Júlia

Os dias em lavras, são ensolaradas, mas sem te matar de calor. Eu podia caminhar calmamente da minha nova casa para a universidade. Minhas amigas sempre estavam comigo nos almoços,eu tinha minhas aulas, consegui estabelecer uma rotina já na primeira semana. Tudo era fácil e agradável, mas também tinha sua parte difícil. Todas as noites,eu sonhava com Laura, ela tentava me sufocar com o travesseiro,eu me sentia sem ar, e tudo escurecia. Eu acordava aos berros,chorando.

Eu me sentia leve, mas não estava completamente feliz. As marcas que foram deixadas em mim, me transformaram. Talvez eu nunca fosse ser plenamente feliz de novo. Talvez eu precisasse de ajuda especializada,porém não tinha forças para buscá-la. Eu teria de reviver tudo aquilo que eu só queria esquecer. Numa certa tarde, eu estava sentada perto de uma árvore, lendo Orgulho e preconceito, um dos clássicos que eu mais amava. Éster passava por ali, e veio em minha direção. Não precisei convidá-la para sentar, ela era atrevida o suficiente para arrancar o livro das minhas mãos e me tirar dos meus devaneios.

—_ Oi. Você está aqui Júlia! Mas eu sinto que você está tão distante. Eu vejo tristeza nos seus olhos, e isso dói dentro de mim. Mas você não fala comigo. E eu preciso que você fale, porque só assim eu posso te ajudar. Eu sei que você passou por muita coisa, e não quer reviver isso, porque eu te conheço. Eu sei que quando você deixa algo pra trás, essa coisa deixa de existir na sua vida. Mas claramente, eu vejo que desta vez, não foi isso que aconteceu.

Por um momento eu consegui segurar as lágrimas. Éster era como uma irmã pra mim, me conhecia as vezes melhor que eu mesma. Mas as palavras dela, foram como um chicote, e não suportei segurar o choro por muito tempo.

—_ Eu sei. Eu não sei o que dizer. Preciso de ajuda, mas não sei onde encontrar sem ter que reviver todo esse pesadelo. Eu não consigo mais dormir em paz Éster. Eu tenho pesadelos terríveis com a Laura, quase todas as noites. Eu espero o momento que ela vai aparecer, e vai me matar ou pior, se é que existe algo pior que isso. Eu conheço ela, e sei que não pensei direito. Porque eu sei que vou pagar pelo que eu fiz. Estou com medo.

Minha amiga me olhava atentamente, e quando ela me abraçou senti que ela se conectava com minha dor, meus medos, minhas inseguranças. Ela sempre me trazia para a realidade, acho que isso fez com que virássemos amigas. Mesmo em nossas diferenças, podíamos entender uma a outra.

—_ Eu vou te levar em um lugar hoje a noite. Eu quero que você fique calma, e não pergunte o que é. Só... confie em mim.

E com essas palavras Éster se despediu de mim. Eu me sentia ansiosa, sabia que dela eu poderia esperar qualquer coisa, e isso não ajudava em nada. De alguém que se espera tudo, adivinhar o que estava por vir, era impossível.

O tempo não passava. Eu limpei a casa, me arrumei, lavei toda louça, estudei. E quando terminei tudo, ainda era fim de tarde.Me veio uma idéia maluca em mente. havia um tempo que eu queria uma cachorrinha,eu tinha uma paixão por shih tzus, desde os 18 anos. Então resolvi buscar um para comprar. Passei horas na internet. Achei a cachorrinha perfeita. Ela tinha uma cor muito diferente. Um marrom em tom de café, e estava em Varginha, a cidade onde minha irmã morava, então ela poderia ir vê-la e se tudo estivesse bem, trazê-la pra mim.Enquanto falava com minha irmã ao telefone, Éster chegou. Ela estava arrumada, com jeans rasgados e escuros, e uma blusa preta com símbolo do rolling stones. Por cima uma jaqueta preta de couro, com detalhes em vermelho. Seus cabelos negros estavam soltos, e combinavam com a composição das roupas.

—_ Uauu .Não sabia que estávamos indo pra alguma festa. -- Eu disse com desdém.

— Não estamos, na verdade você não está. Eu depois que te deixar em casa vou me encontrar com alguém. Vamos, eu não posso me atrasar.

