Depois de um sonho
21 Especial 3 - As três palavras
Notas iniciais
Especial 3 – As três palavras
– Não vai dizer?
Os olhos castanho-avermelhados que se perdiam nas dobras irregulares do branco lençol desviaram-se lentamente na direção da voz grave que soava imediatamente a sua direita, fitando surpresos o homem que agora tragava longamente um cigarro. Um sorriso involuntário apossou-se de seus lábios enquanto, aos poucos, o olhar confuso suavizava-se e adquiria a usual tonalidade rubramente maliciosa.
– O que? Que você não deveria fumar na cama? Já cansei de te dizer essa merda, nunca ouve. Será que é incapaz de compreender uma estrutura com mais de três palavras, Shizu-chan?! – sua voz soara menos provocativa do que esperava e ele sabia disso, mas, naquele momento, sentindo a maciez do toque do lençol em sua pele e o cheiro de cigarro a mesclar-se gradualmente com os tons de lavanda e perfume que emanavam do travesseiro entre seus braços, isso não o incomodava.
O muxoxo desagradável que soou ao seu lado indicou que o pouco empenho de sua provocação fora notado pelo outro. Agradeceu por isso. Não que achasse problemático caso o homem relaxadamente sentado a seu lado cedesse diante de sua provocação, estava, afinal, sempre disposto a afrontá-lo e assistir atentamente a sua sempre sincera reação. Entretanto, naquele momento em especial, o único desejo do dono dos maliciosos olhos castanho-avermelhados era trazer o travesseiro em seus braços para mais junto de si e perder-se novamente nele. E ele o faria de bom grado. O faria, se para isso não tivesse que, consequentemente, baixar o olhar que mantinha a analisar a continua progressão das brasas do cigarro nos lábios do homem a sua direita.
No instante seguinte, porém, o cárcere de sua atenção lhe foi forçadamente tomado e, no lugar da progressiva caminhada das chamas, agora encarava resignadamente as largas costas desnudas e cobertas de cicatrizes de Heiwajima Shizuo. Não precisava de grande esforço para supor o que fazia Shizuo ao virar-lhe as costas, aquele canto do quarto ao qual o guarda-costas agora dedicava atenção não oferecia muitas opções de atividades e, assim como a todos os outros cantos do apartamento e tudo o que se relacionasse ao homem mais forte de Ikebukuro, Izaya conhecia todas elas. Sabia, portanto, que ali, ao lado direito da larga cama de casal cujos lençóis mantinham-se quase constantemente caóticos, encontrava-se um dos poucos móveis que decorava o simples quarto: uma ordinária mesa de canto, manca e com um dos quatro apoios descascado, sobre a qual descansava um cinzeiro novo, negro, trazido por ele apesar dos intensos protestos do dono da casa. Mas, ainda que indiscutivelmente soubesse o que havia ali, relutantemente aceitou a conclusão a qual chegara sobre o que significava Shizuo virar-se em direção ao cinzeiro sobre a pobre mesa de canto, só julgando-a como certa ao observar um pequeno, mas significativo, rastro de fumaça deixar o local.
Seus olhos abriram-se surpresos enquanto levantava o rosto na direção do homem que voltara a sua posição inicial, sentado a seu lado. Soltou o travesseiro com o qual se mantinha abraçado e o dobrou ao meio, posicionando-o abaixo de seu queixo e sustentando-o com ele, toda atenção focada nos olhos cor de avelã que o observavam perifericamente.
Os olhos excessivamente abertos brilhando em excitação e o lábio inferior levemente torto pela pressão exercida pelo canino direito na parte interna da bochecha: esta era a expressão que Izaya reservara a ocasiões como aquela.
Nos dois anos que se seguiram ao dia no qual as palavras “Eu não me importaria de ficar” deixaram os lábios agora duramente atacados pelo incisivo canino direito, diversas foram às vezes nas quais Shizuo teve a chance de notar aquela expressão no rosto de Orihara Izaya. Se o homem mais forte de Ikebukuro fosse atencioso o suficiente para percebê-la, talvez se orgulhasse por ser o único alvo daquela tão cortante e aguda atenção. Aquela era, afinal, a expressão reservada aos momentos nos quais Izaya descobria Shizuo: descobria algo novo ou descobria padrões nas sempre tão imprevisíveis ações do guarda-costas.
O dono dos demasiadamente abertos olhos castanhos com tons rubros reconhecia o quão duro era o processo de conhecer Heiwajima Shizuo, mesmo após anos da intensa observação que começara muito antes de conquistar a chance de analisar tão de perto as nuances no rosto do outro. Mas, ainda que tenha desenvolvido um método – que incluía devorar cada um dos trejeitos de Shizuo enquanto mantinha preso entre os dentes os próprios lábios a fim de conter as teimosas palavras que sempre interrompiam os escassos vocábulos do guarda-costas – reconhecia que muitas vezes enganava-se terrivelmente, supondo o exato contrário do real motivo por trás das ações de Shizuo. E era por isso que, agora, assistindo Shizuo iniciar voluntariamente uma conversa, ignorar o insulto e apagar o inacabado cigarro no relutantemente aceito cinzeiro negro, algo nele queimava como brasa, lançando chamas por todas as suas veias e mantendo-o plenamente desperto e focado nos olhos cor de mel que se recusavam a encará-lo diretamente.
– Não isso.
Shizuo soava claro e baixo, e Izaya esforçou-se para identificar o que a voz naquele estranho e incomum tom negava. “Não é sobre o cigarro”. Seus pensamentos correram rapidamente por todos os acontecimentos do dia, buscando neles algo que pedisse tamanha seriedade por parte do outro, mas soube que sua busca era infrutífera no momento no qual a começou. Sabia o quão inútil era perder-se em memórias enquanto o homem ao seu lado direcionava a ele tal raro olhar expectante.
– Então o que? – perguntou resignado. Odiava fazer perguntar verdadeiras. Adorava interrogatórios, adorava fazer com que as já conhecidas verdades deixassem os lábios de suas vítimas após séries de precisos questionamentos. Mas este não era o caso, ele não tinha sequer palpites sobre o motivo que levara Shizuo a apagar seu cigarro.
– Tsc... pulga...
Desprendeu seus lábios por um momento, deixando um sorriso genuíno preenchê-los. “Estalar a língua é o que Shizu-chan faz quando está constrangido”. Deliciava-se com a constatação. Não havia mais rastro de sua anterior insatisfação, não se importava em fazer perguntas se isso significasse Shizuo mostrando-lhe preciosas reações.
– Qual o problema? Desembucha logo, Shizu-chan. – perguntou novamente, incapaz de conter o tom curioso em sua voz.
– Você não disse antes.
O genuíno sorriso em seus lábios intensificou-se. “Isso foi um resmungo, Shizu-chan?!”. Mordeu com força os lábios para conter o riso alto que implorava libertação. Sentiu um arrepio de satisfação correr sua espinha e afundou com força seus dedos no macio travesseiro. “Shizu-chan resmunga quando não quer dizer em voz alta o que pensa e enraivece-se comigo porque não adivinho”. Esperou alguns instantes pela fúria do outro, ao ver que permanecia a olhá-lo com olhos afiados e lábios retesados em fina linha, mas ainda imóvel, continuou:
– Isso é uma coisa rara! O que é que eu não disse antes?
– Eu já perguntei uma vez...
Não eram muitas as características reconhecíveis em Izaya, mas era incontroverso entre todos os que o conheciam, bem ou mal, que era um homem de planos. O informante de Ikebukuro era um exímio jogador, nenhum de seus movimentos era despropositado. Esta era a regra de Orihara Izaya. Mas se há um padrão sobre regras é que possuem exceções. E, neste momento, o informante mais temido de Ikebukuro assistia sua exceção resmungar novamente para ele. Assim diante de seu ponto de ruptura, não seria errôneo afirmar que o perigoso jogador não tinha quaisquer planos quando fitou o homem confortavelmente sentado a seu lado que agora o encarava diretamente, claramente irritado por não ser entendido, e, sem refletir um instante sobre, pôs-se sentado de súbito.
