Depois de um sonho
5 Reação - Parte I
Notas iniciais
“Hoje está sendo um dia de merda!” – pensava, cansado, Shizuo, enquanto seguia atrás de Tom pelas ruas de Ikebukuro.
Não havia dormido bem à noite. Por mais exausto que estivesse depois dos acontecimentos da noite anterior, seu sono não fora tranquilo.
Ele estava frustrado.
Nunca pensara que a ideia de matar Izaya o perturbaria tanto. Não achava que seu plano de transformar sonho em realidade falharia tanto.
Sim, seu plano de matar Izaya para por a prova seus sonhos dos dias anteriores não havia dado certo. Na verdade, não só não havia dado certo... O mais adequado seria dizer que havia sido um completo desastre. Apesar do começo intenso, com uma violenta perseguição e bons socos desferidos, sua tentativa havia acabado em uma vergonhosa fuga.
Shizuo percebeu que, simplesmente, não podia matar Izaya. ‘Não podia’ não era a expressão adequada... ‘não conseguia’ seria o mais adequado.
“Não queria...” – a expressão passou rapidamente à sua cabeça, mas logo depois foi descartada.
O que Shizuo não queria, definitivamente, era ter que lidar com tudo o que vinha acontecendo. Então evitava ao máximo pensar sobre os efeitos profundos que a noite anterior teve nele. Para preservar sua sanidade, Shizuo precisava ignorar tudo.
Havia conseguido com sucesso ignorar as coisas ontem antes de dormir: havia chegado a casa, tomado banho, deitado na cama e dormido quase imediatamente. Tudo perfeitamente normal.
O problema havia sido a manhã de hoje.
Mesmo antes de abrir os olhos, Shizuo sentia o cheiro dele pelo apartamento. Estava impregnado em tudo. Seus lençóis, seus móveis, absolutamente tudo tinha o cheiro dele. Era quase como se Izaya estivesse em seu quarto.
O cheiro do informante pelo apartamento era tortuoso, impedia-o de ignorar os eventos da noite anterior, fazendo com que tudo passasse pela sua cabeça como em um filme: perseguição, socos, olhos vermelhos, sangue, lágrimas, fuga...
Mas, mais do que eventos da fatídica noite, o cheiro de Izaya pelo apartamento trazia outro tipo de memórias a Shizuo. Memórias vergonhosíssimas: a pele pálida, os suspiros, a sensação do corpo de Izaya, o gosto do corpo de Izaya, os dedos de Izaya em seus cabelos...
Pouco a pouco, imagens do sonho daquela noite inundavam sua mente. Nublando e possuindo completamente seus pensamentos.
“Preferia os antigos sonhos... sonhar que estou batendo em Izaya é definitivamente melhor do que sonhar que estou...”. Não foi capaz de completar a frase em sua mente, que foi novamente invadida por imagens nada puras.
Levantou-se subitamente da cama, as imagens faziam com que ele não conseguisse ficar deitado: ficar parado deixava-o inquieto.
Agora em pé, Shizuo notou que seu corpo contrariava totalmente sua cabeça.
–Não, não, não! Definitivamente não! – exclamava enquanto corria ao banheiro checar a fonte do desconforto em suas calças. Bateu a cabeça com força na parede quando percebeu que sua roupa íntima não estava seca como o esperado... Na verdade, o estado dela era exatamente o oposto.
Tirou rapidamente todas as suas roupas, disposto a lavar toda e qualquer evidência do “maldito sonho com a pulga desgraçada” – como havia resolvido batizar o sonho.
Incapaz de ficar em casa, Shizuo saiu a andar pelas ruas de Ikebukuro até o horário de seu trabalho com Tom. Que é com quem se encontrava agora.
Ouviu um suspiro.
– Você tem andado estranho, Shizuo. Mas tenho que dizer que hoje está especialmente estranho. Algo que devesse me preocupar?
– Não, só uns sonhos estranhos – disse distraído.
