Depois que a neve caiu

1 Capítulo Único


Finalmente deitado nessa cama. Não sei quanto tempo fiquei sorrindo para o teto enquanto a lembrança dos últimos dias passava em minha mente, mas sei que adormeci e sonhei de novo com a dona dos cabelos ruivos. Estava exausto devido a viagem e por passar uma boa parte da madrugada jogando com Sirius, só que quando meu celular tocou naquele domingo de manhã eu acordei na hora.

—Alo? — atendi coçando meu olho.

— Está com voz de sono ein, Jay — foi aquela doce voz que me fez sentar na cama surpreso. Não acreditei que ela estava mesmo me ligando então tive que olhar o nome salvo rapidamente — Desculpa se eu te acordei.

— Está tudo bem, passei a noite acordado com Sirius.

— Então volta a dormir, depois conversamos — aquilo era uma ponta de tristeza na voz de Lily Evans ou eu estava louco?

— Não, já já vou ter que acordar mesmo e ter o natal que não tivemos — ri e consegui imaginar o sorriso dela na outra linha — então já está com saudades, Lírio? — instintivamente abri o sorriso torto que sabia que irritava ela — E a regra dos três dias? Só faz 24 horas que nos vimos.

— Não acredito nessas regras bestas — era incrível como a voz dela acelerava meu coração — foi estranho acordar hoje de manhã sem ver seu sorriso idiota — percebi que ela evitou falar que sentia minha falta, mas acho que era o melhor que conseguiria de Evans.

— Sentiu falta dos meus braços em sua volta na hora de dormir foi? — era instintivo provocar ela, por mais que em alguns momentos daqueles três dias de nevasca eu tenha conseguido não fazer isso. E eu fiquei feliz que ela sentiu falta disso, já que para mim foi estranho dormir naquela noite fria sem ter seu pequeno corpo próximo ao meu para ficarmos quentes enquanto a gente assistia um filme de natal.

— Está mais para sentir falta das suas panquecas — eu poderia apostar que ela revirou os olhos e sorriu — as da Petúnia são horríveis.

— Prometo que depois que você aceitar a casar comigo vou fazer panquecas todo domingo, será o dia de panqueca.

— Precisaria ter uma vantagem em casar com você né? — Aquilo me surpreendeu. Tudo bem que eu chamar ela de Lírio e não ter sido corrigido era uma grande novidade, mas ela nunca brincou assim antes. Confesso que me deu esperanças, Remus e Sirius sempre falam que sou muito emocionado.

— Eu ser um tremendo gostoso não é uma vantagem? — bati na minha testa na mesma hora, eu sempre falava a coisa errada para ela e com certeza tinha quebrado o clima.

— Isso passa, mas talentos culinários não — pera, Lily Evans tinha confirmado que eu era um tremendo gostoso? Eu precisava de uns segundos para me recuperar — Potter? Tá aí? — só que talvez foram segundos demais.

— Estou sim — eu senti meu coração bater forte — Então vou aprimorar minhas receitas já que o caminho para seu coração é pelo estômago — brinquei.

— É um bom jeito de alcançá-lo — ela riu, aquele som fez meu coração errar uma batida ou pelo menos era como eu me sentia.

— Devia ter me dado essa dica antes, teria evitado muitas discussões — de novo o riso dela, era o meu som favorito de todo o mundo — então como vai o barquinho pelo Caribe? — queria ouvir aquele riso de novo e consegui. No primeiro dia juntos nós inventamos os nossos planos de natal que foram estragados por ficarmos presos na fraternidade devido à neve ou melhorados, depende do prisma que você vê. Mas o caso é que ela tinha dito que ia para o Caribe e eu, bem, talvez mentiras não sejam meu forte quando estou com Lily, não que eu me importasse de contar sobre a viagem que ia fazer, mas como ela falou Caribe eu tinha que ser criativo.

— Vai bem e a Lua? — consegui o que eu queria então fui para o banheiro, talvez se encaminhasse a conversa certo eu veria aquele sorriso.

