Depois de um sonho

9 Um passo atrás...


Notas iniciais
Olá olá, gente! tudo ok? mais uma vez, muitíssimo obrigada a todos os que tem acompanhado a fic e a quem comentou. *.* Acho que este foi o capítulo que mais recebi comentários e uau! Fiquei muito feliz por todos eles! Sério, vocês são muito fofos por dedicarem um tempo escrevendo para mim e me incentivando! Acreditem, isso faz muita diferença! ^^ Agradeço infinitamente! Enfim, vamos ao capítulo! Espero que gostem!

Um passo atrás



Shizuo

Shizuo sentia olhares curiosos fitando-o enquanto andava, em mais um dia de trabalho, com Tom pelas ruas de Ikebukuro.

Agora já quase se acostumara a estes olhares que o acompanhavam desde o incidente de sexta-feira no Russia Sushi.

Há dois dias, porém, havia lançado loja adentro um homem que ficara encarando-o na rua, estilhaçando grande parte da mercadoria de porcelana que ali se encontrava a venda e quebrando um dos braços do homem. Antes disso, havia enxotado de Ikebukuro um grupo de adolescentes que ficara as risadinhas. Antes disso, ainda, teve que se controlar para não mandar à merda Erika Karisawa que ficava o encarando de longe com olhos brilhantes durante o almoço no restaurante russo.

Ele já havia imaginado que algo como isso aconteceria depois de o informante correr atrás dele pelas ruas do distrito. Mas, a cada novo incidente, sua raiva de Izaya aumentava.

Somava-se à sua raiva a desconfiança.

Não via o informante desde o ocorrido no apartamento dele no sábado. E isso já havia sido há quatro dias.

Normalmente, estaria se sentindo ótimo com a ausência do informante. A cidade ficava nitidamente mais tranquila sem o moreno por lá e ele, Shizuo, era muito mais eficiente em sua decisão de não usar violência.

Não que Izaya estivesse sempre por Ikebukuro. Às vezes, ele passava dias e até mesmo meses sem aparecer por lá. Mas aquele sumiço em particular intrigava Shizuo. Ele pressentia que o informante tramava alguma coisa.

“Aquela pulga sempre está tramando alguma coisa!”, pensava balançando de leve a cabeça, tentando tirar estes pensamentos de sua cabeça.

Qualquer pessoa que olhasse Shizuo com atenção perceberia que este gesto tornara-se frequente nele. O guarda-costas podia ser visto balançando de leve sua cabeça muitas vezes nos últimos dias. Às vezes, a este gesto seguia-se a testa franzida ou piscadas rápidas e repetidas dos olhos.

Shizuo tinha muitos pensamentos para afastar nos últimos dias.

Boa parte dos pensamentos indesejados incluíam Izaya nu atendendo ao interfone, ou Izaya nu ajoelhado entre suas pernas, ou ainda, Izaya nu gemendo seu nome. Ou mesmo, em seus sonhos, Izaya nu fazendo qualquer porcaria: desde correr dele pelas ruas de Ikebukuro, até assando e decorando um bolo.

Mas, surpreendentemente, o pensamento mais difícil de afastar nas eram esses.

O mais difícil de esquecer era o seu próprio riso.

Shizuo podia culpar seu corpo – e unicamente ele – por desejar Izaya. Isso o deixava mal, sim, mas podia tranquilizar-se, ainda que pouco, ao pensar que desejar outra pessoa era algo natural e instintivo de seu corpo, e que, portanto, não era nada em específico com Izaya.

Mas não podia perdoar a sua sensação de divertimento.

O som de seu riso e o som de sua voz divertida respondendo às provocações de Izaya ecoavam em sua mente.

Isso não conseguia negar, por mais que quisesse. A isso não podia culpar seus instintos. A nada podia atribuir a responsabilidade.

Para agravar a situação, por mais que se esforçasse, ele não podia lembrar-se de nenhuma vez que tivesse se sentido tão descontraído com alguém. Sempre havia o que o segurasse. Mesmo com Kasuka, seu irmãozinho, estivera sempre a controlar-se para não machuca-lo ou desapontá-lo.

