Depois da meia-noite
1 Capítulo Único.
Meu primeiro namorado foi em 1997, nós tínhamos sete anos e ele era perfeito em pegar a minhas mãos. Andávamos juntos durante o intervalo e ele até mesmo me emprestava seu lábis de cor de 48 cores. Era o paraíso!
O segundo, foi na terceira série, eu me apaixonei por ele enquanto brincávamos de pega-pega, demorou um pouco para notar que Matthew estava me empurrando porque na verdade, ele gostava de mim. E ele parecia um anjo! Quase literalmente... Matthew tinha lindos cabelos loiros e enroladinhos e olhos azuis, eu me lembro bem de soltar suspiros para todas as direções.
Ah, o amor inocente!
Meu próximo namorado, foi alguns anos depois, na sétima série.
O nome dele era Gabriel e foi aí que começou minha terrível lista de péssimas escolhas. Gabriel era um daqueles garotos que riem de você e piscam para as outras meninas, ele era só um ano mais velho, mas terrivelmente parecia ser dois anos mais novo. Bem, ele podia ser baixinho, mas tinha olhos e mãos lindas. O que é claro, não foi o bastante para fazer com que eu passasse mais de três semanas sendo sua namorada de colégio.
Depois disso eu resolvi estudar — por livre e espontânea pressão, Donna pensou, que se me enchesse de cursos eu abandonaria meus namoradinhos. Doce engano de mamãe. Quando comecei meu primeiro curso de informática básica eu conheci James.
Ah, James!
Ás vezes sinto falta de James.
James era lindo, era doce e era inteligente. Com meus quinze anos James era o amor de minha vida, naquela idade, eu podia jurar de pés juntos e dedos cruzados que iriamos nos casar.
Mas na verdade, o namoro só chegou a durar três meses. Que foi o tempo que eu fiquei no curso. Acho que James foi o único bom namorado que tive, e bem, as possibilidades eram gigantescas!
Houve o Lucas — guitarrista, o Andrew — pianista, o Michael — pintor (que não pintava absolutamente nada, nem eu), o Ethan — traidor, o Ryan — infeliz, e o David, o Nicholas, o Tyler, o John, o Nathan, Aidan e havia Ray Palmer.
Eu odiava o dia dos namorados e tudo exclusivamente por culpa de Ray Palmer.
Veja bem, em todo dia dos namorados, algo especialmente ruim pode me acontecer.
Quebrar uma perna, cair da escada, o cachorro de estimação morrer atropelado, ser presa, ser roubada... Ah, e ser vergonhosamente traída em meu próprio apartamento.
Eu amaldiçoava até a centésima geração de Ray Palmer.
Que ele nunca, jamais, na vida dele... Consiga transar com uma mulher sem se lembrar do meu salto em sua bunda!
Ray era aquele vestido de grife que depois de dois anos começa a descosturar, então você se dá conta de que a maldita vendedora te passou a perna, bem, a mãe de Ray Palmer é uma bela de uma mentirosa. Quando eu o conheci, com vinte anos, Ray era o sonho de qualquer garota. Charmoso, bonito, bem sucedido e rico. Bem, ele era uma belo pacote. Mas era só isso.
Eu o encontrei em meu apartamento, adoravelmente nu como veio ao mundo junto de uma ruiva tingida. Meu primeiro impulso, é claro, foi gritar. Meu grito os atrapalhou tanto, que Ray acabou bem, quebrando aquilo lá... Mas eu também não me apiedei com sua dor, claro que não! Se ele queria enfiar-se onde não devia, ele que lidasse com as consequências e bem, eu também não iria facilitar, confesso que foi um impulso muito cruel mas também muito justo. Eu peguei meu salto de doze centímetros, recém saído do asfalto esburacado de Central City e joguei em sua direção.
O salto acertou em cheio... Sua bunda.
Ray foi parar no hospital e eu na delegacia. Mas ainda sinto um gostinho de satisfação sempre que me lembro da sua foto em todos os jornais.