– Sonhos estranhos? – perguntou Tom curioso, Shizuo havia finalmente dado algum sinal de vida.
Shizuo fez um careta, tinha estado distraído pensando no “maldito sonho com a pulga desgraçada” e havia, sem querer, dado a Tom mais informações do que pretendia.
– Nada importante! – remendou imediatamente.
Tom sabia que aquele estado de Shizuo tinha algo a ver com Izaya, chegara a esta conclusão há cinco dias, quando percebeu que Shizuo estava estranho e que o motivo não era Kasuka. O passar da semana havia apenas confirmado suas suspeitas: havia sido arrastado não poucas vezes para dentro de um lugar, ou para alguma rua paralela. E todas as vezes tinham algo em comum: Izaya estava por perto.
Shizuo sabia que Tom desconfiava de tudo e estava preocupado com ele, sentia-se mal por preocupar seu empregador e amigo, mas não queria dizer nada. Sabia que não conseguiria dizer “aquilo tudo” em voz alta.
– Shizuo! Quer comer sushi? – a voz animada de Simon cortava o clima pesado que se formava entre Tom – e sua curiosidade – e Shizuo – e sua discrição.
– Simon! Agora não, mas – pensou por um momento – hoje à noite com certeza irei querer.
Despediu-se de Simon. Seria uma boa ideia comer um sushi do Rússia Sushi naquela noite de sexta. Talvez isso fizesse sua estranha semana parecer um pouco mais normal.
Olhou para Tom, que parecia satisfeito com a resposta de Shizuo.
– Vou com você, Shizuo. Sushi é ótimo para sextas-feiras à noite. Podemos aproveitar e conversar sobre uns assuntos pendentes, né?!
Shizuo torcia para que fossem assuntos relacionados ao trabalho, mas sabia que não era o caso.
****
– Como conseguiu entrar? Bom, não importa...Se você veio aqui atrás de Izaya, ele não está no momento, mas posso anotar o recado ou agendar uma outra hora se quiser. – Namie interpelava irritada o homem a sua frente.
– Hahaha! – Namie ouviu-o gargalhar — Agora será um sucesso!
A secretária teve que se apoiar na mesa para não cair da cadeira. Olhou para o rapaz a sua frente. Tinha certeza que havia ouvido a voz de Izaya sair de seus lábios. Olhou mais atentamente...
– Izaya?
Viu-o alargar o sorriso. Incrédula, olhou-o dos pés a cabeça. Usava camiseta e calças pretas, como de costume, mas o usual casaco preto não compunha suas vestes, em seu lugar havia uma camisa xadrez em tons de vermelho e preto e, para terminar, uma boina preta, que escondia parcialmente seus cabelos negros.
“A única coisa que o entrega é a cara de psicopata!”
– Pelo visto, seu plano de sair por ai em busca de uma vítima não deu certo. – disse irônica.
– Não é vítima, é sortuda-que-terá-um-encontro-comigo. E, não, não deu certo. – o informante deu de ombros – Toda vez que abordava alguém, ou a pessoa me reconhecia imediatamente, ou alguém gritava meu nome e me entregava. – ele soava como se estivesse feliz com aquilo – Para um informante obscuro, descobri que sou realmente popular!
Namie olhou-o novamente e riu.
– Bela boina.
– Aparentemente, meu cabelo me entrega bastante. Ele e meu casaco.
– Foi por isso que voltou àquela hora e depois saiu de novo, só que sem o casaco?
– Mas não foi o suficiente, Namie... Não é assim tão fácil esconder meu charme natural e o quanto eu sou especial e marcante.
– Na verdade, acho que o que te entrega é sua cara de psicopata... – Izaya riu de lado, debochado – que se intensifica, principalmente, quando você sorri.
– Tsc tsc tsc... Tão ingênua, Namie! Eu treinei um sorriso! Quer vê-lo?
– Não. – Namie virou-se, tirando seus olhos de seu chefe e focando-os no computador em sua mesa. Tinha que admitir que estava curiosa, mas não daria este prazer a Izaya.
