e agora eu teria que formar meu nome dentro do ramo. Meu Deus, e eu achando que já estava difícil.

No MoMA, existiam três estagiários, e como nosso tempo no museu chegava ao fim, ganhamos uma exposição pequena e especial de alguns de nossos trabalhos para a área que cada um escolheu no final de tudo. Era eu, brasileira, seguindo o Fotojornalismo. Suzie, inglesa e voltada à fotografia de moda e retratos. E Franco, italiano, por quem tive uma leve queda — ou talvez um abismo — durante meus primeiros meses no museu — e ainda tenho toda vez que ele dá um sorriso, — voltado para fotografia arquitetônica. E então era o dia de nossa exposição. O departamento de fotografia teria nossas fotografias penduradas em suas paredes brancas e abririam a casa à noite para convidados e bons amantes da fotografia, apenas para nós. NÓS TRÊS.

Eu me sentia terrivelmente assustada, teria uma multidão de pessoas (umas trinta ao máximo, mas eu sempre exagero), em minha frente para que eu explique minhas fotografias. Meus pais que prometeram chegar à tempo, ligaram horas atrás avisando que não conseguiam sair do aeroporto do Brasil por neblina. Eles não viriam e eu não teria minha mãe para dizer: "Tudo vai dar certo!" ou meu pai para fazer as piadas toscas dele que me fazem rir por serem toscas.

— Calma Clara, ache primeiro seu celular e depois se preocupa com o resto.

Eu havia perdido o celular e com isso, havia perdido a noção da hora. Estava com um vestido — coisa rara de eu usar — preto de mangas médias, ele tinha um tecido grosso e quente, não sei até onde aquilo me ajudaria ou me sufocaria. Ele estava de uma maneira confortável em minha cintura e tinha a saia solta que ia até um pouco acima dos joelhos, claro que eu usava um short por baixo. Nunca na minha vida havia usado um vestido ou uma saia, sem um short por baixo. Meu cabelo cacheado e curto caía sobre meu olho me atrapalhando na hora de procurar o celular revirando os cobertores que havia deixado no sofá, já que dormi tentado decorar o que falaria nessa noite. Joguei o cabelo para trás. Lembrei que precisava dar um jeito nele. Corri para o banheiro olhando minha aparência terrível no espelho. Não tinha muito o que fazer, o deixei solto como já estava, com seu corte em V, a parte da frente mais curta e a da frente mais comprida, ele continuava invadindo meu espaço e se agarrando em meu pescoço.

— Não tem jeito.

Resmunguei me olhando no espelho. Passei o rímel que usava fazia décadas, sem saber se estava vencido, não tenho o costume de usar maquiagem. Corri para o quarto, e sem arrancar as meias dos pés procurei pelas minhas botas pretas de cano curto, um laço preto em sua frente e um salto confortável, para que não houvesse problemas de queda.

— Falta o maldito celular.

Voltei para a sala parando por um momento e olhando em volta, lá estava ele na estante, belo e branco brilhando para mim. O agarrei com força. Já estava pronta. Chequei se havia passado desodorante e perfume. Feito! Calçado os sapatos. Feito! Arrumado o cabelo da melhor maneira possível. Feito! Encontrado celular. Feito! Colocado brincos. Feito!

— Ótimo. Estou com tem...

Olhei para o celular antes de completar a frase.

— Merda!

Bati a porta do apartamento velho e desci as escadas correndo — já que não temos elevador neste condomínio maravilhoso e o mais barato que pude encontrar em Nova York perto do museu de arte moderna.

Cheguei a calçada já pensando que não poderia suar, andei alguns metros antes de um táxi passar por lá. Abanei a mão para o primeiro táxi que vi. Pedi para que me levasse ao MoMA, e só então consegui respirar...até chegar lá.

O táxi parou. Continuei olhando pela janela e respirando rapidamente, como se fosse ter um enfarte a qualquer momento.

— Moça, chegamos.

O taxista avisou.

— Sim, eu sei.

