Depois de um sonho

23 Epílogo – Quando os olhos se abrem


Epílogo – Quando os olhos se abrem

Um agudo choque elétrico atingia seu corpo a cada vez que seus pés tocavam o chão irregular escondido sob a fria noite fracamente iluminada por escassos postes de luz. Ele sentia-se vivo, ou, ao menos, era este o sentimento que impunha a ele a adrenalina que pulsava ininterruptamente em suas têmporas. Enlouquecido como se o mundo corresse através dele, como se fosse ele mesmo, e não as ruas, o caminho percorrido em frenesi. Incapaz de lidar com as batidas fortes em seu peito, separou os lábios e gritou. Alta e limpa sua voz cruzou as ruas vazias de Ikebukuro, ganhando apenas ecos como resposta. Num primeiro momento, ao menos. Não demorou para que outra voz cortasse o vento e atingisse seus ouvidos. Eram gargalhadas. Tão altas quanto seu próprio grito, igualmente limpas e dignas de ecos.

Com um riso contido respondeu ao estímulo, bem baixinho, apenas um rosnar em sua garganta.

Era uma perseguição. E ele, verdadeiramente, a adorava. Tudo sobre ela.

O som de seus passos no cimento resistente, o barulho do vento em seus ouvidos, a sensação do metal frio contra seus dedos, o suor em seus cabelos, os movimentos a aquecerem cada célula de seu corpo, a mente vazia, os instintos atentos, a sensação de aproximação de sua presa. Apreciava cada instante daquele momento, mesmo que o negasse até a si mesmo.

O êxtase que o tomava fazia-o, assim, cego a tudo que não fosse o som de seus passos e a respiração pesada de sua caça. Entretanto, cumpria seu empolgante papel com determinação, enfurecendo-se a cada vez que uma teimosa lâmina o atingia, mesmo que não trouxesse consigo a dor. E então aumentava seu ritmo, diminuía a distância, ouvindo com contraditória satisfação o riso divertido de seu alvo, rindo baixinho em eco a ele. Apenas para si, apenas para que comprovasse a si mesmo que estava ali, que aqueles passos a ecoarem eram seus, que os cabelos molhados em suor movendo-se ao vento eram seus, que o riso de seu pior inimigo era seu.

Entre todos os possíveis no mundo, apenas um acontecimento seria capaz de lhe fazer mais feliz do que a intensa perseguição: o fim dela. O glorioso momento no qual fechava com força os dedos no capuz da jaqueta negra, sentindo as plumas brancas resvalarem suavemente em sua pele. Aquele momento mereceria constar no dicionário como definição do verbete “satisfação”. Ou, ao menos, como sua primeira entrada. A segunda certamente seria: “ato de apertar com força seu punho e afundá-lo no rosto de seu pior inimigo”. Exatamente assim, com palavras demais, já que, afinal, não é fácil definir com poucas delas um conceito tão abstrato. E então, como se contasse uma história, a definição continuaria com a descrição da dor nos nós dos dedos causada pelo impacto contra os ossos do queixo, passando brevemente pelo cheiro de sangue e pelo som engasgado que escapava dos lábios atingidos.

Mas, então, inesperadamente, tudo a seu redor sumiu e ele viu a si mesmo sentado em um quarto escuro com um pesado livro sob suas pernas dobradas. Ainda podia sentir a presença de sua presa ali, assim como podia sentir o cheiro de seu sangue. Mas tudo que via, apesar da forte presença do outro, era o livro em seu colo e seus dedos sobre a palavra “satisfação”.

Ainda olhava ao redor procurando o homem que sabia sangrar quando sentiu, com surpresa, seus dedos escorregarem pela página lisa. Apertou os olhos lutando contra a escuridão e leu o verbete parcialmente escondido sob seu indicador direito: “saudade”. Tão inesperada quanto o movimento de seus dedos, ouviu sua voz libertar-se para ler em voz alta a palavra na página amarelada, que, como se convocada, amarrou-lhe o peito, gravando cada uma de suas letras como se a ferro quente. Com a dor no peito como fundo, agora o cheiro de sangue nauseia-o. Desesperado, folheou o livro em seu colo, buscando qualquer palavra que dissipasse a dor e trouxesse de volta a satisfação, varrendo para longe o cheiro de sangue.

Em sua procura, deparou-se com o verbete “memória”. E então, como se soubessem o percurso exato a ser seguido, seus dedos correram as folhas, construindo seu próprio conjunto de palavras.

Percorreu aflitivamente os verbetes “pesadelo”, “reação”, “ataque”, “riso”, “mentira”, “promessa”, numa crescente e desordenada procura na qual cada verbete lido em voz alta levava consigo a agonia que pesava-lhe o peito. “Contrapartida”, “ligação”, rolava as páginas rapidamente em seus dedos, ávido pela próxima palavra marcada em negro nas folhas desgastadas. “Encontro”, “correspondência”, “aproximação”, “beijo”, “ficar”. Por fim, correu com familiaridade os dedos pela página que iniciava a lista de verbetes de letra “a”.

