Depois daquele beijo
1 Capítulo 1 - Recomeço
Parte Um
Eu costumava pensar que a vida era como uma novela, porém sem o final feliz para todos, e com o vilão sempre vencendo no final. Era difícil sair da cama todo dia, e me adaptar as novas situações. E tudo isso mudou completamente, desde que vi a Mari naquela festa.
Se antes me dissessem, que eu seria feliz e encontraria alguém incrível algum dia... Eu jamais acreditaria.
Júlia
Meus pensamentos vagavam sem direção enquanto eu olhava a chuva pela janela. Eu tinha uma decisão difícil a tomar. Eu vivia no Rio há um ano, o pior ano da minha vida.Minhas expectativas quando cheguei eram ilusões de uma garota doce e apaixonada, e este foi meu pior castigo. Não me arrependo, porque cresci e aprendi muito sobre mim mesma,porém tive que sofrer muito para chegar a este ponto. Quando estamos numa relação abusiva, não percebemos, até termos certeza que precisamos sair dela. Minha auto estima chegou a zero, e só aí percebi que eu merecia mais, que eu merecia ser feliz de verdade.
As pessoas pensam que quando você namora uma garota, é impossível viver uma relação abusiva.Afinal são duas garotas não é mesmo?! Talvez seja por associar esse tipo de relação aos heterossexuais, ou a figura masculina. Porém eu senti na pele e sei que existem muitas lobas em peles de ovelhas. Meu histórico com relacionamentos não é lá grandes coisas, entretanto jamais pensei que chegaria onde chegou. Por mais que a Laura não tivesse me ferido gravemente na parte física,as palavras dela, acabaram com meu emocional pouco a pouco. Eu larguei a minha vida feliz e saudável para vir morar aqui e ficar perto dela, eu escutei promessas e sonhos que jamais existiram e depois tudo que eu tive foram migalhas de uma pessoa cada vez mais ausente e menos amável.E a cada bofetada, a cada humilhação, um pedido de desculpas acompanhado de "isso nunca mais vai acontecer", "eu não sei o que deu em mim" "a culpa é sua que é rebelde e me desobedece", "você provocou isso". Minha namorada não tinha necessidade de me ver, de estar comigo, de demonstrar carinho,e quando ela estava presente, era um inferno, e eu nada podia dizer, nem conversar porque para ela nada que saia da minha boca tinha suma importância,ou como ela mesma dizia "é melhor você se calar,pois tudo que sai da sua boca é insignificante". Eu fui humilhada, tantas e tantas vezes, e com o tempo eu deixei de ser eu mesma , eu aceitei tudo isso,eu acreditava que "por amor suportamos tudo", era o que eu dizia a mim mesma,mas felizmente a realidade é muito diferente da ficção.
Meu aniversário mudou tudo pra mim. Eu estava sozinha, não conhecia ninguém e Laura não permitia que eu falasse com nenhuma outra pessoa.Eu esperei por muito tempo ouvir o som do interfone aquele dia, senti agonia, solidão, tristeza. Eu queria estar com as minhas amigas, ou com meus pais, e eu estava ali, trancada esperando por alguém que jamais apareceu. No fim da tarde eu desisti,eu não esperei mais por ela... Fui caminhar na praia em Copacabana, o movimento era grande, eu olhava o mar e suplicava a Yemanjá, ou qualquer ser místico que pudesse me ajudar que me dissesse o que fazer,porque eu não queria mais viver assim, a dor era insuportável. O som das ondas do mar, sempre me acalmaram, minha ligação com ele era quase espiritual, e elas foram a minha única e melhor resposta, eu tinha o controle, e somente eu poderia ser a senhora do meu destino.
"Vingança é um prato que se come frio", como boa escorpiana, o meu seria congelante e Laura deve se arrepender até hoje de tudo que me fez. Não me levem a mal, eu a amava, mas no fim percebi que amava mais a mim. E foi ali olhando pela janela do meu quarto que tudo começou.
Eu fui para a casa dos meus pais em Minas Gerais, precisava dar um tempo e por meu plano em ação. E o primeiro passo era voltar a morar em Lavras, de onde eu jamais deveria ter saído.Eu voltaria a estudar na universidade de lá, e eu teria minha vida de volta. E assim foi, eu me preparei, fiz provas de vestibular, estudei e dei tudo de mim. Não eu era questão apenas de querer, eu também de certa forma precisava daquilo, eu precisava de um recomeço.
