Depois da Tempestade
2 Capítulo II
Notas iniciais
Há alguns meses, porém, era Jemma quem aguardava o retorno de Fitz. A agonia da espera, a aflição, a ansiedade reviravam seu estômago. Ele e Coulson estavam à mercê da criatura que havia lhe assombrado em sua estadia naquele planeta inóspito. Durante os seis meses que se seguiram após ela ser tragada pelo monolito e arremessada para Maveth, não houve um dia em que ela não temeu por sua vida. Mesmo depois de encontrar certa segurança na caverna do astronauta com quem ela surpreendentemente se deparou e que estava perdido por lá há quatorze anos.
Ela pensou que todos os horrores haviam terminado quando Fitz enfim a resgatou daquele planeta deserto e pavoroso. Mas a culpa de ter deixado Will Daniels — o astronauta que lhe ajudou a sobreviver — para trás, lhe assombrava constantemente. Ele poderia estar morto, claro, desde o momento em que escolheu ficar e distrair a criatura inumana, milenar e horripilante, para que Jemma atravessasse o portal para a Terra em segurança. Mas em seu íntimo, ainda havia uma ponta de esperança de que Will estivesse vivo. Seria injusto e cruel que ele nunca mais conseguisse sair daquele lugar com vida.
Jemma desenvolvera um laço afetivo com ele, cruzando uma linha que ela não imaginava (e nem desejava, a princípio) cruzar ao se envolver romanticamente. Era uma questão de sobrevivência. Quando sua tentativa de abrir um portal e escapar daquele planeta fracassou, ela passou a acreditar que jamais sairia daquele inferno. Que aquela, agora, era sua vida. Uma vida miserável de privações em um lugar deserto e inóspito. Will era a única companhia que ela tinha. Ambos só tinham um ao outro. Ela escolheu, portanto, ter alguma esperança de viver e não apenas sobreviver em Maveth. E a saída que restara para não enlouquecer ao se entregar à miséria, solidão e sofrimento, era buscar o conforto nos braços do único ser humano vivo que dividia aquele infortúnio com ela.
Mas Fitz sempre seria uma parte de quem ela era. Sempre estaria tão profundamente encravado em sua alma, seus ossos e seu coração que, mesmo quando ela fez um esforço sobre-humano para deixar toda a vida e a realidade que um dia conheceu para trás – sua família, amigos, carreira, sonhos e aspirações – ela não conseguiu se desvincular de Fitz. Ele ainda era uma figura constante a ilustrar seus sonhos durante as noites. Houve vezes em que ela acordou com lágrimas nos olhos após despertar de um sonho e se dar conta que jamais o veria novamente. Ela se virava na cama improvisada e encontrava Will adormecido, perguntando-se se ele também tinha vislumbres da Terra em seus sonhos, das coisas que lhe eram preciosas e que ele foi obrigado a deixar para trás, daquilo que ele jamais veria novamente... E, naquele momento, Will constituía sua única esperança, algo pelo qual ainda valia a pena viver.
Mas não era exatamente quem ela desejava ao seu lado.
Após ser resgatada, negar o stress pós-traumático e desabar, chorando no ombro de Fitz durante seu jantar – o encontro planejado e tão aspirado por eles antes da infeliz e inesperada partida de Jemma para Maveth – ela percebeu que não poderia esconder para sempre o que vivera naqueles últimos seis meses. E, ainda que as chances de Will estar vivo fossem muito pequenas, era sua obrigação voltar para lá, conferir por si mesma e tentar salvá-lo se ele tivesse sobrevivido.
Quando ela, enfim, tomou coragem de contar tudo a Fitz e pedir sua ajuda para reconstruir o portal e voltar para Maveth, ela estava preparada para que ele lhe virasse as costas, que ficasse bravo, que nunca mais quisesse falar com ela. Ela estava pronta para perdê-lo. Jemma se preparara psicologicamente para isso, pensando que o que eles tinham, aquela cumplicidade de uma década, nunca mais seria a mesma depois daquele pedido.
Mas ela o subestimou. Fitz não só a compreendeu, como se dispôs a ajudá-la. Não apenas porque Will a amparou em seu momento de desgraça, mantendo-a viva, mas também porque ele era um ser humano e merecia ser salvo.
As lágrimas turvaram seus olhos ao ouvi-lo dizer que iria lhe ajudar. E intimamente ela se perguntou se havia passado tanto tempo fora da Terra e longe de Fitz para acreditar, mesmo que por alguns segundos, que ele fosse lhe dar as costas e negar qualquer socorro.
Trabalharam juntos em busca de uma solução, tentando reconstruir o portal. Mas havia uma tensão pairando no ar, um clima carregado, e Jemma sabia que isso se devia ao fato de Fitz estar enterrando seus próprios sentimentos bem fundo, em algum lugar sombrio e oculto de seu coração, colocando os anseios e necessidades da melhor amiga em primeiro lugar. E ela se odiou por isso. Sentiu-se terrivelmente culpada por machucá-lo daquela forma. Fazer um pedido destes a ele? Pedir ao homem que ela sabia que a amava para que a ajudasse a resgatar aquele com quem ela se envolvera romanticamente em outro planeta? Era uma situação bizarra. A conexão que ela tinha com Fitz ainda era muito forte. E ela sabia que o coração dele estava se despedaçando a cada dia, mas que ele disfarçava, espantava as lágrimas, fingia estar bem e anulava a si mesmo por ela.