— Confesso que o módulo lunar é muito confortável — chequei o meu cabelo no espelho e lavei muito rapidamente o rosto.

— Você ainda não sabe o que é um módulo lunar né?

— Claro que eu sei! Está duvidando de mim? — voltei para o quarto e me joguei na cama, estava dando certo.

— Eu to — ela ria muito do outro lado da linha.

— Quer ver? — agora eu mordi o lábio nervoso e esperançoso.

— Quero — eu respirei fundo uma vez e a liguei por vídeo. Ela atendeu rindo, eu podia ficar horas vendo aquele sorriso e não iria cansar — A lua se parece muito com um quarto comum — Lily brincou e eu sorri meio culpado.

— Okay não estou na Lua — eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto — tudo o que sei sobre o Espaço veio de filmes — ela riu de mim e percebi que ela estava no quarto dela, consegui ver um papel de parede rosa com flores atrás dela — você também não está em um barco velejando pelo Caribe — comentei e ela assentiu.

— Sim, você me pegou — bem que eu queria — estou em um hotel em Dubai.

— Uou, que inveja.

— Queria estar em Dubai ao invés de Minnesota? — ela ergueu uma sobrancelha pra mim e eu soube na hora o porquê, nossa discussão de Verão x Inverno, mas todo mundo sabe que ela tá sendo louca e o Inverno é muito melhor.

— Nah, estou bem aqui — encontrei os olhos dela e minha boca fez o que sempre faz quando vejo aquela imensidão verde — prefiro estar aqui conversando com você — ela abaixou a cabeça só que eu podia jurar que ela estava corada — é muito mais divertido te perturbar — sorri já sabendo o que ela iria falar.

— Seu hobby favorito né? — ela levantou a sobrancelha de novo e eu ri.

— Não, de acordo com você meu hobby favorito é dar em cima de todas as pessoas da faculdade e beber até cair nas festas.

— E to errada?

— Sim, está — eu sorri pra ela — eu não caio quando bebo, só na cama, óbvio — ela revirou os olhos para mim — e eu só dou em cima de você mesmo, as outras pessoas meio que só acontece — dou de ombros e ela solta um riso fraco.

— Você é inacreditável — barulho de porta no lado dela da linha a fez vacilar o sorriso e colocar o microfone no mudo. Aquilo me deixou receoso e preocupado, mas o olhar dela quando voltou ao telefone foi pior — desculpa, onde estávamos?

— Lils, tá tudo bem? — os olhos dela estavam se enchendo de lágrimas algo que partiu meu coração porque odiava ver ela chorando, mas também me encheu de raiva sem saber quem era a pessoa culpada.

— Apenas prefiro ficar aqui ouvindo sua voz de sono do que conviver com a minha adorável irmã e seu noivo encantador — eu abri um sorriso solidário para ela. Remus sempre disse que Lily não ficava se abrindo e contando as coisas para ele sendo que são melhores amigos, mas ela confiou em mim naqueles dias e me contou um pouco da história complicada dela com a irmã — será que você consegue fazer sua mágica de novo? — eu sorri.

— Eu sou um ótimo mágico — pisquei para ela — pega seu notebook, vamos continuar a maratona de filmes de natal.

Nos dias que ficamos na casa Gryffindor, ela disse que eu tinha uma magia própria. Além de conseguir atenção de todos no lugar que entrava, eu também era capaz de fazê-la esquecer qualquer sentimento que fosse e transformar em algo para mim, normalmente era raiva ou desprezo — palavras dela, não minhas — só que depois daquele tempo juntos, agora eu era capaz de trazer felicidade e paz para o coração daquela ruiva — de novo, palavras dela, mas confesso que fiquei muito feliz com isso.

