Depois da Tempestade
21 Capítulo XXI
Notas iniciais
Antes de sair do laboratório, Simmons olhou para os dois lados do corredor, certificando-se de que não havia ninguém e de que poderia caminhar segura até seu quarto... Aliás, até o quarto de Fitz para poder descansar após um longo dia de trabalho.
Jemma se manteve ocupada e avançou bastante em sua pesquisa acerca dos inumanos e elaborando novas teorias sobre como deter Hive. Mas ainda acreditava estar engatinhando quanto ao último tópico.
Em alguns momentos, a apreensão a assaltava. A ideia de que Daisy iria aparecer no laboratório e exigir detalhes de seu encontro, como haviam combinado. Mas sua amiga não apareceu. De modo que o dia de trabalho transcorreu normalmente.
E quando ela estava esgotada demais para continuar sua pesquisa e tudo o que queria era tomar um banho e dormir (apenas dormir) ao lado de seu namorado, retirou seu jaleco e tomou cuidado de espiar o corredor antes de deixar o laboratório. Como não avistou nenhum sinal de Daisy, respirou aliviada e seguiu em frente.
Por um segundo, Jemma realmente pensou que estava a salvo, mas Daisy pareceu se solidificar na sua frente, surgindo como se tratasse de uma assombração, fazendo com que a bioquímica desse um pulo devido ao susto.
— Não pense que vai escapar, Jemma! – Falou de maneira incisiva.
Simmons olhou por cima do ombro, procurando uma saída, um lugar para onde correr, mas encontrou Bobbi logo atrás de si, encostada em um dos pilares do corredor com os braços cruzados e um sorriso altivo no rosto.
Jemma suspirou, derrotada.
— Daisy... – ela tentou, já desesperançosa.
— Não começa, nós tínhamos um trato – a voz da inumana se sobrepôs a da amiga – além do mais, há uma enorme bacia de pipoca e um engradado de Heineken no seu quarto.
— Mas...
— Não adianta, Jemma – Daisy enganchou o braço no de Jemma, a puxando contra a sua vontade.
Simmons ainda direcionou um olhar súplice à Bobbi, como se silenciosamente pedisse auxílio. Mas a outra apenas ergueu os ombros e sacudiu a cabeça negativamente, seguindo-as rumo ao quarto de Jemma.
*
— Eu não estou muito acostumada com isso. Conversa de garotas e tudo mais.
— Até parece que a gente nunca falou sobre isso. Lembra-se daquela vez na Caldeira na Academia da Shield?
— Sim, mas naquela época era diferente...
— Tá, entendi. Naquela época você e Fitz eram apenas amiguinhos...
Jemma desviou o olhar, sentindo-se levemente sem graça. Elas estavam no quarto de Simmons, sentadas sobre a cama. Bobbi tomava sua cerveja, enquanto Daisy se fartava de pipoca. E Simmons ainda não havia conseguido relaxar o suficiente.
Daisy torceu os lábios antes de tocar seu ombro.
— Por que está assim tão tensa? Relaxa, garota. Somos amigas, não?
— Eu sei, eu só não estou me sentindo muito confortável...
Bobbi empurrou uma garrafa de Heineken na direção dela.
— Toma. Isso vai ajudar.
Jemma deu um longo suspiro e aceitou a cerveja que Bobbi gentilmente lhe ofertava na tentativa de quebrar um pouco a tensão na qual ela estava envolta.
— Vamos ao que interessa – Daisy recomeçou após tomar um bom gole de sua Heineken – eu vi as fotos pela internet. Aquele hotel era... WOW!
Exatamente o que Fitz havia dito ao avistá-lo da janela do táxi.
— Me diga que vocês treparam em cada canto daquela suíte presidencial, do contrário, terá sido um tremendo desperdício.
— Oh, por favor, Daisy – Jemma conseguiu ficar ainda mais vermelha do que já estava – nós fizemos amor em cada canto daquela suíte – retificou.
— Own! Que fofo! Vocês estão tão apaixonadinhos.
