Depois da morte de Augustus Waters
24 Capítulo 23
Notas iniciais
Tam du du du. Tam du du du.
– Alô?
– Hazel! Hazel! Você não vai acreditar! — gritou Isaac eufórico do outro lado da linha.
– O que aconteceu? — perguntei. — Bom ou ruim?
– Maravilhoso, Haz! Vamos poder fazer cirurgias nos hospitais privados e com o dinheiro poderíamos até morar lá pagando quartos privados!
– Como assim "com o dinheiro"? De que dinheiro você está falando Isaac? -perguntei começando a rir do jeito dele.
– O dinheiro Hazel! O dinheiro que a gente ganhou na loteria!
– O quê? — fiquei voltando no tempo na minha mente, quando eu tinha comprado um bilhete na loteria? E com o Isaac! — Que bilhete é esse? — questionei.
– Você não lembra? Não ficou com você? Quando você veio aqui em casa, fomos na loteria, dividimos o valor, escolhemos os números e tudo.
– Ah, sim, sim. Lembrei. O bilhete. Sério?! Aquele bilhetinho?!
– É!
– Você tá com ele aí? — perguntei.
– Não... Você tinha ficado com o bilhete lembra?
– Não, não. Eu não lembro onde botei! Não achei que seria interessante!
– Como não seria interessante? É um bilhete da loteria! Pode ser sorteado como todos os outros! — ele retrucou com a voz um pouco mais alta.
– Desculpe! Eu-eu vou procurar. Deve ter ficado na minha bolsa, então. Te ligo mais tarde.
Isaac deu um suspiro antes de responder.
– Tudo bem, desculpe, fui meio grosso com você.
– Não foi nada. A culpa é minha mesmo.
– Não, a culpa não é de ninguém. Só quero voltar a enxergar, sabe... — sua voz foi diminuindo.
– Vou achar o bilhete, e você pede para sua mãe procurar pra você, ok? Nós vamos achar esse bilhete.
– Isso aí. — ele animou.
– Até logo. — falei.
– Até. — e eu desliguei e comecei a procurar.
Procurei direto na bolsa que eu saíra aquele dia, mas não encontrei.
– Merda! Onde eu coloquei esse bilhete?
Olhei nas gavetas do meu criado mudo, no roupeiro, dentro das calças, bolsos de casacos, até meus pulmões começarem a cansar.
– Mããããe! — chamei.
– Que foi? — escutei ela correndo até pé da escada, provavelmente se controlando para não subir correndo e ver se eu estava passando mal.
– Pode vir aqui? — pedi.
– Claro. — e em um instante ela apareceu na porta do meu quarto. — Que houve? — não deixei de sorrir, minha mãe sempre tão sensata, sempre pronta pra mim.
– Você viu algum bilhete de loteria por aí?
– Bilhete de loteria? Que história é essa agora? — ela riu.
– Eu e Isaac tínhamos jogado na loteria, só que perdemos o bilhete. — expliquei.
– E deixa eu adivinhar: vocês ganharam? — brincou.
– De acordo com o Isaac, sim, ganhamos. — respondi.
– Ah, meu Deus, Hazel! É verdade? — perguntou arregalando os olhos.
– Sim, mãe. — falei rindo. — Mas depois nós falamos sobre isso, precisamos encontrar o bilhete, porque sem bilhete ninguém vai ganhar dinheiro nenhum.
– Tem razão... — concordou. — Ganhar na loteria? Uma chance em um milhão! — sussurrou.
....
– Não fazemos a mínima ideia de onde possa estar o bilhete, filha. — comentou meu pai. — Já procuramos por tudo.
– Só pode estar com o Isaac então, vou telefonar para ele. — falei. — Já volto.
Depois de quatro toques ele atendeu.
– Sou eu Isaac, conseguiu encontrar o bilhete? — falei indo direto ao ponto.
– Ah! Haz, Maria também não está achando. — contou.
Maria era a empregada do Isaac, ela cuidava dele e do Graham enquanto a mãe deles saia para trabalhar.
– Meu Deus! Onde colocamos esse bilhete? — perguntei frustrada.
– Calma, nós vamos achá-lo, será que a gente pode tê-lo perdido?
– Isso seria muito ruim.
– Quer vir aqui em casa? — perguntou do nada.
– Eu ia continuar procurando o bilhete fujão... — falei.
– É que faz tempo que eu não vejo você.
– Pois é. Bom, posso te ajudar a procurar por aí.
– Iria ser ótimo! — Isaac concordou com malícia e eu ri.
– Só um minuto então. — afastei o telefone do rosto e gritei para a minha mãe:
– Mãe!! Posso ir na casa do Isaac? Nós vamos procurar o bilhete lá!
– Tudo bem! Mas seja rápida pra se arrumar!
Coloquei o celular de volta no rosto:
– Ok, estou indo. — avisei.
– Agora? — perguntou
– É.
– Quando o assunto é vir aqui você nem pensa duas vezes. — brincou e nós rimos.
– E você não perde nem um minuto. — retruquei. — To saindo, beijo.
– Beijo. Até. — e eu desliguei.
Coloquei uma blusa mais bonita, escovei o cabelo e passei um gloss e então fomos para lá. Foi bem rápido por que minha mãe estava com um pouco de pressa, já que ela ia fazer um teste tal para se tornar uma Patrick.
– Oi, Haz. — falou Isaac segurando aquelas varetinhas de metal quando Graham abriu a porta.
– Oi Isaac. Oi Graham. — falei.
– Oi. — disse o garotinho. — Isaac estava doido para você chegar. — confessou fazendo Isaac ficar vermelho no mesmo instante.
– Cale a boca, Graham! — e o garoto saiu correndo.
– Imagino. — falei rindo para descontrair.
– Entra aí. — convidou ainda meio rosado.
– Beleza. — respondi.
Caminhamos em silêncio até o quarto. Quando chegamos lá, Isaac falou:
– Nenhum sinal de vida do bilhete. — e eu falei uma coisa nada a ver com o assunto:
– Você fica fofo quando está com vergonha.
Isso deixou ele um pouco vermelho, mas dessa vez ele não se abalou.
– Eu sou fofo, Hazel Lancaster. — e nós rimos.
– Nem um pouco convencido.
– Claro, porque sou 100% fofo aí não sobra nada para as outras coisas.
– Não. Eu disse que você fica fofo quando está com vergonha. Na verdade eu nunca vi você com vergonha. — confessei.
– E na outra parte o tempo? A parte quando eu não estou com vergonha, eu sou o que? — perguntou.
– Você é engraçado.
– Sou 98% engraçado e 2% fofo?
– É. — concordei rindo.
– E meu percentual de beleza? Eu não sou mais aquele charme de pessoa? Ah é, esqueci que é minha mãe que cuida da minha aparência agora. — brincou.
– Seu percentual de beleza é um. — cutuquei.
– Um?! Eu fiquei tão feio assim? — ele retrucou e apenas ri. — Mas você ama esse 1%, né?
– Aham. — concordei e nós rimos.
Enquanto Isaac ria percebi que seu cabelo tinha crescido, de modo que ele ficava bem descontraído, como se não tivesse preocupações. E parecia ter ganhado mais massa corporal também.
– Tá tudo bem? — ele perguntou com a mão no ar.
– Ah? Tá, sim. Fiquei viajando na maionese. — ele deu uma gargalhada.
– Viajando na maionese! — e deu outra gargalhada.
Isaac estava muito bonito. E meu coração acelerava só de olhar pra ele. Nessas horas eu não sei se era conveniente ou não o fato dele ser cego.
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