Era manhã. A luz do sol invadia o quarto. Me sentei na cama meio tonta..meus olhos varreram cada canto do quarto para ver se achava Marcos ou a Mina. Sem sucesso.

Não demorou muito e a porta do quarto se abriu. Era a mãe do Marcos.

—venha, vamos comer alguma coisa.

Eu a segui. Tomamos um um ótimo café. Ela havia feito chá com limão e um bolo simples bem fofinho.

—Obrigada pelo café -Eu disse me levantando.

—Aonde vai? -Ela disse

—Ver meu... namorado. -Derek não era meu namorado era um amigo que me beijava, mas explicar isso é chato e complicado.

—olha ..nem sabia que você estava namorado...

—Ninguém sabe, não estou pronta para dizer ainda....ficaria muito grata se não contasse a ninguém.

—Não se preocupe comigo, não contarei nada. Quando Marcos chegar da escola vou dizer que foi ver seus amigos Okay?

—obrigada -eu disse com um sorriso tímido.

—Agora vá. Mas volte as quatro...para o enterro.

Ha o enterro....uma das partes mais zoadas de se perder alguém. Eu nunca tinha ido em nenhum, a única coisa que eu sabia de enterros era o que eu via na TV.

Subi e me troquei, havia uma mochila com algumas roupas que não eram minhas, pelo cheiro familiar percebi que eram da Milena. Vesti um shorts uma camiseta xadrez e coloquei um tênis. Sai da casa do Marcos. Não sei que horas eram, mas pelo sol escaldante imagino que seria quase meio dia. Fui para a escola, fiquei um pouco afastada esperando o horário da saída.
Eu não sabia ao certo por quê eu estava indo encontrar o Derek, o que ele poderia fazer por mim? Eu estava com um vazio no peito, existia uma dor que não desaparecia, e aquilo estava me matando, nem chorar eu conseguia, porque a culpa me consumia. Enquanto meu pai estava sendo morto, eu estava me drogando ,bebendo dançando e flertando com a namorada do meu amigo. Era para eu estar em casa, eu devia estar lá, tenho certeza que aquele ladrão entrou pela janela que eu deixei aberta ao sair. E aquilo doía tanto, mas tanto, que eu já estava começando a ficar enjoada.

O sinal tocou. E as pessoas começaram a sair. Não demorei muito pra avistar Derek, Ísis e o J. Acenei, e eles vieram até mim.

—oie -Isis disse me abraçando, e eu nem lembrava do que aconteceu entre nos duas

—Que bom que ainda não se matou -J falou brincando, e me deu um abraço. Ai eu lembrei do que aconteceu com a Ísis.

—Quer ir pra casa assistir um filme... sei lá -Derek dizia. Ele estava tentando ser legal devido a minha situação.

—Eu passo, mas aceito sair pra beber. -Eu disse e Derek abriu um sorriso.

—Consolar com bebidas é minha especialidade -Ele disse me abraçando pela cintura.

—Vamos para minha casa? Meus pais estão no trabalho. A gente come algo e depois sai pra algum lugar. -Isis disse prendendo o cabelo.

Concordamos. Estávamos de saída quando um cara chamou por Jason.

—Podem indo. Já vou -Jason disse dando um beijo na testa de Isis e então saiu.

Não sei se foi só eu que percebi, mas isso acontecia muito. Jason deixar Ísis por um comprador. E eu via no rosto dela que ela ficava puta da vida por causa disso.

—Vamos logo então. -Isis disse meio desanimada.

Fomos até sua casa, não demorou nem dez minutos e Jason chegou.
—J você pode ir comprar pães Doces ? Vou fazer o café enquanto isso -Isis disse sem olha-lo, pegando uma panela do alto do armário.

Ele riu. Foi até ela e a abraçou por trás, e começou a tentar beija-la. Acho que era uma forma de fazer a pazes.

—Hey me solta seu safado! -Ela disse batendo a panela na cabeça dele, ela parecia nervosa. Mas deu uma gargalhada por causa do barulho que fez e da cara de boboca que ele produziu.

—Eu te pego garota -Ele ameaçou com um tom malicioso. -Eu vou lá então, vamos Derek?

—Claro e vamos comprar leite porque não gosto de café puro. -Remungou Derek antes de sair.

Ele me fez um thauzinho e saiu. Quando a porta fechou eu e Ísis no encaramos. Ela começou a rir.

—Não se preocupe com o que aconteceu, eu meio que te provoquei né? Foi mal -Ela disse enquanto colocava a agua para ferver.

—Somos amigas e aquilo não foi nada.

—Isso -Ela concordou. -Olha eu acabei de sair da aula de educação física, se importa se eu tomar um banho? É rápido, volto antes da agua ferver.

—Vai lá -Eu disse me sentando na mesa.

