Depois de um sonho
22 Especial 4 - As mil e uma tardes chuvosas de sábado
Notas iniciais
Especial 4 – As mil e uma tardes chuvosas de sábado
– Ok... Então seria algo como...
“A chuva caia intensa em Ikebukuro, confundindo o fim de tarde com noite. Entretanto, ao contrário do que o caos de raios e pesadas gotas poderiam sugerir, aquele tempo polia um dia perfeito. Um que não se importava com a definição de perfeição que apenas os dias levemente ensolarados tinham direito. Um caoticamente equilibrado, daqueles que orgulhosamente arrastaria para sua imprecisa confusão todos os que cruzassem seu caminho. Como se soubessem, entretanto, o que os esperava, quase todos os moradores e visitantes do distrito de Ikebukuro que ousaram deixar o conforto de suas casas naquele sábado que a meteorologia já anunciava há dias como de tempestade agora se refugiavam dentro de lojas. Quase todos. Dois homens, um morador, outro visitante, mantinham-se com os pés no cimento encharcado. E era exatamente para estes homens que este dia que mesclava claro e escuro e confundia contornos era necessário. Eram perfeitos um para o outro, o confuso temporal e o contraditório par, ambos testemunhas únicas do outro.
Os passos rápidos soavam barulhentos contra as poças de água que preenchiam os buracos no asfalto.
Cada um daqueles buracos contava uma história. Aquele à direita resultado de um caminhão tombado, aquele metros atrás filho do um choque forte de uma placa de trânsito, aquele que o homem de casaco negro pisava era o mais recente, resultado do lançamento de uma máquina de vendas automática causado exatamente pelo homem que agora pisava um buraco fruto de uma moto arremessada um ano antes. Cada canto daquela rua e das que a cercavam, cada centímetro daquela calçada e de seus arredores, contava uma história diferente a quem se propusesse a ouvir. Entretanto, assim como não havia quaisquer testemunhas para a perseguição entre aqueles teimosos homens sem qualquer respeito pelos esforços meteorológicos dos canais de TV, também para as histórias do chão não eram reservados olhos nem ouvidos, mesmo que todas elas pudessem habilmente preencher tardes chuvosas como aquela. E assim, talvez por estarem ambos livres de supervisão curiosa, ruas e perseguição uniram-se como um: as memórias no chão juntaram-se no jogo entre dois dos mais fortes homens a criarem-nas, e os donos dos fortes passos juntaram-se para dar vida a novas marcas. Assim, Ikebukuro, com seu céu escuro, asfalto esburacado e gotas de chuva que se confundiam com o suor que escorria dos corpos suados, se tornou testemunha direta de Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya.
(...)”
– E esta é a ambientação?! Sacaram? É para criar um clima! A ideia de chuva mesclando com suor é sexy, não é?!
“Como testemunha e palco, Ikebukuro atuava com perfeição, dirigindo a cena com maestria. Era exatamente a Ikebukuro que aqueles homens precisavam. A chuva que jogava sobre eles não era a pedida por clichês, não era chuva que manda carícias, que atrai com seu canto amantes apaixonados para beijos molhados. Era forte como merecia Heiwajima e intensa como cobrava Orihara. Daquelas que atrasam passos e nublam sentidos. ‘Fazê-los cegos’, era o que tamborilavam as gotas no asfalto. E o distrito não decepcionava em seu dever. Sabia bem com quem jogava: a chuva era apenas seu primeiro artifício.
Um caminhão parado estrategicamente na avenida principal, a moto vermelha tombada pelo intenso fluxo de água na entrada da praça principal, a árvore arrancada pela raiz e arrastada até a entrada do metrô: o distrito cumpria seu papel na partida entre os dois mais fortes homens que criara em seu seio, brincando exatamente como o exigido. Impedindo avenidas, acuando-os aos becos, limitando progressivamente o espaço disponível para escapadas, derrubando postes para diminuir a oferta de armas, iludindo os dois fortes homens que se juravam em um jogo de gato e rato, acuando a ambos em um pequeno galpão em seus limites.
Os trovões soavam agora como gargalhadas enquanto o distrito mudava seu ponto de vista, estreitando-o para seus filhos favoritos, que agora, presos no galpão-ratoeira, tinham apenas um ao outro para encarar. Por saber exatamente o que precisavam, jogou em um ponto afastado dali um raio, a claridade transpassando as janelas de vidros sujos e iluminando a armadilha e os que caíram nela. E em seguida outro daqueles trovões risonhos ao perceber como fitavam-se aqueles olhos, um par castanho-avelã, outro castanho-avermelhado, ambos perdidos nos estragos meticulosamente planejados que a chuva, os galhos, os buracos e as barreiras haviam causado nas roupas. ‘Fazê-los cegos... ’, era o que ainda tamborilavam as gotas de chuva, agora no teto metálico do galpão. Clemente, o distrito ouviu o pedido, reduzindo a chuva e guardando para si a vontade que sentia de iluminar aqueles olhos intensos mais uma vez.
(...)”
– E este é a razão da história, eles estão juntos em um galpão nos limites da cidade. Eu gosto de clichês chuvosos, então deixei aqui como trilha sonora. E, então, com eles sozinhos, Shizuo abriria os lábios para ameaçar Izaya. Não seria assim?! Mas dai... “- Hey maldito, o que está fazendo?”, seria o que deixaria de seus lábios, tamanha surpresa por ver Izaya despindo-se à sua frente. “- Tirando a roupa molhada, Shizu-chan”, ele responderia, com um daqueles sorrisos maliciosos, “- Você deveria fazer o mesmo”. E nhaaaa, tão sexy! Não! Espera, espera! Melhor do que isso... ai meu deus! Ele diria, na verdade: “-Posso fazer o mesmo com você se quiser.”, e dai ele apontaria para a própria boca e selaria com chave-de-ouro: “-Posso fazer com minha boca”.
“Os olhos castanho-avelã se arregalam diante do sorriso malicioso, sentindo-se presos por ele, enquanto os dedos que seguram uma placa de trânsito – uma das poucas que o distrito não conseguiria tomar dele – afrouxam-se minimamente. O dono do sorriso orgulhosamente projetado por seu ego e estrategicamente posicionado na lateral de seus lábios gargalhava deliciado. Não precisava que um novo raio iluminasse o galpão para saber que as pupilas de Heiwajima Shizuo dilatavam-se ao encararem-no. O sorriso alargou-se, possuindo o corpo magro humildemente coberto por farrapos que lembravam apenas vagamente suas roupas negras e fazendo-o arrepiar-se, não havia para ele maior prazer do que sentir o poder que impunha seu corpo ao homem mais forte de Ikebukuro. Sentia-se poderoso, mesmo diante de tais olhos predadores.
(...)”
– Por favor, alguém a faça parar! Se eu soubesse que seria assim eu teria ficado na chuva.
– Togusa-san, a ideia de entrar aqui foi sua.
– Ah, eu estava chegando na melhor parte! Calem-se, vocês! Hum... Como eu dizia: “Sentia-se poderoso, mesmo diante de tais olhos predadores.” Walker, porque você está rindo? Teve alguma ideia?
– Me lembrei daquela cena de Bakuman, quando o Niizuma desenha os olhos do Mashiro. Agora também são olhos como de herói de mangá?
– Exatamente! Olhos de herói de mangá! Herói de mangá BL!
– Será que eu quero saber o que é um mangá BL?
– Por que não iria querer?! Mangá BL é... Bom... Melhor do que dizer é mostrar! Então, como eu dizia:
“Shizuo encarava Izaya com olhos de herói de mangá BL, ou algo como isso.