Era uma casa humilde, as paredes não eram pintadas, se via os tijolos abaixo do reboque. As ruas eram de calçamento em pedra, e sinceramente não sei como Éster conseguiu subir metade daquele morro com saltos. Uma senhora com cara de uns 50 anos abriu a porta. Ela tinha uma cara muito amável, e doce. Foi muito educada. A casa era simples, tinha cheiro de desinfetante de eucalipto. A senhora em questão, foi me apresentada como dona Ana.Ela tinha um filho deficiente físico, e mental, Daniel, que era muito esperto, e adorava conversar. Eles me pareciam ter uma condição financeira um pouco complicada, mas me pareciam felizes e confortáveis. As pessoas muitas vezes julgam as condições financeiras do outro, mas eu nunca o fiz. O que me impressionava é que eles não escondiam as dificuldades, mas eram felizes mesmo assim. E me senti mal, por ter tudo e mesmo assim estar infeliz.

Dona Ana, era taróloga, e por isso Éster me trouxe. Eu sinceramente estava morta de medo do que ela me diria, e se soubesse que era onde minha amiga estava me trazendo,acho que realmente não teria vindo. O mais impressionante disso tudo, é que eu nunca imaginaria que aquela senhora negra, com cara meiga, e jeito de avó, seria taróloga. Parecia algo impossível para minha cabeça. Foi difícil aceitar a idéia. Mas no fim, já estava na chuva, eu teria que me molhar.

Entrei em um quarto que era muito colorido, ele tinha tecidos bordados com pedras, uma mesa ao centro do quarto com uma toalha branca, e uma caixinha que supus ter o baralho de tarot dentro. Eu não acreditava muito nessas coisas. Eu sempre fui espiritualista e acreditei em tudo, mas cartas me parece algo trivial, as pessoas usam isso para conseguir arrancar dinheiro das outras. Mas não Ana, ela não me cobrou nada. Me parecia que ela sentia vontade de me ajudar. Ou que aquilo que ela fazia, era algo que ela gostava.

Aos poucos fui sentindo confiança em Ana, ela me disse coisas coerentes. Ela me disse sobre minha relação com Laura.Sobre minha infância. E coisas que somente eu sabia. Eu estava impressionada. Mas ainda não via sentido para estar ali.Terminamos as cartas. Foi legal e sem sentido, mas foi uma boa distração. A senhora, ainda na mesa, segurou forte minhas mãos,e me olhou nos olhos,seu olhar parecia me atravessar, ela aprecia ver minha alma,e eu não conseguia deixar de encará-la também.

— Seu destino está aqui menina. A pessoa que você procura está aqui. E só você pode encontrá-la. Eu não posso te dizer quem é, nem quando vai acontecer. Mas está próximo. Preste atenção a sua volta. E quando você tiver dúvidas sobre o que acredita, então vai ter encontrado o que tanto deseja.

Owww, que medo. Eu não tinha reação. Estava assustada, e ao mesmo tempo eu não fazia ideia se aquilo era real ou não. Também não tinha certeza do que ela estava falando. Me despedi, e fui para casa. O caminho foi silencioso, Éster não disse nada, e eu não queria conversar.

Antes de entrar no meu apartamento, minha amiga me segurou pelo braço.

—_ Eu nunca vi minha avó falar assim Júlia. Eu sei que você não acredita nestas coisas, mas minha vó é muito boa no que faz. Isso também foi assustador para mim. Mas te levei lá porque você precisava de uma alegria. Não sabia que isso aconteceria. Mas não acho que minha avó esteja errada.

—_ Tudo bem Éster. Eu não estou brava com você. Só estou com muita coisa para assimilar agora. Acho que melhor conversarmos amanhã no almoço. Não se preocupe, eu estou bem.

Minha amiga me deixou entrar, e foi caminhando saltitante para seu encontro. Eu a admirava muito, ela era alto astral, festeira, e dificilmente estava deprimida. Eu queria ser um pouco mais como ela.

Os dias foram passando. De repente dias viraram meses. Por um tempo eu me esqueci completamente do que dona Ana havia falado. Nas vezes eu tentava interpretar o que ela falou, eu terminava xingando a velhinha baixinho. Era uma incógnita. Cheguei a pensar que era jogo para eu voltar lá e ela me arrancar dinheiro e que aquela carinha de senhora bondosa era teatro. Mas dentro de mim, eu sabia que tinha algo ali que eu estava perdendo, mas preferi ignorar.