Jemma não sabia dizer se sua amiga estava provocando, sendo sarcástica ou se havia realmente sinceridade em suas palavras.
— Agora me conta – subitamente, seu tom de voz soou conspiratório – o que ele fez para te deixar, assim, sorrindo de orelha a orelha?
Simmons revirou os olhos, mas o álcool em seu organismo pareceu surtir efeito, uma vez que ela se sentiu mais confortável em partilhar alguns detalhes de seu encontro. Ou isso, ou estava se rendendo à Daisy, já que não havia modo de escapar.
— Não fizemos nada acrobático. Se for isso que está perguntando.
— Ok. Acrobático? Essa é nova – a inumana pareceu confusa por um instante.
— Pelo visto, ele foi apenas gentil e isso foi o suficiente – disse Bobbi que se encontrava calada até então, apenas sorrindo de maneira divertida e degustando a cerveja.
Ao ouvir aquele comentário, borboletas pareceram se agitar em seu ventre, enquanto o rubor em seu rosto se tornava mais intenso ao ter a memória invadida por lembranças da noite anterior.
— Bem, gentil, mas nem tanto... – um sorriso ligeiramente pecaminoso se desenhou em sua face, ao lembrar-se especificamente do momento em frente ao espelho do banheiro do hotel, quando ele a debruçou sobre a pia, ou de como ele a pressionou contra o box do chuveiro durante o banho.
— Oh, ele foi selvagem. Whoa, Fitz! Quem diria – Daisy deu um soquinho de leve em seu ombro.
— O importante é que ele te fez sentir desejada – disse Bobbi.
— Ele te fez ver estrelas! – cantarolou Daisy, provocando a amiga.
— Ah, por favor – Jemma fechou os olhos e levou uma mão ao rosto, sentindo-se envergonhada – A verdade é que ele é extremamente atencioso. Não faz nada sem meu consentimento.
— Um homem como poucos – Bobbi completou.
— E vocês fazem... Tipo... Tudo? – A inumana indagou tomada pela curiosidade.
— Bem, desde que ele peça com jeitinho... Por que não?
— Ah, garota! Você é das minhas! – Daisy praticamente gritou aquelas palavras – Aposto que você ficou por cima.
— Na maior parte do tempo, sim...
— Jemma Simmons é uma dominadora. Eu sabia! – ela relanceou o olhar para Bobbi que retribuiu com um sorriso de aprovação – Então quer dizer que vocês estão fazendo tudo entre lençóis e tudo que eu vi até agora foi um mísero beijo? Isso é injusto. Eu torço por vocês desde o início.
Simmons olhou para suas duas amigas, sorrindo, quando um pressentimento estranho a invadiu. Sentindo como se aquele fosse um dos últimos momentos felizes que teria ao lado delas... Como se fosse um dos últimos momentos que elas teriam juntas.
Bobbi e Daisy não demoraram a notar aquela súbita pausa e o modo como Jemma as fitava.
— Algo errado, Simmons? – Bobbi tocou levemente seu braço, soando um tanto apreensiva.
Jemma sacudiu a cabeça, espantando os pensamentos negativos para longe e procurando sorrir para disfarçar.
— Não, nada... Só me perdi em pensamentos por um momento – ela disse, cerrando os olhos, tentando parecer despreocupada.
— Hmmm... – e lá estava a provocação novamente presente na voz de Daisy – eu acho que ela se perdeu pensando na noite que teve com Fitz.
— Oh, Daisy! Não comece – Jemma rebateu, mas seu tom passou longe de ser repreensivo. Ela só achava que já tinha falado um pouco demais sobre sua intimidade com Fitz, e não queria exceder seus limites quanto àquele tópico.
— Ela estava se lembrando de como ele a tocou, de como usou suas mãos nela, aquelas mãos tão hábeis no manuseio de armas e que agora também são experts em manusear a anatomia da Jemma – Daisy fechou os olhos e começou a falar, tentando um tom sedutor, mas soando histriônica.
Bobbi não evitou a crise de risos que a acometeu.
— Pela última vez, Daisy, pare! – agora Jemma estava se sentindo incomodada.