Um clichê narrativo pediria que aqui se narrasse sobre o quanto aqueles olhos revelavam mais do que autorizava Shizuo, o quanto deixavam escapar todos os segredos que seu dono escondia no mais profundo de seu coração, segredos que seus lábios insistentemente resistiam a entregar. Entretanto, não haviam quaisquer segredos sendo revelados por aqueles olhos, eles eram os olhos de sempre: castanhos-avelã, agora mais escuros pela falta de luz do galpão e pela excitação. Aqueles sempre foram os olhos com os quais Shizuo encarara Izaya. Aqueles que não escondiam verdade alguma, que revelavam, como sempre, tudo o que possuía o homem mais forte de Ikebukuro. Os olhos que acompanham ações furiosas, os olhos de um homem de força monstruosa, os olhos que encaravam a destruição deixada pelo distrito, eram estes mesmos olhos, sem quaisquer acréscimos ou segredos, que agora encaravam intensamente a pele descoberta que revelavam os farrapos de roupa negra que cobriam ineficiente Izaya. E, por mais contrário que pudesse parecer, nada de inadequado brilhava naquelas retinas, tudo perfeitamente encaixado, a fúria e o desejo, um tão verdadeiro quando o outro. E era exatamente por ser este o olhar a ele dirigido que Izaya sentia-se em êxtase. Não suportaria do outro nada que não fosse verdadeiramente seu, que destinasse a si um olhar carinhosos ou livre da intensa raiva.
Izaya, entretanto, não tinha direitos de exigir olhos sem segredos, não quando os seus próprios escondiam tantos. Não que pudesse ser de outra forma, não quando seus segredos eram tudo o que era. Aqueles olhos castanho-avermelhados escondiam todas as verdades que cabiam neles, todas elas, sem exceções. Entretanto, assim como a fúria e o desejo se mesclavam em contraditória harmonia no homem mais forte de Ikebukuro, também nos olhos de Izaya a mentira não contrastava com o interesse com o qual olhava agora para a gravata solta ao lado dos botões abertos da camisa social branca. Mesmo naqueles olhos que estavam sempre a contar mentiras não parecia questionável a excitação e expectativa.
Ambos, Shizuo e Izaya, eram os mesmos.
Olhavam-se da mesma forma raivosa e debochada de sempre. As mãos permaneciam com suas armas. A guarda permanecia alta. Algo ameaçava estourar a qualquer momento. A promessa de morte pairava. Então, perguntava-se o distrito, por que tudo parecia tão diferente quando emoldurado pelo barulho suave da chuva e pelo leve cheiro de poeira do galpão abandonado? Mesmo aos olhos daquele bizarro distrito-mãe não era claro o que aconteceria quando a diligente análise dos olhos avelã e rubros findasse. E assim, susteve a respiração quando os músculos se retesaram no momento que precedeu o avanço de Heiwajima Shizuo, seu filho mais impulsivo. Acompanhou com um olhar deliciado, entretanto, quando percebeu que a ação enfática seria de Orihara Izaya, seu filho mais ousado, que, sentindo a aproximação de Shizuo, lançou, ao mesmo tempo, suas lâminas e seus braços contra ele, na perfeita personificação de tudo o que sentia e exigia dele, na contradição entre suas duas fomes, na linha indivisível entre atração e repulsa.
E o homem que os recebeu estava preparado para ambos: lâminas e braços. Aceitando ambos com a mesma determinação e resistindo bravamente a todos os ataques: aqueles que feriam sua pele e aqueles que feriam seu orgulho. Recebeu-os com seus olhos verdadeiros, com a mesma fúria e com a mesma ameaça de morte. E retribuiu-os, a ambos, com o mesmo aperto forte, na cintura, que tinha tanto de golpe quanto tinha de abraço.
E nesta inseparável ambiguidade entre força e fascínio seguiram todos os outros toques que ignoravam o eminente perigo da lâmina do canivete que pairava a milímetros de seu pescoço, resvalando aflitivamente em sua pele a cada vez que se debruçava para exigir mais um beijo dolorido do mais perigoso informante de Ikebukuro. Beijos que sequer precisavam ser exigidos, que eram entregues com prazer, quase como punição, que se tornavam mais intensos quanto mais sangue sujava a lâmina do canivete preferido de Orihara Izaya, como se alimentados por ele.
O distrito sorria orgulhoso ao ver como agora se empenhavam seus filhos prediletos em terminar o trabalho que começara mais cedo naquela tarde chuvosa, executando-o com violenta eficiência: as roupas castigadas pela tempestade jaziam agora rasgadas aos pés dos dois homens, em caóticos belos destroços. Quase podia jurar que a límpida água de suas nuvens que enviara de presente a aqueles dois evaporava em suas peles quentes, mas sabia que isso seria exagero de mãe-coruja ostensiva.
Contrariado, aumentou a chuva que diminuíra minutos antes. O sussurro de chuva suave que enviara quase como embrulhado em papel mel com um grande laço vermelho não recebera a atenção desejada de seus filhos. “Ingratos”, sorria num misto de diversão e repreensão em um trovão, mandando a chuva forte abafar com o som alto de seu atrito no teto metálico do galpão os xingamentos que deixavam os lábios de ambos os homens nos momentos entre beijos.
Tantos xingamentos, tantos deles, os piores deles, os mais sujos, daqueles que não entram em dicionários. Tantos beijos, tantos deles, os melhores deles, os mais impudicos, daqueles que não entram em histórias de amor.
Perfeitos para eles, para aquela que não era, definitivamente, uma história de amor, ou, ao menos, não uma que pudesse ser definida com tal facilidade. “O que não pode ser definido com facilidade” era exatamente o que aquele dia, aqueles dois e tudo o que os cercava significava. E então, assim como o dia transformava-se noite e os xingamentos transformavam-se beijos, as roupas no chão faziam-se lençóis e o chão empoeirado fazia-se ninho. Tomados por todas as transformações, aqueles dois homens, Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya, também transformaram-se: primeiro em fogo, depois em um.
Os sussurros abafados pela chuva eram interpretados por ambos como reclamações e xingamentos, mas o distrito, Ikebukuro, ouvia a tudo perfeitamente, todos os pedidos, todas as ordens, todos os superlativos, todos os advérbios e todos os adjetivos. Onde Shizuo pressupunha um “m” de “maldito”, o distrito via deliciosamente o “m” de “mais forte”.
(...)”.
– Ok. Espere. Eles estão...
– Estão...?
– Estão pelados?
– Como assim, Dotachin?! Você não ouviu a parte de “rasgar a roupa” e “usar as roupas de lençol”?! E depois o “transformar-se em um”?!
– E você está contando como se fosse Ikebukuro?
– Sim! Gostou? Eu sempre achei que Ikebukuro fosse um personagem ótimo para uma história! Nunca reparou como tudo sempre acontece aqui? Tudo sempre vem parar aqui? Com certeza o distrito também tem algo de vivo e diferente.
– Tem bastante gente estranha em Ikebukuro, né?
– Viu só, Togusa-san! O Walker me entende! Tem mesmo, né?! Tem o Simon.
– E o motoqueiro-negro.
– E o Shizu-chan.
– E o Izaya.
– E as gangues.
– Ok, vocês dois! Parem com isso de ficar completando as falas do outro. Eu também não entendi direito, como o Kadota. O que exatamente você quer dizer com “ser um”, e “mais forte”, Erika?
– Espera, esta é mais uma daquelas suas histórias sobre como aqueles dois se amam?
– Você só percebeu isso agora, Kadota? Foi por isso que eu a mandei parar mais cedo!
– Por que você está repreendendo ele, Togusa-san? Você não acabou de perguntar o que significa “ser um” e “mais forte”.
– Vocês...! Será que o único que está entendendo aqui é o Walker? Tsc... Ok, sem problemas, eu posso ser mais clara para que todo mundo entenda! Hum, deixe-me ver... Ok? Você querem detalhes, né?! Não se arrependam! Vamos lá, então!
“Guerra. Daquelas que não deixam vencedores, daquelas que só acabam quando ambos os lados esgotam seus ataques e mostram-se incapazes de continuar. Daquelas nas quais os inimigos hesitam atacar por reconhecer o poder do outro, por temer o efeito que um ataque terá em seu próprio território. Era isso o que aqueles olhos, castanhos-avelã e castanho-avermelhados, pareciam considerar enquanto se fitavam ininterruptamente, como se um simples piscar de olhos pudesse ser interpretado como um anúncio de início de batalha. A ameaça pairava pesada no ar, tornando-o quase irrespirável, fazendo ambos os peitos moverem-se pesados. O barulho da chuva caindo implacavelmente do lado de fora como um anúncio do sangue que poderia ser derramado caso um passo em falso fosse dado.