Uh, "Ray Palmer estrapola durante a noite para em hospital". Quem disse que a vingança não é doce?
O fato é que após o episódio Ray Palmer, eu havia decididamente vetado a palavra namoro do meu dicionário.
Sem namorados, sem homens, sem dia dos namorados, sem situações cômicas e assustadoras.
Felicity Smoak não veio ao mundo para sofrer e certamente, não para namorar.
Era exatamente por isso que eu observava o rosto chateado de minhas duas melhores amigas. Elas não entendiam o nível de azar e desastre da minha vida.
- Vamos lá, Felicity! — Helena sentou-se em minha frente e eu girei minha cadeira, voltando a fitar o computador com o propósito de ignora-la. — É só um dia, que mal há?
Eu abaixei meus óculos, encarando-a com os olhos estreitos. — Que mal há? Absolutamente todos os males! Não vou sair de casa hoje e ponto.
- Felicity! — Sarah se sentou ao lado de Helena, apoiando as mãos autoritariamente em minha mesa de vidro. — Não vai acontecer nada.
- Exatamente. — Elas abriram um sorriso, convencidas. — ... Porque eu ficarei em casa!
- Mas é dia dos namorados! — Resmungaram juntas.
Dei de ombros, continuando a digitar em meu computador. — E eu estou cheia de trabalho. Vocês sabiam que Walter está arrancando meu couro? Eu estou aqui, dando uma de promotora de festas! — Eu encarei minhas amigas, resmungando como uma velha. — E tudo isso por causa de Oliver Queen, esse bendito homem não podia nem mesmo organizar a própria festa?! Daqui a pouco eu estarei servindo cafezinhos para ele! Como se fosse possível, eu ficar servindo as coisas assim... Até parece...
- Felicity! — Gritaram juntas e eu me calei.
- Ops. — Suspirei, afastando-me da máquina para encara-las. — Olha garotas, sinto muito ok? Vocês bem me conhecem e eu já tive uma lista extensa de namorados, então sem homens por hoje... sem mulheres também, claro — me apressei a explicar — quero dizer, sem namoro, namoro nenhum. Nem homem e nem mulher e nem tipo, aquela coisa que é os dois...
- Felicity! — Helena chamou minha atenção e eu suspirei. — Tem mesmo certeza? Vai ser divertido. Vamos a Verdant e podemos só dançar...
- Sem homens e sem mulheres. — Acrescentou Sarah com um tom sugestivo.
Revirei meus olhos.
- Ca-sa. — Murmurei lentamente, gesticulando com os dedos. — Ca-sa. Casinha, linda. Filminho, ponto.
Sarah suspirou rendida e eu quase dei um gritinho de felicidade pelas duas finalmente terem abandonado a ideia.
- Se mudar de ideia, é só nos ligar ok? — Elas me deram um beijo na bochecha antes de saírem e eu assenti, vendo-as partirem rendidas.
Eu trabalhava no TI da QC há bastante tempo e gostava de trabalhar com Walter, ele era uma boa pessoa, talvez por isso eu havia aceitado a terrível função de ajudar Thea Queen a preparar uma festa de reaparição? Retorno? Ressuscitação?
Bem, seja qual for a palavra, o objetivo era recepcionar Oliver Queen, o filho desaparecido de Moira Queen, aquele que todos achavam estar morto, tipo, muito morto, no fim do mar... Comida de tubarão...
Quando terminei toda a organização, liguei para Thea, avisando-a de que tudo estava pronto, Thea agradeceu mais gentil do que eu esperava, convocando-me para a festa e avisando que já falara com Walter, então eu tinha a tarde livre para ir para casa. Eu a agradeci imensamente, mas definitivamente, não pelo convite.
Eu estava convicta em passar o dia dos namorados em casa e absolutamente sozinha.
Talvez somente na companhia de Thor.
Meu gato.
Não tão gato quanto o Thor propriamente dizendo, aquele de cabelão... do filme, é claro.