De forma cada vez mais caricata e teatral, Daisy passou a fazer gestos e movimentos obscenos sobre a cama, zombando de Jemma.
— De repente ela se lembrou de como ele a fez sentir durante a noite, de como foi sentir os lábios dele pelo seu corpo, sua pele se arrepiando, o seu membro túrgido a penetrando – Daisy parecia ter roubado aquelas palavras de alguma ficção erótica barata.
Bobbi escondeu o rosto com uma mão e levou à outra ao ventre, havia perdido o fôlego de tanto rir.
— E de como ela gritava Oh, Fitz! Mais forte, mais fundo, isso, não pare — agora a inumana parecia emular uma atriz de filmes pornográficos.
— Daisy, já chega! – Jemma não conseguiu mais sentir raiva de sua amiga. De repente, ela também se viu rindo. Não havia como negar a graça no teatrinho infame de Daisy – Pare agora! – disse novamente, arremessando um travesseiro na direção de sua cabeça e a atingido em cheio no exato momento em que Fitz abriu a porta.
Bobbi fez um esforço sobre-humano para parar de rir. Daisy, com extremo cinismo, acenou para ele.
— Oi, Fitz! – disse com extrema naturalidade.
Jemma limitou-se a ficar vermelha, perdendo momentaneamente a capacidade de se expressar verbalmente.
— Simmons, podemos conversar?
— Er... Claro! – ela levantou-se da cama, deixando suas amigas para trás e seguindo Fitz para fora do quarto. Bateu a porta atrás de si assim que saiu.
Eles andaram até o meio do corredor antes de Fitz parar, dando meia-volta, encarando-a sem dizer uma única palavra. Simmons não conseguiu identificar nada em seu rosto. Nem constrangimento, nem raiva, nem desconforto, nem mesmo divertimento.
— Fitz... Desculpe-me – ela apressou-se em falar, as palavras se atropelando – eu não queria... Na verdade, foi a Daisy quem... Bem, ela me fez prometer... Eu não consegui evitar, você sabe como ela é...
— Jemma – ele levantou uma mão em sua direção, sugerindo que ela parasse de se explicar – não foi por isso que te chamei para conversar. Coulson quer atualizações... A respeito da nossa pesquisa – ele concluiu com simplicidade.
— Oh! – ela ficou desnorteada por um instante – isso...
— Sim, isso. E portanto, antes de irmos falar com ele, eu gostaria de perguntar – sua voz caiu para um sussurro – você contou a Daisy? A respeito da suposta vacina que encontramos?
Ainda confusa, Jemma procurou alinhar seu raciocínio e se situar, colocando seus pensamentos no lugar.
— Não. Apenas Lincoln sabe.
Eles se referiam à vacina contra a Terrigênese, resultado de um experimento que haviam feito utilizando as amostras do sangue de Daisy – colhida antes de ela passar pela transformação, há dois anos – e de Creel, o ex-soldado da Hydra, que estava sendo mantido em um módulo de contenção na base.
— Você não acha que Lincoln pode ter dito algo a ela?
— Não...
— Tem certeza?
— Creio que ela estaria agindo diferente, inclusive comigo, se soubesse de algo – afirmou, convicta.
Fitz assentiu.
— Contaremos ao Coulson?
— Acho melhor.
— Será que ele vai ficar desapontado... Em relação aos nossos avanços, ou melhor, não avanço em nossas teorias com relação ao Hive?
Jemma levantou os ombros.
— Não teremos nada consistente enquanto não ficarmos frente a frente com algum inumano que foi possuído por ele.
— Esse é o grande problema.
Ambos dirigiram-se à sala de Coulson, de certa forma sentindo-se impotentes diante daquele desafio de derrotar Hive.
*
— Isso é pensar a longo prazo. A vacina não reverte os efeitos nos já afetados, porém, poderia pôr um fim... – Simmons interrompeu a si mesma por um momento – Bem, Hive não teria mais um assombroso exército de inumanos, uma vez que a transformação deixaria de ocorrer.