Ou, ao menos, era isso o que pensaria qualquer um que olhasse para aquela cena que trazia Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya olhando-se atentamente, ambos com as roupas parcialmente rasgadas, naquele galpão nos limites da cidade.
A verdade, entretanto, é que estaria errado qualquer um que assim pensasse.
Aqueles não eram olhos de quem pondera o início de uma guerra. Eram os olhos de quem pondera uma trégua numa guerra que, verdadeiramente, sempre esteve lá e sempre estará.
Um leve brilho em ambos os olhos, entretanto, denunciou que nenhum deles acreditava na trégua. Olhos estes que precederam ambos os ataques: os dois passos à frente e punhos cerrados de Heiwajima Shizuo e o ágil ataque de Orihara Izaya, que, com sua arma favorita em mãos, lançou-se a seu pior inimigo.
Não era guerra: o homem armado foi recebido com prazer nos braços do outro. Mas também não era trégua: os braços que o receberam eram firmes e o apertaram-no dolorosamente. E na ambiguidade das ações, tudo acabou por misturar-se: a arma pressionada contra o pescoço, os braços apertando firmemente a cintura e os lábios que se aproximaram e uniram-se aflitos numa carícia descomedida.
Botões arremessados como balas de revólver contra as paredes metálicas, destroços de roupas no chão, dois dos mais fortes homens de Ikebukuro a encararem-se, gemidos dolorosamente altos: o cenário poderia ser interpretado como representação do caos, mas não naquela tarde. Não naquela tarde chuvosa, não naquele galpão nos limites do distrito, não com aqueles dois homens. Naquela tarde chuvosa os botões eram arremessados com furor pela urgência em despir o outro. As roupas jaziam como anúncio. E os gemidos altos eram propositais, desejados, queridos.
E agora se encaravam, cada um preso no corpo nu do outro, ambas as mentes focadas apenas em aproximar-se cada vez mais, tocar cada vez mais intensamente. Incapazes de conterem-se, aproximaram-se, tocaram-se, provaram-se. Izaya traçando com a ponta da língua a linha do pescoço e clavícula de Shizuo, provando-o, afundando-se na dobra entre o pescoço e o ombro, inspirando fundo o cheiro de cigarro, sabonete e ferrugem. Shizuo marcando com a ponta dos dedos o peito de Izaya, explorando possessivamente cada centímetro da pele pálida, apertando-a, descobrindo-a, sentindo-a arrepiar-se sob seus dedos.
– Hey – chamou Shizuo, segurando dolorosamente o queixo de Izaya para afastá-lo de seu pescoço e fazê-lo olhá-lo, sentindo-se prender por nos tons rubros que o encaravam seriamente, expectantes – eu não aguento mais.
E Izaya sorriu, misto contraditório de inocência e malícia, mordendo os lábios demoradamente em seguida. Provocava-o. Shizuo sabia que Izaya provocava-o, convidando-o a seguir em frente, tirando a guarda de suas fronteiras e convidando-o a entrar em seu território. Sabia também que era uma armadilha, a pior delas, aqueles lábios avermelhados atacados por dentes tão brancos, a língua que os afagava e umedecia, os olhos escarlates brilhando quase todo pupilas. Era uma armadilha, a pior delas, a mais deliciosa e tentadora. Mas não tinha escolha a não ser cair nela, mesmo que pra isso também tivesse que desarmar-se. E assim, ainda que soubesse que estaria perdido no momento que o fizesse, adentrou o território inimigo: tomou para si os lábios de Izaya, aproximou os corpos, empurrou-o até uma das paredes metálicas do galpão e prensou-o com ela.
Izaya gemeu contra seus lábios, mas era certo que gemeria, era o mínimo que Shizuo exigia dele. Era o mínimo que poderia lhe dar ao tomar tanto dele ao atraí-lo para aquela ardilosa emboscada sem saídas. Izaya xingou contra seus lábios, mas também era certo que o faria, era o mínimo que Shizuo esperava de seu pior inimigo, não aceitaria uma entrega total, até mesmo porque ele mesmo não a daria. Não aceitaria que Izaya agisse de forma diferente dele mesmo: com gemidos e insultos arrancados pelo homem a sua frente. Não sabia se, entretanto, pela excitação ou pelo ruído alto da chuva contra o teto e paredes metálicas, mas os insultos transformavam-se em seus ouvidos, soavam como pedidos, como exigências, como súplicas.
Não se importava, verdadeiramente, se eram insultos, súplicas ou gemidos, Shizuo fazia-se surdo a tudo o que o cercava. Os lábios de Izaya que continuavam a separarem-se, roucos, apenas convidavam Shizuo a invadi-los com sua língua e posteriormente com seus dedos. Dois deles a brincarem com a língua do outro, involuntariamente impedindo-o de soltar seus insultos ou pedidos.
Shizuo, por outro lado, ainda soltava seus gemidos impudicamente, livre de quaisquer impedimentos, indeciso sobre qual situação parecia-lhe melhor. Hesitando quanto a tomar novamente a língua de Izaya para si ou assisti-lo chupar seus dedos de tal imoral forma. Mas não precisou decidir-se. Izaya enfrentou-o e provou-o que suas palavras ainda mereciam ser ouvidas. E, desta vez, não foi um gemido, nem um insulto ou súplica, a escapar dos lábios do mais perigoso informante de Ikebukuro apesar da restrição, foi uma ordem:
– Rápido!
E Shizuo não teve qualquer chance de rebater. Foi rápido, rápido o suficiente para receber um gemido de aprovação de Izaya quando tomou novamente os lábios para si e invadiu-o com ambos os dedos, intruso, conquistador.
Rápida também foi a forma como o virou de costas para si, obrigando-o a apoiar ambos os antebraços no frio metal para evitar que seu rosto chocasse-se contra a parede. Rápida foi a maneira como segurou o quadril junto ao seu e forçou-o a empinar-se. ‘Rápido’ também foi a ordem que se repetiu nos lábios que soltara segundos antes. Entretanto, vendo a pretensão daquele homem que se inclinava provocativo sobre a parede, quase tocando-a com seu tronco enquanto soltava um dos braços para transpassa-lo ao redor de seu pescoço, empinando voluntariamente seu quadril, Shizuo não pode mais acatar sua ordem.
Faria devagar. Insinuaria seu quadril lentamente contra aquele empinado em sua direção, projetando calmamente seu pênis contra ele, masturbando-o demoradamente...
(...)”
– Oh, céus, por favor, pare! Eu não aguento mais isso! Como você consegue falar essas coisas todas com esse rosto tão calmo!?
– Foram vocês que me disseram que não estavam entendendo... Eu só narrei a mesma cena de forma mais detalhada... E com uma mudançazinha no formato narrativo.
– Então Shizuo é quem fica por cima...
– O que você disse, Dotachin?
– Oi? Não, nada, só fiquei um pouco curioso.
– Ei, Kadota! Você está ficando curioso sobre a história dela!?!
– Togusa-san! Não interrompa o Dotachin... Justo agora que consegui um público participante... Enfim, sobre o que você ficou curioso?
– Bom... Você sabe... Eu conheço os dois há tempos... Eu só... Caramba, não me faça dizer isso! Enfim, eu só não consigo ver o Izaya tão... hum... Submisso assim...
– Bom, por esse lado, o Izaya faz o tipo de personagem que não aceita sair do controle...
– Oh! Eu concordo total com vocês, Dotachin, Walker! Eu acho os dois um casal super flexível. De verdade! Sempre pensei em ambos como Sekes!
– Seke?
– Não pergunte, Kadota!
– Tá, ok, deixe-me pensar, talvez eu tenha que refazer um pouco então... Tá bom, decidi, voltem na mente até a parte que o Izaya lança-se ao Shizu-chan com o canivete em punhos. Importam-se se eu mudar a linha narrativa? Acho que não, né?! Ok, então foquem nisso: Izaya pressiona a lâmina no pescoço do Shizu-chan, ferindo-o mais a cada vez que eles se apertavam um contra o outro.
