Notas iniciais
Tive alguns imprevistos, porém, aqui está um capítulo! Aproveitem e boa leitura ♥

“É assim que os dias passam, como se fossem pedras no caminho, mas cada pedra indica uma direção”

Retornei ao Lar no dia seguinte ainda angustiada. Meus meninos não estavam lá, e por mais que eu devesse me comportar de madura e enfrentar as horas seguintes, simplesmente corri até o jardim. Sentei em uma pedra coberta de musgos, olhei para o céu azul e me questionei: por que essa cor tinha que me lembrar ele? Enxuguei com as costas da mão meus olhos marejados. Respirei fundo e inspirei até ficar mais calma.

— Pense no presente, esqueça o passado e o futuro — falei após um suspiro longo.

Criei ânimo e fui para recepção do Lar. Me orientei sobre a assistente social. Ela normalmente ficava na sala dela e apenas saia de lá quando tínhamos problemas. Em relação às crianças e adolescentes novos, deixava que o psicólogo resolvesse da melhor forma possível. Mesmo sabendo que ela não seria de grande ajuda, entrei na sua sala para tentar conversar.

— Licença, Sandra — disse enquanto abria a porta.

— Margot?! Houve algum imprevisto com o transporte alimentício?

Olhei para ela alguns segundos e dei um breve sorriso.

— Não, Sandra… Bom, eu gostaria de saber sobre o setor que irei trabalhar. Sei que isso eu deveria ter pedido para as pessoas da secretaria, mas eu gostaria de ouvir o que você tem a dizer...

A assistente social se levantou da cadeira, abriu as cortinas e pediu para que eu sentasse.

— Ah, se quiser café, pode pegar naquela bancada — disse ela apontando para o lugar. — Bem — começou ela colocando seu óculos para leitura e tirando uma folha do envelope pardo. — Não tiramos fotos para a ficha, no entanto, com essas informações acho que consigo te dar um norte.

Sandra me entregou a ficha e passei meus olhos em cada detalhe. Ela me observava a cada palavra que eu lia.

— M-mas, que estranho… a ficha está praticamente em branco. Normalmente, as fichas contém tantas informações que é preciso um papel a parte. Já essa, menos da metade está escrito.

Tirando seus óculos, a assistente pôs-se a falar.

— Não conseguimos muitos detalhes como era pretendido. Kátia deve ter lhe falado que você não ficará por conta do setor todo, apenas da pessoa dessa ficha. Conseguimos mais voluntários graças a seu projeto, portanto, a equipe decidiu que está na hora de você descansar um pouco.

Dei um sorriso de lado, agradeci a Sandra pela recepção e sai de lá com o envelope e com pensamentos a mil por hora.

Eu entendia que eles queriam me ajudar, porém, ir para esse lugar e ficar por conta de um setor é o que deixa minha mente ocupada, não faz eu pensar nos meus próprios problemas. Lidar com situações diferentes, praticar valores e entender pelo menos 10% que ficar de luto constante não ajudaria as centenas de crianças carentes que aqui têm. Portanto, o Lar também virou o meu.

Após o café da tarde, recolhi a ficha e subi 3 lances de escadas. Procurei a sala 3040 por dois corredores. Me dei conta que estava na ala dos juvenil. Como fiquei no setor infantil por anos, entendia que crianças quando tem liberdade, conseguem se expressar melhor, não entendem o que devem ou não falar, apenas falam. Então, a pessoa que eu lidaria a partir de hoje, era um adolescente pouco receptivo.

Olhei mais em volta e me deparei com a porta em branco, que continha somente o número 3040. Estava fechada. Tomei fôlego e dei dois toques. Sem mais esforços, ela se abriu lentamente. Avistei uma silhueta jovem perto da janela. Limpei a garganta e ganhei coragem para entrar.

— Boa tarde… — falei em tom tímido.

Era um garoto com 1,75 de altura, talvez. Sua feição demonstrava tédio.

— Eu me chamo Margot — apontei minha mão e o mesmo a apertou.

— Não entendo para quê isso tudo. — disse ele soltando sua voz firme que me lembrou a do cantor Arthur Aguiar.

Esbocei um sorriso e pensei em manter a calma.

— São os procedimentos — olhei para o chão. — Você não me falou o seu nome, e na ficha nem isso consta — mostrei para ele.

— Gabriel — falou ele em tom seco.

Aquela sonoridade final foi como uma agulhada no pescoço.

Julho — 3 anos antes

Desde o ano novo, Rafael e eu estávamos vivendo um romance de adolescentes. Mesmo depois de seis meses juntos, eu não conhecia absolutamente ninguém da família dele. Tampouco ele conhecia minha família. Nossa vida era tão agitada que isso não era um problema a ser resolvido tão depressa. Meus pais sabiam da existência dele, mas nunca deram o braço a torcer. No entanto, aquela situação por vezes não me favorecia tanto assim. Havia dias que eu queria sair da rotina, propor algo novo com Rafael, ir para o parque, por exemplo, mas na maioria das vezes eu escutava um “não” dos meus pais. Por mais que a resposta fosse negativa, eu falava com eles que fechar os olhos para os acontecimentos, é deixar eles evoluírem sem estar presente. E, assim, eu saía e voltava o mais rápido possível.

