Essa mulher tá estranha.

Katsuki percebeu que tinha algo de errado assim que ela chegou em casa depois do trabalho. Mesmo nos dias mais extenuantes, Ochako sempre chega tagarelando sobre o dia dela, o novato na agência que é meio afobado, o vilão que a fez pensar em como bem e mal podem ser conceitos flexíveis às vezes, a garotinha que ela salvou e disse que quer ser como ela quando crescer, os fãs que pediram pra ela dizer pro Ground Zero continuar dando seu melhor, o almoço, o trânsito, o aniversário do Quatro-Olhos, o cachorro da vizinha… não falta assunto com ela. Antes ele achava que Ochako falava muito pois ainda tava com a adrenalina meio alta depois de um dia de trabalho alucinante, depois pensou que ela falava pra preencher as lacunas de diálogo que Katsuki deixa, as respostas dele à pergunta “Como foi seu dia?” não variam muito além de “Foi foda.” ou “Do caralho!”, mas não, ela sempre tá exausta e mais calma depois do trabalho, e o fato de ele não ser do tipo que se abre sobre os perrengues do dia a dia jamais foi um problema pra ela, sempre foi assim desde o começo do relacionamento deles. Quando percebe que ele tá na merda, Ochako não fica em volta perguntando “Quer falar sobre isso?” ela só encosta a cabeça no ombro dele, e os dois ficam ali, num pacífico e reconfortante silêncio que pode durar minutos ou horas, não importa, sempre lhe faz bem

Então se ela partilha sobre seu dia, é simplesmente porque gosta mesmo, e ele gosta de ouvi-la, a paixão dela pelas coisas mais ínfimas do cotidiano, tornando-as em algo magnífico, sempre o deixa mesmerizado, mesmo depois de dois anos e meio de casados.

E é por isso que tem algo estranho hoje, Ochako chegou e cumprimentou-o com um rápido selinho, anunciando que ia tomar banho e que ele não precisava cozinhar pois ela trouxe comida, o sorriso dela era claramente o de alguém muito cansado, então ele nem reclamou com sua esposa trazendo comida de algum lugar aleatório de novo, só acenou com a cabeça e a deixou ir tomar seu banho em paz. Às vezes é a única coisa que ele quer quando chega em casa depois de um dia corrido e precisa botar a cabeça no lugar.

Katsuki põe a mesa enquanto ela tá no banheiro, e pega o celular pra dar uma olhada rápida nas notificações enquanto a espera pra jantarem juntos — o que é meio raro devido aos horários loucos deles em suas agências — mais do mesmo, blá blá blá, notícias sobre ele, sobre o Deku, sobre o Meio a Meio… e sobre ela.

“Uravity impede acidente e realiza parto na rodovia”

Caralho! Ele abre a notícia e se surpreende ao ver que essa manchete, ao contrário da maioria, não aumentou os fatos, é a mais pura verdade. Um carro perdeu o controle na rodovia, Uravity estava voltando de uma missão na van de sua agência, da qual saltou assim que viu o carro desgovernado. Ela tocou o veículo, que se tornou leve como um carrinho de brinquedo e o impediu de capotar. Todos pensavam se tratar de um fugitivo de algum assalto, mas não, era um casal, um homem desesperado levando sua esposa em trabalho de parto para o hospital. Uravity avaliou a situação e pediu para a viatura policial que chegou logo depois correr com a mulher pra um pronto-socorro, mas não havia tempo, o bebê já estava coroando — seja lá o que isso significa. Muito calma, a heroína passou instruções para o colega que estava com ela e os policiais, e simplesmente fez o parto com a postura de uma obstétrica com anos de experiência, isso tudo segundo os relatos da polícia e do cara que acabara de virar pai de um menininho saudável.

A notícia traz uma foto da Uravity segurando o pirralho, não dá pra ver pois ele tá enrolado em um pano, mas a posição dos braços e o cuidado dela com o que segura deixa bem claro do que se trata. É daquelas fotos que pode render ao fotógrafo um prêmio, simples e cheia de significados, e Ochako tá incrível! Sorridente, exaurida, aliviada e muito… feliz. A expressão dela nunca lhe pareceu tão familiar e tão desconhecida ao mesmo tempo.

— Ah, não precisava me esperar. — ela diz ao se sentar de frente pra ele à mesa.

— Tsk, claro que precisava. — ele resmunga e serve a comida nos dois pratos — Então…

— Hum? — ela mexe na comida, aparentando estar desinteressada.

— Como foi o trampo hoje? — Katsuki a observa atentamente.