Izaya gargalhou.
– Tchauzinho, Namie. Acho que volto tarde para casa hoje. – voltou a gargalhar – Ou talvez nem volte!
Saiu novamente do apartamento, dando pulinhos.
****
Já fazia um tempo que Izaya estava prostrado perto das catracas da estação de Ikebukuro. Não havia encontrado ainda nenhuma garota que servisse aos seus propósitos. Sabia que tinha que escolher corretamente, pois, ainda que estivesse disfarçado, qualquer deslize acabaria com seu plano perfeito.
Algumas horas mais cedo havia tentado, sem sucesso, encontrar uma parceira adequada. Era facilmente reconhecido, porém, por elas ou por alguém que estivesse por perto. Sabia, portanto, da importância de escolher alguém que não fosse muito atento. Afinal, olhando-o de longe, era difícil reconhece-lo, mas quando a proximidade se fizesse, ele poderia ser facilmente reconhecido. Não se importava muito com a aparência da garota, queria apenas que ela fosse o mais avoada possível.
Qual não foi sua surpresa, portanto, quando viu a vítima perfeita se aproximar e notou que ela era bonita.
Ela caminhava lentamente pela estação, com seus fones de ouvido e com um livro nas mãos. Do caminho da entrada da estação até as catracas, ela esbarrou em três pessoas.
“Perfeita” – pensou Izaya enquanto se posicionada estrategicamente na frente da garota.
– Ah! Desculpe-me! Você está bem? – ouviu-a perguntar quase imediatamente após ter sentido o choque.
– Tudo bem... Eu que peço desculpas. Estava parado aqui no meio do caminho. – Disse Izaya enquanto abaixava-se para pegar o livro que havia caído das mãos da garota por causa do esbarrão.
“Nicholas Sparks” – pensou divertido – “hoje vamos de amor à primeira vista, então! Saindo um quentinho para a moça dos fones!”. Levantou-se lentamente, olhou nos olhos da garota e abriu seu novo sorriso.
Izaya treinara intensamente seu sorriso. Havia sido a parte mais difícil de seu plano. Como realizar um sorriso que não fosse irônico, debochado ou maldoso? Toda vez que tentava um sorriso doce, o reflexo no espelho mostrava um rosto distorcido com uma expressão que provavelmente poderia ser considerada de dor. Depois de várias tentativas, porém, havia encontrado o sorriso perfeito.
Seu sorriso perfeito havia, aparentemente, funcionado. A garota o olhada paralisada e nem sequer havia se movido para recuperar seu livro que ainda estava estendido em sua direção.
– Aqui. Seu livro. – Izaya disse enquanto aplicava seu golpe fatal: uma piscadinha simpática.
A garota corou e agradeceu. Desculpou-se mais uma vez e se afastou constrangida.
– Desculpe, eu sei que talvez seja muito atrevimento te incomodar, – começou Izaya, indo atrás da garota – mas eu preciso encontrar esta rua. – mostrou um papel, no qual constava um endereço aleatório em Ikebukuro. A garota pegou o papel das mãos de Izaya, que continuou:
– Eu não conheço muito bem Ikebukuro. Vinha bastante aqui quando era criança, mas não me lembro de mais nada. Meu primo, que mora aqui, ficou de me buscar na estação, mas não pôde por causa do trabalho. – disse constrangido – É minha culpa, na verdade. Eu viria só amanhã, mas não aguentei e acabei viajando um dia antes.
– Ah! Você não é daqui? – perguntou a garota curiosa, tirando seus olhos do papel.
– Não, não! Sou do interior. Agora estou apenas visitando uns parentes... – disse animado.
– Verdade! – riu a garota – Agora que reparei seu sotaque. – Izaya ficou feliz por seu truque com o sotaque ter sido reconhecido. – Bom... Bem vindo a Ikebukuro! Não é muito comum encontrarmos pessoas como você por aqui... Dando tanto detalhes da sua vida pessoal assim. Cuidado, mocinho! – fez um tom que mostrava um misto de brincadeira e repreensão.