Comecei a sair, estava sempre nas baladas com minhas amigas. Pouco a pouco os pesadelos foram diminuindo. Eu não ia para as festas querendo pegar ninguém, mas às vezes acontecia, e era um desastre. Eu havia perdido completamente o jeito com as mulheres. Eu não sabia o que dizer e nem sobre o que conversar.

Numa das festas conheci uma garota chamada Milena. Ela veio de mansinho falando comigo, e quando percebi já estava na minha casa. Eu tenho cara de santa, mas também não sou de ferro. O que ela tinha de linda, ela tinha de ruim de cama. O beijo dela era estranho, mas eu estava bêbada demais para interromper e mandar a garota ir embora. No outro dia, quando acordei, ela ainda estava lá. E agora, como vou lidar com isso?

Acordei a garota, e ela estava com um sorriso de "essa foi a melhor noite da minha vida", e eu estava com cara de pelo amor de Deus sai daqui. No fim das contas ela disse que me ligaria, e tudo que eu conseguia fazer era concordar com ela. Eu precisava aprender a dizer não, ou entraria numa furada após a outra.Eu precisava de um banho, precisava acordar desse sonho esquisito.

Quando sai do chuveiro, comecei a me observar no espelho,eu tinha marcas roxas e doloridas por todo meu corpo. Minhas pernas eram brancas demais, e agora parecia que tinham sido atacadas por um vampiro. Meu pescoço eu prefiro nem dizer. Pelo menos meu cabelo era comprido e poderia cobrir aqueles chupões. Mas o fato dele ser preto e azul sempre me fazia chamar muita atenção. Minhas olheiras estavam horríveis e meu olhos castanhos claros pareciam ressaltar isso ainda mais. Minha boca estava inchada, e apesar dos meus lábios serem finos e delicados, hoje eu me sentia a Angelina Jolie, depois de ser espancada em um dos seus filmes de ação, com a boca inchada e roxa.Depois de quilos de maquiagem, consegui sair de casa, eu tinha aula de Biologia geral.

Milena me perseguiu por semanas, e eu sempre com desculpas para não encontrá-la. Numa sexta feira a noite, eu estava em casa com meu amigo de infância Victor, e ele saia do banho enquanto eu me arrumava no quarto. Ele esperava pelo crush, íamos a uma festa gay numa república perto aqui de casa. A campainha tocou, meu amigo saiu do banho correndo, com cabelo molhado, e toalha na cintura. Já sabia que eu teria que sair de fininho, pois ele estava afim de seduzir o boy. De repente escuto berros, e Milena saiu entrando na minha casa, me acusando de ser bissexual e tê-la enganado. Essa era minha deixa. Thanks God, por me trazer o Victor. Cheguei perto do meu amigo, o abracei.

—_ É claro que eu sou bi, você nunca me perguntou isso Milena. -- Eu esperava que o meu melhor amigo entrasse na minha, e ele entrou. __ O victor é um peguete fixo que eu tenho, todo mundo sabe disso.

—_ Racha, ela gosta mais de homem. Eu não te julgo, a Júlia é gostosa e convence a gente, mas ela precisa de uma coisa que você não tem entre as pernas!Um pinto.

Parecia que os olhos da garota iam pular para fora da cara. Ela gritou e saiu batendo a porta.

—_ Que alivío! Obrigada peguete fixo! — Falei pro meu amigo rindo.

Nos arrumamos, o crush do Victor, era bem gato. Não julgo ele ter saído de Belo Horizonte pra encontrar ele aqui. Lucas era divertido,os dois pareciam se dar bem. Fomos pra festa.

No começo a festa estava um porre, mas depois de umas doses de tequila tudo fica melhor. Minhas amigas,apesar de não serem do babado, vierem me dar uma moral, afinal, sapatão cheia de mulheres em volta,atrai mais mulheres. Pelo menos isso eu sabia. Eu não tinha interesse em ninguém nessa festa, eu queria dançar e me divertir. E assim foi. Eu dançava como se não houvesse amanhã.

