Stiles não conseguia adormecer. Apenas desejava que aquele momento com Derek tivesse ocorrido noutra qualquer altura. Não podia deixar de pensar em como se sentira bem assim tão próximo dele. No entanto, não podia esperar que ele sentisse o mesmo.

Pensou no pai e nos conselhos que ele lhe daria. Mas pensar no pai era demasiado doloroso, por isso reuniu mais uma vez os seus esforços para tentar adormecer.

Quando acordou e olhou para o relógio do telemóvel viu que eram sete horas. Ao chegar lá abaixo, viu Derek entrar no apartamento. Notou que a sua roupa estava suja de terra. Provavelmente tinha passado a noite toda fora. Stiles estava curioso para saber onde ele tinha andado, mas tinha medo da resposta caso perguntasse. Aliás, nem sabia bem como agir perto dele, depois da noite passada.

Derek também parecia pouca à vontade. Contudo, depois de fechar a porta, dirigiu o olhar para Stiles.

– Não, não fui à procura de Peter outra vez, se é isso que estás a pensar.

Stiles abanou a cabeça.

– Ok.

Derek dirigiu-lhe um sorriso, tímido, mas mesmo assim uma coisa rara nele.

– Fui correr… — começou Derek. – Como lobo.

Stiles ficou surpreso com a resposta. A mãe de Derek também se conseguia transformar totalmente em loba, partilhar essa característica com ela devia significar muito para Derek.

– Fazes isso todas as noites?

– Não. Só às vezes. Quando preciso de pensar… de ter a mente mais clara.

Stiles acenou.

– Então, quando te transformas em lobo, os pensamentos ainda são totalmente humanos?

– Sim, e tudo se torna mais intenso e mais vivo.

Stiles acenou de novo. Olhou pela janela, o sol brilhava ainda baixo no céu. Gostava de um dia poder olhar para o mundo através dos olhos flamejantes de um lobo. No entanto, era apenas humano, e nunca se sentira tão fraco e desesperado como agora.

– Em que estás a pensar? – Perguntou Derek.

– Hum? Nada… Estava só a… — Stiles suspirou, não conseguindo acabar a frase, e olhou para baixo.

Derek aproximou-se dele e ele forçou-se a levantar o olhar. Os olhos de Derek eram um mar de verde, quentes e brilhantes.

– Sabes, o teu pai tinha muito orgulho em ti. Tens de continuar a lutar e a viver. Por ele.

– Ele era tudo o que tinha… — Stiles sentiu as lágrimas a acumularem-se nos olhos. – Eu vi a minha mãe morrer. Ela sofreu tanto, e eu queria estar sempre com ela, mesmo nos momentos em que ela não se lembrava de mim. No dia em que ela morreu, o meu pai estava a trabalhar, e eu fugi da escola para a ir ver. Quando ela parou de respirar, chamei a enfermeira, mas foi tarde demais…

Stiles não gostava de falar sobre esse assunto. Contara uma vez a Scott, e desde aí que evitava mencionar essa história.

– Não foi culpa tua, Stiles. Foste forte uma vez, e agora tens de o ser também, como aprendeste com o teu pai.

– Mas a culpa fica sempre…

Algo no olhar de Derek lhe dizia que compreendia. Também ele devia ter a consciência pesada por culpa por tudo o que acontecera àqueles que amava.

– Acho que devias sair de casa. Não podes ficar aqui sempre fechado.

– Não me apetece…

– Quero-te mostrar uma coisa. Vou só tomar um duche e depois saímos.

Stiles tentou dizer que não, mas acabou por acenar. Achava impressionante Derek importar-se tanto com ele. Não mencionara o beijo da noite anterior, mas sentira afeto na sua voz. Mal podia esperar para ver o que ele lhe queria mostrar.

–--

Levaram o caminho todo em silêncio, só se ouvindo o som do carro no asfalto. Derek virou por uma estrada lateral à estrada principal e parou um pouco mais adiante, no limite da floresta. Saíram do carro e começaram a caminhar por entre as árvores. Caminharam durante quase uma hora. Quando chegaram a uma clareira, pararam.

Stiles nunca tinha ali estado, tão profundamente na floresta. A clareira estava rodeada por árvores com folhagem espessa e no centro encontravam-se algumas rochas que pareciam dispostas em círculo.

Derek olhou por cima do ombro para Stiles.

– Este costumava ser um sítio sagrado para a minha família. Por muitas gerações que passassem, por mais que fossem perseguidos, acabavam sempre por voltar aqui. – Aproximou-se de uma das rochas e apontou. – Os nomes dos membros dos Hale estão todos aqui. Isto é um santuário. A minha mãe trouxe-me aqui e às minhas irmãs para nos mostrar que quando as pessoas são unidas, podem construir algo que dura no tempo, e transmiti-lo a outros.

Stiles aproximou-se de uma rocha e viu nela inscritos vários nomes já desvanecidos, provavelmente pertencentes a lobisomens há muito mortos. Começou a dar a volta à clareira até encontrar o que queria. Leu os nomes de Derek, Cora e Laura, entalhados de uma forma desajeitada na pedra cinzenta.

– Quando é que escreveram isto?

– Pouco antes do incêndio. – Respondeu Derek.

Stiles voltou a olhar para os nomes. Naquela altura ainda eram felizes, pensou. Derek conseguira ultrapassar todas as contrariedades, e mesmo que a sua família estivesse quase toda morta, ele ainda lutava por continuar a fazer o bem e a ser alguém de quem a sua mãe se orgulhasse.

– Obrigado por me mostrares este lugar. É incrível…

Derek sorriu-lhe. Queria-lhe dizer que também o achava incrível por, apesar de tudo, ter continuado a lutar e conseguido tornar-se uma pessoa melhor e mais forte. No entanto, limitou-se a guardar os seus pensamentos para si.