Notas iniciais
Retornando à realidade da base... (e Hunter sendo inconveniente, como de praxe).

Seus cochilos não duravam mais do que uma hora. Um deles sempre acabava acordando o outro de modo pouco ortodoxo. Eles queriam tirar o maior proveito possível de seu tempo naquele hotel. Não apenas por conta da enorme e confortável cama, da lareira, da jacuzzi e da piscina na varanda. Mas também porque era uma rara oportunidade de ficarem a sós. Algo que não conseguiam no playground.

Desta vez – como na maioria das outras – foi Jemma quem acordou Fitz, roçando seu corpo no dele por baixo dos lençóis.

Ele manteve os olhos cerrados, mas Jemma percebeu que um dos cantos de seus lábios se curvou para cima quase que imperceptivelmente.

— Hmmm... Jemma...?

— Sim, Fitz? – Ao contrário dele, ela estava bem acordada, já com energia renovada e sorrindo de orelha à orelha.

— Você nunca se cansa? – ele sussurrou, os olhos ainda fechados. Parecia não ter se recuperado de uma hora atrás, quando ele a acordou.

— De você? Nunca.

— Oh! – exclamou, surpreso – Isso é adorável... Sabe, eu posso me acostumar com suas declarações espontâneas de amor.

Jemma riu baixinho.

— Podemos ficar aqui para sempre?

— Tecnicamente não, já que é um hotel e só temos reservas para esta noite...

— Fitz, é maneira de dizer – ela o interrompeu de modo abrupto, rolando um pouco os olhos – não encare as coisas tão literalmente.

— Ah, entendi.

O sorriso de Jemma se desfez ao lembrar-se de que logo teriam de deixar aquele quarto, que quase parecia se tratar de outro mundo, um universo paralelo, uma realidade na qual ninguém poderia interferir. Dentro de algumas horas, teriam de voltar à realidade da base, onde havia muito trabalho a ser feito e uma equipe que dependia deles para combater um inimigo de poder inimaginável.

— Precisamos de um lugar... Para nós dois...

— Só nós dois?

— Sim. Eu estive pensando em algumas possibilidades...

— Quais? – Fitz indagou, genuinamente interessado.

— Seychelles seria incrível… – ela mordeu os lábios levemente antes de continuar – ou mesmo Perthshire.

A lembrança do vídeo que ela gravou com seu celular em Maveth, expressando seu desejo de viver com ele em um chalé em Perthshire invadiu a mente de Fitz instantaneamente. Fitz, que havia fechado os olhos outra vez, apreciando o modo como os lábios de Jemma deslizavam pelo seu queixo e pescoço ao mesmo tempo em que ela conversava com ele, tornou a abri-los, bruscamente. Surpreso que Simmons ainda sustentasse aquele plano.

— Ainda deseja isso?

— Eu nunca parei de desejar – ela respondeu com sinceridade, olhando no fundo de seus olhos.

Fitz assentiu com a cabeça, o semblante jovial de quem aprovava totalmente aquela ideia.

— Podemos pensar a respeito.

— Bem, enquanto não temos um lugar só nosso, temos de aproveitar este hotel. Teremos apenas mais algumas horas depois de amanhecer.

Havia um leve ar de desafio em seu rosto. Fitz respondeu com um sorriso enviesado, compreendendo aonde ela queria chegar.

Seus lábios colidiram e seus corpos se uniram outra vez. E assim foi até o amanhecer – intercalando longos momentos de prazer com pequenos intervalos de descanso.

E não havia nenhum outro lugar no mundo que eles quisessem estar além dos braços um do outro.

*

Voltar à realidade cotidiana não era um desejo, mas uma necessidade, um dever. Entretanto, isso não significava que a noite que haviam partilhado naquele hotel tivesse de ser encarada como apenas um momento assim que cruzassem a entrada da base, obrigando-se a portarem suas identidades de agentes, restringindo-se ao profissionalismo e deixando tudo o que viveram naquele hotel para trás. De modo que ambos entraram no playground de mãos dadas, recusando-se a romper seu laço, a cessar seu toque.

Antes de avançarem pelo corredor, Jemma parou subitamente, prendendo firmemente a mão de seu namorado na sua e o puxando para si.

— Ainda tenho que te agradecer por essa noite – ela sussurrou com um sorriso. Seus rostos a centímetros de distância um do outro.

— Sou eu quem tem que agradecer – Fitz tornou, enfático, e se aproximou para beijá-la.

O beijo foi terno e intenso como de costume. Ela sentiu as mãos dele, tão afáveis, em suas costas, segurando-a tão firme como se jamais tivesse a intenção de soltá-la. E, naquele momento, ela desejou que assim fosse.

— Hey, vocês dois! – Hunter gritou e ambos se separaram, sobressaltados – tudo bem, pombinhos? – ele sorriu e chegou mais perto de ambos.

Recobrando-se do susto, Fitz e Simmons perceberam que Mack vinha logo atrás.

— Como vão? Eu espero que a noite tenha sido incrível, mas... – Hunter respirou fundo, fitando o teto, as mãos na cintura – aconteceu um acidente, não é Mack?

Mack assentiu com uma cara de poucos amigos e os braços cruzados em frente ao corpo.

— Há algum problema com os mecanismos do Zephyr One. Ele não está funcionando corretamente... O que aconteceu foi que o nosso grandão aqui – falou, apontando para o amigo atrás dele – estava tentando consertá-lo e eu fui ajudar e... Bem, acabei estragando ainda mais. Se antes ele estava com alguns problemas de funcionamento, agora, graças a mim, ele definitivamente parou de funcionar. E eu estava esperando você chegar, Fitz, para nos dar uma luz, verificar o que diabos aconteceu antes que – seu tom de voz diminuiu consideravelmente, caindo para um sussurro – antes que o Mack torça o meu pescoço. Sério, ele já me ameaçou.