Izaya não era precioso a ele. A relação turbulenta entre eles sequer chegava perto de assumir a importância que a presença de Kasuka tinha em sua vida. Mas, de alguma forma estranha e absurda, o informante tinha tirado dele uma reação que nunca teve com Kasuka, ou, melhor dizendo, uma reação que ele sequer sabia ser capaz de ter.

“Eu só não me importo em machuca-lo. Foda-se o Izaya se ele sair machucado com qualquer merda. Não preciso me segurar pra proteger aquela pulga...”, é a conclusão que havia chegado, mas, mesmo com este pensamento em mente como justificativa para sua descontração, Shizuo não se sentia satisfeito.

Um risinho baixo o distraiu de seus pensamentos. Ele pertencia a duas garotas que passavam por ele e por Tom. Olhou para elas desconfiado. Tinha quase certeza do motivo daqueles risinhos.

Acendeu um cigarro para se controlar e começou uma lista mental de motivos para matar Izaya.

“Izaya maldito... quando puser as patas aqui...”.

Shizuo arregalou involuntariamente os olhos e sorriu malicioso.

“Falando no diabo...”, pensou divertido.

Shizuo tinha certeza: aquele era o cheiro de Izaya. O informante estava em Ikebukuro.

– Shizuo, tudo bem? Parou de repente. – ouviu Tom perguntar, parado alguns passos a sua frente, encarando-o.

Shizuo não respondeu. O guarda-costas sequer podia focava seus olhos em Tom, estava completamente concentrando em um cheiro que se aproximava cada vez mais pelas suas costas.

O som de um suspiro surpreso, entretanto, o fez olhar para o rosto de seu empregador. Ali encontrou olhos esbugalhados e confusos fitando algo imediatamente atrás de si.

Shizuo sabia o que havia atrás de si. O informante devia estar agora a poucos metros dali. Não entendia, porém, o porquê do olhar confuso de Tom. O que havia de tão extraordinário no que Tom via?

Um chamado tirou Shizuo de seus pensamentos.

– Yo, Shizu-chan.

Sem virar-se para olhar o informante, Shizuo deu alguns passos afrente e arrancou uma placa de sinalização de trânsito. Enquanto avançava na direção da placa, percebeu uma pequena multidão formar-se ao seu redor. Se não estivesse tão irritado e submerso em sua ideia de vingar-se de Izaya, teria estranhado dois fatos. Primeiro, não era comum uma multidão se formar para olhar uma briga entre Shizuo e Izaya, o mais comum era que as pessoas evitassem essa situação para que não acabassem pegas no meio da confusão; segundo, todas as pessoas tinham em seus olhos a mesma expressão de Tom: olhos demasiadamente abertos e confusos.

Com a placa em mãos, Shizuo inflou o peito e virou-se subitamente para encarar o informante.

– I-ZA-... – parou o grito no meio de sua articulação, tamanho choque sentido ao fitar Izaya. Os olhos de ódio sumiram.

Izaya estava parado diante de si sorrindo sarcasticamente, como usual. Estava vestindo suas calças pretas, como usual. Ele não vestia, porém, seu usual casado preto, como esperado. E era isso, provavelmente, o que fazia com que todos olhassem chocados para ele. No lugar dousual casaco, o informante usava uma camisa que era usualmente usada por outra pessoa. Na verdade, não apenas uma camisa. O informante vestia o conjunto completo: camisa, colete e gravata borboleta.

– Minha... – começou a dizer, ainda com a placa de transito em mãos.

– Shizu-chan, – Izaya alargando seu sorriso – vim devolver a camisa que esqueceu na minha casa. – disse apontando para o próprio corpo. Abriu, depois, os braços teatralmente, como se apresentasse a um espetáculo. – Você sabe, não deveria deixar as roupas na casa das pessoas depois de tirá-las... O correto é vestir-se depois de acabar, Shizu-chan bobinho. – disse em um tom falso de repreensão. – Eu as lavei e passei para você. E ah! Espero que não se incomode, não quis trazê-las em uma bolsa para que não amassassem então as vesti eu mesmo.

