Depois de Amanhã

1 O Abrigo para Jovens do Zumbi


Notas iniciais
Surge André.

Os últimos abrigos em que estive foram horríveis, mas esse tinha algo que me intrigava. Normalmente eu era isolado das outras crianças por "necessidades especiais" ou "transtornos psicológicos na presença de desconhecidos", — não que eu realmente tivesse necessidades especiais ou algum tipo de transtorno, é que as pessoas me irritavam demais — mas aqui eu convivia com todos normalmente. E eles nem me irritavam!

Vivi a vida toda mudando de abrigo, já que nenhum tinha "infra-estrutura suficiente para as necessidades" que eu, supostamente, tinha e essa rotina já me era bem conhecida. Como passei 16 anos sendo transferido, me acostumei a não conversar com ninguém; desse modo eu não me apegava às pessoas – nem me irritava com elas — e não sofria com a separação.

Já fazia cerca de dois meses que eu estava no Abrigo para Jovens do Zumbi — deixando bem claro que Zumbi é o nome do bairro onde ele se localiza — e não havia nenhum sinal de que eu iria ser transferido, de novo. Isso era tediante. No Zumbi, todos pareciam respeitar a minha necessidade de me manter isolado e isso não tinha graça! Com quem eu iria brigar? Com quem eu iria implicar? CADÊ A EMOÇÃO? Mas foi notando esse respeito e conformação com a minha posição de isolado do grupo que eu notei que ninguém realmente tinha tentado falar comigo. Aliás, eles paravam de falar quando eu me aproximava.

Certa noite acordei pela madrugada com fome. Acendi a luz do meu quarto, que era pequeno, mas pelo menos era só meu, e resolvi comer algumas bolachas que eu tinha sorrateiramente surrupiado da despensa quando ninguém olhava. Enquanto comia, percebi que tinham pessoas conversando no salão de visitas. Parei de mastigar para prestar atenção na conversa, mas não consegui reconhecer as vozes, muito menos o que falavam. Saí do meu quarto e segui pelo corredor, na tentativa de me aproximar e descobrir quem eram e sobre o que falavam, mas novamente não consegui. As vozes pareciam se distanciar à medida que me aproximava e eu estava ficando assustado, resolvi voltar para meu quarto quando dou de cara com a Dona Linda, a única pessoa que parecia ter coragem de falar comigo naquele lugar:

- O que o traz a esse passeio noturno, Zé? — perguntou ela no seu habitual tom calmo e maternal.

- Ouvi vozes. — respondi seca e rapidamente.

- E essas vozes pediram para você vagar pelo escuro? — ela me irritava com sua calma eterna.

- Claro que não. — respondi secamente, mas dessa vez as palavras saíram mais lentas.

- E então por que as vozes te fizeram sair do quarto a esta hora da madrugada? — ela me irritava, não só pela calma, mas pela intrigante maneira como fazia eu me sentir um doido varrido.

- Eu queria saber quem estava conversando... — fiz uma longa pausa — A esta hora da madrugada — retomei com a raiva me subindo a cabeça. Odeio dar satisfações!

- Conseguiu o que queria? — e novamente ela fez com que eu me sentisse um doido varrido. Ela estava insinuando que eu ouço vozes e saio por aí vagando sem rumo?

- Sim, boa noite. — respondi rispidamente e saí andando, calmamente, como se nada tivesse acontecido, em direção ao meu quarto.

Deitado na minha cama fiquei me questionando sobre o que estava acontecendo. Ouço vozes mas não as compreendo, me aproximo a medida que elas se distanciam e, de repente, surge Dona Linda fazendo eu me sentir um maluco. Será que eu realmente estava ficando maluco? Ou pior: será que eu sempre tive "necessidades especiais" e "transtornos psicológicos" mas nunca tinha notado? Adormeci após horas analisando mentalmente toda a minha vida em busca de traços da minha insanidade que, aparentemente, eu estava descobrindo agora.

No dia seguinte acordei extremamente disposto, e nem estava me lembrando do ocorrido da noite anterior. Levantei, troquei de roupa e rapidamente já estava sentado na minha habitual mesinha, isolada no canto daquela ampla cozinha, esperando que Dona Linda me trouxesse meu café-da-manhã.