Por mais que ficar preso na fraternidade por causa da nevasca no natal estragou meus planos de ir para o Brasil ver a família de minha mãe, ficar com Lily Evans naqueles dias foi o que eu precisava para a ruiva finalmente dar abertura para mim. Talvez não conseguisse o sim que eu queria, mas naquele domingo só de serem amigos já era o suficiente. Assistimos o filme e depois ficamos um bom tempo conversando, parte de mim torcia para que meus pais não viessem me chamar e eu ficasse conversando com ela o tempo todo, só que já estava próximo ao horário do almoço e eu não tinha comido nada naquele dia.

— Por que você não era agradável assim antes?

— Eu sempre fui maravilhoso, você que não me dava abertura.

— Você foi bem babaca comigo na primeira festa, o que queria que eu fizesse? Sempre que eu via você pela universidade você era babaca com alguém — ela me olhou indignada.

— Não pode guardar rancor, Lírio — balancei a cabeça pra ela e ri — Tudo bem, eu era bem babaca no início da faculdade e tenho certeza que você me odiaria no ensino médio.

— Morgana me livre — ela balançou a mão — você deveria ser bem pior.

— Eu era — assenti, odiava admitir isso, mas tinha coisas que já fiz que não me orgulho mesmo que eu tente justificar, não deveria ter feito — mas estou melhorando.

— Melhorando? — Lily me observava tanto que mesmo sendo em ligação de vídeo eu senti seus olhos penetrarem minha alma.

— Sim, todo dia estamos sempre aprendendo e nos aprimorando, todo dia que passa temos que buscar ser a melhor versão de nós mesmos — Lils balançou a cabeça e antes que pudesse falar o que tava pensando, eu fui atacado.

Sim, Sirius veio até meu quarto me acordar pulando na minha cama. Ele é meu melhor amigo e o considero um irmão, mas naquele momento eu não queria que meus pais tivessem adotado ele já que ele me fazia cosquinhas enquanto falava coisas que eu não queria que Lily ouvisse.

—Hora de acordar, Prongs! Mama Potter tá chamando o fofuxinho dela para almoçar e disse que não vamos comer até você chegar então para de babar e sonhar com a ruiv...- tive que empurrar ele para o chão.

— Que porra, Pads — eu disse sentando na cama — eu to acordado faz horas já, avisa que já já eu desço.

— Acordado e não desceu para tomar o café da manhã? Sabia que Mama Potter fez waffles e chocolate quente né? — ah, meu café favorito!

— Eu estava meio ocupa... — droga o celular. Procurei na cama e quando peguei encontrei uma ruiva sorrindo pra mim.

— Oi Six, feliz natal — ela disse acenando pra ele, percebi que ele estava em cima do meu ombro.

— Eae ruiva, feliz natal — Sirius estava com aquela cara de "eu vou encher muito para saber todos os detalhes", grande fifi — bom, eu vou avisar que você vem daqui a pouco — ele saiu e fechou a porta, mas sem antes de jogar vários olhares pra mim me questionando.

— Desculpa por isso — tenho certeza que eu estava vermelho.

— Tudo bem, mas ele tá certo né? — senti meu corpo gelar, mas não era possível que ela soubesse que eu sonho com ela ou é? Eu falo dormindo as vezes — você precisa ir comer, bom a gente precisa — senti meu corpo relaxar e eu sorri.

— Sim a gente precisa — abri um sorriso triste sem controlar, percebi que Lily também tinha o mesmo sorriso.

— Mais tarde a gente termina a maratona? — ela mordeu o lábio, ela estava com duvida? Era isso? Mas a minha resposta era bem óbvia.

— Claro! Ainda faltam uns 3 filmes de natal da Netflix que não vimos.

— Ótimo, it's a date — ela abriu o sorriso mais lindo do mundo e eu precisei lembrar como respira — até mais tarde, fofuxinho.

— Ei só minha mãe pode me chamar assim — brinquei enquanto ela ria — até mais tarde, Lírio — desligamos, mas eu continuei com uma alegria gigante dentro de mim enquanto eu descia para comer. Acho que para sempre irei agradecer que a neve existe, graças a ela eu tinha passado um natal incrível ao lado da mulher mais maravilhosa que já vi, graças a ela eu tinha um encontro com Lily Evans.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!