Cheguei ao apartamento e joguei meus sapatos para o lado e empurrei meu casaco, arrancando minha blusa logo em seguida, suspirei, sentindo-me já parcialmente liberta. Que prisão imposta pela sociedade eram as roupas!
- Ai meu Deus, Felicity! — Gritou mamãe saindo da cozinha com a boca toda cheia de chocolate.
- Ai meu Deus, mãe! — Imitei seu ato, procurando por minha blusa. — Que diabos você faz aqui? Eu tô seminua.
Mamãe sorriu abertamente e fez um gesto de mãos, aproximando-se e puxando-me para um abraço.
- Ah, querida. Eu já vi seus peitos desde sempre... Não tem nada ai que eu não tenha visto, aliás, querida... Até que eles estão maiozinhos! — Mamãe aproximou a mão de meus peitos, pronta para toca-lo. Dei um tapinha em sua mão e ela se afastou com um dar de ombros.
- Mãe, o que faz aqui?!
- Eu pensei em fazer uma surpresa. — Ela indicou a si mesma.
- Mas mãe... É dia dos namorados, você não vai sair com alguém ou algo do tipo?
Minha mãe se aproximou outra vez e eu me apressei a vestir a blusa novamente. — Na verdade, amor, eu pensei em passar o fim de semana ao seu lado, sabe? Só pra distrair, podemos sair juntas. — Ela abriu outro sorriso branco de trinta e dois dentes.
Suspirei. — Você brigou com o... Qual é o nome dele mesmo?
- Charlie e ele é um cretino. — Gesticulou outra vez.
- Ah, mãe, qual é! Já o seu sexto marido! Isso não é possível!
Mamãe revirou os olhos, afastando-se de mim e voltando para a cozinha.
- Porque você não pode simplesmente continuar em Los Angeles e tentar acertar as coisas? — Eu juntei todas as minhas coisas do chão, marchando em direção ao quarto. Na verdade, eu tivera uma boa influência no quesito namorados, Donna era o que podia chamar da pior e maior namoradeira do mundo. Além de inúmeros namorados, mamãe tinha uma lista extensa de cinco ex-maridos.
Era cansativo e às vezes, um pouco divertido.
Eu nunca me apegava muito a eles a ponto de sentir falta de algum. Exceto talvez, por Magno, o terceiro marido. Eu tinha dezessete ou dezoito anos, estava em uma fase péssima e ele era fora uma boa companhia para mim. Quase sempre conversávamos e nos encontrávamos para um café. Ele era incrível e ás vezes sinto que mamãe procura em outros homens o que perdera quando se separaram. Já eu, segundo minha psicologa — que eu gentilmente mandei ao inferno — tenho a síndrome estranha de procurar em namorados a figura paterna que eu nunca tive.
O que era um absurdo completo.
Eu queria um namorado e não um pai. Obviamente.
- Felicity. — Mamãe se aproximou da porta do quarto, a expressão séria e chateada. — Eu só... Só vim passar um tempo com você. — Ela tentou sorrir, mas soou mais como uma careta.
Suspirei, deixando meus ombros caírem em rendição.
- Certo, mãe. Tudo bem, eu não tenho planos também. Podemos ver um filme e comer sorvete, o que acha? — Sorri encorajando-a e Donna bateu palmas, animada. Logo ela se entreteve em mil e uma coisas para fazer em meu apartamento, eu quase enlouqueci com toda a energia que ela dispunha para suas atividade.
- Mãe, porque não liga para Charlie e conversa com ele? — Perguntei, agitando meus cabelos e encarando-a em um vestido extra-curto e rosa choque. Chocante.
- Não vou namorar hoje, Felicity. — Afirmou entretida em seu programa de televisão. Eu me sentei ao seu lado, cruzando as pernas sobre o sofá. — Você também não devia. Você sabe, eu li em uma revista, que pular um dia dos namorados, pode ajudar a superar o azar.
- Eu não tenho azar.
- Querida, você se lembra daquele dia em que você quebrou um osso quando estava beijando aquele garoto super bonito...
- Lembro, mãe.
