Depois da Tempestade
23 Capítulo XXIII
Notas iniciais
— E a garotinha?
— Espero que não fique muito decepcionado, mas optamos por não trazê-la porque...
— Ela não estava com muito espírito para sair hoje – Jemma completou a sentença iniciada por Fitz, como de costume.
— Ela chorou muito quando tentamos tirá-la do berço.
Tony Stark balançou a cabeça, complacente.
— Dá para entender. Há dias em que tudo o que queremos é o conforto de nossos quartos – ele pausou por um momento, então acrescentou um de seus comentários pincelados de sarcasmo – Só espero que não seja um indício de que ela será tão antissocial como os pais.
— Tony! – Pepper o recriminou prontamente.
Ele trocou um olhar astuto com sua esposa.
— Estou brincando. Qual é o nome dela?
— Bem, nós ainda...
— Estamos decidindo isso – Dessa vez foi Fitz quem finalizou a frase começada por Jemma.
O bilionário deu um sorriso divertido.
— Vocês conseguem ser lentos para uma série de coisas, não?
Pepper o censurou novamente, mas ele ignorou dessa vez.
— Quero dizer, conseguem resolver uma equação algébrica extremamente complicada com espantosa agilidade, mas no âmbito pessoal... Costumam dar passos vagarosos.
Fitz e Simmons se entreolharam, como se telepaticamente estivessem concordando que deveriam levar na esportiva os comentários ácidos de Stark. Afinal, aquele era o seu característico jeito de ser.
— Bem, vamos comemorar. Vocês com champagne, eu com guaraná. Sabia que parei de beber, Fitz? Pela terceira vez, eu sei – ele deu um longo suspiro, desviando o olhar e parecendo refletir momentaneamente sobre aquele tópico – Mas essa é definitiva. Eu prometo. Juramento de escoteiro. Ou melhor, de Vingador! – completou com um sorriso.
Ele parecia genuinamente feliz. Bem como Pepper que estava radiante naquela noite. Os dois haviam se reconciliado há alguns meses e, naquele momento, estavam deleitados em receber a visita do jovem casal de gênios. Afinal, a admiração era mútua entre os pares.
— À nova vida que vocês trouxeram a esse mundo – Tony disse, erguendo no ar sua taça com guaraná, reparando que havia um fulgor intenso no olhar de Jemma e Fitz enquanto brindavam; um brilho capaz de ofuscar qualquer outra fonte de luz que houvesse ao redor deles – Querem saber? A visita de vocês não poderia acontecer em melhor hora. Estava pensando em chamá-los para trabalharem ao meu lado. Não para mim, mas comigo. Em cargos de confiança. O que acham?
— Ainda estamos na SHIELD, senhor Stark – Jemma respondeu convicta.
— Que saiu das sombras recentemente, fiquei sabendo. E tem um novo diretor. Um almofadinha pelo que também ouvi falar... E não me chame de senhor. Sou Tony para vocês. Fitz não te disse isso?
— Me desculpe, sen... Isto é, Tony. Sim, saímos das sombras recentemente e temos um diretor que é um típico burocrata interessado em boa publicidade – de súbito, um ar de descontentamento tomou conta de seu rosto.
— Jemma tem uma posição de respeito na hierarquia da nova SHIELD – observou, Fitz.
— Uau! O cara confia mesmo em você, Jemma.
— Ele precisava de uma agente que seguisse as regras. E como nenhum dos outros é realmente um exemplo nesse âmbito... – ela trocou um olhar enfático com seu marido, que cruzou os braços e arqueou levemente as sobrancelhas em sua direção – É bom porque mantenho certo controle. Evito que ele tome decisões muito drásticas ou que interfira demais em nosso time.
Tony assentiu.
— Sim, as decisões drásticas tomadas nos últimos anos é que alteraram de modo irreversível a ordem natural das coisas – ele não deixou claro, mas era lógico que se referia à criação de Ultron e as ações que resultaram no Tratado de Sokovia – Você está certa, Jemma.
— Mas foi bom tocarmos nesse assunto, Tony. Afinal é por isso que estamos aqui.
O olhar subitamente confuso de Stark recaiu sobre Fitz. Pepper que degustava seu champagne em silêncio, mantendo uma postura relaxada, aprontou seus ouvidos de imediato, atenta às palavras do engenheiro.
— Esse também é um dos motivos para não termos trazido nossa filha hoje.
— O que quer dizer, Fitz? – Pepper perguntou.
— Estamos aqui por conta da SHIELD. Não apenas para uma visita casual.
A confusão se desfez no rosto de Tony, cedendo lugar à súbita compreensão. Ele tomou um gole de seu guaraná.
— Olhem vocês – começou a dizer, rindo um pouco – e eu aqui pensando que era uma visita amigável...