De outubro a janeiro, Laura mal teve notícias minhas, falava com ela uma vez na semana por mensagens no telefone.Eu me tornara fria, distante, e por mais incrível que isso possa parecer, ela ficou desesperada, e eu não esperava este tipo de reação.Ela me ligava 20 vezes ao dia, e eu ignorava todas as ligações. Ela monitorava meu facebook, e eu fiz questão de trocar a senha. A essa altura eu não tinha mais o medo absurdo que eu tinha dela antes. Eu estava indiferente a tudo que vinha dela. Os abusos continuaram, em cada oportunidade que ela tinha de falar comigo. Entretanto agora eu só fingia que caía em toda chantagem dela.Eu me fingia triste e magoada, pra uma desculpa e não falar com ela nos dias seguintes. E fui levando assim, por todos estes meses. Aos poucos os meses passaram, e saiu meu resultado do vestibular. Com meu resultado do vestibular em mãos, eu tive a plena certeza de que eu estava no caminho certo. E eu certamente voltaria para Lavras.
Fiz minha matrícula no curso de Agronomia, não era muito o que eu tinha em mente naquela época, porque fazia um tempo que eu estava tentando entrar em Medicina, mas eu perdi praticamente um ano sem estudar, e fiz o melhor que eu pude para conseguir minha vida de volta. No pouco tempo que tive de preparação, dei tudo de mim,e estava orgulhosa de ter conseguido pelo menos uma parte do que eu queria. Eu não disse nada a Laura, e não diria, até o momento "oportuno", é obvio.
Preparei tudo, aluguei um apartamento próximo a faculdade, comprei tudo que precisava de mobília, e descansei alguns dias em companhia de minhas melhores amigas Letícia e Ester. Ester era tão louca quanto eu, mas tinha muito mais autoestima. E Lelé era completamente diferente, inocente, doce, meiga, coisas que perdi com o tempo. Cada qual com sua peculiaridade, elas eram minhas melhores amigas, e estavam sempre do meu lado, inclusive agora.Meus pais por outro lado, mesmo sem concordar com todas as minhas decisões, faziam tudo por mim, e estavam muito felizes com a minha decisão de voltar. O Rio de Janeiro, apesar de todas as suas belezas,era um lugar perigoso, inúmeras vezes eu fui assaltada, eu não me sentia com tanta liberdade como me sinto em Lavras. Claro que aqui também tem seus perigos, mas em uma proporção muito menor. Tudo estava bem encaminhado, e em poucos dias tudo estaria pronto,meu contrato, minha matricula, e chegaria a hora de fazer uma visita especial para Laura.
A viagem pro Rio foi tranquila, não estava ansiosa e creio que isso ajudou. Minha então namorada sabia que eu chegaria, disse que iria me ver. Eu não insisti, não pedi, simplesmente comecei organizar minha mudança. E exatamente uma semana depois da minha chegada, ela apareceu na minha casa. Nós duas morávamos próximas, cerca de dez minutos de carro ou onibus. Mas eu já esperava este tipo de atitude da Laura. Então não pedi nenhuma explicação ou desculpa, eu não estava nem aí para quando ela aparecesse, eu só queria voltar logo para Lavras. Abri a porta, deixei que ela entrasse e fiz com que o caos se instala-se.Por dentro minha deusa da vingança interior dava pulos de alegria, e por fora gastei meus oito anos de teatro, me fingindo triste, e perdida com a minha decisão. Eu não queria apanhar, não queria ser humilhada, então eu fiz o melhor que eu poderia fazer.
Ao saber das boas notícias lágrimas escorreram pelo rosto de Laura, ela me parecia um pouco tonta, e eu só queria soltar gargalhadas.Gritos, lágrimas, promessas, de todas as formas ela tentou reverter a situação para que eu ficasse, mas naquela mesma noite eu embarcaria na minha nova vida, sem passagem de volta, e ela ficaria para trás, como todas as outras, com tudo que me causou, com todo sofrimento, porque o que eu mais queria, era voltar a ser leve e feliz. Houveram poucas situações na minha vida, em que eu agi assim, impulsivamente, vingativamente, mas quando eu agia, eu era dura, fria, inalcançável. E se eu não fosse assim, jamais teria conseguido sair desta relação, na primeira lágrima de Laura, eu teria amolecido, e decidido tentar mais uma vez. E nisso, acho que minha personalidade me ajudou muito. Tenho que ser agradecida a vida por ter me tornado esta pessoa.