- Certo. E aquele dia dos namorados em que você vomitou e caiu da escada e ficou em uma posição bem esquisita, daquelas que são lá do fim do cama sutra...
- Lembro, mãe.
- Ok. E aquele dia, em que você se engasgou com o camarão e ficou toda vermelha e inchada porque não sabia que você era alérgica e aí você foi parar no hospital vestida de pokemon sexy...
- Mãe! Caramba! — Eu a interrompi. — Eu me lembro de todos esses dias, ok? Não precisa ficar repetindo. Qual é!
Donna ergueu as mãos em rendição, parecendo sinceramente culpada.
- Desculpe querida, só estou tentando dizer que não custa tentar, certo?
Eu bufei, feliz por ela não comentar os outros episódios ainda mais constrangedores.
- Tudo bem mãe, sem homens por hoje. — Concordei finalmente. — Já era minha ideia inicial de qualquer modo.
- Isso é perfeito, meu amor! — Mamãe sorriu feliz, então esticou-se sobre a mesa de centro e entregou-me uma nota de vinte dólares. — Ah, e acabei de notar que não há nenhum sorvete em sua casa, porque não vai comprar, hein? Eu acabei de ver pela janela uma lojinha de conveniências muito boa... — Ela gesticulou com as mãos e eu a encarei completamente chocada.
Que folgada!
Entre resmungos e reclamações, eu peguei a nota e saí do apartamento, sem me importar de fato com o moletom quase atropelado que eu usava. Já que eu não ia namorar, realmente não havia necessidade alguma de produção.
A loja de conveniência a qual ela se referia ficava a duas quadras do meu prédio, mas decidi fazer uma vista grossa para as ideias mirabolantes de Donna, era sempre a mesma coisa após uma separação, ela tomava sorvete e então tomava duas taças de vinho, logo ela começava a falar sobre o marido, no entanto, a conversa sempre acabava em Magno. Era quase decepcionante vê-la tão infeliz em tantos relacionamentos.
Suspirei ao notar que éramos mais parecidas do que gostaria de admitir, a diferença óbvia é que enquanto Donna já havia conhecido seu homem perfeito, eu ainda estava terrivelmente em busca do meu.
A verdade terrível, é que desde a adolescência eu fora iludida pelos livros de romance, sempre em busca do homem que seria gentil, doce e sensual ao mesmo tempo, que fosse inteligente e divertido e que claro, tivesse defeitos, mas que fosse o tipo de defeito que você até acha adorável em suas melhores horas e no máximo, acha um pouco irritante nas piores. Nenhum defeito como te trair ou como amar mais a própria moto que você. Bem, eu queria um homem que quase não existia e homens assim não caem do céu e não aparecem do nada no seu caminho, prontos para te amar e te dar o mundo...
- Ouch! — Eu ouvi o resmungo vindo da pessoa a minha frente e arregalei meus olhos chocada com minha distração.
- Ai minha nossa! — Sussurrei envergonhada, abaixando-me para recolher as compras do pobre homem. — Me desculpa, eu estava viajando pensando sobre homens... Não, homens no geral, quero dizer, um único homem...Que eu ainda não conheço, claro... — Eu ergui meus olhos, encontrando em minha frente os divertidos olhos azuis... — Perfeito... Ai droga. — Murmurei comigo mesma, ele entortou os lábios, arqueando a sobrancelha... — Eu vou ali, me matar para sabe, calar a minha boca. — Eu praticamente choraminguei, esticando a ele sua ultima sacola.
O homem bonito a minha frente pegou a sacola, ainda encarando divertidamente. — Obrigada.... — Ele arqueou a sobrancelha mais uma vez.
- Ah! — Eu abri os lábios, surpresa. — Meu nome, claro, é isso que você quer saber, né? Você precisa agradecer e eu vou me calar, tipo, agora... Daqui a pouco, porque... — Eu apertei meus olhos e suspirei. — Sou Felicity. Smoak. Felicity Smoak, isso.
- É um prazer Felicity. Smoak. Felicity Smoak. — Ele sorriu ainda mais.