Um breve gemido ressentido escapou de seus lábios.
– Ah! Que frio! Você não sente frio não?! Caralho! Que merda! – gritou, observando os olhos castanho-mel abrirem-se surpresos, talvez pelo repentino tom elevado, e em seguida, fecharem-se num riso velado de deboche.
Apertou os olhos na direção de Shizuo e instintivamente levou as mãos na altura do fim da cintura. Tocou a própria pele com a ponta dos dedos gelados antes de dar-se conta de que estava nu e que, portanto, abrir a força um sorriso no rosto do monstro de Ikebukuro com seu canivete não era uma opção viável. Voltou seus olhos para o rosto de Shizuo e percebeu-o com uma das sobrancelhas levantadas, claramente gozando de sua atual situação.
“Shizuo só é capaz de debochar quando sente-se atraído por mim”. O sorriso satisfeito de canto de boca substituiu a careta insatisfeita. A constatação era recente, mas Izaya não se orgulhava dela. Assumia que já devia ter percebido há tempos o que significava uma expressão tão valorosa quanto um sorriso sutil e um levantar de sobrancelhas no rosto de um homem conhecido por seu descontrole e violência. E tantas provas recebeu de que estava certo que seria impossível negar: o levantar de sobrancelhas e o sorriso leve eram evidências de que Shizuo, de uma forma que não entendia mesmo depois de anos, desejava-o. Só isto explicaria porque esta fora sua resposta à tentativa de Izaya de ataca-lo com o canivete e porque no lugar de descontrolar-se e tentar surrá-lo por sua ousadia, agora encarava seu corpo nu com indisfarçado interesse.
“Sua expressão é estúpida, Shizu-chan...”, pensou, alargando o sorriso. “Vou tirá-la dai...”.
Em um só movimento, apossou-se de um dos lençóis espalhados descuidadamente pela cama e cobriu-se, e, enquanto assistia o sutil sorriso morrer nos lábios de Shizuo, elevou seu próprio riso até torná-lo risada. A irônica sobrancelha arqueada que instantes antes adornava o sempre tempestuoso rosto do guarda-costas, agora emoldurava o belo rosto do informante. Aquela não era uma expressão estranha a ele como era a Shizuo, então se deliciou por tê-la de volta.
– Você... – começou, umedecendo os lábios com a ponta da língua – não sente frio, Shizu-chan? – perguntou, afastando sutilmente um dos braços que o envolvia no cobertor e estendendo-o na direção do outro.
Os olhos castanho-avermelhados brilharam de diversão diante da confusão que estampava o rosto do guarda-costas. Esta era, assim como a aguda atenção anterior, outra das expressões que, se Shizuo fosse atento o suficiente para notar, perceberia com sua apenas. O sorriso era uma constante no rosto do informante, isto era um fato inegável, mas não era sempre que este sorriso alcançava seus olhos de coloração tão atípica. Quando sorria, os olhos de Izaya brilhavam em malícia e deboche, aquele sorriso com genuína diversão era só de Heiwajima Shizuo.
Com um largo sorriso de canto de lábios e sob o atento olhar castanho-avelã, Izaya recolheu de volta a si o braço ignoradamente estendido, fechando-se novamente dentro do lençol. Viu Shizuo franzir o cenho e com um sorriso aberto como os de grandes mestres-de-cerimônia, abriu os dois braços como a cortinas de palcos de teatro. Um riso alto escapou de seus lábios quando os olhos de Shizuo abriram-se em demasia, e num impulso, jogou-se no colo do outro. Enquanto o ex-barman recompunha-se do desajeitado ataque, desdobrando as pernas e cruzando-as para recebe-lo em suas coxas, Izaya enlaçou os braços ao redor de seu pescoço, cobrindo ambos os corpos nus com o fino lençol. Com o trabalho de ambos acabado, Izaya sorriu malicioso para Shizuo, que o olhava a apenas poucos centímetros de distância. Viu a expressão surpresa do outro transfigurar-se em uma careta de irritação, mas sorriu divertido ao perceber que, quase tão rápido quanto a carranca se instalou no rosto do loiro, ambas as largas mãos pousaram em sua cintura, apertando-a com força.
– Oe, não acha que está muito perto, não?!
“Quando Shizu-chan ralha comigo, ele quer me beijar”, mal teve tempo de terminar sua satisfeita conclusão e sentiu as duas mãos escorregarem por sua cintura, enlaçando-o e trazendo-o na direção do rosto do outro, que se aproximava cada vez mais. Um sorriso malicioso ocuparia os lábios de Izaya se naquele momento Shizuo não o houvesse beijado. Bruto, como na maior parte das vezes, mal tocando os lábios antes de forçar bruscamente sua contraditoriamente suave língua para dentro da boca do informante.
“Shizu-chan é sempre tão quente”, pensou enquanto enlaçava as pernas ao redor do quadril do outro, aproximando-o ainda mais.
Tentou recordar-se quando aqueles toques se tornaram comuns entre eles. Esta não era a primeira vez que esforçava-se neste sentido, mas, por mais que se dedicasse a encontrar respostas, não conseguia dizer quando lançar-se ao colo do outro e ser recebido por beijos quentes tornaram-se reflexos de seus corpos. Na verdade, Izaya sequer poderia dizer se algum dia estas ações lhe pareceram estranhas. A língua de Shizuo a entrelaçar-se à sua, os braços fortes a marcar sua cintura e as pontas dos dedos a deslizar pelos cabelos loiros: parecia impossível que esta não fosse a forma como se relacionassem. Tão natural que nem precisava de ensaios.
“Mas”, pensou, “talvez sejam só os beijos... que façam parecer assim...”. Sentiu uma mordida forte em seu lábio inferior e, posteriormente a língua de Shizuo a afagar o local mordido. “Sim... provavelmente...”.
O aperto em sua cintura intensificou-se, forçando-o a arquear-se no esforço de manter o beijo.
– Ei, idiota! Vai me quebrar assim! – reclamou, ríspido. Beijos eram a única coisa que, ao fazer com intensidade, Shizuo enraivecia-o. Os beijos do guarda-costas feriam seu orgulho. Desde o início, sempre foram assim. Sentia-os prepotentes, e tinha quase certeza de que o eram. Shizuo definitivamente fazia-os assim para tirar-lhe o controle.
Afundou o rosto na curva do pescoço do outro, inspirando profundamente antes de cravar ali seus dentes.
“Cheira a cigarros... e shampoo...”.
Sorriu, os lábios friccionando-se de leve na pele marcada de sol. As mãos de Shizuo trilhavam caminho por suas costas, ora trançando distraidamente o contorno de sua coluna, ora pressionando com a ponta dos dedos sua escápula.
“Você é um monstro bem mole, na verdade, né?!”, pensou, afundando mais uma vez seu rosto na curva do pescoço de Shizuo, entregando-se à certamente involuntária massagem.
“O que está pensando agora?”, perguntou-se, “É sobre o novo trabalho do Kasuka? Seus cigarros acabaram? Tom está tendo problemas com aquele pessoal novo que mandei pra cá?”.