— Ah… o de sempre… — Ochako dá de ombros — E você?

— Tsk, só o Deku enchendo o saco com uma campanha publicitária de segurança no trânsito. — ele resmunga.

— Ah, segurança no trânsito é importante, né? — ele espera, imaginando que ela vai aproveitar o ensejo e emendar o assunto sobre o incidente de hoje, já que tem a ver com trânsito, mas… ela não o faz, só volta sua atenção pro prato e continua a comer.

E o resto do jantar prossegue em um atípico e desagradável silêncio.

Ela se deita antes dele, o que também é incomum. Normalmente Ochako fica madrugando com seus relatórios e pesquisas que faz para missões de reconhecimento. No começo do relacionamento, ele se levantava no meio da noite pra mijar ou beber água e a lembrava de que já tava tarde, hoje nem liga mais, já entendeu que, assim como ele prefere se organizar de manhã, ela prefere fazê-lo à noite, até dizendo-lhe uma vez: “Minha vó me dizia pra sempre dormir antes de tomar uma decisão importante, pois ninguém toma boas decisões depois da meia-noite. Mas, se você for parar pra pensar, qualquer hora sempre vai ser depois da meia-noite, né?”, ele nunca viu lógica nesse miguezão dela, mas entende como ela é. Tá dando certo, Ochako é uma heroína e esposa fodonas de quem ele se orgulha pra caralho.

Mas sua esposa fodona tá esquisita, e ele decide que vai perguntar se tá tudo bem amanhã de manhã, se não pessoalmente pois talvez não dê tempo, pelo menos por mensagem. Katsuki se deita ao lado dela e já tá virado pro lado oposto, quase pegando no sono.

— Katsuki?

— Hm? — ele grunhe.

— Eu… fiz um parto hoje.

Ele poderia dizer “Eu sei” e encerrar o assunto pra poder dormir, mas não o faz. Acende a luz do abajur e se vira pra ela, que tá sentada e tocando as bolinhas de seus dedos nervosamente.

— Ah é?

— Uhum. Tinha um carro desgovernado na rodovia e eu já me preparei pro pior, mas era um casal, o moço tava desesperado porque a esposa tava em trabalho de parto, aí… o pronto-socorro mais próximo era bem longe, né? Coloquei a moça na viatura que chegou depois, mas não ia dar tempo, aí… eu fiz o parto. Não tinha a menor noção do que tava fazendo e tava tão apavorada quanto o marido dela, mas… fiz o que deu, no fim ficou tudo bem.

— Que bom.

— Sim… os policiais ajudaram muito, mas se procurar notícias sobre isso, vai parecer que eu fiz tudo sozinha, a moça mesmo, ela agradeceu só a mim, disse que eu era um anjo. — ela dá uma risada nervosa. Katsuki pensa em dizer que concorda com a moça, mas percebe que elogiá-la vai entrar por um ouvido e sair pelo outro no momento.

— Tinha alguma policial junto?

— Não, os dois eram homens.

— Então deve ser isso, ela agradeceu mais a você porque era a única mulher ali, é aquele papo de que só uma mulher consegue entender a outra, ainda mais… ainda mais em algo assim, né?

— É, talvez…

— Então só aceita o mérito, não duvido que os policiais tenham te ajudado, mas tenho certeza que você fez por merecer todos os elogios que tá recebendo. — então era isso? Ela tá sentindo que recebeu mais crédito que devia? Tsk, vez ou outra ela vem com essas besteiras de que teve ajuda de fulano, de que deu sorte e blá blá blá, sempre uma desculpa pra não aceitar que ela é fodona, ele não tem muita paciência pra esses papos, mas não tá a fim de briga, então se inclina na direção dela para dar-lhe um beijo de boa noite e encerrar essa conversa, pelo menos por ora.

— Eu quero ter um filho, Katsuki. — ele congela onde tá e a encara, o tom dela é enervado, mas o olhar é determinado.

— Ou filha, né? Não dá pra escolher o sexo assim.

— S-sim, ou… ou filha, eu… quero engravidar e… formar nossa família.

— Ochako, é uma puta decisão séria — ele começa — afeta nós dois, mas afeta muito mais você, cê sabe, né?

— Claro que sei, meu corpo vai mudar, eu vou ter que dar um tempo na carreira e… e…

Tudo mudaria, claro que às vezes ele sai de casa e o sombrio pensamento de que pode não voltar passa vagamente por sua cabeça, mas Katsuki sabe que caso algo tão fodido acontecesse, ela seria forte o bastante pra continuar seguindo em frente, e é o que iria querer dele caso fosse o contrário também. Com uma criança em jogo, tudo muda. Ter um pirralho é viver com medo e cautela, não poder se jogar de cabeça em uma missão nem desafiar a morte, colocar a vida de um fedelhinho na frente da dele próprio e das milhões de vidas que precisa salvar todo dia.

