Depois da Tempestade
16 Capítulo XVI
Notas iniciais
Ao final da semana, Jemma se surpreendeu com o fato de que seus ossos estavam todos no lugar e nenhum deles se encontrava quebrado. A exaustão tomara conta de seu corpo, todo e qualquer fiapo de energia se esgotara.
Ela e Fitz tomaram banho sob a mesma torrente de água após o último treino de Jemma na semana. Ela estava tão cansada que mal tinha forças para se ensaboar ou lavar o cabelo com shampoo, de modo que Fitz fez isso por ela. E Jemma agradeceu internamente o quão atencioso ele era.
Simmons deixou que ele a despisse e apreciou, durante o banho, como ele passava o shampoo em seu cabelo e deslizava a esponja coberta de espuma de sabão por sua pele, devagar e carinhosamente. A simplicidade daquele gesto denunciando toda a devoção que ele sentia por ela. Não fizeram nada embaixo do chuveiro além de tomar banho. E depois de enxugar cada centímetro de sua pele com a toalha, ele a levou até a cama e massageou suas costas com os dedos cobertos de óleo aromático aquecido, desfazendo os nós de sua coluna.
— Está se sentindo melhor?
— Hmmmm... – ela murmurou, sorridente, contra o travesseiro. Essa foi a única resposta que ele conseguiu arrancar dela, mas era o bastante.
— Por que está fazendo isso com você, Jemma?
A indagação a pegou de surpresa.
— O que quer dizer?
Vagarosamente, ele deslizou as pontas dos dedos pelas diversas marcas em suas costas e braços. Fitz amaldiçoou silenciosamente Giyera, o torturador maníaco, por algumas delas. Outras eram mais recentes, oriundas de seus treinamentos com May.
— Você está coberta de hematomas... Logo estará repleta de cicatrizes de combate. Por quê? Não precisa disso. Sua especialidade sempre foi a ciência. É a ciência que você utiliza como arma para encontrar as respostas certas. Não há motivo para treinamento de campo...
Ela se virou abruptamente na direção de Fitz, interrompendo a massagem que as hábeis mãos dele executavam tão precisa e deliciosamente em suas costas.
— Como se você não tivesse treinado com Hunter e Bobbi enquanto eu... Enquanto eu estava presa em outro planeta.
— Foi diferente... Era apenas um treino básico e servia também para auxiliar Bobbi em sua recuperação após ser torturada...
— Sim, sei – ela o cortou com certa petulância – Não foi só por isso, Fitz. Você queria estar preparado, aprender a se defender e é o que eu quero também. Eu cansei de ser a pobre cientista indefesa que precisa que os outros arrisquem suas vidas por ela, que é capaz de atrasar uma missão por depender do salvamento dos outros. Eu me sinto inútil...
— Você não é...
— Mas é como eu me sinto. A eterna garota em apuros. Eu não quero ser salva, Fitz. Quero aprender a me salvar sozinha. Eu preciso aprender a lidar com a culpa que carrego por...
Jemma abaixou a cabeça, sabendo que Fitz mantinha seu olhar fixado nela.
— Eu detesto saber que pessoas morreram ou quase morreram por mim.
Ele tomou o rosto dela em suas mãos e recomeçou a falar, suavemente.
— Lembra-se do que eu te falei? Você não tem que sentir culpa pelas decisões que os outros tomam. Eu fiz minhas escolhas e as faria novamente. Você não tem culpa nenhuma nisso...
— Mas eu me sinto culpada por você ter feito o que fez por mim. E não apenas você – ela desviou o olhar. Ambos sabiam do quê e de quem ela estava falando.
Fitz cerrou os olhos por um instante.
— Quando eu me lembro daquela vez, no fundo do oceano... Como você estava disposto a se sacrificar por mim e como eu me senti terrível depois... Ao ver você entre a vida e a morte... Você teve que passar por tanta coisa por minha causa... Para me salvar...
— De que está falando? Você me salvou daquela vez! Você arriscou a sua única oportunidade de sair dali com vida... Salvamos um ao outro. Como não percebe isso?
Simmons o encarou com os olhos turvos devido às lágrimas que se acumulavam e que ela tentava, em vão, conter.
— Se não fosse por você, eu não estaria aqui hoje. Se não fosse corajosa, teria me deixado para trás...
— Eu não fiz por ser corajosa, Fitz – ela rolou um pouco os olhos – Eu fiz por te amar.