Em um dia desses no parque, eu estava deitada na grama ao lado de Rafael. Eu estava cansada, e ouvir grilos e crianças correndo me trazia certa serenidade. De repente, Rafael se despertou de sua tranquilidade e olhou para mim.

— Quer conhecer minha mãe?

— Por que isso tão repentinamente? — perguntei coçando os olhos.

— Talvez devemos isso um para o outro. Veja, estamos nessa há tanto tempo mas nem sei como é direito o rosto dos seus pais.

Me perdi momentaneamente. O sol ofuscava meus olhos e um gelo deslizava pelo meu coração apenas de me imaginar conhecendo a mulher mais importante da vida do Rafael.

Eu poderia ter recusado aquela pergunta e levado adiante aquele dia. Entretanto, eu aceitei com um belo sorriso e com vontade que aquilo se tornasse real.

Uma semana depois, eu estava andando pela rua principal de jeans e com um casaco roxo leve. Havia conversado com meus pais sobre minha visita na casa do menino da bicicleta azul. Não ouvi sermões, apenas vi uma expressão de conformidade. Dessa forma, me encorajei mais para conhecer a mãe de Rafael.

Tocando o interfone, ouvi sua voz de felicidade ao perceber que eu estava lá. Ele abriu o portão para mim e me recebeu com um beijo.

— Não me beija! Sua mãe vai pensar o quê? — falei afastando ele e o mesmo ria.

Eu tinha vergonha de conhecer adultos e adolescentes. O Lar me ajudou a superar parte dessa timidez, pois eu convivia muito com a crianças e me submetia a realizar teatros e a dar palestras em empresas para arrecadar dinheiro. No entanto, aquilo não se comparava em conhecer alguém pessoalmente, com poucas pessoas envolvidas. Meu estômago dava sinais por meu desconforto.

Não demorou muito para que eu fosse acolhida com um abraço.

Helena era a mãe de Rafael, uma mulher encantadora. Morava apenas com Rafael, sua filha mais velha estava fazendo faculdade em São Paulo. O pai dele, bem, foi um completo imprudente, a abandonou com os filhos sem olhar para trás. Helena me contou que tudo o que fez foi com a ajuda da família, amigas e dela própria.

— Eu sei que é muito cedo para tacar em você esse tanto de informações — dizia ela — Mas, se meu filho está com você, quero nossa convivência seja transparente.

Após uma tarde conversando com a mãe de Rafael, conhecendo a casa dele, percebi que minha timidez estava apenas de passagem. E o melhor daquele dia, é que subi mais um nível em companheirismo. Algo que levo até hoje.

No dia seguinte quando cheguei ao Lar, recebi um recado do Rafael escrito num post-it em cima do meu caderno:

“Sabe, Margot, às vezes deixar o medo de lado, nos faz descobrir novas possibilidades.”

∞

Escutar o nome do Gabriel, me deu uma desequilibrada instantânea. Parte de mim entendia que era besteira comparar um nome com o outro, já a outra parte entrava num conflito e gritava para que eu não continuasse mais ali. Deixei minhas partes de lado e voltei para meu serviço voluntário, me focando apenas na pessoa que Gabriel me mostrava.

Suspirei e pensei em cada palavra antes de jogá-las nesse garoto.

— Não devo entender nem metade do que passa ou passou na sua vida. Mas, se você está aqui, é porque tem que ser acolhido, por todos nós que trabalhamos aqui e por outras pessoas que virão. Lhe peço que faça um esforço para melhorarmos em relação a você — falei olhando fixamente para Gabriel.

Ele se mostrava cansado e sem querer falar muito. Não o forçaria a nada. Esperei alguns segundos sem retorno algum.

— Quer tentar outro dia? Tudo bem… — disse eu sem sucesso.

Dei meia volta, girei a maçaneta e pude escutar:

— Deve ser uma droga se agarrar às pessoas.

Virei e consenti com a cabeça.

— Ontem eu vi três garotinhos sendo adotados. Eu os havia criado como meus filhos — dei um sorriso amarelo.

— Para quê fazer isso, Margot? Pensa comigo, agora você poderia estar na sua casa vendo um filme e comendo chocolate. Em vez disso, você está aqui gastando seu tempo tentando buscar informações.

Por um momento, pensei que nossa interação engatinhava, no entanto, percebo que nem as pernas se movem. A parte mais complicada de lidar com as pessoas, é que você não o que elas pensam, se refletem sobre suas palavras ou ações, e tampouco se está se importando com nossa presença.

— Dizem que o seu lar, é onde você quer estar — repliquei.

Sai da sala imediatamente.

Semanas se passaram e eu somente sabia o nome de Gabriel. Sem muita demora, o mês de Agosto estava na metade.