Izaya sabia que aquelas carícias que agora tomavam toda a parte traseira de seu tronco não eram conscientes. Shizuo só o acariciava assim quando distraído. Apenas quando distraído. Mas isto, longe de fazê-las descartáveis, tornava-as ainda mais interessantes. Ele sabia, também, que apontar estas carícias a Shizuo seria forma eficientíssima de provoca-lo. Sabia tão bem disso quanto sabia que no momento no qual zombasse, cessariam de imediato, substituídas pela raiva do guarda-costas. Diversas vezes tentara zombar de Shizuo, diversas vezes ensaiara em sua mente dizer-lhe que era “um bizarro monstro carente” ou dizer-lhe que “daria-lhe outra coisa para esfregar daquela maneira”, entretanto, agora e todas as outras vezes, mantinha-se quieto. “É interessante assistir ao Shizu-chan”, “Seria horrível limitar o Shizu-chan e perder suas ações naturais”, era o que dizia a si mesmo nestes momentos. Mas, ele sabia, no fundo, que eram dois os segredos que guardava.
Um arrepio correu por sua espinha quando as mãos de Shizuo desceram por suas costas, passaram discretas por seu quadril e pousaram uma sobre sua coxa direita outra sobre sua panturrilha esquerda, perdendo-se, então, em leves carícias que eriçavam os pelos de seu corpo. Separou os lábios num gemido inaudível e, descruzando os braços que mantinha enlaçados ao pescoço do loiro, iniciou ele mesmo uma carícia descomedida — que nada se comparava à carícia recebida — nos braços de Shizuo, passando, posteriormente a depositar mordidas nada castas nos ombros, pescoço e queixo do guarda-costas.
– Ei, ei... não era você que estava reclamando agora mesmo que estava doendo e como você odiava ter que ficar de bruços? – sentiu a garganta de Shizuo vibrar sob seus dentes.
– Sim, você foi muito bruto.
– Então...? – perguntou, e Izaya poderia jurar que tentava reprimir um sorriso.
– Bruto é bom. – declarou simplesmente, voltando a dedicar-se ao pescoço do loiro.
– Você é estranho, pulga.
“Shizu-chan me chama de estranho quando gosta do que digo”, recordou-se, afastando os dentes da pele de Shizuo e rindo alto.
– Do que está rindo, idiota? – Shizuo olhava-o sério, sabia o quanto odiava seus risos esparsos.
– Você é o estranho, Shizu-chan! – respondeu entre risos.
– Se joga assim em mim depois de ficar chiando no meu ouvido sobre força e blábláblá... – resmungou –... e depois ri feito idiota.
O riso de Izaya intensificou-se. “Shizu-chan resmungando é um Shizu-chan recuado.”.
– “Se joga assim em mim depois...” – começou a dizer, imitando o outro para provoca-lo – Ah!
“Se joga assim em mim...”, repetiu mentalmente, focando firmemente os olhos em Shizuo, que o fitava com um misto de surpresa e curiosidade, provavelmente devido a sua última exclamação. Uma careta desagradável invadiu seu rosto. Frustrava-o perceber que se esquecia com facilidade das coisas quando estava com Shizuo.
– O que você queria dizer?
– Quando? – regozijou-se ao perceber que não era o único no qual carícias causavam memória curta.
– Quando disse que eu não havia dito an...
– Ah! – uma nova exclamação, desta vez saída dos lábios de Shizuo, interrompeu-o. Ao mesmo tempo, as carícias em sua panturrilha e coxa cessaram completamente, mas Izaya, com os olhos fixos nos lábios de Shizuo, não notou.
“Uma exclamação!!!”, vibrou, surpreso, completamente livre de seu transe anterior. Abriu mais os olhos, interessadíssimo. Para Izaya, se havia algo mais importante do que transar com Shizuo era, definitivamente, descobrir algo novo sobre Shizuo.
– Então...? – incentivou-o, olhando-o intenso na tentativa de encontrar alguma resposta em sua expressão.
– Nada. Não enche.
“‘Não enche’ e rosnados são indícios de Shizuo recuado. Mas...”, engoliu em seco, olhos fixos nos olhos castanho-avelã, “‘Nada’? Shizuo nunca disse ‘nada’ antes!”.
– Nada?
– Nada! – exclamou, visivelmente irritado.
“E você é o que, Shizu-chan?! Uma criança birrenta?!”, pensou indignado, “Ok, eu vou arrancar isso a força de você então!”.
Durante algum tempo, Izaya quase se convenceu de que a única constante em Shizuo era sua facilidade em irritar-se. Acreditou que era impossível extrair quaisquer padrões das ações de alguém tão monstruosamente imprevisível, assim, não foi pouco o esforço para descobri-los. Mas uma única coisa — uma única — Izaya tivera certeza desde a primeira vez que o tocara: Shizuo era fraco para o sexo. E, baseado neste tão valoroso padrão de Shizuo, Izaya desenvolvera o seu próprio.
Um sorriso malicioso com o de um jogador traçando uma tática fez-se presente no belo rosto adornado por brilhantes olhos castanho-avermelhados. “Tudo começa, Shizu-chan, em suas coxas.”.
– Nada? Tudo bem, então!
Sem desviar o olhar sequer por um segundo dos olhos cor de avelã, Izaya afastou-se completamente, deixando o colo do guarda-costas e sentando-se na cama. Correu os olhos pelo corpo nu do outro, detendo-os nas pernas cruzadas próximas ao corpo, nas quais, instante antes, apoiava seu quadril. Sentia o olhar intenso de Shizuo queimar o topo de sua cabeça, mas, longe de inibi-lo, o olhar feroz plantou um sorriso em seus lábios. E foi com este sorriso malicioso nos lábios que pousou ambas as mãos nas coxas de Shizuo e as forçou a descruzarem-se.
– O que está fazendo? – perguntou-o Shizuo, visivelmente receoso quanto a permitir que o outro afastasse suas penas.
– Quanto ao quê? – rebateu, aplicando mais força, decidido a fazê-las abrir.
– Como assim “quanto ao quê?”? – o guarda-costas elevou o tom da voz, fazendo com que Izaya desviasse os olhos das coxas e o olhasse. Tão logo o fez, percebeu que Shizuo apontava com o queixo na direção das próprias pernas, claramente perturbado com suas ações.
– Ah! Isso? – apertou levemente as coxas, soltando-as em seguida e acariciando-as com o verso das mãos – Não é óbvio?! Estou te seduzindo!
Em resposta, as sobrancelhas de Shizuo se apertaram um pouco e seus lábios separavam-se, surpresos, as suas mãos contrariam-se quase imperceptivelmente, assim como os dedos de seus pés, e suas costas endireitaram-se levemente na cabeceira da cama. Mas Izaya não viu nada disso, dedicado como estava em perceber a única resposta que a ele importava: os músculos da coxa que cederam sob seus dedos e o membro semiereto que pulsou.
– Nenhuma objeção, então? – perguntou malicioso, soltando um das mãos das coxas de Shizuo e correndo o indicador pela extensão do pênis, que reagiu imediatamente a seu toque. – Ótimo!
Alargando seu malicioso sorriso, voltou ambas as mãos à anterior atividade, desta vez não encontrando nenhuma resistência em separar as pernas de Shizuo e, abandonando a posição na lateral do guarda-costas, colocar-se no vão entre elas.
“Eu gosto do seu silêncio, Shizu-chan”, pensou, satisfeito diante da não resistência do outro.
Um muxoxo ressentido e baixo deixou seus lábios quando lançou longe o lençol que até então mantinha ao redor de seus ombros. O frio já não o incomodava como antes, mas ainda era desconfortável ficar descoberto. Ponderou por alguns instantes enfiar-se novamente debaixo de algum cobertor ou lançar-se novamente para cima de Shizuo e seu anormal calor constante, mas sabia que qualquer uma destas opções destruiria sua performance. Para o que faria a seguir precisaria de toda a ajuda que conseguisse, isso incluía, clara e orgulhosamente, seu corpo desnudo e os movimentos irrestritos.
Lentamente, inclinou seu tronco à frente ao mesmo tempo em que afastava seu quadril. Umedeceu os lábios com a ponta da língua e firmou ambos os joelhos no macio colchão, encarando com latente atenção o baixo-ventre do guarda-costas imediatamente diante de seu rosto.