Quando ela apareceu, estava vestida em uma calça verde engraçada e uma blusa cheia de flores. Dona Linda, por mais que tivesse um coração jovem, era velha e tinha muitas rugas. Seu cabelo branco era grande e caía-lhe sobre os ombros como a neve cai sobre uma montanha. Ela sorriu para mim me entregando uma bandeja com muitas frutas, bolachas, pão e suco e falou carinhosamente:

- Bom apetite!

Enquanto comia eu tinha o hábito de observar o que estava acontecendo ao meu redor, e notei um grupo de jovens sentados do outro lado da cozinha. Nunca os tinha visto lá e logo agucei os ouvidos para escutar a conversa deles, mas não consegui.

O grupo era composto por dois meninos e uma menina, ambos com cabelos muito pretos e lisos. Pareciam irmãos. Logo chamei Dona Linda, que se apressou em vir ao meu encontro:

- Quem são eles? — e apontei para o grupo.

- Quem? Ah! São novos aqui no Zumbi. Eles foram encaminhados para cá pelos mesmos motivos que você: "transtornos psicológicos na presença de estranhos" e "necessidades especiais". Mas sei que isso é balela, afinal, você se dá muito bem com todos aqui. — ela sorriu para mim.

- Eles têm nomes? — perguntei ignorando sua gentileza em não jogar na minha cara que sou um estranho problemático.

- Claro que têm. Veja, aquele — e apontou para o mais velho do grupo, um garoto cujos cabelos negros eram compridos e estavam presos num rabo de cavalo frouxo — é o Lucas, ele tem 17 anos e ano que vem já terá que nos deixar. Aquele outro — e apontou para o outro garoto, que aparentava ser mais novo. Seus cabelos negros eram curtos e estavam arrepiados como se ele nunca os tivesse penteado antes — é o André. Tem quase a mesma idade que você! Por que não vai lá conversar com ele? — e novamente ela sorriu para mim, mas respondi rapidamente:

- Não. Quem é a garota?

- Ah sim... Aquela é Laura. Ela tem 13 anos. Bonita não acha? — seu sorriso gentil continuava lá.

- Não reparei na sua beleza. Por que é que eles tiveram que vir justamente para cá? O abrigo já está cheio. — eu realmente estava irritado com a presença deles, mas não sabia direito por quê.

- Nosso abrigo foi indicado para jovens como eles, e como você. Mas essas pessoas do conselho tutelar mal sabem que vocês não tem absolutamente nada de anormal. Vocês são especiais, isso sim! — aquele sorriso estava me irritando mais ainda.

- Especial? — eu estava tentando não gritar — É assim que você chama os malucos desse lugar? — lembrei do que aconteceu na noite anterior. — É assim que chama quem ouve vozes? — meu tom de voz estava aumentando. — É assim que chama os... — parei para refletir e prossegui rapidamente — MALUCOS? — a essa altura eu já estava gritando. Levantei bruscamente e sai andando com passos firmes. Passei pelo grupo novato e os encarei, mas eles sequer dirigiram o olhar na minha direção.

Fiquei quase a tarde toda no meu quarto lendo. Ler... Uma coisa que sempre me acalmou! Mas de repente fui tomado por um pensamento que resolveu me acompanhar durante o resto da tarde que me sobrava: quem era aquele tal de André? Eu não parava de pensar nele, ele não saia da minha mente! Isso me irritava. Estava a ponto de ir tirar satisfações, mas percebi que seria loucura demais brigar com alguém só por que ela te intriga.

No meio de um dos meus devaneios a respeito de André, alguém bate na porta do meu quarto:

- Estou ocupado.

- Ah, me desculpe. Volto mais tarde então. — era uma voz masculina que eu não reconheci. Resolvi voltar atrás:

- Espere! — ouvi os passos que começaram a se distanciar pararem. — Volte. — os passos se aproximaram novamente.

Levantei-me, fechei meu livro e o coloquei debaixo do meu travesseiro. Fui até a porta e a abri cuidadosamente.

- Se eu estiver te incomodando, eu volto outra hora. Só queria me apresentar. — minha mente travou por um momento. Eu não entendi o que estava acontecendo por alguns segundos até que tomei consciência do meu corpo novamente.

Parado ali, na minha frente, estava ele. André. Seus cabelos arrepiados brilhavam e ele vestia uma calça jeans rasgada e uma jaqueta de couro. Olhava-me fixamente nos olhos e parecia muito interessado na minha resposta. Só aí notei que eu realmente deveria responder algo:

- Hmm... Ah, é, não. – minha mente estava lerda. Não estava habituado com alguém, além de Dona Linda, que viesse falar comigo. – Não está incomodando não.