— É muita coisa em jogo, Ochako.

— Eu sei, e… eu quero tentar. Sei que a gente faria dar certo, Katsuki. Você… você nunca pensou nisso?

Sim, uma caralhada de vezes. Mas quanto mais ele pensava nisso, mais inquieto ficava. A ideia de ser pai, de partilhar isso com ela, o deixava empolgado. E depois nervoso por ficar tão empolgado. Ground Zero apareceu no top 3 do ranking pela primeira vez esse ano, ela apareceu no top 15, com grandes chances de chegar ao 10 ano que vem, tá tudo correndo muito bem, um bebê viraria tudo de cabeça pra baixo e…

E seria incrível.

Não, não seria.

Ele seria um ótimo pai.

Não, não seria.

Eles seriam ainda mais felizes.

Sim, muito.

Mas… aargh, droga!

— Não. Tá cedo demais pra pensar nisso, a gente tem nosso trabalho-

— Sempre vai ser “cedo demais” até que… até que seja tarde demais. Não sou como você, meu corpo tem um certo tempo pra isso.

— Tenha dó, Ochako! Você tem 25 anos e tá falando igual a uma quarentona! — ele revida — Você só tá emocionada com o que rolou hoje, dorme um pouco e amanhã a gente conversa sobre isso.

— Ok… — ih, porra! O “ok” que indica que nada tá ok! — então você pode ir dormir no sofá.

— Que p- O que eu fiz pra ter que dormir no sofá?

— Nada, só não sei se vou conseguir dormir do lado de alguém que acha que um assunto desses se resolve com um “dorme que passa”. — ele a olha, indignado, mas Ochako não recua, até que suspira — Se você não vai, eu vou.

— Tsk. — ele se levanta, segurando seu travesseiro e sentindo-se um idiota quando sai do quarto e se aninha no sofá.

Quem olha de fora sempre vai achar que esse casamento é formado por uma fada gentil e sensata e um maluco impulsivo e irresponsável. Mas quem os conhece de verdade sabe que a realidade é bem distante disso. Katsuki pensa nas coisas até demais, Ochako não pensa nas coisas o suficiente.

Mas ela tinha seus argumentos prontos, como se tivesse ensaiado o que diria, como se… tivesse pensado a fundo nisso e tomado a melhor decisão porque está pronta e sabe que, se existe uma época mais propícia pra isso, seria agora.

Ela seria uma ótima mãe.

Sim, seria.

Eles seriam ainda mais felizes.

***

Ochako acorda de um sonho já intranquilo e checa o relógio: uma e meia da manhã. Ela se vira na cama, um pouco surpresa por estar sozinha até se lembrar que o expulsou do quarto.

Ela exagerou, e o Katsuki não tava completamente errado, o incidente de ontem a deixou abalada, mas não despertou nada inconsciente, só… ressuscitou pensamentos que ela vinha tendo há um tempo. Não existem motivos práticos ou lógicos para querer ter filhos, na verdade, quanto mais logicamente ela pensa, mais tende a recuar da ideia. Filhos custam caro, e não apenas referente a dinheiro, eles demandam tempo, atenção… é muito diferente de salvar uma vida durante o trabalho, é uma vida que viria dela e estaria eternamente ligada a ela, isso é assustador!

Assustador e maravilhoso...

Ela quer ser mãe, Ochako é muito grata a sua e a admira mais que qualquer herói, seria uma realização enorme poder passar esse legado adiante para alguém que seria fruto de muito amor, respeito e confiança. Seria o maior desafio da vida deles, um cheio de resultados incertos, e nem ela nem Katsuki têm o hábito de fugir de um desafio e se jogar ao desconhecido, fazem isso desde que se apaixonaram um pelo outro.

Ela se levanta para acordá-lo, pedir desculpas e tentar convencê-lo de voltar para a cama. Do jeito que ele ficou, é capaz de preferir dormir no sofá por pirraça, mas não custa tentar…

Ué, cadê ele?

Katsuki não tá no sofá, ela dá uma olhada na cozinha e nem sinal também. Então ela vê uma luz azul clara vindo do escritório dele. Será que ele tá acordado a essa hora? Não é muito do feitio dele.