“Uma linha vermelha, descontínua, labiríntica, marcava o corpo de Heiwajima Shizuo como um caminho destacado em um mapa. O início era o centro do pescoço, marcado por uma linha transversal e firme, dentre todo o percurso, era o trajeto mais generosamente marcado, resultado da pressão contínua da lâmina de Orihara Izaya na pele fina — esta era a linha dos primeiros beijos, desesperados, famintos, dolorosos. Ao fim da primeira linha tinha início um traço fino, falhado, quase como um escorregão, do pescoço à clavícula – o traço de quando Shizuo o afastou bruscamente para direcionar às suas roupas a violência com a qual até então atacava seus lábios, rasgando-as de uma só vez. A linha seguinte começava dispersa, sem ligação com a anterior, no início do peito do guarda-costas, e se estendia por todo o torso, percorrendo-o até alcançar o cós da calça negra. Este último traço não carregava nenhum rastro do anterior escorregão: era decidido, forte, reto, milimetricamente desenhado – o traço que refletia o sorriso de seu criador durante a criação, a linha que traçava a vingança pelas roupas destruídas, manchando suavemente com sangue a camisa branca e levando consigo os botões de mesma cor.
Os olhos castanho-avermelhados agora substituíam o canivete no trabalho percorrer com diligente interesse o corpo de Shizuo. O vermelho dos olhos brilhando de excitação ao ver-se refletido no sangue dos cortes. Mordeu com força o lábio inferior, trazendo mais vermelho para juntar-se ao de seus olhos e do corpo parcialmente desnudo a sua frente. Sem poder conter-se, tocou com a ponta dos dedos a ferida imediatamente acima do cós da calça, pressionando-a levemente e assistindo maravilhado um novo filete de sangue inundar o corte. Percorreu com as pontas dos dedos o caminho outrora traçado, satisfeito com os rumos escolhidos, sujando de vermelho suas unhas e sentindo a umidade na pele do outro, pressionando levemente as partes já coaguladas para trazer de volta à superfície o vermelho. Ao corte no pescoço, o mais grosso e profundo, dedicou especial atenção, espalhando o sangue pela pele, tingindo-a de vermelho. Terminou seu caminho nos lábios de Shizuo, tingindo também ali com discreto tom rubro. Salivou em expectativa, aqueles lábios firmemente cerrados e manchados em escarlate pareciam-lhe deliciosos, e nada, nem mesmo o momento no qual eles abriram-se para insulta-lo e repeli-lo, dissuadia-o da ideia de que eles o eram em absoluto.
– O que pensa que está fazendo, pulga maldita? – os lábios abriram-se e cuspiram a ele, mas tudo o que pode pensar era em como a língua de Shizuo se movia enquanto pronunciava as palavras e de como estas pareciam saborosas em sua voz, tão cheias de vontade e raiva.
Incapaz de conter-se, levou pela segunda vez a ponta dos dedos ao corte no pescoço e sujou-os novamente, sentindo o outro retrair-se com seu toque. Desta vez o alvo do vermelho era seus próprios lábios, os quais manchou deliciado, lambendo a ponta dos dedos no fim do processo. O gosto em sua boca era o gosto de possuir Shizuo, de tê-lo para si, de prova-lo. Fechou os olhos suavemente, mordendo a ponta de seu indicador direito e fazendo seu próprio gosto misturar-se ao de Shizuo. Conteve o gemido que escaparia de seus lábios atacando os lábios de Shizuo, empurrando para dentro da boca do outro o gosto de ambos. Não havia resistência, Shizuo parecia querer arrancar de si o gosto tanto quanto ele desejava transmiti-lo. Parecia, tanto quanto ele mesmo, pronto a dar e receber, arrancar e entregar, mordendo seus lábios e deixando os próprios à disposição.
O beijo só foi rompido quando o riso fez-se impossível de controlar. Izaya ria, o peito movendo-se em solavancos e a garganta vibrando. Nem mesmo o olhar castanho-avelã insatisfeito arrancava o fôlego de seus pulmões. A força para isso estava nas mãos de Shizuo, grandes e rudes, que arrancaram-lhe ao mesmo tempo os farrapos de sua camisa e jaqueta e o sorriso dos lábios.
Fitou-o sério, retribuindo o olhar sério que recebia. Sob aqueles olhos avelã tão sérios que refletiam o vermelho de seus próprios olhos, apenas uma coisa invadia sua mente, impondo-se a gritos: o desejo incontrolável de pintar tudo a sua frente de vermelho, de se arrancar tudo de Shizuo e tomar para si. Tudo. Absolutamente tudo.
Entretanto, ainda que estivesse preparado para tomar tudo o que Shizuo tinha, recuou alguns passos quando este se aproximou, estendeu a mão em sua direção e tocou a cós de sua calça, levantando o canivete que ainda mantinha firme nas mãos e empunhando-o em defensiva. Só percebeu a estranheza em sua reação quando assistiu Shizuo franzir o cenho e apertar os punhos. Não se culpou por se afastar, antes disso, sentiu-se ainda mais satisfeito, os olhos quase negros que o encaravam emoldurados por sobrancelhas tensas era tudo o que precisava para deseja-lo ainda mais, todo seu: o ódio e o desejo, os punhos e as pupilas dilatadas.
Sorrindo satisfeito, abaixou o canivete em direção ao próprio corpo e arrancou fora o botão de sua calça, sacando-a, posteriormente, sob o fixo olhar cor de avelã. O sorriso alargou-se ao notar o pomo-de-adão do outro mover-se no pescoço sujo de sangue. Gostava de pensar que Shizuo salivava ao olhá-lo tanto quanto ele o fazia ao observá-lo seminu coberto pelas marcas de suas lâminas, mas contentaria-o da mesma forma caso fosse apenas exasperação.
Girando levemente o canivete entre os dedos, aproximou-se da calça de Shizuo, intentando fazer ali o mesmo que fizera na sua própria. Sacou fora ambos os botões que mantinham segura a calça social negra, descendo o zíper em seguida e deixando que o tecido deslizasse pelas pernas do outro, sorrindo a cada nova parte de pele revelada. Ajoelhou-se e deslizou suavemente a mão esquerda pela coxa direita do guarda-costas, sentindo os pelos arrepiarem-se ao seu toque. A brancura das pernas de Shizuo tão raramente pegas pelos raios solares instigava-o a marca-lo a dentes e cortes. Com um breve olhar para cima a fim de conferir se os olhos cor de avelã seriam-lhe testemunhas, riscou com força a lâmina afiada na box cinza, rasgando-a o suficiente para que as mãos pudessem em seguida arrancá-la sem esforço.
– Não fode, pulga. Se fizer isso eu te mato.
Um riso alto ecoou pelas paredes do galpão. Izaya não planejava verdadeiramente fazer o que sugerira ao aproximar a lâmina da ponta do pênis do outro, apenas queria o protesto. Mas, ainda que não planejasse fazê-lo, olhou Shizuo com um sorriso aberto nos lábios e voltou a aproximar o canivete, recebendo, desta vez, a ação enfática que esperava: o guarda-costas segurou-lhe a mão e a apertou até que soltasse o canivete, chutando-o, em seguida, com força o suficiente para fazê-lo cravar-se na parede de metal em frente.
– Eu não ia fazê-lo, Shizu-chan. Juro de coração. – sorriu malicioso.
Não recebeu resposta, mas também não esperava por uma. O que tinha a sua frente supria qualquer necessidade de palavras. Shizuo estava a sua frente, marcado por suas lâminas, nu. Não se importava se todo o restante do trabalho de marcação teria de ser feito por seus lábios e dentes, e já nem se importava se aquele método de marcação era ineficiente, iria marca-lo como seu, nem que por apenas alguns dias.
