Depois daquela carta
6 A conversa
Notas iniciais
Adrien encarava a assinatura da amiga no verso do cartão e, ao relembrar os momentos que passaram juntos, ele sorriu. Pegou o outro poema que a menina tinha escrito, com o título "depois daquela dança" e voltou no tempo ao resgatar aquela noite em que havia fugido de sua sessão de fotos para ir à festa de aniversário de Nino. Logo que chegou, encontrou Marinette, que o ajudou a falar com Nino e, mais tarde, a convidou para dançar. Ao ler os versos escritos por ela pela primeira vez, tinha ficado surpreso ao descobrir o quanto aquele momento tinha sido especial para a amiga, mas agora ele notava que aquela dança tinha sido realmente marcante. Com certeza, nunca esqueceria os longos minutos que ficou encarando a azulada em silêncio. Ela era tão linda e certamente teria roubado seu coração se Ladybug não tivesse feito isso antes.
A declaração de amor da menina por Chat Noir ainda o deixava surpreso. Não esperava que, após derrotar o Gigantitã mais uma vez com Ladybug, escutaria palavras que tanto desejava ouvir de sua parceira. "Eu sou apaixonada por você", disse Marinette e o abraçou rapidamente. Aquilo tinha surpreendido o loiro. Não apenas por ter sido a primeira vez que alguém dizia aquilo para ele, mas pela declaração ter sido feita para Chat Noir e não para Adrien, já que a azulada, naquela noite, não sabia sua identidade secreta.
Não podia negar que ficava diferente quando colocava a máscara. Ele se sentia diferente. Quando se transformava não ganhava apenas os poderes, mas a liberdade que tanto desejava. Com o disfarce, poderia ser quem era.
Adrien não estava preso apenas pelas paredes frias da mansão, mas pelo seu próprio nome. Ele era o filho de um dos designers de moda mais famosos da cidade e não poderia simplesmente fazer o que bem entendesse e falar o que desejasse. Estava preso ao "garoto perfeito" que as propagandas exibiam e que seu pai mostrava. O garoto das capas de revista e dos outdoors. Esse era Adrien, o modelo adolescente mais desejado da cidade. Porém, quando colocava a máscara, era Chat Noir, o herói que não perdia uma oportunidade de fazer piadas idiotas e de tentar conquistar sua lady.
Ele gostaria de ser Chat Noir para sempre. Não queria que existissem diferenças entre o garoto com e sem a máscara, mas era inevitável. Todos achariam estranho se Adrien Agreste começasse a fazer piadas de gato ou a falar o que pensa.
Percebeu que estava preso não só em sua própria casa, mas em sua personalidade. Deveria ser aquilo que seu pai e todos queriam: "perfeito".
***
Marinette esperava ansiosamente a resposta de seu amado para a mensagem que enviara há apenas alguns segundos.
— Por que ele está demorando tanto? — Pensou alto.
— Você já mandou? — Perguntou a kwami, preocupada. Tinha avisado que conversar sobre os poemas na internet não era uma boa ideia, mas a menina não tinha escutado.
— Relaxa, ainda não falei sobre as cartas. Vou esperá-lo responder. — Disse e voltou a atenção para o celular.
***
O loiro ainda estava pensando nas prisões em que vivia quando ouviu o barulho de notificações.
Oi, tudo bem?"A Marinette me mandou uma mensagem?", ele ficou surpreso, tinha o contato dela, mas a amiga nunca havia falado nada. Foi então que um frio inexplicável tomou conta do modelo. "Os poemas! Não, não, não, não! Ela não vai querer falar sobre isso por mensagem né? É um assunto sério, que envolve identidade secreta e tudo mais. Se pegarem o meu celular, podem descobrir tudo. Ela não seria louca de fazer isso!", pensou, encarando a foto da menina. "Relaxa, Adrien, talvez ela só esteja querendo conversar", se acalmava mentalmente e resolveu que não deixaria a amiga sem resposta apenas por ter medo de uma simples conversa sobre poemas.
