Depois de um sonho
1 Pesadelo
Notas iniciais
Sentia desespero. O sangue em suas mãos era da mesma cor que os olhos que o encaravam. As mãos doíam. Sabia que o tinha feito. Havia, finalmente, pego Izaya. A cada soco que desferia, porém, a sensação que o tomava em muito diferia do prazer esperado. Não se lembrava da perseguição. Lembrava-se apenas do desespero, da dor, como se cada golpe desferido tivesse seu próprio corpo como alvo. Mas o sangue que manchava suas mãos não era seu. O sangue em suas mãos tinha o cheiro dele.
Sentiu algo molhar seu rosto. Sabia! Algo com certeza o havia machucado, algo que causava muita dor. Levou a manga de sua camisa ao rosto para limpá-lo, mas, diferente do esperado, ao olhá-la não encontrou sangue. Estava molhada, mas o líquido que a manchava não era vermelho. Olhou novamente os olhos rubros diante de si e viu seu reflexo neles. A expressão que encontrou ali não mostrava nem felicidade nem alívio. O reflexo pintado naqueles olhos escarlates não ostentava sequer traço de destes sentimentos.
“Espera”, ele pensou, “Finalmente o peguei, agora ele não fará mais nada a ninguém, não me colocará em situação estranhas nem foderá novamente minha vida... Tudo certo então, né?”.
Olhou novamente seu reflexo, esperando que esses pensamentos trouxessem um sorriso aos seus lábios. O que os dois rostos que o encaravam mostravam, entretanto, era totalmente diferente de um sorriso: o primeiro, severamente machucado, mostrava dor e surpresa; o segundo, refletido nos surpresos olhos, mostrava desespero.
O líquido que molhava sua face caiu no rosto marcado pela surpresa e ele finalmente percebeu o que era. Lágrimas? De quem? Suas? Limpou as lágrimas que acumulavam-se no rosto que revelava cada vez mais perplexidade, manchando-o de vermelho no processo. E, então, sem qualquer aviso, seu reflexo sumiu, a surpresa e perplexidade sumiram, o vermelho que o encarava sumiu. A única coisa que podia ver agora era sangue em um rosto pálido, que ia, aos pouco, sendo lavado por lágrimas.
Acordou suado em sua cama, abrindo excessivamente os olhos cor de avelã e fitando o branco do teto de seu apartamento. O branco que tanto diferia do vermelho impuro que o cercava.
Olhou a procura do vermelho. E então a realidade atingiu-o com força.
Um pesadelo.
Um pesadelo que pulsava forte, impondo-se de forma tão intensa que ele quase podia sentir o cheiro de sangue.
Direcionou sua atenção às suas mãos a procura do líquido vermelho que instantes antes as manchavam e viu caírem ali algumas pequenas gotas. Mas, assim como da outra vez, estranhamente, não era vermelho a cor do líquido que encarava. Sentiu seus olhos arderem.
Isso era real.
O líquido transparente estava ali.
Levantou-se da cama num salto e olhou-se no espelho.
Heiwajima Shizuo chorava.
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