— Mas é óbvio que nem todos os inumanos vão aceitar bem isso, pois seria renegar a própria natureza. E é compreensível.
— Referem-se à Daisy – Coulson compreendeu de imediato o que Fitz e Simmons estavam expondo e trocou um olhar significativo com May.
— E a curto prazo? Uma solução mais imediata para detê-lo? O que vocês descobriram? – May indagou.
— Nada além de hipóteses – Jemma respondeu em um tom que denunciava sua frustração – estou me sentindo um fracasso.
— Não é culpa de vocês – Coulson rebateu, tentando encorajar a ambos.
— A verdade é que tudo o que temos são teorias. E nenhuma delas parece suficientemente sólida. O doutor Fitz acha que o ideal seria tentar capturar algum dos inumanos que está sob o domínio do Hive, o que seria extremamente arriscado e envolveria uma nova missão suicida.
— A doutora Simmons pensa que a melhor alternativa seria uma biópsia do cérebro de algum inumano possuído pelo Hive... Nós também temos uma hipótese de que o poder do Hive sobre os inumanos é similar ao efeito de uma droga no organismo.
— Portanto, é possível que encontremos níveis elevados de dopamina.
Coulson olhou de um para o outro, espreitando-os. May permanecia ao seu lado, os braços cruzados, o rosto inexpressivo como de costume.
— Por que diabos estão se chamando assim?
Fitz e Simmons se entreolharam, confusos.
— O que quer dizer, senhor?
— Doutor... Doutora? Desde quando se referem um ao outro dessa maneira?
— Ah, bem... – Jemma titubeou – estamos sendo profissionais – terminou com um sorriso que tinha por intento soar convincente, mas não saiu como o planejado.
— Hmmm... Okay! O ideal seria mesmo que entrássemos em contato com algum inumano que integra o pretenso exército do Hive. Mas não quero correr o risco de perder algum agente nessa caçada. Teremos de ser cautelosos. Deve haver algum meio... Por enquanto, voltem ao laboratório. As teorias de vocês não são inúteis. Muitas vezes nos conduziram pelo caminho cero e tenho certeza que, desta vez, não será diferente. Estão dispensados por enquanto.
— Sim, senhor – eles disseram em uníssono, sem que fosse combinado, e trocaram um olhar, receosos de que estivessem se entregando demais.
May deu um ligeiro e quase imperceptível sorriso.
Deram meia-volta a fim de abandonar o recinto.
— Fico feliz que o encontro de vocês tenha corrido bem – Coulson disse, ao mesmo tempo em que consultava alguns papéis em sua mesa – com tanto trabalho, vocês merecem uma folga de vez em quando – ele concluiu de modo casual, sem tirar os olhos de seus papéis.
Fitz e Simmons, por sua vez, estacaram de súbito, próximos à porta, virando-se novamente na direção de seu diretor, suas bocas entreabertas, completamente desorientados.
Coulson levantou a cabeça e se dirigiu a eles com um sorriso retraído.
— Podem retornar ao laboratório.
Ambos encararam May com uma clara pergunta no olhar.
— Ouviram o diretor. De volta ao trabalho – ela falou, categórica, arqueando as sobrancelhas para os dois, que deixaram a sala visivelmente contrariados. Assim que cruzaram a porta, May fitou Coulson com uma sátira no olhar – você é mau, Phil.
O diretor deixou seus papéis de lado e retribuiu seu olhar por um breve momento.
— Você é quem me revela o segredo deles e eu é que sou mau?
A especialista se limitou a revirar os olhos com um pequeno sorriso estampando seu rosto. No fundo, tanto ela quanto Coulson, estavam contentes pelo casal recém-assumido. E embora esse grau de relacionamento fosse proibido segundo os protocolos da SHIELD, não era Coulson quem iria censurá-los. Afinal, a organização – como ela foi um dia – nem mesmo existia mais aos olhos do governo. De modo que não havia realmente a necessidade de se seguir as regras.
Depois de tudo o que haviam vivido, todos concordavam que Fitz e Simmons mereciam ser felizes.
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