Oi, estou bem sim. E você?Percebeu que a azulada demorou alguns minutos para responder e que parecia estar indecisa. Uma hora aparecia "Marinette está digitando" e, de repente, ela apagava tudo e desaparecia por alguns segundos. Aquele ciclo ficou se repetindo por dois minutos, o suficiente para o loiro imaginar que ela estava escrevendo um texto sobre seus sentimentos por ele. "Com certeza ela vai falar das cartas", concluiu segundos antes da mensagem chegar.
Estou bem."Ela ficou dois minutos para escrever duas palavras?", pensou, sentindo-se aliviado por não ter se deparado com um texto enorme explicando tudo que estava escrito nos poemas.
Gostei muito da sua sessão de fotos. Elas vão para alguma revista?O modelo percebeu que ela estava tão nervosa quanto ele para falar sobre as cartas, então tentava puxar assunto.
Vão sim, acho que estarão no site da revista mês que vem. Mas vai ter versão física também, caso queira mais fotos para colocar no quarto.Tentou fazer a menina rir para quebrar o gelo, mas ela demorou alguns segundos para responder, fazendo o loiro pensar que não deveria ter feito aquilo. Porém, o que ela mandou logo em seguida o surpreendeu.
Vou querer a versão física sim, quero aumentar minha coleção de fotos suas. Espero que ainda tenha espaço sobrando no meu quartoEle enviou uma risada, surpreso. Nem parecia a mesma Marinette que gaguejava perto dele na escola. "Talvez mandar aqueles poemas se declarando tenha diminuído a vergonha toda que ela sentia", pensou.
Ainda não sei quando será a próxima sessão de fotos, mas, quando souber, vou te chamar. Espero que não fique tão distante como ficou dessa vez.Falou aquilo mais para não deixar a conversa terminar, porque, por alguma razão que não entendia, queria continuar falando com ela. Mas não imaginou que a amiga levaria a última parte a sério.
Eu fiquei com medo de atrapalhar o fotógrafo ou algo assim. Eu sou meio desastrada, poderia derrubar aquela iluminação toda hahah! Mas eu vou na próxima sim, estou esperando o convite.Ele estava pensando no que dizer quando a azulada mandou outra mensagem.
Meus pais estão me chamando, depois nós conversamos. Se importa se for por vídeo chamada?Aquilo o surpreendeu, já tinha conversado por vídeo com Marinette algumas vezes, mas sempre tinha alguém por perto, como Nino e Alya, e agora conversariam sozinhos. Mas não era isso que o preocupava, já tinha falado com a amiga diversas vezes pessoalmente com ninguém por perto. O que o atormentava era aquela pequena possibilidade de ela ter resolvido esclarecer aquelas cartas.
Não me importo não. Te vejo mais tarde!"Me importo apenas se você falar sobre suas declarações de amor. Não quero te decepcionar de novo", pensou, lembrando-se do dia em que Chat Noir tinha dito que não a amava.
***
— Por que você mentiu para ele? Seus pais nem estão te chamando. — Disse Tikki.
— Eu preciso me preparar, não posso simplesmente confiar na minha capacidade de improviso. — A menina pegou um papel e uma caneta.
— E você vai fazer o quê? Um discurso?
— Não exatamente. — Falou, escrevendo as primeiras palavras.
— Espero que não seja um poema com o título "eu sou a Ladybug".
— Fique tranquila, minha identidade vai ficar bem guardada.
Depois de alguns minutos escrevendo, finalmente ficou feliz com o texto.
— E você vai ler? Não vai ficar meio… robótico não?
— É verdade, tem que ser mais natural. Vou decorar o texto!
— Ah, Marinette! Por favor, você não precisa disso.
— Quer que eu faça o quê? Improvise? — A kwami assentiu — Mas isso nunca dá certo! Quando fico perto do Adrien, começo a gaguejar e a confundir as palavras.
— Isso é verdade, ainda não esqueci do triciclo que virou "grão de bico" — A menina fez uma careta e Tikki riu — Mas dessa vez você não vai estar perto dele, vai ser pelo celular. — A azulada encarou o aparelho em suas mãos — Nem sempre você vai ter tempo de fazer um texto para cada situação e vai ter que improvisar. Experimente!