A primeira etapa da minha vingança estava concluída,e só faltava uma coisa para que eu realmente pudesse ser feliz : liberdade. Laura foi para casa 3 horas antes do meu embarque, queria me levar até a rodoviária, e a deixei pensar que sim. Pouco antes da sua volta, um uber já me esperava, com todas coisas que eu precisava, e tudo que eu deixava para trás estava em uma pequena caixa: um belo adeus, o meu antigo chip de celular e o maior presente que ela me deu, dor.
Eu nunca soube o que passou depois que parti, não com relação a caixa, nem com relação ao que ela achou de tudo isso. Se ela sofreu, ou se ficou aliviada. Eu só teria notícias dela muito tempo depois,mas isso é história para outra hora.
Mari
O ano em que definitivamente mudou minha vida : 2011. E o começo deste ano me marcaria para sempre. A minha avó, que foi a pessoa mais importante para mim desde que nasci, que me amou e cuidou de mim da forma que só uma mãe pode fazer, estava morta, e eu estava perdida. Nossa relação sempre foi muito harmoniosa, pois éramos só nós duas, ela foi minha mãe e eu fui segunda filha que ela não teve. Sei que isso parece confuso, mas minha mãe de verdade foi diagnosticada com esquizofrenia pouco depois do meu nascimento e meu pai eu não o conhecia, ninguém o conhecia, nem mesmo minha mãe. Minha mãe tinha um relacionamento com uma mulher há alguns anos quando eu fui concebida, um belo dia ela e a namorada brigaram, e para se vingar ela dormiu com um homem. E foi dessa noite que veio o espermatozóide que deu origem a mim. Realmente era para eu estar neste mundo, não tenho dúvidas. E a única informação que eu tenho até então sobre meu pai, é um nome, sabia que era colombiano e que estava no Brasil para correr a maratona de são silvestre;
Minha relação com minha avó sempre foi de companheirismo, porém um acontecimento inesperado mudou totalmente a nossa relação, ela descobriu que eu também era lésbica. Aos 16 anos , não pensamos muito bem, e ela descobriu quando me pegou beijando uma menina na porta de casa. Eu que sempre fui criada pra ser a princesinha da avó, acabei com todas as expectativas que minha avó criou sobre mim, todas as expectativas que ela colocou sobre minha mãe e que não deram certo e foram colocadas sobre mim. E para completar a minha mãe com tendência a ser sapatão, tinha dúvidas se não era bissexual. Eu sinto que na cabeça da minha avó a doença mental da minha mãe era uma consequência de uma vida regada a álcool, festas e mulheres.Especialmente as mulheres, já que minha mãe nunca quis esconder isso. Então imaginem como foi quando minha avó descobriu sobre mim, eu que era pra ser o projeto perfeito da bela, recatada e do lar, nasci Lésbica. E obviamente ela não me aceitou, e isso destruiu todo nosso vínculo afetivo, e agora para ela eu não passava da neta adolescente rebelde que queria puni-la pelos seus pecados do passado.
No começo minha avó mal olhava para mim, não falava comigo. Com os tempo as coisas foram piorando, ela me expulsou de casa mas eu não tinha para onde ir. Eu fiquei e passei por muitas humilhações, agressões físicas e emocionais.Penso que por muito tempo ela deixou de me amar, e me via como seu fracasso. Fiquei trancada em um quarto sem comida por dias, dias longos demais para eu me dar conta que se o tempo estava passando ou não, ou se era apenas um pesadelo, um engano terrível.Ela não me deixava ir a escola, sair de casa, ir ao mercado..Até que um dia meus amigos sentiram minha falta. Eles foram atrás de mim, e levaram consigo a diretora da escola, a minha psicóloga,e todos que pudessem tentar mudar a forma de pensar da minha avó. Porém, isso não aconteceu.