“Segundo passo: expectação, Shizu-chan”.
– Hum... – ponderou, os lábios próximos à excitação do outro – ... Isso não está bom...
– O-o que? – sorriu ao notar como a voz do outro soava rouca.
– Isso... – repetiu, sem dar-se ao trabalho de fazer com que “isso” significasse algo específico.
Assistiu o membro de Shizuo, que até segundos atrás impunha-se rijo, vacilar. “Ahhh, caralho, isso é tão legal! Ele acha que é um problema com ele. Eu não vou resistir, vou morrer de rir!”. Resistindo, entretanto, à vontade de gargalhar diante da clara perda de empolgação de Shizuo, Izaya esforçou-se para parecer o mais sério possível e, levantando os olhos, encarou-o profundamente.
– O que porra, pulga?
– Hum... Preciso de um travesseiro! – anunciou, endireitando o corpo e pondo-se sentado diante do guarda-costas.
– Um o quê?
– Você é burro, Shizu-chan?! Tra-ves-sei-ro! Daquele que você apoia seu cabeção loiro pra dormir, sabe?! Tem algum ai?
– Mas que caralh...
– Ah! Achei. – com um discreto sorriso lateral, debruçou-se sobre Shizuo, forçando seu corpo contra o dele ao estender firmemente o braço à direita, onde encontrava-se o desejado travesseiro branco – Merda! Não alcanço! Espera um pouco, Shizu-chan.
Afastando-se de Shizuo, apoiou ambos os joelhos e mãos na cama, arrastando-se assim até alcançar o travesseiro, demorando mais tempo do que o necessário para atingir seu destino. Dedicou muito esforço em não gargalhar quando sentiu uma mão pousar em seu quadril. O mesmo esforço que foi necessário para que, tão longo sentisse o toque de Shizuo, levantar-se e livrar-se dele, voltando à posição inicial, entre as pernas do loiro, agora com o travesseiro em mãos.
– Pronto! Agora você... se afasta um pouco... isso... aqui! Ótimo! – exclamava enquanto, diante de surpresos olhos castanho-avelã, posicionava o travesseiro atrás das costas de Shizuo. – Agora você inclina o quadril um pouco pra frente... Não... foi muito! Isso, assim!
Afastou-se mais uma vez do guarda-costas e, piscando um olho e suspendendo as mãos afastadas em forma de L, como um foco de uma câmera, espiou Shizuo com interesse.
– Perfeito, Shizu-chan! – exclamou.
– Mas que porra... que merda está fazendo, pulga?
“Sim, sim... você já deve estar bem impaciente agora, né?! Agora, passo três: diversão”.
– Já disse! Estou te seduzindo! – respondeu simplesmente, inclinando-se mais uma vez na direção do baixo ventre de Shizuo e, desta vez, deslizando a língua por seu pênis – Viu?! Não disse?! Perfeito! Esta inclinação é a melhor!
– Pra... hum... – gemeu contido enquanto Izaya, mais um vez, provocava-o com a língua – Pra que isso?
– Já disse: inclinação perfeita. – respondeu debochado, roçando de leve os lábios no membro já totalmente enrijecido a sua frente e escutando mais um gemido – Ah! Ou você diz... pra que estou te seduzindo? – não esperou pela resposta do outro, sabia que ela não viria, sabia tão bem quanto sabia que era exatamente sobre isto que se tratava a pergunta de Shizuo – Bom... pra te convencer.
Esperou. “Esperar” não era a palavra mais adequada para descrever o que fazia Izaya, entretanto, era exatamente isto o que fazia. Esperava pela pergunta de Shizuo, tinha certeza que ela viria e isto só dependia do que ele faria durante a espera. E Izaya, orgulhosamente, sabia o que fazer durante a espera: ele devia correr a língua devagar por toda a extensão do pênis de Shizuo, molhando-o por inteiro de saliva; depois devia colher a excitação do loiro com a ponta da língua, demoradamente, sentindo a maciez da pele exposta do pênis do guarda-costas; depois devia envolve-lo com a boca, aquecendo-o, provando-o; depois devia mover-se devagar, sugando levemente antes de tirá-lo por completo da boca e recomeçar do início, correndo levemente a língua por toda a extensão, às vezes ousando roçar suavemente seus dentes na pele sensível. Este era o processo, e Izaya se divertia imensamente em classificar cada um dos gemidos de cada estágio do processo: o primeiro, satisfeito, leve e fácil; o segundo, suspenso, surpreso, quase como uma falha da respiração; o último, gutural, profundo. A fase da “espera” era o primeiro passo para arrancar de Shizuo o que queria, assim, foi com um gemido intenso de satisfação, que reverberou no pênis de Shizuo, que Izaya ouviu-o perguntar:
– Convencer do que? – a voz de Shizuo soava aérea.
“E eu nem cheguei até o fim do processo desta vez, Shizu-chan... você devia estar realmente expectante para ceder tão rápido! Eu só tive tempo de usar minha língua!”.
– Convencer a me contar. – respondeu devagar, prenunciando o gosto que a vitória teria em seus lábios.
– Contar?
– Siiim! Contar “o que eu não disse antes”, mas que “você já perguntou uma vez”, e que, eu tenho absoluta certeza, não é “nada”.
Espera, novamente. E o recomeço do processo de espera. Izaya não era impaciente quando se tratava de arrancar informações, não, ao menos, quando era divertido. E, ver Shizuo contorcer-se, arquear as costas e liberar cada um dos seus preciosos gemidos era quase a personificação da palavra diversão.
– Você não deveria... merda! Hum! ... estar tentando arrancar de mim a resposta, então?
– Hahahaha... e o que diabos acha que estou fazendo, Shizu-chan?
Afastou os lábios do pênis do guarda-costas e encarou-o risonho, sondando-o. Os olhos cor de avelã fitavam-no quase negros, quase todo pupila, mas, ainda assim, surpresos e relutantes.
– Mas... – levantou um pouco o rosto, queria ouvir com toda a atenção o que Shizuo diria, e queria deixa-lo dizer sem quaisquer distrações, sentia que dali surgiria alguma preciosidade, visto que o guarda-costas quase nunca usava a conjunção –... assim? Que porra de informante é...
Um riso alto escapou pelos lábios avermelhados de Izaya, interrompendo Shizuo, que o encarou carrancudo. Izaya quase sempre conseguia respeitar sua decisão de deixar Shizuo terminar as poucas frases completas que dispunha-se a dizer, mas, desta vez, sequer se recriminava por tê-lo interrompido.
– Você queria que eu te interrogasse com palavras, Shizu-chan?! É sério isso?! – controlando as intensas risadas que o queriam dominar por completo, Izaya encarou o rosto de Shizuo, procurando ali qualquer indício de que teria se enganado, mas tudo o que viu foi a carranca do outro intensificar-se – Você está falando sério mesmo?! Em que caralho de universo você cederia diante de palavras, Shizu-chan? Além do mais... – aproximou-se novamente do pênis do guarda-costas – assim é bem mais divertido, não é?
– Mas que... e você me conta?
– O que? Você está insinuando que porque eu te contei não funcionará? – um novo riso escapou de seus lábios – Eu já te disse uma vez, alguns dias atrás, mas talvez seu cérebro de protozoário não tenha absorvido: a melhor arma de um informante é sua boca, Shizu-chan, e isto independente de como resolva usá-la. Não que eu ache que você conseguirá, mas... – segurou o pênis do outro e estimulou-o algumas vezes –... boa sorte resistindo, será divertido!