Meu amigo de longa data, estava de saída. Minha amiga Lelé sempre teve uma quedinha por ele. Ele era bem gay, mas também era lindo. Eu não podia julgá-la por isso. Nos despedimos, e decidi ficar com minhas amigas. Íamos ao banheiro, e Lelé não parava de falar do Victor e de como precisava beijá-lo. Foi aí que num canto um pouco escuro avistei uma garota. Ela usava óculos arredondados, me parecia estilosa. Estava com uma camisa Xadrez vermelha e preta, de manga comprida, jeans claros, seu cabelo era longo, e tinha mexas loiras. Suspirei por um minuto, até perceber que ela estava beijando uma outra garota que eu não quis prestar tanta atenção. Me parecia que se beijavam para terminar uma discussão ou algo assim. Eu senti muita raiva. Senti ódio. Eu queria bater naquela menina. Eu queria arrastá-la pelos cabelos e perguntar, o que você estava fazendo com essa biscate com cara de morte! Mas eu não o fiz, eu não consegui fazer nada, e também não queria ser taxada de louca. Saí daquela festa chorando e completamente fora de mim. Eu me sentia traída. Não sabia o que estava acontecendo comigo. Eu só poderia estar louca. Era a única explicação pra eu ter uma reação assim. Eu não sabia quem era aquela garota. Nunca tinha visto na vida. Mas ela mexeu com algo dentro de mim e eu não fazia a mínima ideia do que era.

Mari

As pessoas que me conhecem bem sabem que eu não sou nenhuma santa. Entretanto não concordam muito com meu estilo de vida. Exceto por alguns amigos que fazem o mesmo. Creio que todos pensam que por eu levar as coisas dessa forma, que eu sou blindada e nunca sofri ou levei foras. Porém é claro que já levei muitos foras e já sofri algumas vezes por paixonites não correspondidas, mas isto era em proporção bem menor se comparado com a quantidade de garotas que se apaixonavam por mim, principalmente pós intercâmbio quando eu liguei o foda-se para todo mundo literalmente.

Alguns meses antes de viajar para Europa, eu tive uma paixonite não correspondida . Acho que toda sapatão já se apaixonou por alguma professora na vida, comigo não foi diferente. Era uma matéria super chata e entediante da engenharia, mas que se tornou interessante desde que vi a professora. Ela era todo o meu esteriótipo de beleza, tatuada, cheia de piercings e com ar misterioso que não dava para ter certeza se era do babado ou não,além de ser mais velha e bem sucedida, características que me atraíam muito. Eu sentava um pouco atrás, mas encarava ela nos olhos a aula inteira para ver se ela de alguma maneira correspondia. Eu gostava de perguntar coisas óbvias para ela prestar atenção em mim e saber que da minha eventual existência .Certa vez, cheguei a adicioná-la no facebook mas até então sem coragem para puxar conversa. Eu me sentia fodona, á conquistadora que destrói corações, até eu encontrar alguém que supostamente era uma autoridade para mim,eu virava um poço de insegurança.

Com o tempo fui descobrindo umas coisinhas sobre ela, que de alguma maneira foram ótimos motivos para nos aproximarmos. Primeiro eu entrei em um projeto de extensão da universidade em que ela era amiga de uma das coordenadoras, então sempre quando o pessoal do projeto se juntava pros churrascos e afins, ela estava lá, sempre linda e sempre com algum aluno. Sim, eu descobri que ela pegava vários alunos, pensei nossa já era ela deve ser hétero. Neste meio tempo, minha vida boemia ia muito bem, obrigada, afinal não sou idiota nem nada. Foi quando conversando com um amigo, vou chamá-lo de J. , ele me disse que ela era amiga dele, e que eles moraram juntos em uma república. E isso era tudo que eu precisava. Pedi para ele falar de mim para ela, que eu estava interessada e outras coisas sobre mim no caso dela querer saber. Começamos a conversar no facebook todos os dias, claro que era eu quem sempre puxava conversa, até então ela me respondia, não sei se por educação ou um possível interesse.

Chegou a semana de prova, eu estava super tensa e ocupada. E foi justamente quando ela resolveu me convidar para ir até a casa dela beber um vinho.Eu confesso que estava acostumada a beber cachaça na rua, isso me fez sentir diferente.E lá estava eu, toda fina na casa dela bebendo um vinho e admirando a sua beleza intrigante.Definitivamente eu comia ela com os olhos. Conversamos muito e trocamos alguns beijos, poucos, mas trocamos. Eu realmente estava super insegura e travada com ela, nem se eu quisesse eu iria conseguia ir muito além disso.E eu também ia respeitar o suposto processo dela, com as "héteros" é no passo lento.