Num só impulso abocanhou a ereção do outro, gemendo baixo ao senti-lo em sua língua. Mesmo que não o houvesse ferido, quase podia jurar sentir gosto de sangue. Sentiu mãos agarrarem-lhe os cabelos, forte e duro, pressionando-o, puxando-o em direção ao corpo a sua frente. Sua mente sorriu de leve, não precisava de indicações sobre qual o caminho correto, sabia exatamente qual a direção que deveria seguir, afinal, fora ele mesmo a traçar o mapa. Mas não se importou de ser guiado, seguiu com prazer as indicações. Se Shizuo desejava pegar a direção não se importava de dar-lhe este pequeno prazer, mesmo que sem propósito. Não se importava de entregar o volante, claro, se fosse também Shizuo a pagar todos os pedágios. E ele os cobraria, a todos, com os preços mais absurdos. “Quero tudo seu”, era o que exigia a cada movimento de seus lábios, “Me dê tudo o que tem”. E recebia tudo com diligência, cada mínima parte, dos gemidos altos aos arrepios intensos, cada espasmo do corpo e cada gota de suor, e, por último, no fim do caminho, o mais significativo valor que pretendia arrancar com seus lábios: o êxtase de Shizuo. Era um valor alto, Izaya sabia. Sabia exatamente o quanto exigia do seu pior inimigo ao tomar para si seu gozo. O preço cobrado chegava até seus lábios com sabor de orgulho ferido. Tão delicioso quanto dolorido, assim como tudo o que vinha de Heiwajima Shizuo. Mas, é claro, ele sabia, e sabia que Shizuo também o sabia, por mais abusivo que fosse o valor, não seria o suficiente, não chegaria sequer perto de sê-lo.
E o foi pensamento de cobrar o restante que o moveu em direção aos lábios de Shizuo, agradecendo pelo valor recebido permitindo-o prova-lo um pouco, nem que fossem apenas vestígios em sua boca. O restante do valor depositou com agrado sobre seu próprio pênis, deslizando a mão sobre ele com satisfação, gemendo divertido ao sentir a mão de Shizuo juntar-se a sua.
– Isso é divertido, Shizu-chan. Como nunca fizemos isso antes?
Shizuo apenas o olhou parcialmente surpreso, como se considerasse sua pergunta, e em seguida franziu o cenho, visivelmente perturbado. Riu alto, aquele olhar lhe dizia claramente que o seu dono enumerara mentalmente dezenas de respostas para aquela pergunta. Ele mesmo era capaz de encontrar facilmente ao menos uma dúzia de explicações satisfatórias sem qualquer esforço. Isso o fazia ainda mais satisfeito. Tanto ele quanto Shizuo tinham consideráveis motivos para deixarem o galpão, entretanto, nenhuma mão hesitara um segundo sequer, ambas movendo-se juntas sobre seu pênis. Shizuo sempre sabia como dar suas respostas da forma mais interessante, independente de qual fosse a pergunta, mesmo que não fosse uma pergunta séria, mesmo que fosse uma provocação, mesmo que fosse um insulto, não importava, Shizuo sempre respondia da forma mais cativante. E, assim, mais uma vez, viu-se preso naquela mais atrativa resposta, algo que não se expressa em palavras, mas, se fosse possível assim fazê-lo, diria “Cale a boca e deixe-me te masturbar”, o que, para Izaya, era uma resposta bastante significativa. Mas, mesmo gostando da resposta, viu-se obrigado a retruca-la, como sempre o fazia, e, soltando sua mão, capturou num só movimento o pênis de Shizuo o trouxe para junto do seu.
– Quente...
Piscou algumas vezes, parando o movimento da mão e olhando confuso para o rosto do homem a sua frente. Se não visse os lábios arfantes abertos, poderia jurar que fora uma peça que seus ouvidos lhe pregaram, algo como o ruído da chuva manifestando-se de acordo com seu desejo. Mas não havia engano, o suspiro rouco saíra dos lábios — avermelhados pelos recentes beijos — do homem mais forte de Ikebukuro. Inevitavelmente, enxergou vermelho, tomado pelo impulso de roubar todos os outros suspiros de Shizuo, todos aqueles que não pareciam seus ao mesmo tempo em que pareciam encaixar-se perfeitamente em seus lábios. Não hesitou um segundo sequer antes de lançar-se ao chão empoeirado do galpão e trazer Shizuo junto consigo, desajeitado, bruto, sequestrando os seus lábios no caminho.
Ele gostaria de ter um plano melhor do que apenas trazer Shizuo para cima de si, sentando-o desajeitadamente a sua frente sem dar espaço sequer para que pudesse observar seus olhos castanhos-avelã raivosamente repreendedores. Na verdade, traçara um diferente plano de ataque para Shizuo. Planejara encurralá-lo em uma das paredes metálicas do galpão, suas costas contra seu peito, o quadril encaixado ao seu. Depois planejara pressioná-lo até a mesa abandonada a alguns metros a direita coberta com um fino lençol que um dia já fora branco e toma-lo para si ali, as pernas brancas cujos pelos se eriçavam com facilidade entrelaçadas a seu quadril. Depois planejou lançar-se ao chão e trazê-lo para cima de si, fazê-lo cavalga-lo enquanto observava satisfeito as marcas que fizera em seu peito.
Qualquer situação seria melhor do que aquela na qual atacava despudoradamente os lábios de Shizuo inclinando-se faminto sobre ele. Mas reconhecia, nenhuma das outras opções lhe parecia realizável. Shizuo não o cavalgaria por sua conta, não inclinaria-se receptivo sobre uma mesa e muito menos empinaria seu quadril apoiado na fria parede metálica. Não, ao menos, naquela vez. Mas Izaya não se importava com nada, nem com seus planos anteriores, nem com a falta de sucesso que eles teriam, nem com a falta de elegância de sua inconscientemente eleita abordagem. Tudo o que preenchia sua mente era a louca vontade de arrancar de Shizuo tudo o que ele tinha e no quão quente era o que ele tinha a entrega-lo.
“Quente”: era a única palavra que preenchia seus pensamentos enquanto ele preenchia com seus dedos lambuzados do orgasmo de Shizuo o interior de seu ambiguamente pior inimigo. “Quente”: era o que ecoava em sua mente na voz de Shizuo, fazendo-o incerto quanto a origem da palavra, se de suas memórias ou dos lábios semicerrados. “Quente”: era o que pulsava em seu corpo quando finalmente encaixou-se entre as pernas de Shizuo e penetrou-o, profunda e lentamente. “Quente”: era como o sopro de Shizuo, carregado de ameaças, anunciava-se em seu ouvido direito.
(...)”.
– HAHAHAHAHA! Desculpe, Shizu-chan, eu não posso mais continuar, essa história está muito boa!
– Ei, vocês ouviram isso?
– Isso foi...?
–Wah! Izaya... o que está fazendo aqui?
****
Aquele mesmo dia, duas horas antes
– Oe, oe, pulga... você não faria... – involuntariamente, recuou alguns passos enquanto observava Izaya avançar para ele com um cínico sorriso que se alargava a cada novo passo – Isso seria contra a lei. É atentado ao pudor.
– Só seria atentado ao pudor se estivéssemos na rua, Shizu-chan bobinho – o olhar de Izaya se expandia a cada palavra dita, meio divertido meio louco. Por fim, as duas orbes castanho-avermelhadas pousaram em Celty e Shinra – Assim é, no máximo, voyeurismo.
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Shizuo ao ver Izaya piscar um de seus perigosos olhos rubros para os atônitos donos da casa. “Você faria”, foi o que concluiu ao encarar o sorriso malicioso que rasgava o rosto do informante.
Inevitavelmente, lembrou-se das orgulhosas palavras ditas por Izaya alguns dias antes ao realizar mais uma de suas literais performances com a língua: “A boca é a melhor arma de um informante, Shizu-chan”.
Mesmo toda a força que possuía não seria suficientemente poderosa para negar a afirmação de Izaya e Shizuo sabia disso. Sabia também que não teria escapatória caso fosse pego. Sabia que sexo era o único embate que destoava da harmônica igualdade entre eles. Resignada e dolorosamente sabia que quando o assunto era sexo ele não podia resistir bravamente e dignamente a Izaya.
Sabendo que não seria forte o suficiente para resistir caso fosse pego, juntou toda a força que possuía e usou-a para afastar as imagens obscenas que insistentemente invadiam sua mente ao mesmo tempo em que se forçava a virar as costas e cruzar a porta de entrada a passos rápidos, ambiguamente torcendo para ser pego o mais rápido possível.
Já dobrava a quina de acesso às escadarias que marcavam o fim do apartamento de Shinra quando ouviu Izaya gritar raivoso para ele. Não pode ouvir o que dizia. Mas não que faria diferença saber as palavras usadas, mesmo sem ouvi-las, sabia exatamente o que lhe dizia Izaya. E a única resposta no qual podia pensar, mesmo que não fosse gritá-la ao outro, era que também não lhe agradava deixar a passos largos e rápidos a residência do médico clandestino em uma fuga tão desenfreada quanto humilhante.
