Depois de Amanhã

3 Assuntos de homem


Notas iniciais
Minha memória começa a falhar.

O dia começou com o cantarolar de Dona Linda pelo corredor. Aos domingos ela passava recolhendo a roupa suja dos jovens e fazia isso com uma animação surpreendente.

Passei o dia inteiro dentro do meu quarto, como de costume, só saindo para comer.

Durante a noite, após todos já terem ido dormir, ouvi alguns cochichos e logo em seguida umas batidas bem leves na porta do meu quarto. Fiquei com medo. Mais batidas. Esperei. Mais algumas batidas e um cochicho:

- Ei Zé, abra essa porta logo.

A voz me era familiar.

- Quem é?

- Somos nós Zé, abra.

Me levantei, tirei a chave e olhei pelo buraco da fechadura. A única coisa que vi foi uma camiseta velha e desbotada de alguma banda e um colete jeans surrado por cima. Abri a porta.

- Finalmente cara! Você estava dormindo?

Lá estava André. Seus cabelos pareciam mais rebeldes que o normal. Ao lado dele estava Pedro, me encarando com seu olhar hipnotizante. Senti vontade de fazer uma reverência, mas me contive. Eles entraram sem que eu convidasse e, de repente, vi Pedro descer de seu pedestal e se mostrar extremamente sociável e extrovertido.

- E ai Zé! – Pedro me encarou com uma expressão amiga no olhar e não consegui me conter.

- Nossa, por que nunca nos falamos antes? – me senti idiota. Parecia que já éramos super amigos.

- Mas e então Zé, não está afim de saber por que é que viemos te fazer esta visitinha? – André tinha um sorriso malicioso nos lábios.

- Então, por que é que vieram me fazer esta visitinha?

André me olhou nos olhos e agora, além do sorriso, seu olhar estava malicioso.

- Assuntos de homem. – quem falou foi Pedro, e ele parecia estar animado.

- Assuntos de homem? – eu não entendi aonde queriam chegar com isso.

- Sim Zé, assuntos de homem. – André sorria, olhava e falava maliciosamente e isto estava me assustando.

- Dona Linda me contou que você, logo quando chegou aqui, teve um inicio de amizade com a Raquel. Sabe a Raquel, loira?

Raquel era a garota loira que estava exibindo seu estojo de maquiagem para as amigas na noite anterior. Ela era baixa e magra, tinha o rosto fino e delicado. Seus cabelos enrolados e volumosos caíam graciosamente sobre seus ombros lhe dando um ar angelical. Parecia uma boneca.

Logo que cheguei ao abrigo ela veio falar comigo. Tentou ser simpática, mas só conseguiu me irritar. Ela até começava a falar, mas parava subitamente como se tivesse acabado de deixar escapar um segredo que não podia ser revelado.

- Sei, o que tem ela?

- Ela andou falando para o nosso amigo André aqui que, bem... – Pedro parou e ficou me encarando com o mesmo sorriso malicioso de André.

- O que ela disse ao André? Caramba.

- Ela te quer, caro amigo.

Eles desataram a rir. Uma gargalhada que deve ter acordado todos no corredor.

- Me quer para quê? – eu não estava entendendo. Não mesmo.

André me olhou com cara de espanto e Pedro começou:

- Você é um homem e tem 16 anos. Ela é uma menina bonita de 15. Precisa de mais? – Pedro falou com uma convicção tão grande que, por um momento, eu pensei ter entendido.

- Hmmm... Acho que não.

- Pois bem, vá lá agora.

- Para quê?

- Para beijá-la, seu panaca.

- Ou sabe-se lá mais o que irá rolar, né? – André me lançou seu olhar malicioso e ambos riram.

- Mas, beijá-la por quê? – eu fiquei com vergonha e baixei o olhar. A calça de André tinha rasgos nos dois joelhos e estava meio desbotada em alguns pontos.

- Oras, vá se ferrar Zé! – Pedro levantou, me segurou pelo braço e começou a me puxar. Fui andando com ele pelo corredor, subi as escadas e logo me vi na frente do quarto de Raquel. Ele bateu e foi embora rápido.

Fiquei parado na frente da porta até que ela se abriu revelando Raquel, com seu pijama cheio de bichinhos, me observando. Quando me reconheceu, sorriu e me puxou para dentro.

Aquela noite foi confusa, não me lembro exatamente tudo que aconteceu. Eu entrei em um estado de torpor, ou estava bêbado? Não sei. Mas aquela noite será para sempre uma interrogação em minha mente. As únicas coisas de que me lembro claramente é de Raquel me encostando na parede e do momento em que ela começou a tirar a roupa. Depois disso, só lembro de acordar em meu quarto, no meio da madrugada, com Laura esmurrando a porta.

- Acorde Zé, acorde!

- Não. Vá embora menina.

- Não Zé, acorde. Vamos logo.

- Não.

- Por favor Zé, abra a porta.

Laura conseguia ser a pessoa mais irritante daquele lugar. Me levantei e abri a porta. Ela arregalou os olhos para mim, e ficou me encarando. Engoliu em seco, tentou falar algo mas saiu correndo. Que menina maluca.

Era segunda-feira, acordei com Dona Linda me chamando para ir à escola.

Levantei-me, troquei de roupa e fui tomar meu café. Logo vi André, Pedro e Lucas sentados na minha mesa. Me irritei.

Sentei com eles. André e Pedro trocaram olhares e começaram a rir.

- E aí, garanhão? – Pedro me olhava como se esperasse que eu contasse algo.

- Ah, oi.

- E então?

- Então o que?

- Ontem, ué.

- O que tem ontem?

- Para de se fazer de idiota, o que rolou?

- Não lembro.

- Como não? Claro que lembra. Desembucha logo! – Pedro estava realmente ansioso para ouvir o que eu, supostamente, tinha para contar e André compartilhava a mesma ansiedade só com o olhar.

- Eu não me lembro direito. Sei que ela me puxou para o quarto dela e acho que nos beijamos. Ela tirou a roupa e... E eu não lembro mais. – me sentia idiota, mas era verdade.

- Não lembra? Ela era tão gostosa assim que você até ficou atordoado? – André ria, por mais que eu não visse graça.

- Oras Zé, vamos lá. Não precisa ter vergonha de nós, poxa. – Pedro me olhava de um jeito amigável.

- Acho que ele está com vergonha de mim, vou para lá. – Lucas falou e sua voz soou como um trovão na minha mente. Ele se levantou e saiu, caminhando lentamente, como se deslizasse.

- Agora conte tudo! – André parecia uma mãe repreendendo o filho por não contar como o vaso se quebrou misteriosamente quando ninguém olhava.

- Eu já falei que não lembro. – por mais que eles estivessem tentando ser legais comigo, eles começaram a me irritar.

- Impossível!

- Então vão para o inferno. Já falei que não lembro, caralho. – levantei e sai com passos firmes, sem olhar para ninguém.

O resto da semana passou rápido. Ir a escola era sinônimo de dormir o dia todo.

André e Pedro não apareceram mais no meu quarto, mas sempre que me viam, tentavam conversar comigo, sem nenhum êxito.

Laura continuou fazendo suas visitas durante a madrugada, mas, como sempre, não falava nada e só me encarava com medo. Um dia ela deixou um papel embaixo da porta onde estava escrito “Preciso falar com você, só não sei como. Me ajude, por favor” . Depois disso, ela não apareceu mais. Que se foda então, pede ajuda e some! Não vou ficar correndo atrás de criança maluca.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.