O tempo passava, e eu fui obrigada a arranjar um namorado, pelo menos assim ela voltaria a trocar umas palavras comigo, eu poderia sair, ir a escola, ser um pouco normal, se era isso que ela queria, então ela teria. Minha avó continuaria pagando as minhas contas, e fingiria estar cega, fingiria que aquilo nunca aconteceu. Claro que minha ideia de namorado, jamais foi real, eu recorri a um truque que creio que toda boa sapatão já usou,pedi para o meu único amigo gay na época fingir estar comigo. Eu não conseguia simplesmente deixar de ser lésbica, as coisas não funcionam assim.Quando se vive em uma cidade pequena, todos sabem de tudo, os boatos não param, e lógico que todos já sabiam que eu era lésbica e meu amigo tinha escrito na cara "sou gay mona" , então foi um choque para a sociedade pacata de Delfinópolis nos ver desfilando juntos como casal.
Nada dura para sempre. Nem mesmo a farsa do meu namoro.Minha avó era extremamente paranóica, "as pessoas estão me olhando torto na rua", "estão falando de mim na cidade", "a culpada é você da garota ser sapatão" , e as poucos essa paranóia tomou conta de tudo, eu já não podia estar em casa, ou os céus desabariam sobre minha cabeça. Foi então que ela decidiu que mudar de cidade, amenizaria a vergonha que eu a fizera passar, e ela não teria que lidar com que os outros estavam pensando e falando.Eu não queria sair de lá, todas a minhas amigas estavam lá, todos que eu gostava,mas não tive muita escolha, e voltamos para o Rio de Janeiro, onde nasci.
As coisas não ficaram muito com a mudança,eu sempre estava com um namoradinho vinhado fake e saindo pras baladas gays de vez em quando com eles. E era o único lugar onde eu podia ser quem eu era, e a única maneira da minha avó permitir com que eu saísse e tivesse uma vida.. Ela fingia que acreditava, eu fingia que era verdade.
Pouco tempo depois, minha avó descobriu que estava com câncer. Pouco a pouco a doença foi destruindo a saúde física e mental dela. Sua irmãs e sobrinhas diziam que era culpa minha, que ela estava doente por minha culpa. E quando ela morreu um ano depois, eu passei a ser culpada por sua morte,desgosto de ter um neta lésbica,a matou. E por muito tempo eu me senti culpada, eu acreditei que eu a matei de verdade.
Com a morte dela, muitas responsabilidades caíram sobre as mim.Eu tinha que cuidar da minha mãe esquizofrênica, dos negócios da família, e tudo isso com 19 anos, no meu primeiro ano de faculdade. Eu estava sozinha, e com um mundo de problemas para resolver.
Depois que eu consegui colocar a minha vida mais ou menos no lugar,a minha ficha caiu e eu percebi que agora eu era livre, eu não tinha ninguém para controlar a minha vida,eu podia ser eu mesma. E toda a minha sexualidade reprimida podia ser exposta para o mundo. Pelo menos essa era minha sensação, eu queria gritar para todos ouvirem que eu era gay! Essa sensação de liberdade me dava muito prazer, é claro que desde que eu saí de casa para entrar na faculdade aos 18 anos, tive um grande avanço, mas ainda sim eu tinha que fingir, minha avó me mantinha, ajudava a financiar meus estudos. Mas agora, agora eu não precisava mais fingir nada para ninguém e ainda tinha dinheiro para manter meus estudos, minha vida.
Nesta época eu estava em um relacionamento complicado, e que já estava morno. Na verdade tínhamos nos tornado mais amigas que namoradas, não existiam mais coisas de casal entre nós, nem romance, nem sexo, nem carinho de um jeito amoroso.Então eu chutei o balde de vez,terminei meu relacionamento, e estava disposta e feliz em me mostrar pro mundo. A pior parte de terminar é que continuamos morando juntas por um tempo, eu não tinha mais sentimento nenhum por ela, queria ficar com outras meninas, queria ser completamente livre. Porém isso não foi recíproco.Eu comecei a ir em todas as festas gays possíveis, fiquei popular no mundo gay e eu gostando disso, eu gostava que o mundo gay soubesse da minha existência.