Conversa vai e vem, e combinamos uma saída entre eu, ela e o nosso amigo em comum J. Neste dia, eu não estava muito animada,sair assim a três. Sempre vai haver alguém sobrando, uma vela, e eu não estava afim de esta vela ser eu. Saímos, bebemos horrores e fomos direto para a casa dela. Eu não estava nem um pouco preparada para aquilo, e nem alcoolizada o suficiente quando começou a rolar um suposto ménage entre nós 3. Era óbvio que eu não queria esse ménage, mas essa era a única maneira de eu ficar com ela.No nosso encontro anterior ela fez questão de deixar bem claro para mim que apesar dos nossos beijos ela era 100% hétero e não iria rolar nada entre nós novamente.

Se não pudesse piorar minha noite, eu esqueci de mencionar que a minha única transa da minha vida com um homem foi com J, ele me fez essa caridade quando bateu a louca curiosidade de dar para um homem,porém não vou entrar em detalhes neste assunto porque realmente não vale a pena nem lembrar. No auge da pegação, e por incrível que pareça minha professora ficou só comigo, largou J. de lado e é óbvio que eu já tinha largado também. O coitado se trancou no banheiro e ficou por lá.

A realidade do dia seguinte não foi bem o que eu pensava. Eu fui obrigada a refletir, já que agora não estava sob nenhum efeito alcoólico. Não posso falar que foi a minha melhor pegação, foi bem esquisito,entretanto eu queria estar com ela ali naquele momento. O beijo não batia, ela era uma pedra de gelo de tanta frieza nos movimentos e eu travada com o pouco efeito do álcool que eu tinha,resumindo: foi um perfeito desastre.

Os dias passando e cada dia eu via minha professora com um aluno diferente. Ela me ignorava, como se nada tivesse acontecido entre nós, como se ela nem me conhecesse. Ella sabia que eu estava apaixonada, apesar disso passava o rodo em outras meninas, e eu não estava cortando os pulsos, não era lá era uma paixão intensa que me consumia. Acho que na verdade eu gostava de me sentir rejeitada e virar o jogo.

Um dia antes de ir para a Europa eu fiz uma festa de despedida, e resolvi convidá-la. A festa estava ótima, eu estava me divertindo com meus amigos quando ela entra com um aluno que ela parecia estar pegando e fica aos beijos com ele a festa inteira. Isso por um momento acabou comigo, mas, como toda boa festa tem suas surpresinhas, chegaram os meus brigadeiros de maconha, e eles fizeram minha festa recomeçar e eu focar totalmente nela e na minha própria diversão.Até hoje as pessoas que foram a essa festa, lembram se como a festa mais louca de Lavras.

Minha história com a professora só virou o jogo quando eu voltei do meu intercâmbio. Ela começou a me procurar e mandar mensagens sem parar, queria que nos encontrássemos. Era como se no pós Europa eu virasse um Ímã para as mulheres, todas vinham até mim, eu gostava e me aproveitava disso. O ar europeu me fez bem. Eu confesso que não tinha nenhum interesse em vê-la, até porque quando pisei na Europa eu nem me lembrava mais da sua existência.

Depois de muita insistência da parte dela marcamos de eu ir até sua casa.Rolou uns amassos, ela estava menos esquisita dessa vez e eu estava com preguiça. Eu percebi que dali eu não queria mais nada. Não sei se era uma vingança inconsciente, ou se eu simplesmente perdi o interesse, mas de fato eu sempre odiei gente no meu pé, e ela insistiu muito até se tocar que eu já estava em outra. Ela continuava linda, super atraente mas o encanto que eu tinha por ela se foi e eu estava ocupada demais em administrar as outras garotas que eu estava afim.

Se vocês e lembram bem, eu disse que voltei do intercâmbio namorando. Sim, eu voltei... Eu gostava da minha namorada gringa, mas eu também gostava da minha vida solteira. Então não durou muito até eu terminar com ela. Mas eu não fui a vilã sozinha nesse relacionamento, mais tarde descobri que a gringa também estava dando seus pulinhos de cerca.

Eu acho que nunca tive muito tempo pra descansar. Eu saía de uma e entrava em outra e gostava muito disso.Lembro — me uma vez que marquei um encontro pelo tinder como uma mulher, marcamos num barzinho. De lá acabamos indo pra uma festa numa república, onde estava rolando o show de uma travesti. Não preciso nem dizer que terminamos na cama dela mais tarde.Não durou muito nossos encontros, ela era passiva demais pro meu gosto e isso foi me cansando. Eu sempre fui bem ativa,mas eu gostava de ser total flex às vezes também..Apesar de me identificar com o género feminino, o meu lado masculino era muito presente.