Respirou fundo, aliviado, como se chegado de uma longa viagem, finalmente de volta ao lar, um lugar livre do cheiro de sangue e dor no peito... Entretanto, perturbando sua sensação de conforto, sentia-se progressivamente puxado para longe... Cada vez mais longe...

O que quer que fosse que o puxava, ainda que incômodo, trazia-lhe a mesma sensação de familiaridade quanto a palavra que agora buscava com crescente afinco, correndo rapidamente os olhos pelas páginas amareladas... Mas, desrespeitando sua necessidade de encontrar a palavra correta, a sensação familiar e incômoda intensificava-se, pairando pesadamente em seu peito, arrastando-o para longe do livro, na exata direção oposta...

Abriu os olhos, surpreso, e encarou o teto excessivamente branco de seu apartamento. Gotículas de suor que se acumulavam em sua testa eram toda a prova que precisava para saber que estivera correndo em seus sonhos. Não que ele precisasse de provas, não quando seu coração batia descompassado em seu peito.

Fechou novamente os olhos, permitindo-se respirar fundo. E, ao fazê-lo, tudo o invadiu repentinamente, imperdoável como uma avalanche: o cheiro e o peso em seu peito.

Inspirou fundo uma segunda vez, para logo em seguida soltar o ar preso nos pulmões num leve suspiro, sentindo o peso em seu peito agitar-se suavemente. Então, ainda que não precisasse fazê-lo, olhou de relance para baixo, encontrando ali um mar de revoltosos cabelos negros. Sorrindo sutilmente, voltou a fechar os olhos, certo de que dormiria um sono sem sonhos, mas voltou a abri-los quando o peso em seu peito mexeu-se preguiçosamente. Desta vez, ao olhar para baixo encontrou um par de curiosos olhos com peculiares tons rubros a encará-lo.

– Seu coração está batendo rápido. – os olhos sorriam-lhe, e, inevitavelmente, um imperceptível leve sorriso também ocupou os seus, castanhos-avelã – Estava sonhando, Shizu-chan? – o sorriso alcançou os lábios finos, maliciosamente – Estava sonhando comigo?

Encarou-o longamente. Poderia contar-lhe o sonho, mesmo que relutantemente. E o faria se pudesse. Mas, ao forçar sua memória, tudo o que podia encontrar eram enormes olhos castanho-avermelhados olhando-o expectantes. Piscou longamente, respirando fundo e deixando mais uma vez o cheiro de Izaya invadi-lo, varrendo para longe qualquer resquício de seu sonho.

Movendo-se lentamente, enlaçou com ambos os braços o homem deitado sobre seu peito, apertando-o levemente contra si antes de soltá-lo e descansar possessivamente uma mão em suas costas, outra em seus cabelos negros.

Respirou fundo pela quarta vez naquela noite.

Não se importava por não conseguir lembrar-se do sonho. Sentia que, qualquer que fosse seu conteúdo, não importava. Não mais.

Acarinhou bruscamente os fios entre seus dedos, lançando alguns deles para frente do rosto de Izaya, ouvindo um muxoxo irritado com resposta e retribuindo com um riso contido, baixinho, apenas para si mesmo.

– Cala a boca, pulga. Só volte a dormir.



****

Não existe amor incondicional, existe amor que aceita condições. Mesmo as absurdas.

“Ficar”. No início, verdadeiramente, tudo o que significava a palavra ao deixar os lábios de Orihara Izaya e Heiwajima Shizuo era “eu não vou embora agora”.

Estavam enganados. Ambos. Terrivelmente enganados.

Não que fosse culpa deles, nem de um nem de outro. O problema estava além do poder dos dois. Era um problema profundamente semântico. E assim, quando pensavam que escapavam ao dizer “não vou embora agora” eram na verdade pegos na rede de significados que um termo complexo como “agora” trazia em seu cerne.

Não era um problema deles. Mas nenhum deles tentou evita-lo, também, nem o homem mais forte nem o homem mais informado. Não que eles pudessem lutar contra, não quando a palavra escolhida foi justamente um advérbio marca do presente. O problema era todo culpa do advérbio e do tempo que o marcava.

Porque, ainda que eles não percebessem ao usarem-no como fuga a uma resposta conclusiva, o presente é um tempo com uma força incrível. Ele crava-se na realidade com unhas e dentes, impondo-se como o único tempo que verdadeiramente existe e fazendo com que qualquer palavra que o acompanhe seja, por princípio, irremediavelmente renovável. O “agora” escolhido por Shizuo e Izaya para explicar o tempo que ficariam provou com todo empenho a força semântica que carregava, reiniciam-se a todo instante, resistindo às brigas, impondo-se nos dias que se seguiram, invadindo intruso a vida de ambos.

Foi este complexo problema de definição que os encurralou.

Antes mesmo que pudesse lutar contra, Izaya acordava todos os dias com o cheiro de leite quente cercando-o confortavelmente. Quando deu por si, Shizuo acordava todos os dias com o cheiro de Izaya invadindo cada uma das células de seu corpo. E, antes mesmo que pudessem perceber, ambos mal podiam lembrar-se quando as manhãs tornaram-se preenchidas pela presença do outro.