Jemma deu uma chance a Fitz de conferir com seus próprios olhos que ela ainda desejava uma vida ao seu lado, entregando-lhe seu aparelho celular corrompido, pedindo que Fitz, como o talentoso engenheiro e perito em tecnologia que era, o consertasse, sabendo que ele encontraria as notas de voz endereçadas a ele que ela gravou no outro planeta, mesmo tendo conhecimento de que Fitz talvez nunca fosse ouvi-las. Havia uma declaração específica que ela precisava que ele ouvisse. E assim ele o fez. E, quando a encontrou vendo o nascer do sol em uma das raras janelas do playground da SHIELD, tocou no assunto. Um fio frágil de esperança pareceu se fortalecer e ela deixou nas mãos de Fitz a tarefa de fazer algo a respeito daquela declaração. Mas sentiu-se de certa forma rejeitada um instante depois, quando ele lhe disse que, por ora, deveriam apenas assistir ao nascer do sol e não fazer mais nada a seguir.
Jemma compreendeu que ele não estava desistindo totalmente dela, mas que acreditava que aquele não era o melhor momento para que eles discutissem sua própria relação. Decepcionada, ela viu o sol surgir, estampando o céu, ofuscando quase tudo ao redor, iluminando gloriosamente o rosto do homem ao seu lado. Ela jamais vira o sol nascer em Maveth. Ele surgia a cada 18 anos e sua luz não durava mais do que alguns segundos. Mas, naquele momento, sentiu-se compensada, ao ver o sol radiante no céu e aquele que representava o sol em sua vida, tão vivo e tão próximo de si. Ela quis tocá-lo, mas o momento oportuno veio e se foi. Como o sol em Maveth.
O dia em que ela o confrontou, irritada por ele negar toda a angústia, ira e sofrimento que sentia, ele deixou claro que estava, sim, furioso. Mas não com ela. Como poderia estar? Ela não tinha culpa de nada. A raiva dele era concernente à situação que eles estavam vivendo. O timing ruim. O cosmos que insistia em mantê-los separados, o destino que lhes foi imposto. Fitz acreditava que eles eram amaldiçoados. Jemma o recriminou por sua crença no destino e em maldições. Mas mesmo assim ele a enfatizou. Antes e depois do beijo, aliás, beijos agridoces que eles partilharam.
Fitz pegou Jemma desprevenida quando pressionou seus lábios contra os dela. Mas ela não hesitou em retribuir. Quando o beijou de volta, foi para expressar que ainda tinha confiança neles, que ainda havia esperança em seu futuro juntos. Ele, por sua vez, expressou sua devoção, a puxando para mais perto, se agarrando a ela como se disse dependesse sua vida. Ela não repeliu o toque dele, pelo contrário, o recebeu com deleite, acreditando naquele momento que não houvesse sensação no mundo que se comparasse ao toque dos lábios dele nos seus ou as mãos de Fitz em sua cintura. Os dedos de Jemma percorreram suavemente o rosto dele, sentindo a aspereza de sua barba por fazer.
Tão logo aquele momento de plenitude veio, ele se foi, dando espaço a um novo e dilacerante vazio quando Fitz repetiu que eles eram amaldiçoados e se afastou, algo que só poderia significar que ele estava desistindo dela. Desistindo deles...
O que se seguiu após aqueles beijos confusos no laboratório, foi uma série de situações inusitadas, algumas até infelizes. Eles descobriram que havia o envolvimento da HYDRA em toda aquela história de monolito, portal para outra dimensão e rituais para trazer o Inumano milenar para a Terra e governá-la junto aos soldados da subversiva organização. Não tardou para que Ward aparecesse naquele cenário e Fitz e Jemma acabassem capturados por ele, sequestrados pelo ex-amigo, o crápula que se infiltrara na SHIELD dois anos atrás e conquistara o carinho deles para logo revelar sua verdadeira face e tentar matá-los sem um pingo de arrependimento. Torturando-os física e psicologicamente para tentar descobrir como Jemma havia sido a única a retornar viva de Maveth. Fitz se viu forçado a colaborar com o inimigo para que parassem de machucar Jemma.
E agora ele estava lá. Havia atravessado o portal juntamente com Ward, provavelmente para servir de sacrifício de sangue à criatura. Mas Coulson estava com eles, tendo entrado sem ser convidado à festa, no último segundo, antes de o portal fechar e antes que qualquer um percebesse. Coulson iria encontrar Fitz, matar Ward e ambos iriam voltar.
Esse era o pensamento fixo ao qual Jemma se agarrava. Fitz precisava voltar. Ele lhe havia feito a promessa de trazer Will de volta, mas a essa altura, Jemma já duvidava que ele houvesse sobrevivido.
Quando Mack anunciou que tudo correra bem e todos estavam a salvo, ela não pode evitar sorrir. Ao avistar o módulo de contenção que trazia seus amigos de volta, adiantou-se para conferir com seus próprios olhos algo de que já suspeitava. Pouco a pouco, seus amigos foram saindo do módulo. Daisy, Mack, Coulson... Jemma olhou para dentro do módulo, as mãos apoiadas no vidro, como se precisasse ver para se certificar. Aos poucos o conformismo foi tomando conta de si. Will realmente não sobrevivera. Era o atestado definitivo de que ele dera a sua vida por ela. Morreu para salvá-la. O pensamento açoitou violentamente seu coração e a culpa se fez outra vez presente.
Ela olhou para trás, procurando por Fitz, querendo assegurar-se de que ele estava bem, de que ele voltara vivo, de que voltara para ela.
A sensação de alívio tomou conta de si, mas as lágrimas traiçoeiras deslizaram por seu rosto sem que ela conseguisse evitar e, então, cobriu a pouca distância que havia entre eles para, finalmente, abraçá-lo forte, intensamente. Só assim teria a certeza plena de que ele estava bem, vivo e com ela.
Fitz, no entanto, interpretou errado aquele abraço. Sentindo-se culpado por não ter cumprido a promessa que fez a Jemma e acreditando que ela chorava de dor, pela perda, e não de alívio pelo seu regresso.
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