Ele entreabriu a boca, atônito. As palavras lhe fugiram de repente, como se ele houvesse perdido o dom de argumentar. Era a primeira vez que ela dizia que o amava. Era a primeira vez que qualquer um dos dois usava aquela expressão diante do outro. Ele já havia dito que a amava para terroristas marroquinos, quando perseguia uma pista de como salvar Simmons após ela ser tragada pelo monolito que a arremessou para outra dimensão. Ela já havia dito que o amava para Will, quando deixou bem claro que seu sentimento por Fitz jamais morreria, que estaria sempre com ela, mesmo que ela houvesse desistido de voltar para a Terra, mesmo que todas as suas esperanças estivessem destruídas, mesmo que ela tentasse enterrar tudo o que ela era e havia sido para tentar sobreviver sem mais sofrimentos em Maveth. E Will compreendera que o amor que Jemma sentia por Fitz era uma parte vital dela, algo que sempre estaria consigo mesmo que jamais regressasse à Terra. Mesmo que sua antiga vida se convertesse apenas em um borrão, em uma lembrança distante e longínqua de um tempo que já nem mais parecia real.
Mas era a primeira vez que ela dizia a ele. Em alto e bom som. Claramente.
Ambos se encararam por um longo momento, sem dizer uma só palavra.
— Você disse o que eu acho que disse?
Jemma lhe lançou um sorriso afetuoso.
— Que eu te amo? Sim, é o que eu disse...
— Você nunca tinha dito...
— Eu não me senti preparada até... Bem, até agora. Mas... Eu estou certa disso – ela se adiantou para tomar a mão dele na sua – Eu sei que amo você e não quero mais correr o risco de te perder. Não quero mais que se arrisque por mim. Sei que falar é inútil quando se trata de você que consegue ser tão inconsequente nessas situações, mas... Eu quero fazer minha parte.
Ele recostou a testa na dela, respirando breve e superficialmente.
— Eu também te amo.
— Eu sei disso – ela replicou com um novo sorriso – agora que tal provar ao invés de apenas dizer.
— Provar?
— O quanto me ama.
Uma expressão divertida se desenhou no rosto de Fitz
— Você não disse que estava exausta?
— Não estou tão cansada assim – ela deu de ombros – de qualquer forma, podemos fazer devagar...
Ele a cortou com um beijo sôfrego. Era o beijo mais intenso que eles haviam partilhado até então. Pouco a pouco, ele foi inclinando o corpo sobre o dela, sem partir o beijo. E, logo, não havia mais nenhum espaço entre eles. Novamente seus corpos se uniram, tornando-se um só. Era inevitável lembrar-se das palavras de May, do que ela lhe dissera há alguns dias, durante um de seus treinamentos. Enquanto elas treinavam, era necessário se desvincular de Fitz. Ali, qualquer ligação emocional ou física que ela tinha com o engenheiro tinha de ser deixada de lado para que pudesse se concentrar apenas nos movimentos e golpes de sua adversária. Mas, no quarto de Fitz, ela podia limpar sua mente de todo o resto e se concentrar apenas nele. Naquele recinto, só existiam os dois. Ela se desvinculava de tudo ao seu redor e se conectava e reconectava a ele. Nada mais importava; o mundo exterior àquele quarto tornava-se insignificante. E tudo o que ela queria era saborear cada momento, cada toque em sua tez, do mais suave ao mais ardente, do simples deslizar dos dedos dele pela sua pele às investidas insaciáveis para dentro de seu corpo. E o barulho de seus quadris colidindo um contra o outro, os gemidos, sussurros e declarações espontâneas de amor eram os únicos sons a preencher o ambiente. A harmonia entre seus corpos contrastava com a dissonância de seus murmúrios e lamúrias. Ainda assim não poderia haver sinfonia mais bela ou mesmo que lhe fosse comparável.
Assim que Fitz finalmente alcançou o ponto máximo do prazer, momentos após ela chegar ao clímax, ele se adiantou para libertá-la do peso de seu corpo, mas Jemma pediu novamente para que ele ficasse dentro dela.
— Não saia ainda.
— Você realmente gosta disso, não é?
— A que se refere?
— Que eu permaneça dentro de você, mesmo depois de...
— Oh, isso... Sim – ela deu uma risada baixa – é como se fossemos apenas um – ela o abraçou ainda mais forte – é bom ter essa certeza de que você está aqui, comigo, dentro de mim... – a voz dela caiu para um sussurro.
Ele distribuiu beijos suaves por todo o colo, os ombros e o pescoço dela.
— Eu gostei de ouvi-la dizer...
— Que eu te amo?
— Sim.
— Sua vez, então.
Eles sorriram um para o outro.
— Eu te amo, Jemma. Duvido que isso mude um dia...
— Eu te amo, Fitz. E tenho certeza de que isso não irá mudar.
Partilharam um novo beijo antes de adormecerem pelo que deveria ser a enésima vez nos braços um do outro.
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