– Ah! – Izaya tapou a boca com as mãos inocentemente – Sempre me avisam isso. Mas você me pareceu tão fofa que baixei minha guarda...
A garota corou intensamente.
– Desculpe! – riu, colocando as mãos juntas em sinal de desculpa – Te constrangi! Eu sempre acabo falando demais...
– Tudo bem... Eu também acabei baixando minha guarda, normalmente não paro para conversar com desconhecidos na estação. – disse baixinho, ainda corada.
– Fico feliz por ter sido sua exceção, então. – sorriu para ela – Mas quando à história de “desconhecido” podemos resolver já. Sou Saga Yukio. É um prazer te conhecer.
– Sou Suzuki Yui. Prazer te conhecer, Saga-san. – Yui retribui o sorriso de Izaya – Agora que te conheço, posso dizer que não me incomodo nem um pouco em te indicar o caminho.
Yui explica detalhadamente o caminho para Izaya. Izaya, entretanto, não ouve uma só palavra do que a garota diz. Seu plano estava sendo um sucesso. Quase podia sentir seu corpo tremer de excitação.
– ... se quiser, eu posso te acompanhar até lá. – a garota termina, corando fortemente.
– Já te incomodei muito, Suzuki-san. A sua explicação é mais do que o suficiente para mim. Não quero te tirar de seu caminho.
– Eu não me importo! Não tenho nada de importante para fazer! – Yui quase berra as palavras, seu rosto não estava mais corado, estava, definitivamente, vermelho como uma cereja.
“Uau! Esse lance de amor à primeira vista no metrô é um sucesso total! Devia tentar mais vezes...” – Izaya pensa divertido.
– Já que é assim... Meu primo não volta até amanhã, hoje ficarei sozinho em casa, sem fazer nada. Mas acho que é um desperdício não aproveitar uma sexta-feira à noite. Dessa forma, quero te convidar para um passeio. Assim retribuo a sua gentileza. – lançou mais um de seus sorrisos treinados.
– Eu aceito! – Yui soou mais desesperada do que pretendia.
“hahahahah... Calma, garota! É só um jantar! Humanos são mesmo interessantes...”.
– Então te encontro aqui às 8h, pode ser? Meu primo me falou de uma casa de sushi russa! Quer ir até lá? – Izaya disse.
– Claro! Te encontro aqui às 8h.
Dois rostos sorridentes saíram da estação. Por mais que os motivos dos sorrisos fossem diferentes, ambos estavam realmente animados para aquela noite.
****
Às 8 horas em ponto, Izaya viu a garota se aproximar correndo.
Fazia alguns minutos que ele estava ali esperando. Estava ansioso, mal podia esperar para colocar seu plano em ação.
A garota se desculpou pelo atraso, mesmo que tivesse sido pontual.
Ele vestia um vestido azul e não usava seus fones. Izaya estava exatamente igual àquela tarde, a única exceção eram as mãos, que antes seguravam uma mala e agora estavam vazias. Isso era natural, já que, diferente do que tinha dito, realmente não iria se hospedar em lugar algum ali em Ikebukuro, não tinha, portanto, trazido consigo nenhuma roupa para trocar. A mala estava vazia, e Izaya simplesmente jogou-a em algum canto.
– Ah! Eu peço desculpas. Mesmo com sua explicação, acabei me perdendo um pouco enquanto tentava encontrar a casa dos meus parentes. Isso fez como que eu encontrasse tarde a casa e não tivesse tempo de me trocar. Desculpe! Mas achei que era melhor do que deixa-la esperando. – Izaya disse fingindo vergonha logo depois de ter cumprimentado devidamente a garota.
– Tudo bem! Sinto que tenha se perdido, mas fico feliz que tenha conseguido encontrar a casa. – disse Yui sorrindo e cumprimentando-o de volta. – E fico feliz que esteja aqui – acrescentou baixinho, mais para si do que para Izaya.