Shizuo estava completamente estático diante de Izaya, absorvendo as palavras do moreno. O informante, por sua vez, alisava lentamente o colete, como se para mostrar como estava bem passado.

Por mais que quisesse, Shizuo não podia ignorar o fato de seu corpo ter começado a reagir à visão de Izaya em suas roupas. A camisa ficava um pouco larga no informante, o colete passava a linha de sua cintura, e a gravata pendia para um dos lados, com o laço desfeito. Sentiu novamente um pouco daquela diversão que sentira no apartamento do moreno e não pode evitar esboçar um sorriso. Este esboço de sorriso fez com que os pensamentos que invadiam sua mente nos dias anteriores voltassem com força total.

Repetindo o gesto que havia se tornado comum nele, Shizuo balançou levemente a cabeça. Não podia admitir divertir-se com aquilo. O informante era muito ousado e cara-de-pau por vir até Ikebukuro com suas roupas. “Minhas preciosas roupas, presente de Kasuka.”, pensava o guarda-costas. “O que Kasuka pensaria se visse Izaya vestindo as roupas que me deu?”.

Shizuo apertou os punhos.

Kasuka havia dado a ele aquelas roupas para incentivá-lo a permanecer no trabalho de barman, e ele havia perdido este trabalho por culpa de Izaya.

“Por culpa desse maldito que não me deixa em paz!”.

Izaya, agora tentando ajeitar sua gravata borboleta, sequer notava a irritação crescente de Shizuo. Só no último instante, ao ser forçado a recuar para não ser acertado na cabeça pela placa que Shizuo manejava, pôde perceber a aura assassina que o guarda-costas emanava.

– Oe oe, Shizu-chan. Cuidado, vai amassar as roupas. – disse rindo sarcasticamente.

– Izaya maldito. Me devolva agora essas roupas. – rosnou Shizuo.

– Shizu-chan tããão mandão – respondeu com um bico, para depois, em imitação forçada à voz de Shizuo, continuar – “Izaya, tire a roupa”, “Izaya, solte o canivete”, “Izaya, agora pode ir embora”. Acha que sou sua puta, Shizu-chan? Eu lavei e passei suas roupas, mostre um pouco de gratidão.

Izaya tinha ambas as mãos juntas sobre o peito, num gesto falsamente dramático.

“Que merda é essa que está dizendo, pulga?!”, pensou.

Tudo se aclarou em sua mente, entretanto, ao ver o gesto seguinte de Izaya.

O informante afastou as mãos do peito, abriu os braços e curvou-se demoradamente.

Shizuo tinha certeza agora: o moreno estava se divertindo muito dizendo todas aquelas coisas em público, armando aquele espetáculo para a pequena multidão ao redor deles.

“Ele está brincando comigo! Maldito!”, pensava sentindo raiva e indignação preencherem cada uma das células de seu corpo.

Sem dizer nada, Shizuo levantou mais uma vez a placa de trânsito e a arremessou na direção de Izaya, que, para não ser fatalmente atingido, desviou.

– Tá bom, Shizu-chan. Vou te devolver.

Shizuo, ainda mais do que as outras ditas anteriormente pelo informante, odiou a forma como estas últimas três palavras foram proferidas. Izaya tinha um sorriso absolutamente perverso no rosto.

No instante seguinte, o guarda-costas entendeu perfeitamente o tom usado por Izaya: o moreno desabotoava lentamente o colete, com os olhos fixos em Shizuo. O loiro olhou a sua volta e percebeu que, assim como ele, todos encaravam Izaya incrédulos, era obvio para todos o que o informante estava fazendo.

“Ele não vai fazer isso!”, pensou Shizuo desconcertado, sentindo a raiva ser drenada de seu corpo a cada novo botão aberto por Izaya.

Por mais que soubesse que Izaya não tinha limites quando sua intenção era testá-lo ou ver a reação de outras pessoas, nunca pensou que ele fosse capaz de um strip-tease em plena rua lotada.

– O que foi, Shizu-chan? – perguntou debochado – Não fique ai parado com esta cara de bobo! Me ajude a desabotoar a camisa! – disse dirigindo-se a Shizuo com o colete – já retirado – em mãos.