“Quando alguém que conhece o seu pior te ama...”, foram as palavras ditas numa tarde longínqua de dias turbulentos. Se pudesse dar-se conta disso, Izaya as perceberia como prenúncio da relação que mantinha atualmente com seu pior inimigo.

A questão entre aqueles dois perigosos homem era exatamente a anunciada: durante anos, tudo o que ofereciam ao outro era o pior de si. Apenas o pior. Era uma ironia da qual somente a vida é capaz como agora, portanto, tudo o que tinham a oferecer, conhecer e aprender eram qualidades.

Mesmo o mais manipulador informante teria que resignar-se diante do inexorável sarcasmo que era a maneira como seus passos e os do homem mais forte de Ikebukuro pareciam caminhar em direção contrária a prescrita para os homens e seus relacionamentos. Mas não haveria como ser diferente, não quando os envolvidos eram Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. Independente, porém, do fator de surpresa ou de congruência, a verdade era que os defeitos sempre foram plenamente exibidos, sem segredos nem mistérios, puros a quem quer que os quisesse ver, o que havia de novo a ser descoberto era o que os gritantes defeitos escondiam.

Então, Shizuo, que já conhecia a péssima personalidade de Orihara Izaya, que já fora arrastado para incontáveis brigas, que já fora preso por seu capricho, que sabia de seu problema com lâminas, agora conhecia um Izaya que implicava com comida pronta e que gostava do cheiro de sabonete que emanava do banheiro após o banho, conhecia o Izaya que achava que devia ser proibido chover as quartas-feiras, conhecia o Izaya que odiava coisas doces mas gostava do sabor deixado por elas no beijo, conhecia o Izaya que arrepiava-se quando tinha as costas beijadas e que contraia-se em cócegas.

E Izaya, que já conhecia a força descomunal de Heiwajima Shizuo, que conhecia a impaciência e descontrole, que conhecia as respostas raivosas e monossilábicas, que conhecia o problema com placas de transito e máquinas de venda automática, agora conhecia um Shizuo que tinha preguiça de cozinhar mas adorava doces caseiros, conhecia o Shizuo que, junto a seu leite matinal, aquecia um pouco de água para seu chá sem que precisasse pedir por isso, conhecia o Shizuo que assoviava no banho e que às vezes o acarinha quando distraído, conhecia o Shizuo que tinha a parte interna das coxas sensíveis e que ria de piadas estúpidas.

Izaya odiava o cigarro.

Shizuo odiava o monte de papéis na mesa.

Izaya odiava a geladeira lotada de coisas doces.

Shizuo odiava a língua afiada e respostas atrevidas.

Izaya odiava os móveis que apareciam quebrados.

Shizuo odiava o celular tocando de madrugada.

Izaya odiava a falta de paciência.

Shizuo odiava a gargalhada sarcástica.

Izaya odiava como Shizuo gritava seu nome pela cidade.

Shizuo odiava como Izaya não hesitava em sacar seu canivete.

Ambos silenciosamente concordavam que aqueles pequenos ódios não eram nada perto do que já odiavam um no outro.

Ambos concordavam que, perto de “já te espanquei até quase te matar” e “já sequestrei seu irmão mais novo”, cigarros e respostas atravessadas não eram nada demais.

E então, por mais incrível que parecesse, antes que se dessem conta, o “agora” assumia com toda a força a complexidade semântica a que tinha direito.

Antes que pudessem perceber, junto às ameaças de morte, os beijos matinais também faziam parte da rotina. E tão comum quanto um “cala a boca, maldito” era sentir o corpo do outro colado ao seu durante a madrugada. Tão normal quanto desviar de lâminas e máquinas de venda-automática era sentarem-se juntos na mesa de jantar, na qual, junto aos usuais insultos e provocações, pairava às vezes um confortável silêncio, ainda que raro.

Não existe amor incondicional, existe amor que aceita condições. Mesmo as mais absurdas. E, com um acordo silencioso — que não precisava de palavras ou que não as encontrava satisfatoriamente — Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya aceitaram as condições. Mesmo que, verdadeiramente, elas fossem absurdas.

Notas finais
Um grande olá pra todo mundo! Enorme, daqueles acompanhados por um sorriso de mesma intensidade! E enorme assim porque será o último. É aqui que me despeço, pessoal. O epílogo trazia as últimas palavras que tinha para escrever pra vocês sobre "Depois de um sonho" e, mesmo com dor no coração em me despedir desta minha primeira história e de todos os leitores absolutamente fofos que me acompanharam por ela, fico feliz em concluir. =D Como não poderia deixar de ser, agradeço de todo coração todo mundo que me acompanhou por estes quase dez meses. O incentivo de vocês foi incrível, obrigada por tudo, espero que tenham se divertido tanto quanto eu me diverti. Um agradecimento especial pra Black-rose-mami pela recomendação incrível! *.* É uma honra sem tamanho pra mim ser reconhecida por você! Você é um amor! s2 E, enfim, isto é tudo. Espero que tenham gostado! *.* Obrigada, Yuki
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!