A casa era silenciosa, eu nunca gostei de silêncio, porque ele me faz pensar e naquele momento eu não queria pensar em nada. comecei a sentir aquela dor novamente.
Ouvi algumas portas abrindo e fechando, algumas passos lentos e por fim o barulho do chuveiro. "O quão perto é o banheiro? " fiquei me perguntando. Comecei a seguir o barulho. Ao lado da cozinha tinha um corredor pequeno com apenas duas portas, no fim havia uma entrada para a sala. A primeira porta estava aberta, era um quarto, provavelmente da Ísis, e a outra porta estava encostada e era de lá que vinha o barulho do chuveiro. Pensei em entrar, mas isso não fazia o maior sentido então apenas me aproximei para fechar a porta. Foi ai que eu ouvi. Ela estava chorando. O chuveiro estava ligado mas ela não estava no banho. Pela fresta da porta eu vi ela, apenas tinha tirado a blusa e parecia reunir forças em meio a tanta tristeza para tirar o resto.
Eu entrei no banheiro e ela levou um susto. Limpou os olhos, e quando ia dizer algo eu a beijei, não queria que ela falasse nada. Sem perceber nossos beijos nos levaram para de baixo do chuveiro. E quando a agua caiu sobre nós , paramos e nos encaramos.

— Eu não sei o que é isso -Ela disse e eu não soube decifrar sobre o que ela falava exatamente.

—xiii...eu preciso que você me distraia -Eu nem ao menos percebi que eu comecei a chorar também -Não me deixe pensar...por favor.

Ela me encarou, seu olhar era triste e seu rosto confuso. Começou a me beijar e eu retribui. Nossas mãos começaram a trabalhar juntas para tirar a roupa uma da outra. Eu não sabia ao certo o que fazer quando estivesse com uma garota, mas não era tão ingênua a ponto de não ter uma ideia do que poderia trazer prazer para ela. E foi o que eu fiz. Vi seus olhos revirar de prazer e isso já pareceu bastar pra mim.
Pra ser sincera, lembro de não ter demorado muito, fomos rápidas. Ouvimos um barulho estranho na cozinha.

—É a agua que eu deixei no fogo -Ela disse entre risos percebendo o meu Susto com o barulho.

Suspirei e ela me jogou uma toalha, e se enrolou em outra. Pegou uma roupa que ela já tinha separado para ela e me deu.

— Coloque essa vou pegar outra, para mim. -Ela disse saindo do banheiro sem olhar para mim direito. Depois de uns segundos ela voltou, como se estivesse esquecendo algo, e me deu um selinho segurando de leve o meu rosto.

—Eu gostei disso -Ela disse rindo antes de sair.

Aquilo realmente me distraiu. Naquele momento eu só pensava em que desculpa ia dar para os garotos quando eles me vissem de cabelo molhado e com a roupa da Ísis.
Me vesti com um vestido soltinho e curto da cor preta e um salto branco.
Penteei o cabelo com os dedos e fui pendurar nossas roupas molhadas no varal .
Voltei pra cozinha e Ísis já estava lá preparando o café, dessa vez na cafeteira .
Ela estava com uma blusinha azul, quase no tom de seu cabelo, um shorts preto e um all star. Seu cabelo já estava perfeitamente preso em um rabo de cavalo.

—Pego minhas roupas na próxima vez...-Ela levantou uma sobrancelha -...que eu vier com os garotos -Eu complementei

—Ta certo -Ela disse com um leve sorriso no rosto.

—Isis eu sei que a gente precisa falar sobre o que aconteceu.. mas queria saber o motivo para você estar chorando aquela hora.

—não importa, nada que eu diga vai ser mais triste que a morte do seu pai -Ela dizia sem me olhar

—E desde quando isso é uma competição? -Falei indignada, suspirei e continuei -Tem alguma coisa a ver com o J? Com o trabalho dele?

—Eu até posso estar chateada com ele, mas o trabalho dele é a única coisa que eu realmente gosto nele. -agora ela me encarava, nervosa. -Por favor não se meta, não quero mais falar sobre isso.... nem sobre ...outras coisas.

—você não devia me afastar, nos somos amigas...

—ha por favor... você é dois anos mais nova, ta descobrindo as coisas agora. E logo logo vai largar o Derek por alguma garota -Ela disse e eu fiz uma cara de espanto. -Não se preocupe seu segredo está a salvo comigo

—Que segredo?

—Que você é lésbica uê

—Eu não sou lésbica, gosto de garotos.

—Não é isso que ta parecendo...de qualquer forma, saiba que eu sou muito liberal -Ela disse indo checar o café.

—liberal...-resmunguei -Se eu sou lésbica você também é -Disse por fim e parecia ser um bom argumento.

—Eu tenho um namorado e faço sexo com ele, você não pode dizer o mesmo. Acho que você nunca fez, mas pelo que eu vi com as garotas deve ser diferente, você deve ter treinado bastante com aquela mina do seu amigo.

—Isso foi desnecessário -Eu disse enquanto ouvia a voz dos meninos.

—Hey! Já estão prontas?? -Jason disse colocando sacolas na mesa

—Sim, vai ter um lance legal na rua 22 -Ísis disse recebendo J com um beijo.