Ao ver Izaya caminhando em sua direção, Shizuo não pode evitar recuar alguns passos, ainda mantendo seus olhos fixos no informante. Sentiu suas costas chocarem brutalmente com algum objeto irregular. Inicialmente, achou que seu recuo havia sido parado por alguém que estivesse no caminho, ao por seus olhos, porém, no objeto em questão, o guarda-costas soltou um suspiro aliviado. Não era uma pessoa, não era a parede tampouco. Seu recuo foi detido por uma máquina automática de vendas. Ao colocar seus olhos na máquina, Shizuo foi capaz de tomar de volta para si a linha de seus pensamentos que, até pouco tempo atrás, estava completamente focada em Izaya e no pedaço de pele que alguns botões abertos revelavam.

Virou-se, arrancou a máquina do chão e gritou para Izaya:

– Eu vou te matar hoje, com certeza, pulga! – com a máquina em mãos, Shizuo sentia-se novamente no controle da situação.

Izaya sorriu.

– Vamos fazer um joguinho de “cão e gato” hoje, então, Shizu-chan? Um pouco diferente do jogo do final de semana, mas mesmo assim, divertido!



****



Izaya

Era como se nada tivesse acontecido. Como se o jogo entre eles nunca tivesse sido outro. Como se a única coisa que eles tivessem feito durante toda a vida fosse correr pelas ruas de Ikebukuro gritando ameaças.

Era isso que Izaya sentia. E, pela forma como via Shizuo correr empolgado atrás de si, Izaya acreditava que era isso o que ele sentia também.

Não havia nada o que pensar naquela situação a não ser em planos de escape. Nada para fazer a não ser lançar suas lâminas e desviar das investidas perigosas de Shizuo.

Izaya tinha que admitir que estava aliviado com isso.

Por mais contraditória que parecesse a sensação, o informante sentia-se seguro. Aqueleera um jogo seguro. Ele estava no controle. Correndo pelas ruas, escolhendo as ruelas nas quais entrar, aproximando-se nas horas adequadas para cortar Shizuo, tentando adivinhar o próximo objeto a se lançado contra ele, desviando de placas, lixeiras, máquinas de venda, barras de ferros...

Izaya riu alto.

Ele estava em casa. Aquele era um terreno confortável. Poderia começar quando quisesse, encerrar quando quisesse, escolher o caminho que quisesse, provocar Shizuo o quanto quisesse: nada disso tinha um efeito inesperado nele.

Esse jogo era unilateral. Ele podia observar Shizuo o quanto desejasse, provoca-lo e ver cada um de suas inesperadas reações sem, em momento algum, realmente arriscar-se além do planejado.

As feridas causadas por esse jogo, em seu corpo, eram “ossos do ofício”. Perfeitamente esperadas. Se ficasse seriamente machucado, iria até Shinra e se recuperaria. Nada que valesse dor de cabeça ou pensamentos extensos.

O objetivo de tudo era claro: provocar e observar Shizuo. Só Shizuo. Sem nada além disso. Sem preocupação.

– Esse é um bom jogo, Shizu-chan... – sussurrou para si mesmo enquanto desviava de um carro lançado em sua direção.

“Diferente do outro jogo.”, completou em sua mente.



****


Flashback

Izaya havia tentado não pensar no que havia acontecido sexta e sábado.

Não era tarefa fácil.

De todas as coisas inesperadas que Shizuo havia feito, aquelas superavam, definitivamente, todas as outras.

Izaya sempre odiou Shizuo. Odiava a imprevisibilidade dele. Ele, observador constante dos humanos, não podia tolerar um humano que saísse de seus padrões cuidadosamente criados.

Shizuo não apenas tinha fugido de seus padrões.

Shizuo o tinha desarmado.

Desarmado suas teorias, desarmado seu corpo.

Ele fora desarmado por seu inimigo.

“O que acontece quando seu inimigo está desarmado diante de si, Shizu-chan?”, pensava repetidamente na tentativa de ordenar os fatos, “Você o mata, Shizu-chan. É isso o que se faz, merda!”.

Não era isso o que Shizuo havia feito. E isto, dentre todas as outras coisas nas quais Shizuo não fez o que devia, era a que mais irritava Izaya.