Respondi ainda olhando para a iluminada porta do museu através da janela.

— E a senhorita não vai descer?

Ele perguntou impaciente, já que eu estava atrapalhando seu trabalho e o impedindo de fazer mais corridas antes que o dia acabasse.

— Sim, claro. Desculpe.

Respondi rapidamente tateando o banco. Minha bolsa. Era isso que havia esquecido.

— Ai droga. Moço, eu esqueci minha bolsa em casa, e lá estava meu dinheiro.

O homem se moveu impaciente no banco.

— Mas, espere aqui fora, só um momento, por favor.

Eu praticamente implorei enquanto saía correndo do carro. Subi as escadas rapidamente, precisava achar Sarah mais do que nunca. Sarah era minha chefe e tenho certeza que ela faria o favor de pagar essa corrida para mim, e depois eu a pagaria. Passei pelas pessoas rapidamente, sem olhá-las. Eu procurava Sarah, apenas isso. Sabia que ela deveria estar no escritório.

— Clara!

Ouvi alguém chamar-me ao mesmo tempo em que agarraram meu pulso de leve, me fazendo interromper minha missão.

— Oi.

Disse ofegante e assustada me virando para ver quem era. Joseph Heid, um dos chefes do departamento, um dos nossos chefes, assim como Sarah, mas não estava todo dia conosco, então não é tão próximo a ponto de emprestar-me dinheiro.

— Quero lhe apresentar para uns colegas.

Ai droga! Sr. Heid quer apenas ajudar, ele tem apostado todas as suas fichas em nós três, os melhores dos melhores, de acordo com ele. Ele, Sarah Payne e o outro chefe, Henry D'Agosto, — as três pessoas mais importantes do departamento de fotografia — haviam nos escolhido à dedo e sempre afirmavam que tinham muito orgulho disso, isso quando não estavam brigando conosco, "para o nosso bem".

— Sr. Heid, eu sinto muito, mas preciso urgentemente encontrar Sarah.

Senhor Joseph torceu o nariz.

— Você vai perder esta oportunidade?

Meu coração acelerou. Sr. Heid sabia como pressionar-nos e eu odiava quando ele fazia isso. Pensei que o taxista poderia esperar.

— Não.

Sussurrei. Sr. Heid sorriu e chamou seus colegas. Os homens se aproximaram, um deles eu conhecia muito bem, minhas pernas falharam e minha boca se abriu. Era ele! O meu maior ídolo do fotojornalismo, a minha maior inspiração, era ele! Sebastião Fontes, simplesmente o melhor fotógrafo brasileiro.

— Quero apresentar os senhores á nossa estagiária que escolheu a área de fotojornalismo, como os senhores. Clara, esses são Michael Vegas e...

— Sebastião Fontes.

Completei com um sussurro que foi ouvido. O velho sorriu à minha frente. O homem tem setenta e cinco anos e parece ter sessenta e cinco no máximo. Ele estendeu sua mão sorrindo, a apertei firmemente retribuindo o sorriso. Fiz o mesmo com o outro fotógrafo que parecia ter a mesma idade. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, olhei ao lado e percebi um bigode conhecido abrindo a porta.

— Ai meu Deus, o taxista.

Comentei.

— Hã?

Sr. Heid perguntou. Eu não posso pedir dinheiro à ele e muito menos na frente destes fotógrafos conhecidíssimos.

— Co-licença senhores. Eu preciso...preciso ir ali rapidinho.

Falei atrapalhada percebendo que o taxista já havia me encontrado. Caminhei rapidamente entre as pessoas, tentando desviar enquanto o homem me seguia. Olhei para trás para procurá-lo, mas senti um choque contra algo. Só me faltava ter batido na parede. Pensei como em um flash, mas ao olhar para cima encontrei Franco segurando meus cotovelos e me encarando com seus olhos castanhos quase pretos. Pisquei algumas vezes. Sentia-me horrível com o efeito que esse cara tinha sobre mim, e nem sequer sabia. Ele levantou as sobrancelhas como quem esperasse que eu dissesse algo, e a trouxa, simplesmente não conseguia soltar nem sequer um suspiro.