Os dois caminhavam pelas ruas de Ikebukuro. Izaya estava feliz que ninguém o havia reconhecido nas ruas. Seu disfarce realmente estava funcionando.
O informante concentrava-se em caminhar de forma que não denunciasse que conhecia o lugar, o que era difícil, já que a própria garota parecia incerta sobre qual caminho tomar para chegar ao Rússia Sushi. Ele sentia um impulso enorme em indicar-lhe o caminho correto para que chegassem logo até onde Shizuo provavelmente estava.
Yui falava o caminho todo, Izaya apenas sorria e balançava, às vezes, a cabeça positivamente.
Em um dia normal, Izaya a escutaria atentamente. Afinal, por mais entediante que fosse, a garota era uma de suas preciosas humanas. Não era sempre que um de seus humanos amados o deixava chegar tão perto, normalmente ele agarraria esta chance com unhas e dentes. Naquela noite, entretanto, a única coisa que Izaya sentia era ansiedade. Seu corpo tremia em expectativa.
Pouco tempo depois, os dois chegaram ao restaurante. Izaya sorriu aliviado quando viu que Simon não se encontrava lá, sabia que o russo o reconheceria em um instante.
“Deve estar na rua distribuindo folhetos...” – pensou enquanto adentrava o restaurante com Yui ao seu lado.
Eles sentaram-se em uma mesa, frente a frente.
Yui parecia feliz, e, pela primeira vez, Izaya a olhou atentamente. Ela era bonita e tinha um sorriso inocente.
“Ela te odiaria se soubesse quem você é, com certeza.” – teve que reprimir um sorriso malicioso. “Eu devo estar sendo realmente muito bom na minha representação para um humano se aproximar assim tanto de mim e sorrir desta forma. Você deve ficar orgulhoso de meu empenho, Shizu-chan!”.
– Realmente sou muito grato a você por me ajudar. – Izaya começou a dizer – Ouvi dizer que Ikebukuro se tornou um lugar realmente perigoso nos últimos tempos.
– Sim... – disse ela distraída enquanto olhava o cardápio – Nos últimos anos Ikebukuro tem que se tornado cada dia mais perigoso e estranho. A gente nunca sabe direito o que está acontecendo. Sempre tem algo entre dois homens e máquinas de refrigerante voadoras, ou sobre uma motoqueira sem cabeça.
Izaya riu sincero, pela primeira vez naquela noite. Yui o olhou, estranhando sua risada.
Izaya tossiu, disfarçando a risada com um quê se malícia que tinha deixado escapar, e acrescentou:
– Como assim máquinas de refrigerantes voadoras?
– É algo entre dois dos mais fortes homens de Ikebukuro – disse ela, desviando seus olhos de Izaya e voltando a olhar o cardápio – Izaya Orihara e Shizuo Heiwajima. Eles estão sempre brigando pela cidade e causando todo tipo de destruição. Não sei direito sobre Orihara, — disse ela voltando a olhá-lo e dando de ombros — mas Heiwajima está sempre por aqui e é tipo um monstro. Muito, muito forte. Enfim, você deve realmente evita-lo se não quiser confusão por aqui.
Izaya franziu, sem querer, o cenho. Para alguém que não o conhecia, ela realmente tinha realmente uma boca bem grande quando falava de Shizuo.
“Ok, Yui. Talvez você não seja tão boba quanto eu pensei...” – pensou o informante, enquanto suavizava novamente sua expressão e voltava a sorrir para a garota, mudando de assunto.
Alguns minutos depois, Izaya sorriu novamente. Mas desta vez não para Yui e um sorriso diferente, que provavelmente teria feito a garota correr porta afora se ela estivesse olhando-o naquele momento.
Shizuo acabara de passar pela porta de entrada.
****
– Shizuo, aquele ali não é Izaya? – Shizuo ouviu Tom perguntando surpreso enquanto apontava para algum lugar à sua direita, não muito longe dali.