Derek ficou do meu lado, não havia intimidade entre eu e ele, isso era fato. Talvez ele só fique com outras garotas porque eu não faço o que uma namorada devia fazer. Mas o que ela me disse me irritou, e eu estava tentando parecer normal, pelo menos o "normal" para alguém que acabou de perder o pai.

Era duas horas quando saímos da casa da Ísis. Jason não desgrudava do celular, Derek andava devagar de mãos dadas comigo. Ísis estava do meu lado, e toda hora mandava uma piscadinha ou beijinho pra mim. Aquela filha da puta tava de sacanagem.
Chegamos na rua 22, era uma rua sem saída. Fomos até a última casa. O portão era estreito e não tinha frestas, não dava pra ver o que tinha na casa.
Ao entrar dei de cara com uma garagem de teto baixo, as paredes e o chão de cimento. Tinha uma escada logo em frente ao portão, descemos até um nível que já era mais baixo que a rua. A casa era meio empoeirada, o piso era de cimento queimado e não tinha azulejos. Entramos na cozinha, tinha uma pia pequena de pedra, uma geladeira, um freezer daqueles de por sorvete, e por fim uma enorme mesa no centro. Duas mulheres estavam guardando o que parecia ser bebidas na enorme geladeira. Nos as cumprimentamos, uma delas pareceu bem feliz em ver o Derek. Passamos pelo banheiro, a porta estava aberta e pude ver duas garotas se pegando. Isis me cutucou e eu bufei.

A sala parecia o maior comodo , com vários sofás, pufes, bancos . Tinha também varias mesas pequenas espalhadas, alem de uma fila de narguilés prontos para serem usados. Na sala tinha três portas, a primeira estava escrito "Stop" ,a segunda dizia "public" ela estava meio aberta e eu vi umas três beliches, a terceira porta estava fechada e dizia "ViP".

Jason foi nos conduzindo até a porta STOP.

—Que lugar é esse? -perguntei em tom baixo para o Derek.

—É um club. Onde os grupos se reúnem, tem que se inscrever e ajudar com as despesas da casa e tals.

—vocês fazem parte de um desses grupos? -Já tava achando que eu andava com mafiosos ou coisa do tipo.

—Nos somos um, nos três. J vai colocar você agora.

—legal...-Eu disse sentindo o cheiro de maconha vindo de uns três garotos no canto da sala.

Ísis e Derek sentaram ao lado deles, Jason me levou até o quarto. Entrando la, parecia um escritório um cara loiro estava sentado atrás da mesa como um empresário. Ele se levantou quando eu entrei.

—J! Você não tinha me dito que ela era tão linda! -Ele disse me abraçando

—Psé, ela é. Bianca... esse é o Richard

Fiquei meio sem graça e acenei como comprimento.

—Venha gracinha, assine isso. — Richard me mostrou uma ficha com apenas três itens. GRUPO, NOME e IDADE. Eu coloquei meu nome, e minha idade...fiquei com vergonha de colocar minha idade, todos pareciam ter muito mais que 15 anos. Jason pegou a caneta da minha mão e escreveu: JasonnD
Aonde se pedia o "grupo".

—ta com a foto dela ? — Richard perguntou ao J

Ele confirmou e estendeu uma foto minha....era uma foto do facebook na qual eu não estava tao bonita como eu queria. Ta né, nem vou perguntar quando ele imprimiu essa foto. Minha foto foi grampeada na ficha.

—Parabéns você acaba de entrar na 22, é um prazer ter você no meu club -Richard disse quase me roubando um beijo de tão perto.

—Obrigada -eu disse ouvindo o Jason sair e fechar a porta me deixando sozinha.

—Eu normalmente não dou a chave para todos os membros -Richard disse fuçando no bolso -mas pra você... -Ele me deu uma chave dourada com o número 22 -Pode vir aqui todos os horários, incluindo a noite.

O jeito do Richard me deixou um pouco nervosa, mas passou rápido. Concordei e peguei a chave e a coloquei no sutiã, não pode deixar de perceber a cara que ele fez ao me ver fazendo isso.

Voltei para a sala, sentindo os olhos de Richard na minha bunda, sentei no colo do Derek e comecei a entrar na conversa... fui apresentada a todos 5 garotos ,6 garotas... e nem estava todo mundo ainda. La pras 15:30 começamos a beber, eu já estava um pouco alta, mas sabia que se quisesse chegar ao velório do meu pai deveria sair naquele momento. Derek toda hora trocava olhares com aquela mesma garota da cozinha, e teve uma hora que ele disse "vou ali rapidinho" levantou e saiu, Ísis falou para que só eu ouvisse

—Ele quis dizer vou ali dar uma rapidinha, você sabe né?

Por mais insuportável que Ísis fosse, ela estava certa. E o fato dele ficar com outras na frente de todos só me transformava em algo pior que uma ficante, uma irmãzinha talvez?