Ele está usando óculos, olhando atentamente para a tela do computador, nem percebe sua esposa observando-o da porta. Ochako morde o lábio e adentra o cômodo, abraçando-o por trás e enterrando o rosto nos cabelos sempre rebeldes dele. Para seu alívio, ele não recua, move a cadeira para o lado dela e a faz sentar em seu colo.

— Desculpa, eu exagerei. — ela murmura no pescoço dele.

— Mas não tava errada também. Foi escroto eu falar pra você ir dormir porque tava emocionada com o que aconteceu ontem, até porque nem tem tanto a ver, tem? Você… já tava pensando nisso já tem um tempo, não tava? — ele sempre foi muito mais observador do que as pessoas imaginam, e ainda assim nunca falha em surpreendê-la nesse sentido.

— Sim, há um tempo… — Ochako procura os olhos dele, e… ah, ali está! — Você também? — ele confirma suavemente — Uau…dois anos de casado e a gente ainda deixa de conversar sobre um montão de coisa, né?

— São dois anos E MEIO, Bochecha. — ele dá um peteleco no nariz dela, fazendo-o olhar feio enquanto ri — Mas é, a gente tem que dar um jeito na nossa comunicação antes do pirralho chegar.

Ochako arregala os olhos e começa a piscar sem parar, pronta para mandá-lo à merda por fazer piada com algo tão sério e importante pra eles, e então ele dá uma daquelas raras risadas suaves que a fazem se sentir uma adolescente bobinha e apaixonada, ela sorri na tentativa pífia de segurar as lágrimas.

— Ou pirralha, não dá pra escolher o sexo assim.

— Até dá, tava lendo aqui sobre bebês geneticamente programados, sabia que isso era uma puta controvérsia há um tempão? Hoje em dia é normal, muitos casais de heróis procuram clínicas pra garantir que a criança não nasça com uma individualidade fodida pra ela e pros outros, também dá- — ela se inclina na direção do computador e fecha o navegador, notando as inúmeras páginas que ele abriu sobre o assunto — Ô, eu tava lendo!

— É melhor parar antes que você pire. Já tá tarde, vamos dormir.

— É? A gente vai dormir mesmo ou vai… começar a produção de neném? — ele tira os óculos e se aconchega no pescoço dela, beijando e mordiscando daquele jeito que ela gosta.

— Calma lá, senhor produtor, eu tô tomando pílula. — ela ri, segurando-se pra não se entregar às provocações dos beijos dele e levantando-se da cadeira — Só... volta pro quarto, por favor.

É o que ele faz, e eles mal estão deitados quando se beijam apaixonadamente, o tipo de beijo que com certeza vai levar a algo a mais, mesmo que ainda não seja a um filho pois ela ainda tá tomando pílula. Eis a primeira providência a se tomar: parar com o anticoncepcional. É até bem simples, daqui pra frente, providências mais difíceis e desafiadoras terão que ser tomadas, mas ela tá animada.

Só que…

— Katsuki, você… você tem certeza? É como você disse, é uma decisão bem importante e… mmm, delicada. Talvez a gente devesse conversar melhor sobre isso outra hora, sabe, minha vó sempre me dizia que nenhuma boa decisão é tomada depois da meia-noite… — ele interrompe os beijos e a encara com um brilho zombeteiro e… muito contente no olhar.

— Toda hora é depois da meia-noite, Bochecha. — e ele volta a acariciá-la e explorá-la.

O argumento dele não faz o menor sentido, assim como ter um filho.

Mas ela sente que eles serão ainda mais felizes.

Notas finais
Essa one… não tá tão boa quanto eu lembrava, mas ainda assim espero ter me redimido da crackfic. Originalmente, eu iria pular o dia #5, que é Família, por não curtir muito o tema, não tenho muito interesse em fics sobre isso, gosto mais de escrever sobre a dores e as delícias do começo de um relacionamento ao invés de toda a maturidade e sensatez que uma fic sobre casal com filhos exige, sem contar o fato de eu mesma não querer ter filhos. Não sei como pessoas que desejam isso pensam, então não sabia como escrever, por isso planejava não fazê-lo, mas ah… bateu a ideia sobre eles discutindo a possibilidade, com todas suas dúvidas e inseguranças, eu tava de férias e sem nada pra assistir, melhor escrever quando é pertinente do que deixar essa ideia rondando minha cabeça. Eu vejo duas saídas pra essa fic: eles foram em frente e, em menos de quatro anos, tiveram dois filhos, como a capa sugere. Ou então, eles perceberam que talvez tenha sido uma ideia muito passional e esperaram mais alguns anos, deixo que você imagine aí o que te parece mais certo de acordo com suas próprias convicções. Obrigada por ler!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!