- Que bom! – ele respondeu animado e logo dirigiu o olhar para dentro do meu quarto. Achei que deveria convidá-lo para entrar.

- Está interessado em, quer dizer... Hmm... – eu me sentia idiota. Ele morava comigo e eu estava prestes a convidá-lo para entrar, como se ele acabasse de tocar a campainha de minha casa e eu fosse servir-lhe um café com bolachas. – Quer entrar aqui? Talvez seja melhor para, tipo... – ele me interrompeu com sua resposta animada, novamente:

- Claro! Ficar de pé no corredor não é muito confortável. – e riu. Seus dentes eram incrivelmente brancos e bem alinhados.

Abri caminho para que ele pudesse entrar. Ele entrou observando os mínimos detalhes da decoração que eu mesmo escolhi: observou atentamente os pôsteres de bandas na parede, olhou demoradamente para os CDs espalhados em cima da escrivaninha como se procurasse algum em especial, olhou rapidamente para meu guarda-roupa velho e para a poltrona que tinha ao seu lado. De repente, como se ele estivesse deslizado até ela, sentou-se na minha cama e ficou me encarando sorridente:

- Não vai se sentar também? Ou você discorda de mim e acha que ficar em pé no corredor é confortável? – e riu novamente.

Só aí notei que eu tinha saído do quarto para observá-lo. Me senti idiota e logo sentei na poltrona fechando a porta atrás de mim. Ele não tirou os olhos de mim um só segundo e continuava a sorrir. Sorriso o qual me lembrava muito o de Dona Linda, quando tentava ser gentil.

- Seu nome é José, correto? – ele perguntou repentinamente, rompendo o silêncio.

- Como sabe? – aquilo realmente me impressionou. Como ele sabia meu nome? Mas logo lembrei que eu também sabia o dele.

- Perguntei para Dona Linda. Senhora muito simpática, por sinal. – ele me encarava sorridente.

- Ah... Claro. Muito simpática. É. Hmm... – eu não sabia o que falar. Não gostava de conversas, pois todos só sabiam perguntar sobre minha vida e me deixar irritado.

- Ela gosta muito de você.

- Sim.

- Antes que eu me esqueça, meu nome é André. – eu tinha desviado o olhar para uma pilha de livros ao lado da cama, mas ele parecia implorar para que eu olhasse para ele.

- Eu sei. – respondi secamente e logo me arrependi de minhas palavras. Eu não queria tratá-lo mal, ele estava sendo legal comigo.

- Dona Linda te falou, é? – ele me respondeu em meio a uma risadinha e agradeci por ele não ter se sentido ofendido.

- Ah, falou. Falou sim. Hoje de manhã, na hora do café.

- Eu te vi. Você brigou com ela por quê?

Fiquei irritado com a pergunta. Odeio perguntas pessoais. Mas não me permiti ser sem educação com alguém que se mostrou tão simpático até o momento.

- Nada de importante.

- Ah. Espero que façam as pazes logo, ela é uma pessoa realmente boa. Rara.

- Sim.

O assunto morreu ali.

Ele resolveu deitar na minha cama e fiquei-o observando. Era estranho ter um dos jovens do abrigo no meu quarto, conversando comigo e, ainda por cima, deitado na minha cama, à vontade. Logo ele se levantou e disse:

- Preciso ir. Minha irmã não gosta de pessoas desconhecidas perto dela. Daqui a pouco só ouviremos os gritos dela, e teremos que ser transferidos. – ele estava olhando para algum ponto fixo no chão.

- Tchau. – novamente me arrependi de minhas palavras. Eu praticamente estava tocando o garoto! Como eu sou idiota.

- Tchau! Até o jantar. – ele pareceu não se importar com minhas grosserias e saiu sorridente.

Fiquei pensativo. Agora sim aquele garoto me intrigava. Deitei em minha cama e fiquei pensando nessa conversa, que não durou mais que 30 minutos.

Adormeci ainda refletindo sobre o acontecimento do dia. Ultimamente essas coisas estranhas têm acontecido com frequência.

Na realidade nem são tão estranhas, talvez seja só a minha mente que as deixa assim.