Espera– mesmo Izaya achava injusto o nome que escolhera para o boquete de rendição de Shizuo. Aquilo que fazia não se aproximava nem um pouco do que poderia ser classificado com espera. A última coisa que tanto ele quanto sua vítima queriam fazer era esperar. Izaya não esperava que Shizuo terminasse um gemido antes de querer arrancar-lhe outro. Shizuo não esperava a passagem pelos passos lentos do processo de Izaya antes de agarrá-lo pelos cabelos e impor seu próprio ritmo. Izaya não esperava que Shizuo acostumasse-se com seus movimentos antes de muda-los completamente. Shizuo não esperava que Izaya acostumasse-se a seu membro antes de força-lo mais adentro em sua boca. Izaya não esperava mais, sequer, que Shizuo lhe confessasse algo. Espera era um nome contraditório para a euforia que tomava cada um daqueles dois homens.
– Sempre... coisas como essa...
A voz de Shizuo ecoou por seus ouvidos, e, mesmo rouca e entrecortada por suspiros, soou-lhe clara como nunca. Levantou os olhos castanho-avermelhados e imediatamente sentiu-se preso, a já tão repulsivamente conhecida prisão cor de avelã. Um arrepio correu por sua espinha. Odiava isso: era Shizuo quem se apaixonara, era Shizuo quem o pedira para ficar, era Shizuo quem estava sendo chupado, então porque era ele o aprisionado? Era ele quem quisera arrancar confissões de Shizuo, então porque era quem se surpreendia ao ouvir a voz do outro?
– Você... não pare! – Izaya sequer pestanejou antes de voltar a tomar o pênis do outro nos lábios, despejando a frustração em sua língua e dedicando cada músculo do seu corpo no que fazia – Você... sempre faz coisas como estas... sempre me faz dizer o que não quero. Tudo é sempre do seu jeito, maldito! – algo gelado pesou no fundo de seu estômago. “Isto é... você quem faz isso, idiota!” – Não pare! Merda, Izaya! Você sempre faz isso!
Enlaçou ambos os braços os redor do quadril de Shizuo, puxando-o com força para si e direcionando seus lábios para as fortes coxas, nas quais depositou mordidas que sabiam ser capazes de deixar marcas em qualquer humano normal, subindo em seguida sua língua aos testículos, onde demorou-se, incentivado pelos gemidos do outro. “Perturbar-te, te pressionar a falar mais... era o que eu devia fazer agora...”.
– Merda, Izaya!
Um puxão forte em seu cabelo seguido de outro ainda mais intenso em seus braços forçou-o para cima. A próxima coisa que sentiu foi ávidos lábios em seu pescoço e toques poucos cuidadosos explorando seu tronco.
“‘O que você estava querendo me dizer? ’ – pergunte, Izaya!”.
Contrariando seus pensamentos, entretanto, tudo o que escapava de seus lábios eram irresponsáveis gemidos, ressentidos, teimosos, rebeldes, clandestinos.
– A trouxe com você e não me disse nada... nem quando perguntei... – a voz de Shizuo vibrava em seu pescoço e ressoava por todo seu corpo. Esforçava-se por ignorar o efeito dela em sua pele e centrar-se no que dizia, entretanto, mal podia distinguir as palavras umas das outras, toda a atenção presa na trilha que a ponta dos dedos de Shizuo traçava em seu peito.
– Trouxe?
– Ainda agora... – ofegou profundamente ao sentir intrusos dígitos invadirem-no, apegando-se às palavras de Shizuo na tentativa de ignorar o desconforto – ... ainda agora... na entrada. E você não diz merda alguma...
Se pudesse agora focar-se em alguma coisa que não fosse o acréscimo de outro dígito dentro de si, Izaya notaria que ele não era o único que se esforçava por apegar-se às palavras de Shizuo, mesmo os lábios que se moviam para libertá-las não pareciam seguros ou confortáveis, indecisos entre abrirem-se em palavras ou fecharem-se em beijos. Entretanto, se os lábios não pareciam capazes de decidir com atingirem Izaya, o mesmo não podia ser dito do restante do corpo do guarda-costas: os dedos moviam-se com destreza, tanto os que marcavam a pele pálida quanto os que deslizavam invasores.
Um arrepio desconfortável seguido de uma sensação gelada no fundo do estômago: não importava quanto tempo já estivessem naquela situação e o quanto negasse para si mesmo, esta sempre era a reação de seu corpo quando sentia os dedos de Shizuo deixarem seu interior. Os poucos segundos de expectativa até ser novamente tomado faziam apenas crescer o frio em seu estômago, espalhando-o por seu corpo, ascendendo a seu peito e alcançando sua garganta, travando-a. Negaria por toda a vida que a sensação que seguia ao estranho e desconfortável frio era alívio, mas admitia que mesmo Shizuo parecia perceber que era justamente este o sentimento que marcava o gemido sofrido que libertava-se de sua garganta. E o alívio levava-o ao caminho inverso: o gemido destrava a garganta, e uma sensação quente descia por seu peito, queimando-o por dentro. Apenas depois de completo o percurso de volta, após afastar de seu corpo todo o frio, invadiam-no a dor da rude penetração ou o prazer de ser tomado. Quaisquer destas sensações posteriores mudavam a cada vez, as vezes a dor persistia, às vezes o desconforto o perseguia, às vezes quase não o invadia dor alguma, às vezes sentia-se a beira da loucura, às vezes sentia que podia derreter no calor do corpo de Shizuo. Entretanto, por mais variável e imprevisível que fosse o sexo com Shizuo, os segundos que precediam e os segundos que sucediam a penetração permaneciam inalteráveis.
– E... mesmo agora... não me diz... o que era aquela merda na entrad...?
– Cal... – os olhos castanho-avermelhados arregalaram-se de súbito, enquanto os finos dedos das mãos cobriam com furor os lábios nos quais instantes antes morrera uma palavra, cortada com ardor por seu próprio dono.
“O que caralho eu ia dizer?!”, um misto de surpresa e indignação marcavam os olhos de Izaya, e, mesmo que fosse ciente do par de orbes cor de avelã encarando-o fixamente, não era capaz de esconder seu choque. “Eu quase o mandei calar-se!”. Mordeu com força os dedos e sentiu a fina pele rasgar-se sob seus dentes quando sua mão foi brutamente afastada deles, presa em seguida contra a cama, forçando-o a inclinar-se levemente para trás. Não pode evitar que um resignado sorriso discreto nascesse em seus lábios, o sorriso destinado ao ambíguo ódio que sentia por Shizuo e sua força monstruosa. “O que faço contra você?!”, é o que se poderia ler naquele sorriso, não da forma como se planeja uma vingança, mais da forma como se reage quando não há nada a ser feito. A força de Shizuo, aquela que tanto o divertia quando direcionada a destruir Ikebukuro ou lançar-se atrás dele, agora lhe arrancava o dúbio sorriso odioso: Izaya odiava como Shizuo não esforçava-se nem um mínimo para manipular seu corpo, como para ele parecia ser perfeitamente normal manter ambas os seus braços presos com apenas uma das mãos, enquanto a outra, sem sequer um ínfimo retesar de músculos, controlava os movimentos de seu quadril. A força de Shizuo feria seu orgulho, irritava-o pensar que mesmo que fosse aquele quem mantinha-se por cima era o outro a ditar o ritmo. Sexo com Shizuo mexia com seu ego, e Izaya odiava como, apesar de tudo, seu ego parecer ser a única coisa nele que diminuía com as investidas do guarda-costas.
– Ei, idiota! Você precisa decidir se vai segurar meu quadril perto ou meus braços longe, mais um pouco disso e será necrofilia. – encarando o teto branco do apartamento do outro, Izaya orgulhou-se por, ao menos, ser capaz de manter sua voz audível para provocar o outro – Necrofilia, hum? Você é um mostro pervertido mesmo, hein, Shizu-chan?!