- Só... Só uma vez está ok. — Comentei também com um sorriso. — Me desculpa pelas suas compras, puxa, eu estava com a cabeça na lua.
- Tudo bem, Felicity. Não há problema algum, afinal, você estava pensando no seu homem...
- Meu homem? — Franzi as sobrancelhas, confusa. — Ah, claro. Mas ele não existe, é só... Bem, esquece.
- Então é solteira? — Perguntou, encarando-me com os intensos e atordoantes olhos azuis. Eu observei a barba por fazer e o cabelo curto em tons claros. Os braços eram fortes e os ombros largos. Ele tinha feições másculas e sensuais e era terrivelmente charmoso. Suspirei bobamente e ele arqueou a sobrancelha. — Felicity?
- Oi? — Eu apertei os lábios, sem graça e sorri sentindo minhas bochechas queimarem. — Eu sou... sim. — Titubiei sem me lembrar de fato se ele perguntara algo mais.
- Ótimo. — Sorriu. — Sou Oliver Queen.
Senti o sangue fugir do meu rosto. Ai Deus. Esse era o homem. O homem que eu passara o dia todo amaldiçoando por me fazer parecer uma secretária. Se bem que se ele fosse bonito assim todos os dias, eu até que podia servir um cafezinho... Balancei a cabeça, afastando as ideias absurdas. Onde eu estava com minha cabeça?
- Queen? — Repeti, só para confirmar. Podia ser tipo... Outra coisa? Outro nome... — Da Queen Consolidate?
- Exatamente. — Respondeu parecendo um pouco chateado. — Você viu o noticiário, certo?
- Hum, na verdade, eu trabalho para a sua mãe... Seu padrasto, sabe, Walter. — Eu troquei o peso da minha perna, gesticulando e ele assentiu lentamente. — E eu meio que já te odiava.
Oliver pareceu surpreso e arqueou a sobrancelha mais uma vez. — Por qual motivo?
- Thea meio que... Me fez organizar a sua festa, que à propósito, você devia estar... Porque é tipo, a sua festa, sabe? De ressuscitação dos mortos e tudo o mais...
Ele riu. — Acho que eu prefiro a calmaria. — Respondeu com um leve sorriso. — Desculpe por Thea. Ele estava muito animada.
- É compreensível. — Comentei e nós dois caminhamos juntos em direção ao caixa. — Quero dizer, se meu irmão morto voltasse a vida, eu ficaria feliz... Não que eu tenha um irmão morto, na verdade, ninguém querido pra mim nunca morreu, só o meu pai... Ele não morreu. — Me corrigi quando o olhar de Oliver se tornou mais gentil. — Ele só tipo, foi embora e eu nem sei porque estou falando tanto, eu nem te conheço! Você pode ser um assassino psicopata ou sei lá.
Oliver riu, encarando-me com o mesmo olhar divertido. — Não sou.
- Eu não poderia saber. Você não ia dizer "Olha Felicity, eu sou um psicopata que vou te cortar em pedaços e vender seus órgãos". — Eu fiz uma imitação barata de voz masculina que nem mesmo chegava perto de sua voz.
- Olha Felicity, eu não sou um psicopata, mas você só poderia ter certeza se tomasse um café comigo.
Eu o encarei surpresa pelo convite tão direto. — Não posso. — Respondi rapidamente.
- Porque? Tem um compromisso?
Balancei a cabeça, negando. — Não, eu só não saiu com homens...
- Oh! — Oliver exclamou surpreso, e então assentiu lentamente e eu me engasguei com o ar ao me dar conta do que ele tinha entendido.
- Não quero dizer, não saiu com homens hoje, porque tipo, eu gosto de homens, sabe? Eu não sou tipo... Eu gosto de homens. — Afirmei mais uma vez.
- Entendi. E por qual motivo não pode me dedicar quinze minutos do seu tempo? — Ele indicou o caixa para mim e eu segui em sua frente, não deixando de notar o olhar embasbacado da pobre mulher. Provavelmente, ela estava se lamentando por passar a noite trabalhando em um lugar deserto como esse, mas então, eis que surge Oliver Queen com toda a sua beleza e ela pensa que a noite não foi tão terrível, afinal.
