Depois dos Seis
4 O homem de cabelo azul
Notas iniciais
Grimmjow Jaegerjaquez não estava entendendo nada. Fazia muito tempo que ele não ia ao Las Noches e, na última vez que estivera lá, o lugar estava em ruínas. Também, depois da derrota contra os shinigamis, aquele lugar deixou de ser o palácio dos Espadas de Aizen e virou apenas mais um lugar qualquer no Hueco Mundo. Inclusive, não sobraram muitos Espadas. Por pouco, ele mesmo não conseguia escapar. Precisou de um bom tempo para se recuperar da última batalha que participou. Maldito Kurosaki! Se pudesse por as mãos naquele desgraçado de novo, não deixaria sobrar nada...
Sabia apenas que dos antigos companheiros sobrara Tier Halibel e Neliel Tu Odelschwanck, mas já fazia um bom tempo que não via aquelas duas. Devem ter dado no pé também como todo mundo, pensou. Quando foi a última vez que as viu? Ficou zanzando tanto tempo no deserto que perdeu a noção do tempo.
Porém, qual não foi sua surpresa quando voltou e viu o palácio exatamente como nos tempos do auge. Quem havia arrumado tudo? Contudo, quando arriscou chegar um pouco mais perto, sentiu uma reiatsu opressora. Que merda era aquela? Aizen teria voltado? Mesmo se ele tivesse escapado, era pouco provável. Aizen não parecia ser de repetir planos.
Resolveu manter distância do lugar e correu na direção contrária. Acabou esbarrado em monte de lixo. Ou pior, em Yammy Llargo. Nem sabia que aquele inútil ainda estava vivo.
— Quanto tempo, Grimmjow – Yammy não parecia muito contente em rever o colega.
— Vai se ferrar, Yammy – Grimmjow respondeu, educadamente – Nem precisava encontrar com você para estragar de vez o meu dia.
— Procurando encrenca, Grimmjow? – Yammy encarou-o de forma desafiadora – Lembra que eu posso ficar mais forte que você?
— Não tenho medo de um perdedor como você – Grimmjow cuspiu as palavras.
Yammy fechou a cara imediatamente e abriu a boca para concentrar uma grande quantidade de energia em uma esfera brilhante. Ele teria conseguido liberar um cero poderoso, mas foi atingido na cara e voou longe. Yammy ficou meio atordoado com o cero jogado por Grimmjow e demorou para conseguir levantar enquanto ouvia as gargalhadas de Grimmjow.
— Espada número zero, é? – Grimmjow falou no intervalo das risadas – Eu sabia que aquela numeração não queria dizer nada. Um acéfalo retardado feito você que só fazia levar porrada pra cacete de todo mundo nunca poderia ser mais forte do que eu!
Yammy rangeu os dentes enquanto observava Grimmjow rir ainda mais.
— Vai ver você era o Espada número dez mesmo – Grimmjow continuou com as provocações – E o Aizen colocou zero para ficar mais fácil para você porque você não sabe contar.
Dando um berro, Yammy pulou na direção de Grimmjow e o atacou com os punhos. Grimmjow se defendia de todos os golpes de Yammy com sua zanpakutou. Ele não estava assustado com o arroubo de fúria de Yammy nem irritado como o parceiro. Na verdade, ele continuava a rir. E ria mais a cada golpe. Esses últimos dias haviam sido extremamente tediosos e Grimmjow precisava de uma boa briga para melhorar seu astral. Preferia alguém mais competente do que Yammy, mas dava para o gasto.
— Já cansou? – gritou só para azucrinar depois de arremessar Yammy contra algumas rochas e elas caírem levantando poeira.
— Arrogante como sempre, Grimmjow. Você está pedindo por isso – Yammy levantou em meio a fumaça e levou a mão ao punho de sua zanpakutou – Destrua, ...
Mas ele nem teve tempo de falar o nome de sua zanpakutou. Uma mancha no céu surgiu sobre suas cabeças e se alargou rapidamente. Os dois reconheceram imediatamente o que era aquilo. Uma garganta. Mas como era possível? Desde a derrota de Aizen, nunca mais foi possível abrir uma garganta no Hueco Mundo. E eles conseguiam ver através da garganta um pedaço do que parecia ser o mundo dos humanos.
— De repente, perdi todo o interesse em lutar – Grimmjow disse, encarando a garganta com um olhar psicótico.
— Eu também – Yammy também observava com um sorrisinho doentio – Que tal procurarmos uma distração mais interessante?
— Já sei até quem daria uma boa distração – Grimmjow concluiu.
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— Por favor, crianças – a professora repetia, um pouco aflita – Fiquem juntos um do outro e vão quietinhos para o pátio.
A sala de Hisana estava temporariamente interditada. Não, dessa vez, ela não havia aprontado nada. A culpa foi toda de Yasuhiko. O menino costumava mexer nas coisas de Urahara e resolveu trazer um dos experimentos do pai para mostrar na sala. Mas, nem ele e nem ninguém sabia dizer o que era aquele líquido estranho dentro de um frasco que parecia estar vivo.
— Você tem certeza do que está fazendo, Yasu-kun? – a professora perguntou, um pouco receosa e bastante assustada, ao ver o menino sacudindo o frasco e preparando para misturar com outro líquido não menos suspeito.
— Claro que sei – Yasuhiko disse, firmemente, e despejou o líquido dentro do frasco.
Houve uma mini explosão e uma gosma se espalhou pela sala, tingindo a parede e as carteiras com um verde brilhante e meio pegajoso. Depois de conseguirem desgrudar uma camada daquela gosma de cima das crianças, a professora achou melhor que todas descessem para o pátio, afinal já era quase a hora de ir embora.