Izaya entendia seus motivos para fazer todas àquelas coisas a Shizuo. Ele estava em um novo jogo. Ele estava vendo as reações de Shizuo em situações diferentes das usuais. Ou mesmo, como no seu apartamento, ele estava fazendo aquilo para escapar de uma surra de Shizuo.

Mas ele não podia entender completamente os motivos de Shizuo.

Shizuo não jogava daquela forma. Shizuo o odiava puramente. Sem diversão em seu ódio. E era isso que o deixava tudo mais divertido para Izaya: provocar alguém com um ódio tão puro e simples era divertido, principalmente se fosse com alguma brincadeira complexa, como o sexo.

Inicialmente, entendia que o corpo de Shizuo havia cedido aos seus impulsos sexuais e nublado seu ódio.

Isso Izaya entendia.

Shizuo era um homem, apesar de tudo. E um homem pode ficar confuso e baixar a guarda ao ser estimulado através do sexo.

O que Izaya não entendia era a parte não sexual dos acontecimentos. Mais especificamente, três reações de Shizuo deixavam-no louco.

A primeira reação, Izaya interpretou como algo impensado, uma resposta comum do corpo àquele estímulo. A segunda reação, porém, deixou Izaya terrivelmente intrigado. Aquilo não podia ser considerado uma memória do corpo de Shizuo. Aquilo não fora uma reação simples e sem sentido. Aquilo era sério.

Se essas duas primeiras reações inesperadas já foram o suficiente para deixar Izaya estático e abobalhadamente incrédulo, a terceira e última reação, que aconteceu em seu apartamento, deixou Izaya possesso de raiva.

Izaya repassou todas as três reações milhões de vezes em sua mente, procurando alguma ponta solta.

“Primeira: o carinho na bochecha”, enumerou, “Acredito que Shizuo esqueceu que era eu quem estava lá chupando-o e num gesto automático, levou a mão à minha bochecha e retribuiu a carícia que estava recebendo. Deve ser assim que ele age com as garotas com quem sai... HAHAHA... Achei que Shizuo sequer conseguisse arranjar um garota que fosse pra cama com ele e, caso conseguisse, agisse como um bruto. Mas, enfim... isso explica. Só é meio estranho. É um monstro meio doce esse Shizu-chan. HAHAHA”.

“Claro! Essa seria uma explicação muito boa. Muito boa se fosse com qualquer outra pessoa, certo, Shizu-chan? Mas não é muito adequada quando junto a ela as duas reações seguinte, não é, seu maldito?!”.

Izaya repassava as duas reações seguintes em sua mente: a segunda, ainda na sexta, no apartamento de Shizuo, quando o guarda-costas o imobilizou completamente na parede, passou os dedos pelos seus lábios e depois o expulsou. Izaya não entendia nada daquela reação, primeiro: Shizuo já havia gozado, porque não o expulsou imediatamente ou o bateu? segundo: porque se aproximou dele como se fosse beijá-lo? por que o beijaria? terceiro: por que o expulsou? Shizuo parecia estar se segurando. por que se segurando?

E por último, a terceira reação inesperada de Shizuo, desta vez, no sábado, em seu próprio apartamento: depois de fazê-lo gozar, Shizuo o puxou contra si em um abraço.

O que diabos aquilo significava?

“O que caralho é isso, Shizu-chan?”

Izaya lembrava-se que aquele tinha sido seu pensamento no momento no qual se viu com as costas apoiadas no peito do guarda-costas e com os braços do loiro ao redor de sua barriga. Lembrava-se de, no mesmo instante, ter se virado para praguejar contra aquele ato, mas foi interrompido pelo primeiro toque do interfone.

Quando o informante refletia profundamente sobre isso, via que não somente aquela reação havia sido inesperada. Tudo em Shizuo naquele dia fora inesperado.

Os papeis haviam sido completamente trocados em relação à sexta-feira: naquele sábado, em seu apartamento, Shizuo havia feito-o gozar e saído de mãos abanando, de forma completamente oposta ao que havia acontecido no apartamento do loiro.

Tudo bem, Shizuo havia sido saído de mãos abanando porque havia sido expulso. Mas, ainda assim, ele havia saído.