Tudo estava bem,e ao final de 2013, eu passei em um intercâmbio para Europa com tudo pago pelo governo. Era um sonho se realizado, eu sentia que enfim era o meu momento de viver. E foi, 2014 foi o ano mais louco e promíscuo da minha vida. Eu saía pelo menos 5 vezes na semana para as festas, e todas elas sempre à caça, querendo uma pegação. Eu também estudava, não era a pior aluna do mundo, afinal , este era o intuito de eu receber uma bolsa de intercâmbio. Mas isso nunca me parou, ou foi empecilho para o que eu queria. Cada festa,uma garota diferente, às vezes ia para a cama e as vezes não. Eu tinha duas vantagens a meu favor, primeiro eu era brasileira e as gringas já ficavam loucas com isso, creio que temos uma certa fama la fora.Segundo porque o meu rosto bonitinho e a minha lábia favorecia. Eu cheguei a ter um mapa das meninas que eu pegava em cada país que eu visitava . Claro que eu também tive as minhas paixonites,porém duravam poucas semanas., Mas eu sempre dizia a mim mesma que não estava ali para me apegar a ninguém.Eu gostava e sentia orgulho em ser assim. A fodona que pega geral e não se apaixona fácil.
Foi um ano que eu experimentei tudo, vivenciei de tudo..Eu tinha os meus momentos bads, nem tudo eram flores. Eu tinha aqueles dias em que a ficha caía e eu pensava "o que eu to fazendo da vida", "eu estou sozinha, minha avó morreu e eu estou comemorando","esses prazeres são momentâneos", "como posso ser tão fria, e sem sentimentos assim". Entretanto no dia seguinte, eu tapava todos esses buracos de consciência com uma boa festa e uma boa pegação. Apesar que a pegada das gringas nem se comparar com a das brasileiras, porque o que elas tinham de rostinho bonito lhes faltava de pegada de jeito..
Quando voltei para o Brasil no ano seguinte,foram semanas terríveis de adaptação. Por incrível que pareça,eu acabei voltando namorando uma gringa, mas é claro que não daria certo. Eu sempre tive um histórico de trair, e não foi muito diferente dessa vez. Eu continuei levando minha vida boêmia,e a conciliava muito bem com meus estudos, e nada bem com uma namorada. Mesmo eu estando de saco cheio da engenharia, eu empurrava com a barriga para ter um diploma no final e conseguir um emprego.E esse era o sonho da minha avó, me ver formada. Já o meu eu não sabia muito bem qual era naquele momento.
Minha vida universitária não mudou muito pós Europa. Eu era popular, ficava com a maioria das garotas que eu queria, algumas duravam mais, outras menos, mas quando eu via que ia durar pra mais, eu pulava logo fora. Era como se fosse uma proteção minha, não me entregar a alguém, não gostar de ninguém. Eu não tinha problemas em sumir, em não dar explicações. Essa era minha praia. Eu era o que eu era, e não mudaria por nada e nem por ninguém.
Em paralelo a minha vida louca, eu cuidava da minha mãe,de certa forma. Não morávamos juntas,mas morávamos próximas, e eu sempre ia visitá-la. Por dentro,quando eu a visitava, eu sentia muita falta da minha avó.Por outro ,eu me recordava tudo que me foi proibido de fazer, tudo que me foi tirado, e eu queria fazer agora que eu tinha a chance, eu queria expor o que eu tinha por dentro,era a minha rebeldia querendo dar oi ao mundo. Ao menos, minha mãe por ser bissexual me apoiava, da maneira dela. Ela já tinha um relacionamento com a mesma mulher há mais de 20 anos, porém assim como eu, sofreu muito por sua orientação sexual na adolescência.
Quando eu saía com novas mulheres, eu gostava que elas vissem que eu conhecia todo mundo, que eu era amiga de todos, era uma das minhas maneiras de me afirmar, aumentar o meu ego, me mostrar. Eu gostava que as pessoas soubessem que viajei para mais de 20 países, que eu era cult, que eu tinha cultura, que eu falava outras línguas. Eu gostava de ter mulheres brigando por mim, chorando por mim, pensando em mim. Minha autoestima se elevava com isto. E assim foi... por muito tempo.
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