Notas iniciais
Prontinho!! listinha de personagens naomi - lindsey morgan diego - tyler posey gemeos - joe keery maia - park so-dam

A Partida — Ilustração Naomi

— Têm algumas coisas que precisa saber antes de irmos. Bom, várias. — A garota morena ficara encarregada de preparar Alex para o início da operação. Meio a contragosto, acabou por concordar. — Temos armamento que conseguimos roubar de uma base militar antes dessa merda toda. Sabe usar?

Naomi, como recentemente se apresentara, é uma morena baixa de cabelos castanhos escorridos presos em um rabo de cavalo alto. Tudo nela passa a sensação de poder — seus olhos negros, o jeito como arqueia as sobrancelhas, a postura e o andar. Lhe estende uma arma.

Alex nunca segurara uma com as próprias mãos, a não ser em brincadeiras de paintball quando era pequena, e lembra de se dar muito mal.

As duas estão sozinhas em uma espécie de sala de treinamento de tiro improvisado, com isolamento acústico em mau estado revestindo as paredes.

Alex segura a arma em suas mãos.

— Para ser sincera, não. Mas aprendo rápido.

— Ok, não vamos desperdiçar munição. Um, dois tiros. O resto vai aprender na raça. — Ela toma a arma das mãos de Alex. — Essa arma é minha. Agora, sua. Cuide bem. Manuseie sempre para baixo. Essa é a munição. E você segura assim.

Ela demonstra, e recoloca o revólver entre os dedos de Alex, posicionando adequadamente.

Há bons metros dela, uma parede com alvos no tórax e cabeça de um homem de papelão.

— Mire. Assim.

Alex se posiciona exatamente como lhe é mandado. Sua mão treme um pouco com o peso de segurar uma arma.

— Solte a trava.

Ela solta.

— Cuidado com o solavanco. Puxe o gatilho.

Ela puxa.

Alex acerta logo abaixo do alvo. Uma sensação poderosa percorre suas veias.

— Nada mal, novata.

— Me mostre. — Alex pede.

— Eu disse que não podemos ficar desperdiçando munição.

Alex abaixa a cabeça, desculpando-se.

Naomi solta um riso e tira a arma da mão de Alex. Uma preparação quase imperceptível. O tiro acerta em cheio o centro do alvo da cabeça.

x

— Quantos anos tem? — Alex pergunta, guardando a arma na bainha da calça a ela designada. Outras roupas — pretas. Facilmente camufláveis.– 20.– Uau.

Naomi ajuda Alex a preparar uma pequena mochila. Uma troca de roupas, água, comida, munição, primeiros socorros, um saco de dormir térmico.

— O que foi?

— Não consigo acreditar que é só um ano mais velha que eu.

— Tenho cara de velha?

— Não, claro que não, é que…

— Relaxa, estou tirando uma com você. Entendi o que quis dizer. — Naomi parece mais simpática agora. Está doando das próprias coisas para sobrevivência de Alex.

Estão ambas em seu pequeno quarto compartilhado com mais quatro pessoas. Naomi se apoia na parede enquanto Alex termina de otimizar o espaço em sua mochila. A de Naomi já está pronta há dias.

— Precisamos amadurecer mais rápido aqui fora. — Ela conclui. — Você ouviu seu irmão, desde que chegamos aqui fomos preparados para isso. Sobreviver. Você vivia uma vida perfeita até hoje cedo.

Ela sente a alfinetada.

— Não foi o que quiser dizer.

— Eu entendi.

Elas trocam olhares.

— Idade não define nada. O mais velho entre nós é Levi. Vinte e seis, se não me engano.

— Não tem nenhum soldado mais velho?

— Não, claro que tem. É que… Nós somos os loucos o suficiente para ir até a cidade.

— Tão ruim assim?

— Fui duas vezes. A primeira eu era só uma criança, quinze anos. Ainda não sei como Gabe me deixou ir. Pegamos alguns medicamentos vencidos, roupas abandonadas, o necessário. Voltamos bem, mas passamos uns perrengues. A segunda vez foi ano passado. Fomos eu, Ivan, Júlia e Lucas. Não íamos mais que isso normalmente, quatro arriscando a pele era o suficiente, por isso enviar seis dos melhores soldados parece um pouco absurdo. Enfim, nos encurralaram. Lucas ficou para dar cobertura. Eles o interrogaram. Aparentemente não conseguiram nenhuma informação porque ele morreu bem ali. Ouvimos o tiro. Não voltamos lá desde então.

Ela respira fundo. Alex a olha com seus grandes olhos, pensando no que falar.

— Desculpe, falo muito. — Ela parece sinceramente constrangida, como se acabasse de demonstrar fraqueza a uma desconhecida.

— Foi bom ouvir.

— Tá, ok garota, temos tarefas a delimitar. Partimos em uma hora. Despeça-se de Ivan. Diga a ele que vamos cuidar de você.

x

— Cadê a novata? — Levi questiona, apoiado na parede do pomar enquanto observa os outros moradores trabalharem. Fuma um cigarro de palha, feito pelas próprias mãos. Os outros cinco estão reunidos ali. – Dei uma hora a ela. — Diz Naomi, se juntando a eles.– Uma hora é muito, consigo tirar um belo cochilo. — Maia diz. A descendente de coreanos, com uma personalidade forte. O cabelo ralo castanho claro chega a altura de seus ombros. Está sentada ao lado da escada, abraçando as pernas, a cabeça apoiada na parede.– Então tire. Achei que ela precisava de um tempo para processar tudo.