Ele, mais do que qualquer outro, mais do que Izaya e seus olhos maliciosos, Shinra e sua curiosidade irrefreável e Celty e sua latente preocupação, não desejava alcançar a rua daquela forma, correndo para longe dos irresistíveis lábios de seu declarado pior inimigo – e não declarado amante. Heiwajima Shizuo, mais do que qualquer homem no mundo, desejava parar agora mesmo, arrancar os botões de suas calças, abaixar seu zíper e deixar o caos acontecer. O que o impedia de fazê-lo era a profunda consciência de que se fosse pego por Izaya naquele momento colocaria-se na pior situação possível. Ele não pediria desculpas por expô-lo daquela forma, mas sabia que, mesmo se o fizesse, Izaya nunca o desculparia. Ou, ao menos, era exatamente isso o que insinuavam a ele aqueles olhos castanho-avermelhados que o encararam fixamente instantes antes de correr porta afora. Mas ele estava pronto para isso no momento no qual apertou o botão para gravar o informante mais perigoso de Ikebukuro naquela manhã de sábado. Sabia que Izaya iria vingar-se e tão bem quanto o sabia, sabia que sua vingança viria com dupla fúria.
Tão submerso estava em lutar com seu contraditório desejo de ficar que Shizuo não notou algumas gotas que caíam pesadas e esparsas sobre o asfalto quente. Talvez ele preocupasse-se com estas gotas se tivesse, mais cedo naquele mesmo dia, se focado no noticiário de TV que anunciava insistentemente uma tempestade para aquele dia. Entretanto, assim como naquela ocasião, estava surdo e cego a qualquer evento externo a Izaya. Agora, cego pela ansiedade de ser pego por ele, naquela manhã, pelo prazer de descobrir seu ponto fraco.
Existem no mundo muitas teorias espirituais que buscam a compreensão dos eventos mundanos. Shizuo não se preocupa com nenhuma delas. Entretanto, não seria inadequado dizer que, naquele sábado específico, Shizuo desejaria conhecer um pouco mais uma delas, apenas uma em específico: o Karma. Se a conhecesse, talvez Shizuo entendesse que naquele momento estava apenas colhendo os frutos de suas próprias ações, correndo diretamente para uma ratoeira. E então ele entenderia que deveria ter se mantido atento ao noticiário naquela manhã ao invés de forçar os limites de Izaya na busca por seu ponto fraco. Que deveria agora mesmo prestar atenção às insistentes gotas que caíam cada vez mais regulares e intensas sobre si ao invés de checar com luxuriosa constância por cima de seu ombro se Izaya continuava a persegui-lo. Talvez até mesmo percebesse que aquele lado do distrito para o qual corria não era o mais adequado ao invés de mostrar-se tão empolgado com proximidade cada vez maior de Izaya, que já o acertava com suas afiadas lâminas.
Mas Shizuo não sabia nada sobre Karma.
E, por não saber, acabou preso num galpão nos limites do distrito enquanto uma tempestade caía do lado de fora, o barulho alto dos raios ressoando, as gotas firmes tamborilando contra o teto metálico e Izaya encarando-o predatoriamente com seu canivete em mãos, irresistivelmente molhado.
Izaya, o homem com olhos predadores e irresistível charme enquanto molhado pela chuva, sabia tudo sobre a lei do Karma. Sabia tanto que acabou por tornar-se, ainda que involuntariamente, o juiz que garantiria sua aplicação.
– Te peguei, Shizu-chan! – Shizuo assistiu com mais expectativa do que seria recomendado a um homem em suas condições o sorriso de Izaya alongar-se – Pronto pra sua punição?
– Hey, pulg...
– Oe, gente, vamos ficar aqui um pouquinho enquanto a chuva não passa! Putz, eu não esperava uma chuva assim!
Shizuo gelou. Ele podia ouvir com perfeição vozes se aproximando da porta do galpão, escancarada pela entrada nem minimamente silenciosa que fizera minutos antes.
– Como assim, Togusa-san? Não viu o noticiário?
– Walker, você sabia que choveria assim? ... Então por que não disse nada?
Os olhos castanhos-avelã arregalaram-se até o máximo enquanto as vozes aproximavam-se cada vez mais, ao ponto de tornarem-se reconhecíveis. E, para sua surpresa, as vozes tornavam-se não apenas reconhecíveis, mas também conhecidas. Agora não tinha dúvidas, as vozes que se aproximavam pertenciam inegavelmente a Kadota e sua gangue.
Enquanto tentava livrar-se de seu choque, sentiu algo tocar o cós de sua calça. Desviou os olhos da entrada do galpão, da qual sabia que irromperia a qualquer momento seu colega de infância, para a fonte do toque que tornava-se cada vez mais indiscreto, encontrando ali um par de olhos castanho-avermelhados brilhando em excitação.
– Shizu-chan, isso vai ser divertido. Vamos surpreendê-lo, sim? Quero ver a cara do Dotachin.
– Oe, Izaya, o que pensa qu...
– Ah, não, tive uma ideia melhor. – sentiu-se puxado pela cintura, Izaya agarrara-lhe o cinto – Infiltrar, esconder, escutar e, então, atacar! Vai ser legal, vamos, Shizu-chan!
Shizuo gostaria de muitas coisas naquele momento — como, por exemplo, botar o galpão abaixo aos socos – mas não queria, em definitivo, acompanhar Izaya ou sequer passar a impressão de que acompanharia. Não conseguia, entretanto, pensar em uma saída melhor do que esconder-se e tentar, depois, talvez, fazer com que Izaya ficasse calado até que todos deixassem o galpão.
Não era a melhor escolha. Se saísse correndo naquele exato momento pela porta do galpão, Kadota, Togusa, Erika e Walker pensariam que o que acontecia ali era uma nova perseguição entre Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. Eles se assustariam momentaneamente, mas logo se recuperariam e passariam o resto da tarde no galpão falando sobre assuntos aleatórios até a chuva ceder. Talvez falassem rapidamente sobre a relação dos dois mais fortes homens de Ikebukuro, especulando o que seria aquela perseguição. Só isso.
Mas Shizuo não sabia nada sobre Karma. E, então, deixou-se carregar por Izaya até um ponto escuro do galpão, atrás de uma mesa coberta por um lençol que já fora branco um dia. Assistindo de lá quando Kadota, Togusa, Erika e Walker adentraram, molhados pela forte chuva, o galpão.
– Ótimo! Agora temos que ficar dentro deste galpão até a chuva passar!
– Ah, nem é de todo ruim. A gente nem tinha planos pra hoje mesmo. Aquela convenção legal de anime que eu e o Walker íamos foi cancelada por causa da chuva!
– Hey! Vocês todos pareciam saber sobre a chuva! Ninguém achou que seria uma boa ideia contar que choveria antes de me convidar pra sair?
– Dotachin, você não viu o noticiário hoje de manhã, só falavam sobre isso. E você, Togusa-san, você tem uma mini TV na van, como não viu?
– Humpf, isso não importa. O que faremos agora? Alguém tem um jogo ai?
– Tenho uns mangás e um uno! .... Mas, ops... Ficaram na minha bolsa na van.
– Alguém quer ir lá pegar?
– Não.
– Absolutamente não.
– Não mesmo.
– Ótimo, eu também não quero. O que mais podemos fazer?
– Você podia contar alguma história legal, Walker! Alguma de algum mangá que ainda não li...
A conversa ecoava alta no galpão e Shizuo se esforçava a escutá-la com interesse. Na verdade, se apegaria a qualquer besteira, qualquer uma, se isso significasse conseguir ignorar Izaya sentado ao seu lado olhando-o maliciosamente, como uma criança prestes a fazer uma grande travessura.
– Hey, Shizu-chan – Izaya sussurrou, inclinando-se até tocar com a ponta do nariz sua nuca – colher informações não significa, necessariamente, ficar quietinho. O que acha de darmos algumas ideias para eles? Hein? – franziu o cenho, infelizmente conhecia as expressões de Izaya bem demais para saber que nada de bom surgiria de uma ideia fomentada por ele, entretanto, antes que pudesse protestar, viu-o sorrir levemente, franzir as sobrancelhas e abrir novamente seus lábios – Ah! Hum!