— Não subestime meu apreço por você, Tony – A voz de Fitz tinha uma entoação divertida – mas temos alguns assuntos e interesses em comum a discutir.
— Para que a SHIELD, em sua nova forma, funcione, é necessário que nós e nossos aliados estejamos tocando a mesma nota – Jemma afirmou com uma segurança admirável.
— Oh, então vamos tratar de solfejos musicais? – indagou Tony, gracejando.
— Melhor. Viemos falar de negócios – o engenheiro objetou.
— Sim, estamos aqui representando a SHIELD.
Tony assentiu, ligeiramente impressionado e trocou um olhar significativo com Pepper.
— Pois bem, então vamos dar início à nossa reunião – a diretora executiva das Indústrias Stark proferiu aquela sentença sorrindo, mas soando extremamente profissional.
*
May deteve seus passos no corredor da base que dava acesso aos quartos ao ouvir o choro lamurioso de um bebê.
— Piper – chamou ao avistar a agente – onde estão Phil e Mack, aqueles irresponsáveis?
A outra ergueu os ombros, não fazendo ideia de onde eles se encontravam.
— Quer que eu vá procurá-los?
— Eu agradeceria.
Piper assentiu e girou em seus calcanhares, caminhando a passos largos até sumir do campo de visão de May.
A especialista hesitou, porém, aos poucos foi se aproximando do quarto onde se encontrava a garotinha ainda sem nome. Ao chegar perto do berço, suas mãos seguraram as grades por um momento, enquanto a observava. Ela ainda estava chorando, o rosto vermelho devido ao pranto. May inclinou-se para tomá-la em seus braços, um tanto incerta se deveria fazê-lo. A menina permaneceu chorando por alguns instantes. Mas, uma vez nos braços de May, ela foi se acalmando aos poucos. Não parecia com fome, nem mesmo com cólica. Ainda que May passasse longe de ser uma expert em bebês, poderia apostar que ela estava apenas assustada por ter acordado sozinha, sem ninguém por perto. A verdade é que ela era tão paparicada que já se acostumara a estar rodeada de agentes da SHIELD por todos os lados.
Até então, May não havia tido um contato muito íntimo com a menina. Depois de tudo o que havia acontecido nos últimos anos – a perda de tantas pessoas com quem se importava – temia se apegar demais. Mas agora, com ela tão próxima de si, parecendo espreitá-la com seus olhos bem abertos e curiosos e se movendo delicadamente em seus braços, May podia entender porque os outros membros da base estavam tão apaixonados por aquela pequena criatura. Ela era mesmo encantadora. Tão cativante que até mesmo o insuportável novo diretor havia caído nas graças dela. Tanto que, após conhecê-la, desistiu da ideia de afastar Fitz e Simmons para que eles se dedicassem a serem pais em tempo integral (algo que notoriamente os irritou) e, agora que eles estavam à procura de um apartamento, o diretor se encontrava chateado em saber que eles desejavam deixar a base.
Alguns sons incompreensíveis escaparam da garganta da garotinha. Ela parecia estar tentando se comunicar. May sorriu. Não havia como não sorrir diante dela. Aquele ser transmitia tanta esperança no brilho de seu olhar. Em seu rosto, havia a promessa de que a vida poderia ser melhor, de que o universo poderia ser um bom lugar para se viver.
— Ela tem os olhos e a tenacidade de Fitz, o sorriso e a doçura de Jemma e a curiosidade de ambos – Disse Coulson, adentrando o recinto.
May se virou em sua direção ao ouvir sua voz.
— Onde estava? Você e Mack não são babás nesta noite? – perguntou em um tom carregado de repreensão.
O agente riu e se aproximou. De imediato, a garotinha agarrou o dedo de sua mão sintética.
— Gostou? Isso é obra-prima de seu pai – disse para a menina, então suspirou longamente e tornou a olhar para May – É incrível o tipo de trabalho que Mack e eu conseguimos hoje sob a batuta do novo diretor – ele sacudiu a cabeça, o olhar voltado para um canto qualquer do quarto, como se ponderasse sua função na agência – Sobre sua primeira pergunta, havíamos conseguido fazê-la dormir. Por isso deixamos o quarto, mas eu já estava vindo vê-la, quando Piper me parou no corredor, dizendo que você estava à minha procura.
May assentiu, ainda com certa censura no olhar e, então, voltou sua atenção para a menininha em seus braços novamente.
Phil notou como May a fitava, concentrada em seus pequenos gestos, assimilando seus traços, como se a estivesse vendo pela primeira vez. Sorriu, achando a cena particularmente adorável.
— Não é incrível? O resultado da união de Fitz e Simmons. Não parece um pequeno milagre?
May concordou, rindo um pouco.
— Quem diria que esses dois seriam pais dessa criaturinha?