Shizuo já o havia visto. E estava usando todo o seu esforço para ignorá-lo e convencer-se que aquele não era Izaya.
Tão logo adentrara o Rússia Sushi, havia sentido o cheiro de Izaya. Olhou surpreso ao redor, e não o pôde encontrar em lugar algum. Balançou sua cabeça fortemente. Com certeza era sua imaginação, passara o dia todo pensando naquele cheiro, tanto, que agora o sentia em todos os lugares.
“Apenas relaxe, Shizuo! Você veio aqui comer um sushi, e é isso, e só isso, que fará.” – pensou enquanto sentava-se com Tom.
Qual não foi sua surpresa então, quando ouviu uma risada se sobressaindo. Uma risada na voz de Izaya.
Olhou novamente ao seu redor, seguindo a direção da risada, e encontrou o informante sentando em uma mesa não muito longe da sua, com uma garota.
Shizuo teve o impulso de levantar-se na mesma hora e socar o informante até que ele nunca mais fosse capaz de entrar em Ikebukuro com as próprias pernas. Quando estava prestes a levantar-se, porém, viu os olhos de Izaya voltarem-se na sua direção. Aqueles eram os olhos mais maliciosos que já vira, mesmo entre todos os outros que Izaya já lhe havia direcionado.
Preso naquele olhar, Shizuo assistia atentamente enquanto Izaya acariciava os cabelos da garota a sua frente, sem nunca tirar os olhos do seu. Assistia enquanto o informante aproximava uma das mechas dos cabelos dela de seus lábios. Assistia enquanto a garota corava e encarava suas mãos. Assistia Izaya estreitar os olhos em sua direção e lançar lhe o mais maldoso de seus sorrisos.
Incapaz de assistir a mais, Shizuo virou o rosto e tentou ignorar Izaya.
Sentia vontade de sair dali. Sentia vontade de matar Izaya. Sentia vontade de destruir o restaurante e todo mundo nele. Mas não era capaz de nada, ele estava preso ali. Preso à curiosidade, que o fazia olhar de relance o inusitado casal. Preso ao orgulho, que o dizia para não fazer nada. Preso a qualquer outra merda que não o deixava desde aquela primeira noite de sonho na qual havia matado Izaya.
Mesmo após algumas doses de saquê – coisa que nunca bebia -, Shizuo não estava obtendo sucesso em sua tentativa de ignorar Izaya e sua companheira. Como um golpe final e certeiro, veio a pergunta de Tom:
– Shizuo, aquele ali não é Izaya? Sim!Tenho certeza que é Izaya. Ele está diferente, mas com certeza é ele... e agora?... Ei, Shizuo, aonde vai?
A pergunta de Tom havia sido a gota d’agua: agora ele tinha certeza que aquele era Izaya e que Shizuo não era um louco imaginando. Isso o deu forças para levantar de seu lugar.
Viu o olhar surpreso de Izaya acompanhar seus movimentos. Viu Izaya rir alto em sua direção enquanto dizia algo que fez todos no restaurante olhar para eles. Shizuo, porém, não ouvia nada, o som de seu coração pulsando forte invadia e possuía todos os seus sentidos.
Encontrava-se agora em pé a poucos passos da mesa de Izaya, que também havia se levantado e o encarava com um sorriso perverso e canivete em punho.
Shizuo respirou fundo na tentava puxar de volta para dentro de si a sanidade que sentia escapar-lhe pelos poros. Socou com força o balcão. Girou nos calcanhares e saiu porta afora, esbarrando em Simon que retornava ao restaurante.
****
Izaya havia reparado que Shizuo percebera sua presença, até fizera um ceninha com Yui para que ficasse óbvia sua intenção de provocá-lo. Até preocupara-se ao beijar os cabelos da garota enquanto olhava Shizuo se não estava exagerando e acabaria por fazer com que Shizuo definitivamente o matasse. Mas, não só Shizuo não o tentara matar, como o estava ignorando completamente. A única ação anormal de Shizuo havia sido o pedido de um saquê (pedido que se repetiu algumas vezes em seguida). Izaya sabia que Shizuo não bebia. Isso era um sinal, então, que ele estava abalado?