O que, em poucas palavras, significava que Shizuo havia se deslocado até o apartamento de Izaya para fazê-lo gozar.

Izaya entendia os impulsos sexuais que faziam Shizuo gozar por suas mãos, mas não entendia qual era o motivo que fazia Shizuo querer fazê-lo gozar.

Izaya não entendia porque Shizuo o havia despido e estimulado. Não entendia o que levava Shizuo a tocar seu corpo com suas mãos e lábios e não receber nenhuma retribuição.

Se fosse consigo, entenderia aquele ato como uma forma de vingança: Izaya faria exatamente o que Shizuo fez para vingar-se do guarda-costas. Mas, Shizuo fazendo aquilo para vingar-se? Era uma ideia estranha.

“Mas Shizu-chan é sempre estranho!”, tentava argumentar.

Havia, ainda, mais uma coisa que não podia ignorar: sua própria reação.

Izaya compreendia o que havia feito com Shizuo no apartamento do loiro. Era sim, uma investida sexual, mas era só isso e só para ver as reações de Shizuo. Era só para manipular Shizuo. Então, era algo completamente aceitável.

Sábado, em seu próprio apartamento, havia visto dezenas de reações interessantes de Shizuo, mas, tinha que admitir, não era Shizuo quem havia sido manipulado naquele dia. E isso o irritava. Não se importava de tocar Shizuo, ou mesmo de ser tocado por ele, mas não podia admitir ficar nas mãos dele como naquele dia.

Tinha vontade de explodir algo quando se lembrava de quando pediu com gestos para ser tocado no pescoço por Shizuo.

Heiwajima Shizuo havia feito Orihara Izaya pedir por algo.

“Maldito, Shizu-chan!”.

Durante todo o domingo, os pensamentos sobre as reações de Shizuo e suas próprias permaneceram em sua mente.

Na segunda, os pensamentos permaneciam invadindo sua mente, mas o informante havia decidido não negligenciar seu trabalho como havia feito na semana anterior. Assim, na segunda e nos dois dias que se seguiram a ela, o informante mante-se focado em suas atividades, recusando-se a dar qualquer atenção aos pensamentos que insistiam em pipocar em sua mente de quando em quando.

Ele não era completamente fiel a sua determinação, e sempre se pegava a pensar no jogo turbulento que havia começado com Shizuo, mas, na medida do possível, sua semana estava correndo normal.

Algumas vezes, ao longo dos quatro dias que se seguiram ao encontro no apartamento, Izaya teve que segurar-se para não correr atrás de Shizuo e exigir alguma explicação para “aquela merda toda que ele tinha feito”.

Mas havia decidido que ficaria distante por um tempo. Sentia-se humilhado por suas próprias reações aos toques de Shizuo, e não tinha, portanto, a menor intenção de encontra-lo agora. Não queria ver o homem que havia fodido sua divertida brincadeira.

Ou, ao menos, era isso que se convencia a pensar.

Toda sua determinação foi por água abaixo quando, na quarta a noite, fim do quatro dia de afastamento, encontrou as roupas de Shizuo lavadas e dobradas em cima de sua mesa no escritório.

Sabia que aquilo era coisa da Namie.

Sua secretária olhava-o curiosa desde sua estratégia de disfarce para encontrar alguma garota e provocar Shizuo. E, mesmo que não perguntasse nada, Izaya sabia que ela tecia teorias em sua cabeça.

Ninguém daquela cidade era ingênuo o suficiente para não entender que alguma coisa estava errada caso encontrasse roupas de barman no apartamento de Orihara Izaya.

Sua secretária devia ter encontrado as roupas na segunda e mandado a uma lavanderia, para posteriormente, chocar e provocar seu chefe quando ele encontrasse aquelas roupas.

Provavelmente, Namie achava que ele encontraria as roupas apenas no dia seguinte, quinta de manhã, quando os dois começassem a trabalhar. Assim, ela assistiria a reação de seu chefe às roupas e poderia conseguir mais informações sobre o que estava acontecendo sem precisar perguntar nada a Izaya.