O branco do teto sumiu repentinamente de seu campo de visão e seu sorriso resignado-debochado deu lugar a um riso alto. “Maldito monstro pervertido!”, pensou ao sentir as costas de encontro ao macio colchão e uma nova investida de Shizuo, profunda e forte. “Maldito monstro mole!”. Essa era mais uma das partes de Shizuo que odiava: não importava qual fosse o contexto e as exclamações de raiva que o acompanhassem, sempre que reclamava era atendido, mesmo que de forma bruta e deturpada. Izaya fazia questões de fazer o exato contrário, sempre que Shizuo reclamava de algo, repetia-o infinitas vezes, até cansar-se, até assistir o guarda-costas enraivecer-se e descontrolar-se. Mas, mesmo que assim fizesse, não podia compensar a raiva que sentia ao ver Shizuo atender seus pedidos, não podia suportar que o outro, ainda que não sem reclamações e ainda que o penetrasse fortemente, houvesse soltado seus braços e agora acomodasse seu quadril em suas coxas de forma quase gentil.
Fitou o rosto de Shizuo. Durante muito tempo tentou se convencer de que a expressão de Shizuo durante o sexo o agradava tanto porque em muito se assemelhava à expressão de dor. As sobrancelhas juntas e os olhos apertados, os lábios levemente separados: se os sons que deixavam os lábios entreabertos não denunciassem o prazer, ele quase poderia convencer-se que o guarda-costas sofria. Mas não havia margem para erro, não quando os olhos se abriam e revelavam-se quase negros e quando os lábios se moviam por sua panturrilha direita, agora apoiada no ombro do guarda-costas.
De alguma forma, Izaya quase poderia dizer que odiava tudo o que se relacionasse a sexo com Shizuo: os beijos que se demoravam, a exploração quase dolorida das mãos por todo seu corpo, a expectação, a dicotômica penetração, ora rude ora gentil, a expressão de Shizuo, a sinceridade e naturalidade dos toques, a total falta de quaisquer filtros, a maneira como seus próprios movimentos sincronizavam com os de Shizuo, a forma como, agora, seus braços estendiam-se na direção da pele do outro, ansiando por tocá-lo, a maneira como Shizuo inclinava-se em sua direção, a forma como agora deitava-se sobre ele, pele contra pele, e a maneira como seus braços entrelaçavam-se no pescoço do outro e seus dedos perdiam-se nos fios loiros, odiava também a forma como seus traidores lábios buscavam os lábios de Shizuo. Odiava tudo. Profundamente. E, portanto, como punição por entregar-se ao que odiava, aumentava o ritmo, puxava com força os fios loiros, mordia arduamente os lábios de Shizuo.
– Me diz, Shizu-chan, por quê? – a voz rasgava sua garganta. – Qual é sua explicação, hein?
O ritmo das investidas diminuía enquanto Shizuo afastava-se levemente para olhá-lo. Não era um olhar curioso ou confuso, parecia mais como se o guarda-costas buscasse o motivo que fizera os beijos pararem, como se intrigado que a boca do outro pudesse ter outra função além de tocá-lo. Izaya sustentou o olhar, não porque precisasse de uma resposta para o pergunta que já nem se lembrava de ter feito, mas porque era tudo o que podia fazer ao ter os intensos olhos cor de avelã fixos nele. Assim, mesmo que não fosse sua intenção percebê-la, pode notar a gradativa mudança na expressão de Shizuo, agora dura. À expressão dura seguiu-se a intensificação do ritmo das outrora diminuídas investidas.
– Pro inferno com você, maldito! MINHA explicação? Mas que caralho! – os olhos castanho-avermelhados abriram-se subitamente, arregalando-se a cada palavra gritada por Shizuo – Você... hum... você aparece aqui com aquela merda e eu que tenho que explicar?!
Apertou com força os olhos ao sentir ambas as mãos de Shizuo segurarem com ímpeto a lateral de seu rosto e só voltou a abri-los quando percebeu que isto era tudo o que o guarda-costas faria.
– E eu... – continuava Shizuo, a cada palavra empregando mais força em suas investidas – ... me ignorando quando pergunto! Me fazendo... hum... perguntar de novo! Pro inferno, Izaya, maldito!
– Shizu-ch... – Izaya, entretanto, calou-se ao sentir as mãos do guarda-costas fraquejarem levemente contra seu rosto para em seguida voltarem a apertá-lo. Ele se orgulharia de calar-se e convenceria-se mais tarde de que o fizera de maneira pensada, entretanto, naquele momento não havia qualquer intenção por trás de seu silencio além da simples necessidade de saber o que um Shizuo que o segurava com tanta força e o encarava com as sobrancelhas franzidas diria.
– Na entrada! Uma maldita mala! Sem... – continuava Shizuo –... me dizer nada! Sempre fazendo coisas como... estas...
Os olhos que o encaram oscilaram por instantes e se desviaram dos seus. Se Izaya agora estivesse lúcido o suficiente pra refletir sobre este gesto, riria enquanto pensava que desviar os olhos dos seus não era um gesto comum a Shizuo, que este era uma expressão para quando dizia ou fazia algo capaz de deixar encabulado o homem que quase nunca se preocupava com suas ações ou as consequências delas. Nenhum riso, entretanto, deixou os lábios avermelhados pelos recentes beijos, eles permaneceram cerrados, o estado completo oposto de seus olhos, que abriam-se, famintos, prontos a devorarem as palavras de Shizuo. As palavras, entretanto, não vieram mesmo depois de muita espera e quando finalmente vieram, não eram as que desejava, não pertenciam sequer à voz que esperava:
– O que espera que eu diga... Shizu-chan...?
As mãos fortes permaneciam nas laterais de seu rosto, forçando-o a fitar olhos que ainda se se recusavam a fitarem os seus e lábios que permaneciam fechados. Desta vez, mesmo que não soubesse exatamente o porquê, uma gargalhada libertou-se de sua garganta enquanto levava uma de suas mãos até os cabelos loiros, afundando seus dedos neles, e enlaçava com ambas as pernas o quadril de Shizuo, apertando-o com força contra si. Ao gemido lânguido que deixou os lábios do guarda-costas respondeu com um forte puxão nos fios descoloridos, trazendo para perto o rosto de Shizuo e obrigando-o a debruçar-se sobre si. Fechou os olhos por alguns instantes, acostumando-se ao calor que emanava da pele do outro, e quando voltou a abri-los, os olhos castanho-avelã fitavam-no diretamente.
– O porquê... – as mãos deixaram as laterais de seu rosto e apoiaram-se na cama. Só ao perder o pulso direito do seu campo de visão e ter seu rosto puxado novamente para frente, em direção ao rosto de Shizuo, percebeu que perdera-se a acompanhar os movimentos das mãos de Shizuo, que, agora, sem sua supervisão, corria os dedos de uma delas por seu peito e enlaçava seu quadril com força, aprofundando o contato entre eles. Fechou novamente os olhos, voltando a abri-los com espanto quando ouviu as palavras que deixaram em seguida os lábios de Shizuo. – ... da mala.
Izaya riria se pudesse – e gostaria muito de poder, definitivamente, mesmo que não se desse conta disso ainda. Primeiro porque a palavra soava-lhe estúpida dita daquela forma, e segundo porque era, afinal, o momento pelo qual ele se preparara com afinco durante considerável tempo. Horas, dias, meses gastos para planejar aquele momento que agora deixava escapar irresponsavelmente. Noites em claro, anos de observação, sérios ferimentos em seus lábios: todo trabalho perdido por causa de dedos que marcavam com força sua cintura e olhos avelã fitando-o ardentes enquanto seu declarado maior inimigo afundava-se dentro dele. Até mesmo Namie, a quem fora dada a tarefa de adquirir sua nova arma em uma simples loja de artigos variados pelo quase insignificante valor de ¥ 4514.6727- uma pechincha para aquele tipo de produto, reforçado com tripla costura, tecido à prova de água e três pequenas rodinhas a garantir mais estabilidade — ficaria possessa ao saber que suas habilidades de negociação foram perdidas por causa do que nomeava em segredo como “baixa resistência de seu chefe a objetos inseridos em seu ânus”. E mesmo Erika, que topara com Izaya mais cedo naquele dia enquanto o informante se dirigia à casa de Shizuo, também não se contentaria ao perceber que aquela bela e aparentemente pesada mala negra que Izaya carregava fora esquecida com tamanho descaso por seu dono – entretanto, vale dizer, diferente de Namie, encararia com outros olhos os motivos para tal.