***
O modelo encarava os poemas em suas mãos. Já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha lido aquelas palavras. Se continuasse assim, daqui a pouco iria decorá-las. Então resolveu fazer outra coisa para se distrair. Ficou mexendo no computador durante alguns minutos até que um barulho o surpreendeu: uma vídeo chamada. "Marinette! Ela ligou mesmo!", pensou, sem perceber que um sorriso formou-se em seus lábios.
— Oi! — Disse a azulada.
— Oi! Então, conseguiu fazer os exercícios de física?
— Consegui e ainda não estou acreditando! Fui conferir o gabarito e acertei a maioria.
— Que bom que você conseguiu entender. — O loiro falou, sorrindo. Realmente estava muito feliz pela menina.
— Graças à você e à Alya. Se eu não tivesse ido estudar com vocês, estaria perdida.
— Foi só porque você faltou algumas aulas que não tinha entendido. Você é muito boa, me ajudou a resolver várias questões.
— Eu? Boa? De onde você tirou isso?
— Ah, para, Marinette. Foi você que fez aquele exercício que ninguém estava conseguindo resolver.
— E acabou que estávamos errando a interpretação do texto. — Os dois riram. — Mas é sério, muito obrigada mesmo, você me ajudou muito.
— Eu que agradeço. Costumo estudar sozinho e não imaginei que estudar com outras pessoas seria tão legal. — Ficaram em silêncio durante alguns segundos, até que a menina viu uma boa oportunidade de começar o assunto que a tinha feito ligar para ele.
— Ali é o… Ladyblog? — Disse, apontando para o computador atrás do modelo e percebendo que ele tinha ficado um pouco envergonhado. — Desculpe, foi impossível não reparar, reconheço essa página de longe. A Alya insiste que eu leia tudo o que ela posta. — Ele riu.
— É o Ladyblog sim. Eu estava assistindo ao último vídeo que ela postou.
— Sério? Eu ainda não vi. Não sei como a Alya ainda não me mandou o link da… — O loiro escutou um toque de notificação do celular de Marinette — É, ela acabou de mandar. — O modelo riu.
— É o vídeo daquela batalha que teve na escola esses dias.
— Ah, daquele aluno da outra turma que foi akumatizado e atacou nossa sala?
— Sim, esse mesmo.
— A Alya ficou louca nesse dia. Ela conseguiu fugir da sala e filmar a luta toda.
— A filmagem ficou muito boa mesmo. Quer ver? — A azulada assentiu, o loiro aproximou o celular do computador e iniciou o vídeo. Mas Marinette não prestou muita atenção na tela, estava preocupada com o que iria dizer, tentando lembrar das palavras que tinha escrito no texto. Agora que Ladybug era o assunto, poderia comentar sobre o poema "segredos", dizendo que sabia da paixão de Adrien pela heroína, mas estava disposta a conquistar seu coração. Quando o vídeo terminou, não conseguiu deixar de notar o brilho nos olhos de seu amado.
— Pelo visto você gosta mesmo da Ladybug. — Disse, um pouco nervosa para iniciar aquele assunto.
— P-por que você acha isso? — Percebeu que ele estava corado.
— O brilho nos seus olhos… parece com os meus quando estou perto de alguém que admiro muito. — O modelo encarou a foto da heroína em seu computador.
— É, eu… gosto muito da Ladybug. Ela é uma das garotas mais incríveis que eu conheço. Tão corajosa e sempre disposta a ajudar as pessoas, não importa o risco que terá que correr. Ela não apenas luta contra os vilões, ela luta pelas pessoas. Tenho certeza que, por trás da máscara, existe uma garota maravilhosa, que está sempre disposta a fazer o melhor que puder pelos outros e que tem a capacidade de mudar o mundo. — Virou-se para o celular, percebendo os olhos arregalados da amiga. Foi quando notou que ela não estava olhando para ele. Rapidamente, encarou a própria imagem na vídeo chamada, encontrando seu pai em pé atrás da cadeira em que estava sentado, provavelmente se perguntando por que ele não estava tocando piano.
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