- Primeiro, eu estou de moletom... — Indico a mim mesma.
Oliver balança a cabeça, avaliando-me descaradamente. — Está bonita.
- Mentiroso. — Eu sorrio. — E minha mãe está me esperando em meu apartamento, porque combinados de passar esse dia sem homens.
- Sem homens? — Questiona parecendo genuinamente curioso e eu, ao invés de pegar meu potinho de sorvete e seguir o rumo do meu apartamento, me escoro no caixa e espero por Oliver.
A verdade é que eu iria adorar um café com Oliver. Talvez não fizesse tão mal, afinal. Eu só tinha que não me envolver com ele, isso! E então eu não teria azar algum. Exatamente, o dia já estava chegando ao fim e com sorte eu passaria por ele sem maiores desastres.
- Acho que eu posso abrir uma excessão. — Sorri para ele e Oliver retribuiu-me com o sorriso absurdamente bonito. Porque eu não o conheci amanhã? Quando esse dia assustador já houvesse terminado e eu talvez pudesse me jogar em mais um relacionamento desastroso que só valeria a pena nas primeiras semanas?
Oliver e eu caminhamos em direção ao café no outro lado da rua. Era um lugarzinho aconchegante, com só dois casais ao fundo. Nós nos sentamos em uma mesa ao cantinho e eu me apoiei sobre meus braços, sentindo-me estranhamente constrangida. Oliver me encarou com um sorrisinho envergonhado.
- Desculpe, Felicity. Faz algum tempo que eu não converso com alguém...
- Ah tudo bem. — Eu disse, com um gesto de mãos. — Não precisa ter passado anos isolado para se constranger em um encontro... Não que estejamos em um encontro. Porque não estamos, é claro.
Ele riu baixo e eu corei mais uma vez.
- Desculpe, eu tenho tendência a falar demais quando fico nervosa... Não que você me deixe nervosa, quero dizer, eu já falei com homens bonitos antes e tomei café também, e não que você seja bonito, ai meu Deus, não estou te chamando de feio, eu só...
- Fe-li-ci-ty. — Ele gentilmente me parou.
- Desculpe. — Limitei-me a dizer.
Oliver continuou encarando-me, parecendo cada vez mais se divertir com minha idiotice absurda.
- Não se desculpe. — Respondeu finalmente. — E nós podíamos ter um encontro. — Comentou como quem diz a previsão do tempo.
- O que?!
- Acho que podiam os sair para jantar. — Continuou em tom mais baixo quando uma garçonete se aproximou da mesa, deixando dois cappuccinos ali. — Você gostaria?
- Hã... — Eu entreabri os lábios, surpresa mais uma vez. — Acho que eu gostaria sim, seria muito bom sair com você estando vestida decentemente, para variar. — Eu sorri abertamente.
Oliver assentiu. — Então, me conte porque esta é uma noite sem homens.
Balancei a cabeça. — Não há muito o que contar... É só uma matéria idiota que minha mãe leu na revista sabe? Sobre não se relacionar no dia dos namorados para não ter azar futuramente. E eu tenho muito azar, acredite. Eu até recusei todos os convites para sair.
Oliver arqueou a sobrancelha e eu corei mais uma vez.
- Convites de amigas e da sua irmã. — Me apressei a explicar e ele assentiu, parecendo quase aliviado.
Minha nossa. Que esse homem não me ache muito louca.
- Acha que isso vai dar certo?
- Sinceramente não. — Eu dei de ombros, beberricando meu café. — Mas não custa tentar. Deus e o mundo sabe que eu tenho muito azar com namoros e principalmente, muito azar com dia dos namorados.
- É mesmo? — Perguntou interessado e balancei a cabeça, negando-me a contar qualquer que fosse a informação sobre os meus dias. — Por favor, Felicity. Não deve ser tão ruim. — Continuou com a expressão suave e interessada. Os olhos azuis encarando-me pidões.