A mala. Nova arma de Izaya. Considerada depois de muita reflexão mais eficiente que seu canivete na tarefa de provocar Shizuo e arrancar dele novas expressões. Expressões estas que Shizuo mostrava sem qualquer filtro neste exato momento: confusão, sobrancelhas franzidas, preocupação, olhos sondadores, lábios presos entre os dentes, músculos retesados. Expressões estas que, agora, eram perdidas pelos olhos castanho-avermelhados que permaneciam fechados, alheios a tudo: às expressões do outro e ao desmoronamento de seu plano perfeito, fixos como estavam em centrar suas sensações unicamente em sua pele. A mala, tão cuidadosamente preparada, alvo de tantas expectativas, permanecia esquecida.
Uma nova investida e um novo gemido, longo, vergonhosamente agudo. Izaya dedicara tempo a classificar os gemidos de Shizuo: distraídos no início, um pouco teimosos, baixos, surdos, que alongavam-se na mesma proporção que o pênis de seu recitador, tornando-se mais graves, retrocedendo progressivamente na boca, tornando-se, então, guturais, sonoros, alcançando a garganta, sofridos, pesados, profundos. Era o orgulho, entretanto, e não ignorância ou incapacidade, que o impedia de fazer o mesmo com os seus próprios. Izaya sabia perfeitamente o que significava aquele gemido levemente agudo, longo, doloroso, que deixara sua garganta. Izaya tampouco arriscaria dizer que era o único que sabia em segredo do significado daquele gemido, não quando Shizuo deslizara sua mão de sua cintura para seu pênis e se empenhava agora em estimulá-lo enquanto investia com generosidade dentro dele, arrancando mais dos agudos gemidos.
– A mala, Izaya! – sussurrou próximo a seu ouvido.
Gemeu em resposta, não com a rebeldia de quem se recusa a dizer, mais como quem dá qualquer resposta a um tom que a pede. Gemeu mais uma vez, desta vez com revelia, mas ainda não como resposta às palavras de Shizuo, sim em resposta aos movimentos cessados em seu membro.
– Vá à merda! – gritou a Shizuo. Mas, assim como seus gemidos, aquela não era sua reposta ao guarda-costas, sua resposta veio em seguida, sem qualquer som: ambos os braços a se enlaçarem com desnecessária força no pescoço do outro, negando quaisquer evidências de que eles não poderiam aproximar-se mais. Essa era a resposta, mas não era o suficiente, nunca o era, não quando se tratava de Orihara Izaya. Orihara Izaya não se prendia a silêncios, não quando podia separar os lábios e murmurar provocativo: – Me foda!
Não era uma súplica ou uma ordem. Izaya não seria conhecido como o mais eficiente informante de Ikebukuro se estes dois extremos fossem as únicas nuances de seu tom. Aquela era a verdade. O tom de um messias. Inexorável. Shizuo não tinha nenhuma fuga, nem por um segundo, nem o vislumbre de outro caminho. Sua mão voltou a massagear o pênis de Izaya como se nunca houvesse agido de outra maneira.
– Eu não direi. – foi a única reação de seu orgulho, monstruoso como lhe era de direito, ao tom de Izaya.
– O... hum... o que não dirá?
– Não perguntarei de... novo... aquela bosta! Merda, Izaya! Para com essa merda!
– Hum...? – correu lentamente a língua pelo pescoço de Shizuo. “Tão... quente...”.
– Não direi... aquelas palavras...
– Qu-quais? – “Quente, Shizu-chan”. Como resposta a sua espontânea e impensada pergunta, recebeu um leve roçar dos cabelos de Shizuo em seu rosto, sorriu ao perceber que o loiro acenara a cabeça em negativa. Abrindo mais seu sorriso, afundou os dedos nos fios loiros, sentindo o comprimento e a contraditória maciez de fios tão grossos e inspirou fundo, fazendo com o cheiro de shampoo se sobressair a todos os outros. “Bom...” – Qu-quantas?
Sentiu os fios desatrelarem-se de seus dedos contra sua vontade e um par de orbes cor de avelã fitarem-no a perigosos poucos centímetros de distância. Não saberia dizer se o arrepio que correu sua espinha era resultado de tal sondador olhar, ou da iminência de seu orgasmo, ou ainda da expectativa que lhe trazia a previsão de que Shizuo lhe mostraria algo novo. Mas nada disso importava, verdadeiramente, pois em seguida não havia sequer rastro de tal ou qualquer outro arrepio em seu corpo que agora retorcia-se em quase convulsões. Os dedos afastados a força dos fios loiros os buscaram novamente, apertando-os tensos ao acha-los, na vã tentativa de canalizar os descontrole que o tomava, a mesma vã tentativa que o levava a cravar os dentes na pele queimada de sol do pescoço do guarda-costas, tentativa esta tão vã que sequer era capaz de barrar os gemidos que escapavam intensos de sua garganta.
– Três. – foi tudo o que pode escutar no breve intervalo entre seus gemidos, e teria declarado este simples e esparso numeral como um eco deixado pelos seus feridos tímpanos se em seguida Shizuo, que ainda mantinha os assustadores olhos castanho-mel fixos nos seus, não declarasse: – Três palavras.
As ressonâncias de seu recente orgasmo ainda ecoavam por seu corpo quando a mente de Izaya despertou. Franziu o cenho enquanto retribuía o olhar de Shizuo. Pensou em repetir sua pergunta: “Quais?”, diria, e voltaria a insistir diante da recusa do outro: “Quais, Shizu-chan? Quais palavras?”, e continuaria a perguntar até que Shizuo as dissesse, essa era a única maneira, afinal, de que não fosse ele mesmo a dizer o que sabia desejar o guarda-costas. Porque sim, ele sabia exatamente quais eram as três palavras. Sabia deste o início. Sabia quais eram no momento no qual adquiriu a mala semanas antes. Sabia quais eram mesmo antes disso. Sabia quais eram mesmo antes de pensar em malas. Sabia quais eram dois anos antes naquele mesmo apartamento que, naquele momento, trazia a mesma cama com lençóis brancos e desarrumados e a mesma mesa de canto com um dos apoios descascados. Sabia quais eram antes disso antes, mesmo quando as negava com toda a sua determinação.
Pensou em responder, também, “Eu já as disse antes, idiota!”, mas sabia que se nem mesmo ele aceitava esta resposta, muito menos a aceitaria aqueles olhos monstruosos. Apertou com força os fios entre seus dedos, desta vez num reflexo muito diferente de sua anterior excitação. Raiva. “Por que me fazer dizer? Eu já fiz, mesmo que não direto!”. Mas sabia que as três palavras precisavam ser ditas sem quaisquer introduções, sem quaisquer vocábulos anteriores que as amenizasse ou preparasse sua recepção. Sabia de uma forma diferente da qual normalmente sabia as coisas: sabia em sua pele. A pele que ainda mantinha intenso contato com o calor de Shizuo. Aquele calor a queimar cada um de seus poros não permitiria que dissesse algo como “eu não me importaria...”. Mesmo que Heiwajima Shizuo não fosse um homem de palavras, sabia que o futuro do pretérito não seria o suficiente, não quando uma mala pesada com roupas que Izaya negaria para sempre ter sido ele mesmo a arrumar fazia-se tão presente na entrada do apartamento.
– Eu vou ficar. – soltou num fôlego.