Eu continuava indo para a casa da Helena — mãe de Rafael — contava para ela todos os meus problemas. Depois que a conheci, aos poucos ficamos próximas e hoje posso falar que somos amigas, mesmo por um espaço de idade considerável. Quando estou com ela, tento não pensar no meu namorado que faleceu, muito menos falar sobre ele na presença de sua mãe. Invento qualquer assunto para passar o tempo com ela. A filha mais velha dela, depois que voltou da faculdade, passou a viver no mesmo bairro, visitava ela todos os dias. Mas, só isso não era necessário.

— Acho que não estou mais na idade de tentar tirar a força palavras da boca de um adolescente — falava com a dona Helena enquanto tomava um chá na sua varanda.

— Minha filha — dizia ela rindo. — Você também é uma adolescente. Talvez ele só precise de tempo para digerir tudo a volta dele.

— Eu sei, eu entendo que não é fácil chegar para uma desconhecida e soltar tudo. Mas, nossa — falei fechando os punhos. — Eu visito ele todos os dias no quarto dele, e ele parece que quer fugir de mim. Na maioria das vezes diz que é hora do lanche, ou que ele tem que tomar um banho. Pior é quando acabam as desculpas e o Gabriel sai da sala assim que entro.

— Tenha paciência e o ofereça chá — disse ela dando uma piscadela.

No mesmo dia, fui para o Lar levando na garrafa térmica chá de hortelã. Não passei na secretaria e fui direto para a sala 3040. Bati na porta e escutei uns suspiros.

— Eu já estava de saída — dizia ele.

— Gabriel, estou aqui para conversar.

— O que você quer?

Coloquei a garrafa na mesa, corri para a ala da cozinha — que ficava no mesmo andar do quarto do Gabriel — peguei dois copos de vidro e corri de volta para a sala. Quando cheguei, não tinha mais sombra do garoto.

— Que coisa! — falei fumegante.

Andei pelos corredores, de quarto em quarto, ala em ala. Ninguém sabia seu paradeiro. Por fim, cansei daquela busca sem sentido. Sentei nas escadas de emergência, coloquei os copos ao meu lado, e respirando fundo, deitei minha cabeça entre meus braços.

— Meu amor, você não me falou sobre essa parte estressante… Eu tentei, juro — baixinho eu falava e sentia gotas descendo salgadas.

Percebi alguma presença naquele momento. Com o reflexo, olhei rápido e lá estava Gabriel sentado ao meu lado com a garrafa de chá.

— Você fala com algum tipo de anjo? — disse ele colocando chá em um dos copos.

Enxuguei meus olhos com a barra da minha blusa. Semicerrei meus olhos na tentativa de acreditar que ele realmente estava ali.

— Tento pensar que sim — limpei uma lágrima.

Ele sentou ao meu lado. Tomou um gole de chá e esboçou um sorriso.

— Você quem fez?

Balancei minha cabeça negativamente.

— Foi a mãe do meu namorado — disse sem pensar.

Ficamos encarando as paredes por segundos demorados. Peguei um pouco de chá também. Estava morno ainda, assim como Gabriel.

— Gabriel dos Anjos — falou ele tomando mais um gole.

Olhei para ele com uma cara de interrogação.

— Ainda não mostrei minha identidade para as pessoas daqui. Na verdade, acho que eu não tive coragem o bastante. Não queria vir para cá, pensei que como já sou quase maior de idade, iriam me liberar logo.

Escutei aquilo calada. Não conseguia compreender bem os motivos dele. Talvez, seja a primeira vez que alguém consiga ficar tanto tempo nesse local sem apresentar documento de identificação.

— Se você não mostrar, eles devem ir até a sua antiga casa e procurar sua certidão. Vão fazer uma nova identidade.

— Você realmente não entende… Eu não quero ficar aqui, Margot! Essas paredes verdes me deixam enjoado, não me acalmam em aspecto algum. Você não sabe o que é acordar e querer estar em algum lugar que você realmente pode chamar de lar.

Tomei ar.

— De fato… — comecei. — Mas, todas as vezes que eu acordo, é aqui que eu quero estar, porque metade da minha moradia é aqui.

Ambos permanecemos em um silêncio profundo. Minha mente vagueava para vários lados e eu não encontrava uma maneira correta de me portar diante aquela situação.

— Já que não tenho escapatória, e parece que você ficará na minha cola sempre que possível — ele colocou uma mão no bolso e tirou um documento. — Toma. è minha identidade. Espero que você me registre. Também não quero mais ficar aqui como um indigente.

Gabriel saiu das escadas e foi embora.

Analisei sua carteira de identidade. Ele tem dezessete anos, faz aniversário em dezembro, nasceu aqui em Belo Horizonte. Gabriel dos Anjos.

Fui na secretaria e entreguei o documento para as pessoas responsáveis. Com aquilo, seria mais fácil buscar dados mais aprofundados. Bem, era uma superfície, mas já era um passo.

No final do dia, olhei da janela da minha casa as vastas luzes de residências. Enquanto há um garoto que se sente preso em um lar de crianças e adolescentes, nem metade das pessoas entendem o que ele sente. Acho que faço parte dessa afirmação.



∞

Notas finais
♥ até o próximo