Ai caramba. Ele era mesmo bonito. Ainda mais dizendo meu nome. Ninguém dizia meu nome desse modo. Felicity... Fe-li-ci-ty.
Eu pisquei, voltando a prestar atenção em Oliver.
- Puxa, Oliver. Vai mesmo me fazer contar?
- Sem dúvida. — Ele sorriu ainda mais. — Vamos lá, me conte.
Eu suspirei rendida e comecei a contar a Oliver todas as situações absurdas pelas quais havia passado. Em algumas delas ele ria e comentava com exclamações que também me fazia rir, em outras ele parecia sinceramente furioso e fiquei surpresa por ele se importar tanto, já que havíamos acabado de nos conhecer. Contei a ele sobre Ray e sobre Barry, meu melhor amigo em Central City e sobre como Barry era o único homem em minha vida a não ser um completo canalha. Oliver contou-me poucas coisas a respeito de seu tempo perdido e eu evitei fazer a ele perguntas, afinal de contas, eu não queria pressiona-lo justo quando ele parecia tão relaxado. Não era difícil notar as enormes olheiras embaixo de seus olhos, também não o incomodei com o fato de estar perdendo a própria festa de comemoração. No fim, conversamos sobre muitas coisas, sobre seus gostos e sobre os meus. Sobre suas experiências amorosas e sobre Laurel Lance — o ex-amor-da-vida de Oliver. Ele parecia se culpar muito pela forma como o relacionamento dos dois terminaram e eu tentei fazer com ele se dissuadisse da ideia de que ele era um péssimo homem. Tentei ressaltar a Oliver que eu tinha uma extensa lista de péssimos homens e ele não se encaixava nessa categoria.
Ele era engraçado e gentil, tinha olhos lindos e que me prendiam. Eu podia conversar por Oliver por horas e provavelmente não me cansaria, descobri também, que podia contar a ele coisas que jamais contaria para Sarah ou Helena.
Eu descobri coisas que talvez Oliver jamais tenha contado a ninguém e fiquei feliz por isso, senti-me quase tão próxima a ele, quando podia ser após horas de conversa continua com alguém.
Em uma noite, eu já o conhecia perfeitamente.
A expressão fechada e quase impessoal podia esconder muitas coisas, seus olhos, no entanto, eram um livro aberto.
Eu gostava disso. Mas, era quase óbvio que era muito mais fácil não gostar. Eu tinha a regra fixa de superar meu azar com relacionamentos e eu não me arriscaria em acabar com isso justo no fim da noite e justo com Oliver. Podíamos ter uma amizade muito boa de qualquer forma.
Quando me dei conta, havia uma poça gigantesca de água onde estava o pote de sorvete que eu comprara para Donna e eu notei que já passara tempo demais ali.
- Preciso ir. — Eu disse a Oliver depois de alguns minutos de silêncio. — O sorvete está todo derretido. — Murmurei novamente, sentindo-me constrangida por algum motivo incomum.
Oliver assentiu e insistiu em pagar a conta. Eu sorri, levantando-me e seguindo para fora do café.
- Felicity. — Ele me chamou, dando dois passos em minha direção. Fui acertada em cheio por seu perfume, algo como alecrim e limão. Eu respirei fundo, sentindo o calor do seu corpo barrar qualquer frente fria que viesse em minha direção. Minha respiração ficou presa, no entanto, quando Oliver se aproximou o bastante para que eu sentisse seu hálito bater em meu rosto.
Uh, e não ficou presa por ser hálito de café.
Eu estava decidindo e Oliver podia ver isso, porque ficou encarando-me com os sensuais e atordoantes olhos azuis, esperando que eu desse o próximo passo.
- Oliver. — Eu praticamente choraminguei. — Que horas são?
Ele piscou parecendo confuso e arqueou a sobrancelha, eu continuei fitando-o em espera pela resposta, então ele afastou-se minimamente para olhar o relógio em seu pulso.
- São nove e quarenta. Porque?