“Muito contido, Shizu-chan! Vem! Quero ver uma explosão!” – pensava. E quando deu por si, ouviu-se rindo de verdade num tom alto. Izaya havia se esquecido completamente da companhia de Yui, que agora o olhava confusa. Izaya não tinha olhos para mais nada, entretanto. Seus olhos fitavam apenas Shizuo.
Shizuo, porém, não reagia a nada e não voltou a olhá-lo diretamente.
Izaya já estava considerando uma ação mais enfática, quando viu Shizuo levantar-se repentinamente e olhar em sua direção.
– Shizu-chan, que prazer encontra-lo esta noite. – disse rindo alto e fazendo uma falsa e espalhafatosa reverência enquanto retirava sua boina.
Todos no restaurante olhavam apreensivos ora para um, ora para outro. O olhar de Yui se juntava ao deles. “Sim! Agora ela me reconhece!” – pensou divertido.
– Foi um prazer ter esta agradável noite com você, Yui-chan. Mas minha companhia preferida parece estar pronta pra me roubar de você. Sinto muito! – disse irônico – Mas, acredite em mim, eu sou uma terrível companhia. Você definitivamente não gostaria de um segundo encontro e provavelmente acabaria me odiando. – piscou para ela — que o olhou com um misto de surpresa e raiva — e empunhou seu canivete.
Izaya olhou espantado para Shizuo quando o viu respirar profundamente e parar de avançar na sua direção. Ainda mais surpreso ficou quando o viu socar o balcão e sair do restaurante.
Izaya ficou plantado no restaurante, com o canivete apontando para o nada e com um sorriso estúpido no rosto.
– Shizu-ch... – começou, com raiva, a berrar – Shizuo! Não vai fugir de mim de novo, desgraçado! – correu para fora do restaurante, saindo da vista de todos os clientes que o encaravam confusos.
Izaya seguia Shizuo pelas ruas de Ikebukuro, o guarda-costas havia andado rápido, o que criara uma grande distância entre eles. O informante via-se, portanto, na obrigação de correr para alcançar seu inimigo, e isso o deixava puto.
“Shizu-chan está me fazendo correr por ai atrás dele! Isso não devia ser assim! Devia ser o contrário, Shizu-chan maldito!” – pensava.
Quando finalmente alcançou Shizuo, colocou-se a frente dele, barrando seu caminho. Voltou a empunhar seu canivete e abrir seu sorriso malicioso. Shizuo, entretanto, sequer olhou para ele. Apenas recuou alguns passos e correu na outra direção, enquanto dizia entredentes:
– Suma de uma vez, Izaya. Maldita pulga insistente!
Izaya olhou espantado para a direção para a qual o guarda-costas havia corrido.
Ao redor, outros olhos espantados acompanhavam a cena.
Kadota, Erika e Walker olhavam espantados para onde Izaya estava parado e tinham expressões confusas por causa do que tinham acabado de presenciar, eram incapazes de acreditar no que tinham visto e ouvido.
Izaya, porém, não reparava em nada que o cercava, tamanha raiva que sentia.
– Não vai fugir, não, Shizu-chan.
****
Izaya seguiu Shizuo para dentro do apartamento. Era a segunda vez que entrava no lugar em menos de uma semana. Aquela tinha sido uma semana de muitas exceções: sem perseguições, sendo ignorado para Shizuo, correndo atrás do ex-barman até sua casa duas vezes... mas, de todas as exceções, não podia perdoar a última. Shizuo NÃO iria ignorá-lo pelas ruas de Ikebukuro e fazê-lo correr atrás dele berrando. Não! Definitivamente não! Para Izaya, Shizuo teria que pagar esta humilhação. Izaya teria que dar o troco em Shizuo. E era nisso que pensava enquanto seguia o loiro apartamento adentro.