Jemma atravessou a porta do quarto rapidamente, mas estacou ao avistar a cena. Admirou-se, pois ainda não havia visto May segurando sua filha.
Ao perceber a presença de Jemma no quarto, May se adiantou para entregá-la, mas a bioquímica sacudiu a cabeça negativamente.
— Oh, não. Pode segurá-la. Eu achei que ela estava com fome, mas vi que as babás cuidaram muito bem dela – disse, olhando para Coulson que sorriu em resposta.
— Já escolheram um nome?
— Bem... Não – Jemma suspirou pesadamente, soltando os ombros – Fitz e eu decidimos que temos de chegar a um consenso. Ambos devem concordar e não apenas a aceitar a escolha do nome...
— E...?
— Estamos em conflito. Um não gosta do nome que o outro sugere.
Na mesma hora, Fitz adentrou o quarto visivelmente entusiasmado.
— Já tenho um nome! – anunciou – Jasmine! Perfeito, não acha, Jemma?
— Definitivamente, não. Nossa filha não vai ter o nome da princesa de Aladdin – Simmons respondeu em uma nota ríspida.
Fitz levou as mãos à cintura, encarando sua esposa com um semblante contrariado.
— Mas então? Que diabos de nome você quer?
— Você sabe muito bem qual eu considero o nome ideal – Jemma cruzou os braços em uma postura aguerrida.
— Não mesmo. Margareth... Vai parecer que minha filha nasceu com 30 anos – o engenheiro rebateu com aspereza.
— Acontece que não é sua filha, é nossa filha!
— Oh, Jemma... É maneira de dizer, não crie uma tempestade em copo d’água por conta de uma coisa pequena.
— Ugh, Fitz!
Coulson, May e a garotinha em seus braços assistiam à cena calados, olhando de um para o outro. A menina, em particular, parecia extremamente confusa com aquele duelo de vozes.
— Venha, Jasmine. O papai sentiu sua falta. Obrigado, May e Coulson, por cuidarem dela – Fitz falou, pegando a menina dos braços de May.
— O nome dela não é Jasmine – objetou Jemma, a tirando dos braços de seu marido e saindo do quarto, com um irritado Fitz em seu encalço.
— Muito menos Margareth. E não dê as costas para mim. Estamos no meio de uma discussão.
— Não é hora para uma discussão, eu estou muito cansada e Margareth e eu queremos dormir. Não é, meu amor?
— Por Deus, Jemma! O nome dela não é esse!
As vozes foram se tornando distantes no corredor. Coulson voltou-se para May.
— Eles não mudam, não é mesmo?
Ela meneou a cabeça em uma veemente negativa.
— Na verdade, Phil, eles mudaram muito. Mas essencialmente, permanecem os mesmos. Aquelas mesmas crianças entusiasmadas da época do ônibus.
— Tem razão.
— Mas, pelo menos agora, estão juntos. Levou uma década, mas finalmente.
— Sim, eles são um exemplo... – Coulson aproximou-se mais de May; havia intensidade em seu semblante e decisão em seu tom de voz – De que nunca se deve deixar de ter esperança. Mesmo que tanto tempo tenha se passado.
Ele a fitou de modo penetrante por um longo momento. Certo ar de surpresa tomou conta das feições de May. Ela arqueou as sobrancelhas para ele com um sorriso sugestivo estampado no rosto.
*
Após muitas discussões, ambos, enfim, decidiram qual era o nome ideal.
Fitz e Simmons cresciam a cada dia ao lado de sua pequena Olivia – a quem comumente chamavam de Liv – permitindo-se evoluir. E mesmo frente a novos desafios, continuaram sendo a epítome de um casal feliz.
O que, infelizmente, não impedia que alguns problemas comuns inerentes a todos os casais os assaltasse de vez em quando. Não poderia haver bônus sem ônus. Uma vida a dois oferece todo um leque de prazeres e dissabores, de alegrias e neuroses. Algo que eles procuravam administrar com parcimônia e sabedoria. Afinal, desde que eram apenas amigos, eles tinham de lidar com as constantes discussões divergência de opiniões.
O relacionamento que cultivaram e vinham cultivando, era baseado na confiança, no diálogo, na certeza de que não importava o obstáculo que surgisse, eles o superariam. Como superaram todas as adversidades que apareceram em seus caminhos até então. Afinal, nem mesmo o fundo do mar ou outro planeta conseguiu separá-los.
O que sentiam um pelo outro era forte demais para se dissipar ou ser eclipsado por qualquer impasse que viesse a atormentá-los. Eles despertavam o melhor um do outro, portanto, juntos eram infinitos, singulares, mais fortes, mais intensos e, por fim, mais felizes.
O oceano, um dia revolto, agora apenas ondeava, com suas águas brandas. Os dias de tormenta haviam terminado. Era hora de abraçar a bonança.
F I M
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