Depois da tempestade vem a bonança
1 Único.
Notas iniciais
A tristeza profunda e a agonia destrutiva acompanhavam os dedos machucados; Sakura o abraçava.
Não haveria mais nada além dos sons de suas respirações terminando e recomeçando em um ciclo infinito.
O mundo deles se modificou e se resumiu em um ritmo escandaloso com o passar de poucos meses. Mesmo que pudessem voltar no tempo provavelmente não conseguiriam acreditar em um final como aquele ainda que informados. A vitória era tão certa.
Feliciano não parecia tão bem, mas enquanto a observava mantinha o sorriso. Sabia que como a fragilidade de um espelho quebradiço o único tocar naquela face com dedos gastos seria o suficiente para a aniquilação.
Era incrível como poderia ser o único que ainda não tinha derramado uma lágrima. Nunca como aquele momento o tinha visto tão decidido. O amava há muito tempo também ainda que provavelmente não da forma que imaginava.
Nem que ela tivesse que se tornar um monstro seguraria aquelas mãos feliz. O céu escuro expressava o descontentamento com as gotas d’agua. Sem um guarda-chuva ele a convidou a dançar. Ainda demoraria para a decomposição eterna.
Ela aceitou a dança com um sorriso mínimo. Um quimono simples cobria o corpo da garota. Curativos também estavam ali para lembra-la de sua derrota. O corpo doía, mas falhou em reprimir uma risada. Pétalas murchas de flores que traziam seu nome se deslocavam com a ação do vento hostil. A morte chegava e parecia abençoá-los.
A pele de Sakura estava quente de febre e os movimentos suaves eram o bastante para desestabilizá-la. Em um momento Feliciano tropeçou e a levou junto a si. Ele fez um cafuné em seus cabelos. As mechas estavam malcuidadas pelo tempo de isolação. Se não fosse a companhia de Feliciano estaria trancada no quarto escuro a lamentar.
Sakura nada havia dito para agradecê-lo pela mão estendida; não conseguiu dizer o que queria.
Diferente do que o outro achava e dizia ela não era uma boa garota. Sakura encostou os lábios nos de seu amigo. O corpo dele devia estar tão pesado quanto o dela pela luta. Os olhos castanhos do italiano demoraram a expressar alguma coisa.
O brilho de Feliciano se tinha perdido como a fragrância das flores ao serem tiradas de seu lar. Ele, que queria estar ao lado de seus amigos, devia ter sofrido como ninguém por ficar parado e isolado.
Uma surpresa pequena nasceu na íris castanha dele; Sakura não tinha certeza se deveria entender de forma positiva. Cautela quanto a assuntos desconhecidos também era encontrada no corpo contrário. O rosto frio e pálido de Feliciano tratou de ganhar uma cor que quase não era percebível a olho nu.
Era injusto a japonesa liberar os sentimentos dessa forma; mas as educações naquele momento não faziam sentido em sua mente em estado de fragmentação.
Um sorriso sem jeito se desenhou vagaroso nos lábios de Feliciano. O tom de censura saiu mais brincalhão que qualquer outra coisa:
— Amigos não se beijam assim, sabia?
Sakura não tratou de dizer nada. Concentrou-se em respirar, suportar a febre, a dor que a atingia dos ferimentos, e uma vergonha póstuma ao ato.
— Sakura. Ei.
Sentiu umas tapinhas leves no rosto. Entendia o tom preocupado de seu amigo: ceder ao sono por um tempo prolongado em seu caso seria problemático.
Mas seus olhos estavam fechados há alguns instantes por motivo diverso. Quando que podia escutar as batidas do coração contrário com tanta clareza?
— Me desculpe por isso Feliciano-kun... — Sakura disse segurando um suspiro para si.
Sakura segurou um pedaço do tecido da roupa de Feliciano enquanto ele a ajudava a se levantar. Não era por muito tempo que suportava o contato de pele contra pele então logo afastou a ideia de andar de mãos dadas até o final do percurso.
Ainda sentia a ardência do momento da dança em suas mãos sensíveis e não era tão ruim em seu cérebro quanto em seu corpo.
A chuva em algum momento parou. Ele não a entenderia. Pelo menos não naquele instante. Isso a entristeceu ainda que a alegrou. Porque ela estaria fora da miséria ao lado dele, não importasse de que jeito.
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