— Senhorita, sabe quanto tempo fiquei esperando?

A voz do taxista. Olhei para trás livrando-me da proximidade com Franco.

— Senhor, me desculpe mesmo. Eu estava procurando minha chefe e...

Tentei me explicar. Sorte que ninguém podia nos ouvir, haviam muitos barulhos de conversas em volta.

— Clara, o que está acontecendo?

Franco perguntou atrás de mim com seu sotaque italiano. O olhei por um momento tentando planejar algo para começar a falar, mas o homem do bigode interrompeu-me.

— Madame, quero meu dinheiro, não posso ficar lá fora lhe esperando e nem com meu carro parado.

Eu o olhei e depois passei o olho pela sala procurando por Sarah.

— Vamos lá fora, senhor. Eu lhe pago.

A voz grave de Franco sobressaiu-se sobre todos os sons ao redor. Me virei rapidamente o encarando com as sobrancelhas franzidas. Franco deu uma piscadela. O taxista concordou e os dois caminharam à porta. Corri seguindo-os e saindo para o vento frio da noite. Lá fora, assim que a porta de vidro se fechou, o som também abafou e estava feito um bom e confortável silêncio.

Franco desceu as escadas junto com o taxista e ao lado do táxi enquanto o homem abria a porta do motorista, Franco tirou a carteira do bolso interno do terno que vestia e pagou a quantia que o homem lhe disse. Eu continuei no topo da escada, com vergonha demais para proceder. Eu e Franco nos conhecíamos faziam praticamente dois anos, mas não éramos próximos, nem um pouco. Eu tinha meu departamento de fotojornalismo, Suzi o dela e Franco também, isso porque eu e Suzi ainda somos mais próximas, Franco sempre foi mais misterioso. Não éramos nada unidos e não fazíamos mais nada além de às vezes termos algumas refeições juntos.

Franco subia as escadas em minha direção. Ele parou alguns degraus à minha frente. Respirei, finalmente.

— Desculpa. — olhei para baixo. — E obrigada.

Eu ainda olhava para meus pés quando ele gargalhou. Levantei o olhar rapidamente tentando entender no que ele via graça.

— Não tem o que agradecer e nem porque pedir desculpas Clara.

Um sorriso tímido surgiu em meus lábios. Eu segurava minhas mãos em frente ao meu corpo, como uma criancinha assustada. Franco continuava com seu sorriso parado em minha frente, com suas mãos nos bolsos de sua calça social, por baixo do paletó. Fiquei sem graça e desviei o olhar.

— Vamos entrar?

Comentei voltando-me à porta. Franco a empurrou antes de mim.

— Depois eu te pago, ok? Eu prometo.

Falei olhando para cima enquanto Franco segurava a porta com a mão acima de minha cabeça, já que ele era bem mais alto que eu. Ele riu de novo.

— Eu acredito.

Novamente as conversas gritaram em meus ouvidos. Finalmente eu olhei como o lugar estava cheio, não eram apenas vinte pessoas. Ó Deus.

— E então apresentaremos esta noite, nossos mais jovens talentos da fotografia no MoMA.

Era a voz de Sarah. Olhei para o lado e Franco já não estava mais lá, vi que ele se posicionava ao lado de suas fotos, era isso que eu deveria fazer também. Encontrei minha parede e me direcionei para lá com passos calmos, sendo educada e pedindo licença à todos que começavam a prestar atenção em Sarah e suas palavras que ecoavam pelo salão iluminado em certas partes, e escuro em outras, para dar uma sensação diferente aos visitantes.

Fixei-me em meu pequeno pedestal e ali estive, tentando não tremer, enquanto Sarah falava e falava ao lado de Sr. Heid e Sr. D'Agosto. Eu apenas olhei para ela, se olhasse para os lados, enlouqueceria de ver tantas pessoas ali, também me vendo.