Eu soltei o ar. Eu sabia que ainda era o dia dos namorados, não havia como a hora passar magicamente.
- Eu não posso. — Eu disse de repente, a ideia absurda formando-se em minha mente. — Não posso, quero dizer, ainda é dos namorados, lembra-se? — Ele assentiu. — Eu sei que é absurdo, Oliver e talvez você não entenda, mas se por acaso, você entender... E eu espero muito que entenda, se você por um acaso, se interessou por mim ou sentiu algo parecido com o que eu senti... Eu... — Ergui meus olhos, encarando-o. — Me encontre amanhã. Amanhã não vai ser mais dia dos namorados... — Eu me afastei lentamente e Oliver levou a mão aos bolsos, encarando-me com a expressão indecifrável. — Eu sinto muito, Oliver. Eu não posso arriscar dar errado outra vez... E quero dizer, eu... Desculpe. — Limite-me a dizer e dei as costas para ele, praticamente correndo para casa.
Quando cheguei ao apartamento, Donna estava dormindo sobre o sofá. Eu suspirei, deixando o sorvete em cima da bancada e sentando-me sobre o banco.
O que foi que eu fiz? Minha nossa! O que foram aquelas coisas absurdas que eu disse? É claro que ele não apareceria. Obviamente Oliver tinha muitas mulheres aos seus pés, mulheres lindas e mulheres que faziam o tipo dele. E não garotas nerds que eram formadas em TI e que falavam descontroladamente sobre coisas que não faziam sentido.
Gemi, apoiando a testa no mármore gelado.
Eu devia ter beijado ele! Como eu era burra. Que se dane a maldita revista, eu devia ter beijado o homem lindo que estava em minha frente, mas aí amanhã, tudo iria por água abaixo e eu provavelmente também estaria aqui, arrependendo-me de tê-lo beijado.
Deus, eu iria me jogar da janela da Sra. Marshaw. Era o ultimo andar e eu morreria bem rapidinho.
Droga!
Suspirei e caminhei em direção a mamãe, arrastando-a para o quarto. Donna resmungou coisas sobre querer muito o sorvete, mas ter uma filha relapsa que a abandonara. Eu sorri, depositando um beijinho em sua testa e cobrindo-a.
Fechei as cortinas do quarto e puxei um dos edredons, enrolando-me em meu sofá para uma maratona de Friends.
Quatro ou cinco episódios depois, eu dei pause em Chandler para atender a campainha. Provavelmente Sarah ou Helena que vieram para cá torta de bêbadas, era assustador o quanto isso era frequente.
- Já vou! — Gritei impaciente quando a campainha tocou mais outras duas vezes. — Sar... Oliver!? O que faz aqui? Digo aqui, em meu apartamento apertando minha campainha...
Oliver sorriu.
- Já é meia noite e um. — Comentou simplesmente.
- Eu... O que?! Como me achou, Oliver?
- Felicity Smoak, é bom você saber que eu me senti exatamente como você. — Ele se aproximou dois passos e um sorriso lento se formou em meu rosto. — E que, é muito fácil conseguir o endereço de uma funcionária.
- Você está me perseguindo, Queen? — Levei minhas mãos até a cintura, encarando-o autoritária e divertida.
- Bem, eu não podia esperar até amanhã. E você me disse que era só até o fim do dia dos namorados e agora é oficialmente meia-noite e um.
- Não é mais dia dos namorados... — Eu abri um sorriso gigantesco.
- Não. — Concordou Oliver, ele se aproximou e as mãos enormes puxaram-me em sua direção. Senti seu perfume me atordoar e suspirei bobamente. — O que significa que eu já posso te beijar.
Eu concordei com a cabeça, sem ter certeza de que sairia algo coerente de meus lábios, sem uma segunda afirmação, senti seus lábios nos meus.
Definitivamente, esse havia sido um bom dia dos namorados. O melhor, até agora.
Notas finais
Eu espero que não aja nenhum erro, mas caso sim, me avisem ok?
Beijos! ♥
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