— Mas eu...

Hunter puxou Fitz pelo braço, sem que o engenheiro tivesse tempo de protestar.

— Sinto muito, Jemma, prometo que devolvo seu namorado em menos de uma hora. Ele vai descobrir rapidinho o que aconteceu, não é Fitz? Ele é um gênio – ainda falando incessantemente, Hunter foi empurrando Fitz até que ambos sumissem do campo de visão de Jemma.

A bioquímica permaneceu no exato lugar onde, até poucos minutos, apreciava o beijo de seu namorado. Agora ela estava contrariada por Hunter ter atrapalhado aquele último momento antes de eles voltarem para o laboratório e para a realidade da base.

Mack a encarou, achando graça da expressão emburrada que ela ostentava em seu rosto.

— Não se preocupe, Hunter vai devolvê-lo logo.

Jemma cruzou os braços, tentando disfarçar seu aborrecimento sem muito sucesso enquanto Mack se aproximava dela.

— Esse cara realmente conseguiu me tirar do sério hoje. Eu sei que ele fez com a melhor das intenções, mas só faltou explodir o Zephyr... Tenho que me lembrar de contar até dez quando estou com ele – disse, sacudindo a cabeça, ainda tentando se acalmar após o incidente com Hunter – Mas enfim, como foi o encontro? – agora havia um sorriso de canto de boca no rosto de Mack.

Jemma ruborizou levemente antes de responder.

— Foi ótimo – ela respondeu timidamente, também sorrindo.

Mack assentiu, parecendo real e genuinamente feliz por eles. Além de ligeiramente curioso...

— Há quanto tempo vocês dois...?

— Oh... Bem... – Jemma hesitou antes de responder – eu não sei ao certo. Eu creio que é bem recente.

Algo como uma risada baixa pareceu escapar da garganta de Mack.

— Não, não é! – ele afirmou com convicção.

Um novo sorriso iluminou a face de Simmons, como se silenciosa e secretamente, ela concordasse com o amigo.

*

— Pronto! — Fitz disse, batendo as mãos após terminar os reparos no Zephyr One.

— Wow, isso foi mesmo muito rápido. Alguém acordou inspirado — Hunter gracejou.

— E alguém acordou com vontade de destruir o árduo trabalho dos outros, não é Hunter? — Fitz rebateu.

O ex-mercenário resmungou qualquer coisa sobre sempre ser o culpado de tudo e voltou a provocar Fitz.

— Então… Quantos rounds?

— Quer parar de ser intrusivo? E pervertido? — Mack completou depois de alguns segundos — Deixe o Turbo em paz.

— Ah qual é, deixa de ser hipócrita, Mack! Antes de Fitz e Simmons retornarem, você estava ansioso para saber como o encontro transcorreu.

O outro parou e ponderou por um momento.

— Bem, não vou mentir… Visto que tive participação nisso. Sabia que eu colaborei para que esse encontro acontecesse?

— Parece que todo mundo nessa base colaborou para isso – Havia um leve, porém, evidente toque de reprimenda na voz de Fitz – Olhem, eu agradeço o que fizeram por mim e pela Simmons…

— Opa, peraí! Você está dormindo com ela e a ainda a chama pelo sobrenome? – Hunter interrompeu com uma observação inoportuna – cara, isso é estranho.

Fitz não conseguiu evitar que uma onda de rubor lhe cobrisse o rosto.

— Eu agradeço por terem contribuído para que esse encontro tenha sido um sucesso – ele alteou a voz consideravelmente, lançando um olhar venenoso na direção de Hunter – mas isso não lhes dá o direito de exigir que eu faça um relatório completo dessa noite. Alguma vez já perguntei sobre você e a Bobbi, Hunter? Ou sobre o Mack e a Elena?

— Opa! Não tem absolutamente nada rolando entre Yo-Yo e eu, Turbo – Mack apressou-se em dizer.

— Como não? Já deu até um apelidinho carinhoso para ela, grandão – Hunter o provocou, dando um soco de leve em seu braço e massageando o próprio punho logo em seguida — Ouch!

— O fato é que eu não me meto na vida íntima de vocês dois. Agradeceria se não se metessem na minha.

— Ok! – Mack concordou, voltando sua atenção para as ferramentas.

— Nah, tudo bem! – Hunter cruzou os braços, contrariado, mas acatou o pedido de Fitz – você tem sorte de não sermos insistentes. Sua namorada não terá a mesma sorte.

— O que quer dizer?

Mack suspirou longamente.

— Daisy. Ela estava eufórica ontem. Provavelmente mal conseguiu dormir. Ela estava mais ansiosa pelo jantar de vocês do que estaria se o encontro fosse dela com Lincoln.

— Ela não vai sossegar enquanto Jemma não der os detalhes do encontro de vocês. Ela vai perguntar sobre todas as posições pecaminosas e como vocês elevaram a temperatura do quarto...

Hunter parou de falar ao se dar conta de que o engenheiro o fitava como se fosse esganá-lo a qualquer momento. Pigarreou antes de prosseguir.

— Jemma que se prepare.

Fitz bufou e, internamente, sentiu por Simmons. Se ele conhecia bem Daisy, era óbvio que Hunter estava certo. Ela não deixaria Jemma em paz quanto àquele assunto.

Notas finais
No próximo, conversa de garotas, ou melhor: de agentes badass ;)