Depois do bilhete
1 Defenestração
Notas iniciais
Chico Alves jamais sentira um sabor tão amargo em seus lábios.
— O que é isto?
— Chá. Eu disse que tomaríamos chá.
— Sim, mas este sabor... Nunca senti nada assim.
— Ah, sim. Tomei a liberdade de temperá-lo com meu próprio leite materno.
— O quê? Maria, você está louca?
— Não entendo o motivo de tamanho escândalo. Você me disse ontem que só gostava de chá com leite.
Confuso com a situação e já sentindo seu estômago embrulhar, Chico Alves afastou a xícara para longe.
— Leite de vaca, mulher. Não isto.
— Mas você sabe que eu sou vegana!
— E eu com isso? Jamais disse que mudaria a minha dieta por você.
— Exatamente, Francisco. O que acha que me deixou tão furiosa ontem?
— Ok, eu entendo. Mas essa é a sua vingança? Me submeter a uma situação tão degradante?
— Ora, não seja dramático. É leite da sua própria espécie! Degradante é continuar explorando vacas para tomar chá.
— Mas eu não entendo...
— Você nunca foi muito inteligente.
— Maria... De onde vem toda essa agressividade?
Maria Adelaide então bebeu todo o seu chá de uma só vez e levantou-se da cadeira, secando as mãos no próprio vestido.
— Você não vai continua me censurando. Não mesmo!
— Mas Maria...
— Chega, Francisco! Eu sigo um novo estilo de vida. Uma nova ideologia. E, pelo visto, não há espaço pra você aqui.
Maria apoiou-se na pia da cozinha e começou a chorar. Cambaleando, Chico Alves levantou-se para consolar a amada, que o afastou com uma das mãos.
— Não toque em mim.
— Eu só queria te dar amor.
— Amor? Não seja ridículo, Francisco. Você é um genocida.
— Não fale assim, minha querida, é apenas comida.
— Mas a sua comida depende do sofrimento de outro ser.
Chico Alves sentiu as próprias pernas tremerem ao se afastar de Maria Adelaide. Com medo de cair, ele voltou até a velha cadeira de carvalho.
— E você esperava o que? Que eu largasse tudo e começasse a consumir leite materno?
— Nenhum vegano consome leite materno, Francisco, não seja idiota. Isso foi apenas um castigo.
— Faz sentido. É amargo demais.
De repente, a tristeza sumiu do rosto de Maria Adelaide, que começou a sorrir.
— Amargo? Leite materno não é amargo, Francisco.
— É sim. Prove meu café.
— Não será preciso. Leite materno não é amargo.
— Mas...
— Arsênico é.
Ainda sorrindo, Maria voltou até a mesa, e sentou-se em seu lugar.
— Você não devia ter me traído, Francisco. Principalmente com a minha mãe.
— Você? Como você soube?
— Eu vi! Vi com meus próprios olhos!
— Mas toda essa história...
— O nível da sua burrice sempre me surpreende, sabia? Sim, eu sou vegana. Sim, eu abraço árvores. Mas eu não mataria alguém só por não fazer o mesmo. Não seja estupido.
— Mas a sua mãe...
— Não se preocupe. Eu já dei um jeito nisso durante a madrugada. Ora, não foi difícil arremessar aquela velha da janela do terceiro andar. Sinceramente, não sei o que você viu nela, mas seja lá o que for, nunca verá novamente. Você deve ter pisado na cova rasa que cavei pra ela no jardim.
— Mas você...
Sem conseguir terminar a própria frase, Chico Alves caiu da cadeira, fazendo um estrondo ao atingir o chão. Com outro sorriso no rosto, Maria Adelaide se aproximou do rosto do homem, agora cheio de espuma.
— Eu nem teria onde arrumar leite materno, seu imbecil.
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