Isso seria o mais esperado que acontecesse, mas o informante não conseguia dormir bem desde sábado e, para acalmar-se, caminhava pelo apartamento. Muitas vezes, descia até seu escritório no primeiro andar e punha-se a trabalhar para distrair-se. Naquela quarta não havia sido diferente e ele acabou por encontrar as roupas de Shizuo.

Repreendeu-se mentalmente por ter esquecido sobre as roupas de Shizuo de forma que Namie as encontrasse na segunda.

“Eu nunca cometo esse tipo de erro”, pensou olhando com raiva para as roupas de Shizuo, “Devo destruir suas preciosas roupinhas como retribuição por este engano, Shizu-chan?”.

Um sorriso abriu-se em seus lábios.

Uma ideia melhor acendeu em sua mente.

– Não devo não, né, Shizu-chan? Afinal, são as queridas roupas que Kasuka te deu. Você ficaria bravo caso elas fossem destruídas, né? Acho que terei que devolver pessoalmente...

“E virar a mesa... Sinto muito, Shizu-chan, esse é meu jogo. Quem brinca aqui sou eu...”.


Fim do flashback

****



– Hahaha, Shizu-chan – gargalhou Izaya, virando-se para olhar para Shizuo que o encarava com uma barra de ferro nas mãos. – Tão nostálgico, né? Foi aqui que a gente começou nossa brincadeira.

Izaya havia direcionado a briga deles para a Academia Raira. Não que aquela fosse sua intenção inicial, mas, ao ver que estavam pelas redondezas, não pode evitar correr até lá e arrastar Shizuo em seu enlaço. Achou que lutar ali levaria Shizuo a perceber que eles já brigavam há consideráveis anos.

“Será divertido ver a cabeça sem cérebro de Shizu-chan perceber que estamos nessa há mais ou menos 10 anos!”, pensava divertido.

– Nostalgia o caralho, pulga! E à merda com sua brincadeira. Foi aqui que começou a me infernizar, isso sim... – respondeu Shizuo num rosnado, balançando a barra de ferro em suas mãos a fim de acertar Izaya.

Izaya desviou da barra e caminhou até a portaria do colégio, direcionando seu canivete para a porta.

– Oe, Shizu-chan, quer entrar? Temos tantas boas recordações nos corredores... tantos momentos nos quais você correu atrás de mim com paixão. Lembra-se daquele dia dos namorados que você se declarou pra mim na frente de todo mundo? Será que tinha alguma pessoa da nossa época hoje lá na rua? Se sim, com certeza pensou: “ah, eles estão juntos até hoje... que lindo!”. – disse arrombando a porta com o auxílio do canivete e gargalhando freneticamente.

– Não invente as coisas por você mesmo, pulga! Paixão o inferno. Nem antes nem agora é isso que me faz te perseguir.

Izaya riu com a resposta. Shizuo estava caindo em sua provocação.

“Tão intenso, Shizu-chan!”.

Terminou com a fechadura e pôs-se a correr rapidamente pelos corredores do colégio, deixando a porta aberta atrás de si para que Shizuo também entrasse.

“Não me lembrava de que esses corredores fossem tão estreitos. Eu era bom em escapar de Shizuo aqui...”.

– I-ZA-YA-KUN – ouviu Shizuo chamando. Pelo barulho que fazia enquanto se aproximava, Izaya tinha certeza que o guarda-costas arrastava a barra de ferro com força pelo chão.

Izaya riu alto e começou a correr mais rápido. Shizuo estava perto e seria um problema se ele fosse pego.

Ao virar o corredor, porém, espantou-se ao dar de cara com Shizuo.

– Não sei como eu não te pegava na época do colégio. Definitivamente é mais difícil para você escapar aqui. É uma pulga acuada. – sorriu maliciosamente. – Sabe, Izaya, eu não sou o mesmo do colégio.

Izaya olhou ao seu redor, sua única escapatória seria entrar em uma sala e sair pela janela. Não seria muito trabalho.

– Pois para mim parece o mesmo Shizu-chan sem cérebro de sempre. – disse atravessando a abertura da porta e pondo-se a correr até a janela.