Apesar de conhecer muita gente, eu usava muito o tinder, com o aplicativo meu leque de opções era bem maior. Eu recebia muitos convites de amizade no face também. Tinham aquelas rachas que me adicionavam dizendo que eu fiquei com elas na festa da noite anterior, eu sinceramente da maioria nem lembrava mas fingia que lembrava,pra não ficar com a fama de pior escrota do mundo.Eu julgava muito as pessoas, pela aparência, pelo curso que estudavam, por tudo. Pra vocês terem noção teve uma menina que me adicionou no facebook e eu fui stalkear para ver quem era. Comecei a ver as fotos dela, e tinha tipo 3 likes nas fotos ou às vezes nenhum, tinha um pouco mais de 100 amigos e um monte de fotos com cachorro, e já pensei nossa que menina uó! Eu com quase 3000 amigos no face, mais de 200 curtidas nas fotos olhei para aquela menina e pensei, "nossa vou aceitar aqui mas já sei que daqui não sai nada".Demorou uns dias mas ela até chegou a puxar conversa comigo, porém eu mal respondia, tava na cara que aquele definitivamente não era o meu estilo.

Eu sempre exagerei muito no álcool e no cigarro nas festas, eu sentia prazer em ficar louca eu bebia pra isso.Era difícil não saber beber socialmente,se não fosse para ficar bêbada, eu nem começava o primeiro copo. Eu queria mesmo era causar e ser o centro das atenções. O que era um perigo na realidade, porque por muito tempo minha mãe foi alcoólatra, então o gene já estava presente. Apesar dessa vida louca que eu levava, eu ia bem nos estudos, na verdade eu sempre estudei muito, principalmente para passar no vestibular e sair de casa. Eu participava de diversos projetos na faculdade para ver se eu conseguia ver alguma luz no fim do túnel na engenharia e ser isso mesmo o que eu faria na vida.

Depois da morte da minha avó, eu comecei a frequentar muito centro espírita para buscar respostas e tentar me confortar de alguma maneira com a perda. Precisava encontrar alguma força para seguir em frente.Por mais difícil que tenha sido nossa relação no final, eu a amava muito. O centro espírita era o único momento da semana onde eu não mascarava nada, onde eu permitia sentir minhas dores e ter a esperança de uma mudança, que nunca chegava. Uma vez na vida louca, é difícil sair.Parece que algo te puxa pro buraco e os seus amigos que também estão nessa sintonia não vão ser seus salvadores. Eu sentia que precisava de algo a mais, que não foi isso que minha avó esperava que eu me tornasse e acho que nem eu esperava me tornar isso. Ao mesmo tempo que era bom ser assim, também não era , eu sentia como se estivesse na espera de algo me tirar dali mas até essa "coisa" não chegar eu ia aproveitar até o final vivendo ao extremo.

Eu me expressava muito na música, sempre toquei vários instrumentos mas os meus preferidos eram violão e teclado. Tocava muito quando era mais jovem, fui perdendo isso a medida que fui me tornando adulta. De vez em quando tocava para impressionar alguma menina que eu estava flertando ou pegando.É impressionante o quanto lésbicas adoram uma voz e violão e eu lógico sempre parecia ter as ferramentas certas para cada situação. Meu propósito da música se perdeu, virou só uma forma de conquista. Eu tentava ignorar mas aos poucos não me reconhecia mais, eu não sabia mais o que eu gostava. Acabei criando um personagem e eu vivia para ele. Perdi com isso a minha identidade real.

Eu estava estudando, mas sempre estudava com um olho nos livros e outro no facebook. Não dava pra ignorar minha vida social nem um minuto, porque poderia ter uma reviravolta e uma racha gata me dando mole. Nisso recebi uma mensagem muito esquisita, mas que talvez fosse mudar minha vida de alguma maneira.

Notas finais
Olá meus amores, caso tenha algum erro de digitação ou mesmo de português me avisem por favor, eu edito a história sozinha e as vezes pode passar alguma coisa. Caso queiram entrar em contato este é o nosso email : depoisdaquelebeijo@outlook.com Um beijo no coração, Reina Kali