Seria pagar na mesma moeda, o humilharia e, de quebra, descobriria de uma vez por todas o que era a causa de toda àquela estranheza do guarda-costas.
Izaya não havia pensado em um plano completo de ação. No dia anterior, havia pensado apenas até a parte de provocar Shizuo aparecendo com uma garota na frente dele. Afinal, se Shizuo o queria, aquilo definitivamente iria irritá-lo. Não pensou, entretanto, que aquilo realmente funcionaria... Aquilo era para ser sua primeira tentativa, apenas para sondar o terreno, iria apenas assistir a reação de Shizuo, que, pensava ele, seria correr atrás dele e tentar mata-lo. Izaya não esperava por toda aquela cena.
Riu internamente. “Não me canso de sua imprevisibilidade, Shizu-chan!”.
Izaya não sabia, portanto, qual seria o próximo passo a dar depois de irritar Shizuo.
Sua mente se ascendeu junto com um sorriso malicioso, porém, quando viu Shizuo virar, olhá-lo nos olhos e perguntar com uma expressão cansada:
– O que você que de mim, pulga maldita?
Izaya sabia o que queria de Shizuo. Queria o extremo. Queria tudo.
– Uma brincadeira nova, Shizu-chan. – falou alargando ainda mais o sorriso malicioso.
O informante tinha que confessar: quando pensou, no dia anterior, em uma “nova brincadeira”, pensou apenas em provocar Shizuo e sua recente “queda” por ele. Quando imaginou Shizuo querendo transar com ele, só conseguia pensar em como usar isso para provoca-lo ainda mais, humilhá-lo ainda mais, e, até, manipulá-lo com isso.
Mas agora, vendo a expressão cansada e o ar defensivo de Shizuo, só conseguia pensar nele como uma fera acuada. Uma fera acuada que precisava, imediatamente, de um instrutor.
Izaya voltou alguns passos e fechou a porta do apartamento que ficara aberta com a entrada repentina dos dois.
Olhou para Shizuo e notou que seu ar defensivo havia se intensificado com sua recente atitude. O informante se deliciava com os olhos que iam se tornando cada vez mais confusos com sua lenta aproximação.
Aproximou-se o suficiente para que a respiração agora acelerada de Shizuo batesse de encontro ao seu rosto. Podia sentir um leve cheiro de álcool.
Ponderou se era o álcool que o estava fazendo parecer tão vulnerável.
“Impossível! Shizuo é um monstro, nunca se afetaria tanto com algumas doses de saquê. Além do mais, a quantidade de remédio que já tomou em hospitais desde que começou a arremessar coisas enormes é surpreendente. O mais provável é que álcool sequer faça efeito nele.”
Mas ao olhar para Shizuo, a impressão que tinha era exatamente a oposta. Ele parecia bêbado, com o rosto corado e os olhos perdidos fixando algo aleatório.
Mal sabia Izaya que Shizuo estava consciente das coisas ao seu redor como nunca antes na vida. Ele podia ver tudo, e sabia, ainda que não olhasse diretamente para Izaya, que ele estava PERTO DEMAIS.
Shizuo sabia que sua consciência não resistiria muito mais. Precisava de espaço.
Shizuo afastou lentamente, recuando alguns passos, fugindo da proximidade. Mas Izaya não desistia dela, e voltava a avançar em sua direção.
Depois de uma breve batalha por espaço (ou pela redução dele), Shizuo sentiu a parede em suas costas barrando seu recuo. Olhou de relance para a porta, considerando deixar o apartamento, mas, antes que pudesse ir em direção a ela, sentiu Izaya barra-lo, apoiando um dos braços na parede na qual Shizuo se encontrava encostado. O braço de Izaya estava na altura dos olhos de Shizuo, de forma que sua visão da liberdade pela porta foi boqueada.
Nesse momento, em uma situação completamente sem precedentes, Shizuo via-se incapaz de fugir ou mesmo afastar Izaya.
– Agora, Shizu-chan... o que vamos fazer?
Fale com o autor