Ajoelhou-se em uma das carteiras da lateral da sala e, com o auxílio do canivete, quebrou o vidro da janela. Quando estava prestes a se jogar através dela sentiu seu tornozelo preso. Olhou de relance para trás e viu que Shizuo o segurava. Antes que pudesse fazer qualquer movimento na direção de concluir sua fuga, sentiu o ex-barman puxá-lo com força de encontro à carteira.

– Não sou o mesmo, pulga.

Izaya chutou para livrar-se do aperto de Shizuo em seu tornozelo, mas tinha consciência que, depois de pego, pouco podia competir com Shizuo. Não de mãos vazias. Não contra a força física bruta de Shizuo. E era nesta exata situação que se encontrava.

Seu canivete havia caído pela janela ao ser subitamente agarrado pelo tornozelo. Sabia que tinha algumas lâminas no bolso da calça, mas sabia, também, que qualquer movimento que fizesse naquela direção chamaria a atenção de Shizuo e pioraria sua atuação situação. Se tivesse com seu canivete em mãos, poderia sem problemas girar o corpo e cortar Shizuo para livrar-se do aperto.

Amaldiçoou-se mentalmente por tê-lo deixado cair.

Sentiu o aperto em seu tornozelo intensificar-se. Shizuo era forte, sem dúvida.

Sentia que sua perna poderia partir-se a qualquer momento se não fizesse nada.

– Ok, Shizu-chan. Você não é o mesmo. Me pegou. Agora me solte para podermos recomeçar. – arriscou dizer.

– Calado, pulga.

Izaya tinha consciência de sua própria situação.

Suas mãos ainda seguravam o batente da janela, seu corpo estava parcialmente na carteira, parcialmente apoiado na parede, um dos seus joelhos apoiava seu peso na carteira, enquanto sua outra perna estava estendida na direção de Shizuo, segura por ele e sendo puxada.

Sabia que quanto mais tempo permanecesse naquela posição desfavorável, pior ficaria para si.

Num impulso, soltou as mãos do batente da janela e usou-as como alavanca para impulsionar o corpo para trás, na direção de Shizuo. Esperava que o choque pelo movimento repentino fizesse com que Shizuo o soltasse. Sentiu-se extremamente aliviado, portanto, ao notar que o aperto em seu tornozelo havia cessado.

Com um baque, ouviu quando Shizuo caiu com as costas no chão da sala, para em seguida sentir seu próprio corpo batendo de encontro ao dele.

Não pode reprimir uma gargalhada.

Não só havia se soltado, como havia usado Shizuo de almofada para amortecer a própria queda.

Não tinha tempo, porém, para rir da situação. Ainda estava em desvantagem, precisava sair logo dali.

Sabia que devia apenas levantar-se e correr, não pode resistir, porém, ao impulso de girar o corpo de modo a ficar de frente para Shizuo (havia caído de costas contra ele) e olhar sua expressão.

Shizuo tinha os olhos bem abertos e o encarava com raiva.

No instante seguinte, entretanto, não era raiva mais o que via nos olhos de Shizuo.

“Mova-se, Izaya”, sua mente ordenava.

– Escapei, Shizu-chan.

“Saia logo de cima dele!”.

– É. – Shizuo respondeu com a voz rouca, ainda encarando-o com o olhar indecifrável.

– Agradeço a brincadeira. Agora tenho que ir. – disse com um sorriso irônico.

“O que está fazendo? Provocando-o? Sai logo dai, Izaya!”, sua mente gritava a mil.

Izaya, porém, desobedecendo sua mente, não moveu um músculo. Esperou por uma resposta de Shizuo. Uma resposta que não veio.

Izaya tinha plena consciência de suas mãos apoiadas no chão na lateral do corpo de Shizuo, tinha plena consciência do corpo de Shizuo embaixo do seu, tinha plena consciência que a porta estava ali a poucos metros, tinha plena consciência que devia mover-se.

Mas não foi Izaya a mover-se.

Notas finais
Olá de novo! ^^ Obrigada por lerem até o fim! O que acharam? Como sempre, qualquer tipo de opinião é muito bem vinda e me deixaria muito feliz! *.* bom finalzinho de domingo! beijos Max