— Sou-kun! Aqui – Hisana acenou para Souken. Ela estava ao lado de Yasuhiko e eles haviam acabado de chegar ao pátio.
— Hisa-chan, você ainda tem meleca no cabelo – Souken parou ao lado dos dois e puxou um pedaço do experimento fracassado de Yasuhiko dos cabelos de Hisana.
— Isso não é meleca – Yasuhiko respondeu, ofendido – Meu pai não guarda meleca.
— Mas você guarda – Hisana falou – Eu vi.
— Não guardo nada – Yasuhiko ficou com o rosto ainda mais vermelho.
— É sim – Hisana insistiu.
— Não é, não – Yasuhiko fez bico.
— É sim. É sim. É sim – Hisana repetiu.
Eles estavam tão entretidos naquela discussão inútil que não perceberam a aproximação de duas figuras sinistras pelos telhados da escola. As outras crianças sentiram e se encolheram nos cantos, assustadas. Não conseguiam ver, porém o ar ficou sufocante repentinamente.
— Não é um milhão de vezes – Yasuhiko berrou.
— É sim um zilhão de vezes – Hisana bateu o pé.
— Gente... – Souken puxava de leve a manga da camisa de Yasuhiko. Aliás, Souken estava puxando a camisa de Yasuhiko já fazia um tempinho e, quando os dois finalmente lhe deram atenção, ele apenas apontou para o outro lado do pátio.
Grimmjow e Yammy olhavam ao redor com desinteresse. Não se lembravam de muita coisa da última vez que estiveram em Karakura, mas não parecia ter mudado nada.
— Kurosaki, apareça – Grimmjow gritou – Não seja um covarde. Eu sei que você está por aqui. Eu estou sentindo sua reiatsu.
— Eu também estou – Yammy disse, olhando para os lados – E está forte.
— Não diga que, depois de velho, virou um medroso e...
Grimmjow parou de súbito porque percebeu algo incomum. Logo abaixo de onde os dois estavam, em um pátio escolar, três crianças olhavam fixamente para eles. Uma menininha de cabelos pretos e olhos grandes, um menino louro pálido e outro de cabelos pretos e lisos. A menina estava mais na frente e sua boca fazia um “O” perfeito. Aqueles pirralhos podiam vê-los? Grimmjow deu um salto e aterrissou perto deles, quase na frente dos garotos.
— O que foi? – Grimmjow perguntou de mau humor – Nunca viu, não?
— Seu cabelo é azul! – Hisana exclamou, espantada.
— É o quê?! – Grimmjow não esperava por essa reação.
— Eu sei todas as cores – a menina começou a contar nos dedos – Azul, amarelo, verde, laranja...
— Ei, ei! Ó, pirralhada – Grimmjow interrompeu a fala dela – Não estou com paciência para vocês! Sumam daqui!
— Ó, Grimmjow – Yammy berrava de cima do prédio – Virou babá agora? – e deu uma gargalhada idiota.
— Babá da sua mãe, se você tivesse uma – Grimmjow respondeu e caminhou na direção das crianças – Eu vou mostrar quem é babá...
De novo aquela sensação. Grimmjow sentiu que a reiatsu de Ichigo ficou mais forte. Olhou para os lados, esperando ver o ruivo pular de algum lugar em cima dele. Parecia não haver mais ninguém naquele pátio, exceto por aquelas crianças. Observou ao redor, desconfiado. Devia ser só impressão. Afinal, fazia muito tempo desde a última vez que encontrara Ichigo. Será que ainda conseguia reconhecer a reiatsu do shinigami?
— Qual o problema, Grimmjow? – Yammy ria igual a um bobo – Tá com medo das crianças?
— Cale a boca, imbecil – rosnou para Yammy e voltou seus olhos maliciosos contra as crianças – E quanto a vocês, fedelhos...
Opa! Grimmjow sentiu a reiatsu de Ichigo de novo. Tinha certeza disso. Havia outras reiatsus misturadas, mas ele estava no meio delas, talvez tentando se camuflar. Ele analisou tudo ao redor, procurando de onde poderia estar vindo aquilo, até seus olhos recaírem sobre as crianças. Parecia até que estava...
— Grimmjow! Temos companhia – Yammy o despertou de seus pensamentos.
Deslocando-se velozmente pelos telhados de Karakura, era possível sentir a reiatsu de Yoruichi Shihouin aproximando-se perigosamente do local. Yammy sentiu primeiro porque estava em um lugar mais alto, longe das crianças. Os dois espadas não conseguiam entender como eles poderiam ter sido descobertos, mesmo após ocultarem suas reiatsus. O que eles não sabiam é que não haviam sido descobertos ainda. É que, desde o nascimento de Yasuhiko, Yoruichi revelou-se uma mãe obsessiva e neurótica, quer dizer, cuidadosa e atenciosa. Gostava de checar se o filho estava bem de meia em meia hora, sem ninguém saber, claro. Nem mesmo Kisuke.
— Vamos embora, Grimmjow – Yammy o chamou, ao lado da garganta – Não queremos que esses shinigamis intrometidos nos descubram agora. Não, antes de acertar as contas com Ichigo.
Grimmjow continuou no mesmo lugar, olhando para as crianças.
— Vamos logo, Grimmjow – Yammy berrou – Que foi? Gostou de ser babá, é?
— Vá à merda, Yammy – Grimmjow deu uma última olhada nas crianças antes de se dirigir na direção da garganta – Dessa vez, passa. Mas eu volto.
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