Shizuo arregalou os olhos, surpreso. Aquilo fora um gemido. Um dos altos. Um gemido verdadeiramente alto. E, inegavelmente, um bem indecente. Ecoou por todo o galpão, interrompendo a conversa entre os outros presentes.
– Oe, vocês ouviram isso?
– Não quero dizer que ouvi, na verdade.
– Isso significa que você ouviu, né?
– Eu ouvi, eu ouvi, eu ouvi! Foi um gemido!
– Ei, Erika, não pareça empolgada. É assustador!
– Deve ter sido o vento. Tá ventando bastante lá fora. O vento às vezes engana assim os ouvidos.
– Sim! Você tem razão, Togusa-san. Certo que foi o vento.
– Pessoal, foi total um gemido. Será que tem alguém aqui? Parecia um gemido de um homem...
– Erika, pare com isso, é sinistro. Foi o vento. Certeza. Nunca ouviu a expressão “Gemido do vento”? O vento geme o tempo todo. Principalmente um vento de tempestade. Provavelmente tem uma parte do metal que está solta... Espero que não comece a chover aqui dentro...
– Ok, se você diz... foi o vento!
– Esqueçam o vento... O que estávamos fazendo? Ah, Walker ia começar uma história, né?!
– Eu não sei que história contar. Erika leu todos os mangás que eu conheço. Não tenho nada novo...
– Ah, droga, ninguém aqui tem nad...
– Eu tenho uma história!
– Você tem? Uma que eu não conheça?
– Tenho sim! Acabei de pensar em uma...
– Beleza, vai lá, então...
– Ok... Então seria algo como...
“A chuva caia intensa em Ikebukuro, confundindo o fim de tarde com noite. Entretanto, ao contrário do que o caos de raios e pesadas gotas poderiam sugerir, aquele tempo polia um dia perfeito. Um que não se importava com a definição de perfeição que apenas os dias levemente ensolarados tinham direito. (...)”.
Shizuo ouvia em silêncio a história, não porque estivesse interessado, mas porque o homem ao seu lado assim o fazia. Ele sim parecia entusiasmado, absorvendo cada uma das palavras com furor, os olhos brilhando e os lábios parcialmente abertos. O guarda-costas não pode evitar pensar que nem se importava de sentar molhado naquele canto escuro daquele galpão nos limites de Ikebukuro naquele dia irritantemente úmido se isso significasse ver Izaya fazer aquela expressão tão interessada e centrada, quase como uma criança que ouve um conto-de-fadas.
Pobre Shizuo. Talvez só pensasse daquela forma porque não prestava atenção à história, tão submerso estava admirando o moreno ao seu lado. Se ele prestasse atenção às palavras que deixavam os lábios de Karisawa Erika provavelmente interpretaria aquela seriedade e interesse de forma totalmente oposta a qual fazia agora e acabaria, provavelmente, por socar aquele rosto que comparava inocentemente ao de uma criança ouvindo um conto-de-fadas. Na verdade, talvez se observasse com mais atenção aquela expressão, notaria ali um sorriso que nunca figuraria no rosto de uma criança inocente. Pobre Shizuo. Até mesmo sorriu contido quando o homem ao seu lado olhou-o e perguntou:
– Essa parece ser uma ótima história, Shizu-chan! Está gostando?
E, certamente, teria continuado sorrindo contido para sua “inocente criança” se a mesma não passasse a se empenhar tão diligentemente a arrancar suas calças.
– Hey, o que está fazendo? – rosnou baixinho.
– Como assim? A história é interessante. Você não entrou no clima?
Franzindo o cenho confuso, Shizuo segurou ambas as mãos de Izaya, parando-o e só então, com os ardis dedos longe de seu zíper, começou a ouvir a história.
“E então, assim como o dia transformava-se noite e os xingamentos transformavam-se beijos, as roupas no chão faziam-se lençóis e o chão empoeirado fazia-se ninho. Tomados por todas as transformações, aqueles dois homens, Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya, também transformaram-se: primeiro em fogo, depois em um.
Os sussurros abafados pela chuva eram interpretados por ambos como reclamações e xingamentos, mas o distrito, Ikebukuro, ouvia a tudo perfeitamente, todos os pedidos, todas as ordens, todos os superlativos, todos os advérbios e todos os adjetivos. Onde Shizuo pressupunha um “m” de “maldito”, o distrito via deliciosamente o “m” de “mais forte”.
Silêncio.
A mente de Shizuo estava em branco. Ele sabia que devia, de alguma forma, tentar entender porque seu nome e o de Izaya estavam na história. E sabia que devia, sinceramente, considerar que esta história envolvia gemidos e uniões problemáticas. Mas, verdadeiramente, ele não era capaz disso, não naquele momento. Então foi quase com gratidão que recebeu a voz de Izaya em sua mente vazia.
– Ah, ela parou aquele história... puxa, agora que tinha ficado legal! Sorte que você pegou o final, Shizu-chan! Diga-me, você quer me ouvir dizer “mais forte”? – umedeceu os lábios com a ponta da língua, incapaz de decidir se entendera ou não o que Izaya insinuava com tão sorriso perverso – Ah, não, espera! Ela vai começar uma nova!
Mas, assim como não estava pronto para a anterior, também não estava pronto para receber a próxima história. Sua mente, entretanto, não parecia considerar válido seu desejo de manter-se surdo às palavras de Karisawa Erika, tornando inevitável que algumas frases marcassem sua mente como ferro em brasa:
“(...) os lábios que se aproximaram e uniram-se, aflitos, numa carícia descomedida. (...)”.
“(...) E agora encaram-se ambos, cada um preso no corpo nu do outro, ambas as mentes focadas apenas em aproximar-se cada vez mais, tocar cada vez mais intensamente. Incapazes de conterem-se, aproximaram-se, tocaram-se, provaram-se. (...)”.
“(...) Shizuo marcando com a ponta dos dedos o peito de Izaya, explorando possessivamente cada centímetro da pele pálida, apertando-a, descobrindo-a, sentindo-a arrepiar-se sob seus dedos. (...)”.
“(...) E assim, mesmo que soubesse que estaria perdido no momento que o fizesse, adentrou o território inimigo: tomou para si os lábios de Izaya, aproximou ainda mais os corpos, empurrou-o até uma das paredes metálicas do galpão e prensou-o com ela. (...)”.
“(...) E foi rápido, rápido o suficiente para receber um gemido de aprovação de Izaya quando tomou novamente os lábios para si e invadiu-o com ambos os dedos, intruso, conquistador. (...)”.
“(...) Insinuaria seu quadril lentamente contra aquele empinado em sua direção, projetando calmamente seu pênis contra ele, masturbando-o demoradamente.”.
Inegavelmente havia uma delas, entretanto, entre tantas que dissera a garota nos últimos minutos que se fixou inexoravelmente, com mais força que qualquer outra, em sua mente, alastrando-se para seu corpo, fazendo-o reagir a ela como a uma profecia:
“(...) Sabia também que era uma armadilha, a pior delas, aqueles lábios avermelhados atacados por dentes tão brancos, a língua que os afagava e umedecia, os olhos escarlates brilhando quase todo pupilas. Era uma armadilha, a pior delas, a mais deliciosa e tentadora. Não tinha escolha a não ser cair nela, mesmo que pra isso também tivesse que desarmar-se.”
Verdadeiramente, mesmo que não fosse nunca admitir, não eram as palavras de Erika que o atormentavam, mas os olhos que fitavam-no expectantes, olhos castanho-avermelhados. A narração da garota não chegava sequer perto de descrever o poder que eles possuíam, mas, ainda assim, não seria possível não sentir-se como personagem da história que descrevia-os como armadilhas. E assim, inevitavelmente, repetiu seguidamente em sua mente o quão aprisionadores eles eram.
Mas, diferente da história, Shizuo não teve sequer escolhas antes de desarmar-se e cair na armadilha de Izaya. Era inevitável. E, julgando sua ação como inevitável, não hesitou por um segundo sequer antes de soltar as mãos que mantinha presas entre as suas e atacar os lábios do homem de olhos rubros a sua frente.