– Mais três. – a voz que ressoou em sua pele era distante, aérea, leve, mas Izaya sabia que essa forma mentia o estado de Shizuo. A real determinação do guarda-costas era mostrado em sua pele, nas unhas cravadas em seu quadril, no cheiro de suor e na intensificação dos movimentos dentro de si.
– Ficarei... pr-por um bom tempo. – sussurrou para Shizuo, e, após o sussurro, um sorriso, discreto, sutil, daqueles que eram apenas do monstro de Ikebukuro. O sorriso de quando o ciclo se completava, de quando sentia em sua pele o ápice do prazer de seu contraditório maior inimigo.
Sabia ser desonesto. Aquelas eram cinco palavras, não as três desejadas por seu odioso amante. Mas não se importava em ser desonesto com Shizuo, bastava para ele ser sua própria testemunha, era humilhante o suficiente que um deles conhecesse a verdade. Shizuo, entretanto, que ainda mantinha-o preso em seus braços, não parecia se importar com o contador estourado.
***
– Você fez de propósito, né, sua pulga desgraçada? Você é um maldito, Izaya!
Izaya abriu os olhos na direção da voz e encontrou sobrancelhas franzidas que emolduravam olhos que o fitavam ranzinzas. Era a segunda vez naquele dia que Shizuo interrompia seu glorioso momento pós-orgasmo, forçando sua atenção a desviar-se da maciez do lençol branco contra a sensível pele, duas vezes marcada pela força do homem mais forte de Ikebukuro. Mas, assim como na primeira vez, nenhum traço de insatisfação cruzou os olhos castanho-avermelhados enquanto dedicavam atenção à origem da voz quase colérica, e, também como na primeira vez, um sorriso involuntário preencheu seus lábios. Entretanto, diferente da outra vez, limitou-se a seu olhar livre de sarcasmo e seu sorriso discreto, não dizendo palavra sobre o que quer que o outro o culpasse agora. Não se importava, verdadeiramente. Sabia que era culpado por tudo, todas as vezes que Shizuo o acusava. Agora não era muito importante saber qual seu novo crime, não havia defesa e, mesmo se houvesse, não estava disposto a usá-la, não quando o cobertor o acolhia com tamanho aconchego, não quando o mesmo homem dos olhos ranzinzas e voz colérica traçava com a ponta dos dedos uma discreta linha em seu braço direito, que descansava tranquilo sobre um travesseiro. Realmente não havia qualquer possibilidade de defesa, declararia-se orgulhosamente culpado. Seu carcereiro, porém, não parecia satisfeito com a ausência de confissões:
– Toda aquela encanação de “só quero transar, fique quieto e me fode” e, no fundo, só queria me fazer falar. Você é um desgraçado!
Mesmo que a voz colérica voltasse a soar, as carícias em braço esquerdo agora se estendiam para seu ombro e posteriormente a suas costas, e não davam sequer sinal de que parariam, mesmo com tão estranha trilha sonora a acompanha-las. Se Izaya não estivesse preocupado demais em não deixar transparecer em seu rosto o choque sentido ao receber tais palavras, perceberia que Shizuo estava tudo naquele momento, bravo, satisfeito, raivoso, excitado, mas não estava, definitivamente, distraído.
Plantou em seu rosto seu melhor sorriso debochado, aquele tão fácil de encontrar entre suas possíveis facetas, desculpou qualquer nuance antinatural que sua voz assumisse atribuindo-a a inclinação de seu pescoço e disse:
– S-seu cérebro de protozoário ainda não entendeu, Shizu-chan? C-claro que sim! O que acha que sou? Não sou um idiota preso a instintos! Eu tenho mais a usar do meu corpo do que o pau!
Encarou ansioso o homem a seu lado. Se fosse um homem atento, Shizuo perceberia que aqueles olhos ansiosos denunciavam que havia mais significados naquelas palavras do que a primeira camada semântica. Izaya o notaria, certamente. Mas Shizuo não era um homem atento, ele o homem que o informante definira como “um idiota preso a instintos”. Entretanto, mesmo que não pudesse sentir qualquer ansiedade em quaisquer olhos, sorriu aberto e bagunçou os fios negros de Izaya, puxando-os em seguida para si e forçando o dono de tais fios a mover-se.
Quando caiu em si, Izaya levantava o queixo para fitar o rosto claramente satisfeito de Heiwajima Shizuo, seu pior e mais ambíguo inimigo, (talvez pior por ser justamente o mais ambíguo), inimigo este que agora o mantinha sobre si, ambos as mãos presas a sua cintura (talvez pior por deitarem-se juntos, nus e satisfeitos). Izaya aceitava as carícias, aceitava as mãos em sua cintura, aceitava o calor que emanava da pele de Shizuo, aceitava até mesmo seu sorriso satisfeito, mesmo que não sem considerável relutância. Aceitava e mantinha-se naquela posição, deitado em cima do homem mais forte de Ikebukuro, levantando o queixo para olhar mais de perto a expressão em seu rosto que tanto odiava. Aceitava, mas, claro, não consentia. Não admitia que Shizuo o tocasse daquela forma e não tolerava sua aceitação. Assim, renegando sua nudez, vestiu seu pior sorriso e provocou:
– Na verdade, sabe, eu posso construir várias frases com três palavras: “Vai se foder!”, por exemplo... ou: “Eu sou incrível”, ou ainda: “Shizu-chan sem cérebro” , “Shizu-chan é idiota!” – afastou-se levemente de Shizuo, apenas o suficiente para que seu sorriso imenso fosse plenamente capturado pelos intensos olhos castanho-avelã – Uau! Com estas três palavras eu posso criar diversas expressões do gênero “Shizu-chan é *insira aqui um xingamento*”: “Shizu-chan é cuzão”, “Shizu-chan é protozoário”, “Shizu-chan é um maldito”.
– Essa tem quatro, pulga.
– HAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHA... Você estava contando? Você corrigiu, mas não negou! – colheu com a ponta do indicador uma pequena e divertida lágrima que escapava de seu olho direito, fitando, em seguida, Shizuo com indisfarçado interesse – Na verdade, você é incrível, não é, Shizu-chan?
O interesse que emanava dos rubros, entretanto, notavelmente não alcançara os olhos avelã. Shizuo olhava-o sério, ambas as apertando com mais força sua cintura. Izaya, entretanto, não teve tempo de analisar a seriedade daqueles olhos antes que eles sumissem de seu campo de visão, substituídos pelo branco teto do apartamento do guarda-costas. Por um momento pensou que um acesso de fúria de Shizuo o fizera jogá-lo para longe, entretanto, ao correr os olhos a sua volta, empolgado com a nova brincadeira, não encontrou seu adversário favorito em nenhum lugar.
– Duas gavetas no armário. Isso é tudo. – a voz rouca soava baixa, diretamente em seu ouvido direito – Vamos fazer de novo.
Os olhos castanho-avermelhados abriam-se surpresos enquanto o informante notava que Shizuo não o lançara para longe. Na verdade, isso não se aproximava sequer um milímetro da verdade. “Como se não fosse nada!”, um sorriso resignado ocupou seus lábios ao notar que Shizuo virara-o de costas para si, deitando-o contra seu peito. As mãos que antes pousavam em suas costas agora juntas sobre sua barriga.
– Nem fodendo, Shizu-chan. Eu já descobri tudo o que queria! – seu tom debochado e provocador, entretanto, sumiria em um segundo, levando consigo o olhar satisfeito e vencedor. –Há! – foi o som que substituiu a voz sarcástica, ecoando alto pelo quarto, um som que se repetiria infinitas vezes naquela manhã e outras dezenas de vezes naquela tarde, em outro apartamento, com outras testemunhas além do surpreso e confuso Heiwajima Shizuo. Mas esta é outra história, uma já conhecida.
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