Ele sabia que isso era tudo o que precisava Izaya para continuar sua vingança, mas não se importava. Não quando a perspectiva de tornar-se vítima da vingança de Izaya mostrava-se tão quente, macia e doce.
– Ela vai começar outra história, Shizu-chan. – sussurrou-lhe Izaya entre beijos.
– Foda-se.
Um riso contido fez tremer os lábios sobre os seus e não conseguiu evitar pensar que, sinceramente, aquele Izaya que ria malicioso entre beijos era preferível ao Izaya que ouvia com olhos de criança histórias alheias.
Acomodou-se melhor no chão, endireitando as costas e cruzando as pernas para receber Izaya em seu colo. Queria tocá-lo. Desejava tocá-lo desde o momento que encostou suas costas contra seu peito mais cedo naquele tarde, ainda na casa de Shinra, enquanto o segurava para cócegas. Agora, finalmente apertando-o em seu colo, não pode evitar rasgar-lhe a camisa à força na tentava de tirá-la.
– Hey, hey, Shizu-chan. Essa é a minha vingança, certo?! Nada de me atacar assim! Você sabe, eu já disse, é minha vez. Também vou usar seu ponto fraco contra você.
– Ótimo.
– Oh! Tão ousado, nem parece o homem que correu do apartamento do Shinra.
– Foda-se, Izaya. Eu quero esta merda desde que sai daquela porcaria de apartamento. Antes disso até. Vai logo.
Izaya sorriu. Outro daqueles sorrisos irritantes. Outro daqueles que eram infinitamente melhores que qualquer outra expressão do informante.
Ou, ao menos, era o que pensava Shizuo até receber a nova expressão de Izaya: o sorriso malicioso migrara satisfeito aos olhos castanho-avermelhados, fazendo-os brilhar de divertimento, enquanto os lábios, agora livres do sorriso, abriam-se para recebê-lo, a língua insinuando-se minimamente para fora, afagando-o levemente antes que os lábios alcançassem-no.
O guarda-costas não sabia direito sobre suas preferências quanto ás expressões de Izaya, mas sabia, inegavelmente, que o informante estava certo quando dizia que sua boca era sua melhor arma. E assim, mesmo que vivesse em profunda discordância com o informante, nunca possuiria poder suficiente para negá-lo. Não que precisasse externar semanticamente sua concordância com as atuais ações de Izaya, as mãos que seguravam os cabelos negros, os pelos das coxas que se arrepiavam, o membro a dilatar-se cada vez, as sobrancelhas franzidas e os lábios entreabertos eram prova o suficiente.
– Shizu-chan.... – Izaya chamou-o, e esforçou por não xingá-lo por perceber que ele pretendia insultá-lo naquelas condições — ... seu ponto fraco é bem mais legal que o meu! O que acha de filmar e mostrar para Shinra e Celty também?
Rosnou em protesto. Mais porque Izaya parara do que pelas palavras escolhidas para provoca-lo. No momento, não se importava minimamente com qualquer filme e apagaria de bom grado o que tinha em seu celular se isso significasse que Izaya o receberia novamente com sua língua. Não precisou, entretanto, barganhar ou ordenar que o outro o tomasse novamente. Com um riso discreto, que parecia ser mais para si mesmo do que para ele, Izaya o abocanhou novamente.
Sentiu seu membro vibrar levemente na boca do outro e olhou-o irritado. Não suportaria que Izaya continuasse com suas provocações, libertando-o novamente de seus lábios. Não precisava de muito esforço para perceber que o informante ria.
Franziu o cenho, desfazendo sua carranca mal-humorada e olhando-o intrigado. Não que não estivesse acostumado com Izaya rindo durante o sexo, mas era a primeira vez que o sentia tentando conter-se. Não que lhe agradasse ouvi-lo rindo enquanto o chupava, mas, ainda assim, estranhou sua ação, procurando a razão para tal atitude atípica.
“(...) Mas Izaya não se importava com nada, nem com seus planos anteriores, nem com a falta de sucesso que eles teriam, nem com a falta de elegância de sua inconscientemente eleita abordagem. Tudo o que preenchia sua mente era a louca vontade de arrancar de Shizuo tudo o que ele tinha e no quão quente era o que ele tinha a entrega-lo.
“Quente”: era a única palavra que preenchia seus pensamentos enquanto ele preenchia com seus dedos lambuzados do orgasmo de Shizuo o interior de seu ambiguamente pior inimigo. “Quente”: era o que ecoava em sua mente na voz de Shizuo, fazendo-o incerto quanto a origem da palavra, se de suas memórias ou dos lábios semicerrados. “Quente”: era o que ecoava em sua mente quando finalmente encaixou-se entre as pernas de Shizuo e penetrou-o, profunda e lentamente.”
Estancou, soltando os dedos que seguravam os fios negros juntos a seu corpo. Balançou involuntariamente a cabeça por duas vezes, incapaz de acreditar no que ouvia.
– HAHAHAHAHA! Desculpe, Shizu-chan, eu não posso mais continuar, essa história está muito boa!
Olhou-o confuso. Podia ver pequenas lágrimas iluminaram seus divertidos olhos castanhos-escarlate. Quando abriu a boca para pedir por explicações, foi interrompido pela voz que reconheceu pertencer a Kadota:
– Ei, vocês ouviram isso?
– Isso foi...?
E antes que pudesse sequer ponderar sobre o que acontecia, assistiu Izaya levantar-se num pulo e lançar-se para a área iluminada do galpão, saindo de detrás da mesa e deixando-o ali, excitado e parcialmente despido.
–Wah! Izaya... o que está fazendo aqui?
– Haha. Caramba! Suas histórias são muito boas! Adorei todas! Principalmente a última! Shizu-chan gostou também!
– Shizu-chan...? – a garota parecia confusa.
– Hey, Shizu-chan, saia daí. Mas, vista-se primeiro, sim?
– Izaya, seu maldito! Vou te matar! – foi tudo o que conseguiu gritar, ainda seminu, ainda sentado no canto do galpão. Sabia perfeitamente o que ele estava fazendo. E sentia vontade de torcer-lhe o pescoço por sair daquela forma, com a camisa rasgada, para encontrar os outros.
– Ah, Shizu-chan, não fique bravo! Prometo terminar o que começamos logo mais! Você precisa vir até aqui cumprimentar a Srta. Karisawa! – não disse nada, sabia que apenas alimentaria o ego de Izaya continuar a respondê-lo, gostaria, sinceramente, de poder sair de lá e soca-lo, mas isso significaria que todos ali veriam a forma como algo parecia errado no volume em sua calça, e isso, verdadeiramente, não era uma ideia confortável – Ou devo agradecer eu mesmo e contar algumas das nossas histórias?!
Algo dentro de si soou como um alarme.
– Izay-...
– Como, por exemplo, quando você decidiu se entregar pra mim?! Vou te dizer, Srta. Karisawa, não foi assim tão difícil quanto na sua história. Ele só virou pra mim e disse...
– Cala a boca, pulga desgraçada, vou te matar! – Shizuo levantou-se, pronto a correr até Izaya, mas, antes que pudesse mover um passo, ouviu-o declarar:
– “Ah, mas quando eu faço em você parece tão bom!”.
A imitação de sua voz era porca, isso era inegável. Bem ruim, na verdade. Ninguém associaria aquela imitação ao homem mais forte de Ikebukuro em nenhum contexto. O estrago, entretanto, estava feito, independente disto.
– Oh! – ouviu a garota exclamar, enquanto batia uma palma empolgada.
– I-ZA-YA! – gritou, lançando-se, enfim, atrás do homem que deixava agora o galpão sem preocupar-se com a chuva que não reduzira minimamente, rindo alto o suficiente para sobressair-se a todos os raios, pingos de tempestade, gritos frenéticos e suspiros surpresos.
Era um fato: o homem, aquele mais forte de Ikebukuro, que lançava-se possesso à chuva intensa, não sabia absolutamente nada sobre Karma. Mas, verdadeiramente, não se importava tanto assim por não saber, a única coisa que importava-o no momento era alcançar o mais rápido possível aquele homem cujo riso ouvia ecoar pelo distrito.
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