Nenhum deles discute.

— Qual o plano, então? — Um dos gêmeos pergunta. Rafael.

Rafael e Murilo são gêmeos idênticos, nascidos da mesma placenta. Para diferenciarem-se, Rafael tem uma pinta preta embaixo dos olhos, o rosto levemente mais fino. Tirando isso, apenas com muita convivência. Até mesmo os amigos de anos tem certa dificuldade.

— Que plano? Não temos plano. — O irmão responde. Pega o cigarro das mãos de Levi e dá uma boa tragada. — Vamos levar a garota até lá, provavelmente achar a casa dela e ver se ela lembra de alguma coisa. Se não, damos sorte de morrer lá. Gabe que se vire.

— Cale a boca. — Diego responde. O do maxilar torto, a barba rala. Naomi se enganara, ele é o mais velho. Carrega seus vinte e sete anos nas costas. — É besteira, mas… Temos que pensar positivo.

— Que fofo. — Levi debocha.

— Eu concordo com ele. — diz Maia, levantando uma das mãos para ser notada.

— Reforça meu ponto, duas mulherzinhas.

— Vou te mostrar quem é a mulherzinha, babaca. — Maia não leva desaforo para casa.

— Assim eu fico excitado, boneca.

— Olha aqui seu…

— Por favor, calem a boca. — Naomi pede, e se senta na escada, pensando o que teria feito para merecer lidar com toda a bela equipe. Nenhuma palavra fora mencionada, mas ela se sente a responsável, a líder. Talvez devessem conversar, já que outros também compartilham do mesmo pensamento.

x

— Como você está? — O irmão pergunta, sentado ao seu lado na agora vazia mesa do saguão principal.

Alex olha para as mãos, que esfrega com força uma na outra como um TOC.

— Estou surtando. — Diz, finalmente.

— É, eu sei. Também estou.

— Não, Ivan, eu estou surtando.— Ela olha o irmão nos olhos. O peso da arma que ela mal sabe usar na bainha de sua calça a afunda no assento. — Eu preciso de mais do que um dia para processar… tudo. Há menos de um dia eu estava em uma realidade completamente diferente...

Ele reflete sobre as palavras, caçando algo adormecido em sua mente.

— É tipo Matrix.

Alex não compreende, e a confusão fica estampada em seus olhos.

— É, aquele filme famoso, lembra? Com aquele cara do John Wick. O cara toma umas pílulas coloridas e acorda de uma realidade falsa, é bem louco.

— Tenho certeza de que não é bem isso que acontece. — Ela ri.

— É tipo isso, era um filmão.

Sim, Alex acabara de acordar. Não havia tido tempo o suficiente para processar tudo, ter uma boa noite sono, fazer uma refeição decente, conversar com outros — que a encaram como se sentissem ódio, e agora ela entende o porquê. Não é sua culpa, mas lhes dá toda a razão.

— Queria poder ir com vocês.

— Você mal para em pé. — Ela reproduz em tom zombeteiro a fala de Gabe que o deixara visivelmente irritado.

— Ainda sem andar, eu daria um cacete naqueles outros moleques.

Alex sorri. Mesmo em meio a tudo que está sentindo, Ivan a consegue fazer achar graça.

— Mas eu sei que estará bem. — Ele conclui.

— É? E por que?

— Por que aqueles moleques são a minha família. — Ele olha para o nada, recordando. — E você é minha família. Não vão deixar nada acontecer a você.

— Sabe, eu não sou mais uma criança, Ivan. Não vou ser um peso morto. — As palavras ficaram em sua cabeça.

— Sei que não. — Ele passa o braço ao redor dos ombros da irmã em um abraço apertado. — Ainda é como uma criança para mim.

— Você parece o papai falando assim.

— É, alguém tinha que dizer coisas desse tipo.

Os dois caem na risada, como se tivessem doze e dezessete anos novamente.

x

Alex está pronta. Mochila nas costas. A entrada do esconderijo não é mais um segredo para ela. Estão todos lá, inclusive Ivan, Júlia e Gabriel.

A porta de metal trancada a sete chaves é uma grande parede viva por fora, camuflada pelo verde da vegetação e as grandes aranhas que ousaram fazer teias em volta, como guardiãs.

Se sente uma criança.

De algum modo, ainda adoraria acordar e ver que tudo fora um sonho terrível. Mas isso a faria abrir mão de Ivan, o que ela não está disposta.

Eles se despedem entre si, e Ivan dá um apertado e demorado abraço na irmã. Os outros não têm pressa.

— Se cuide. — Diz, se recusando a parecer como um Adeus.

— Se cuide você também.

Ela se despede de Júlia e do grandalhão. Os outros já estão seguindo a trilha em direção ao seu destino comum.

Ivan espera a irmã se afastar para puxar Levi pelo braço. Apesar de tudo, são grandes amigos.

— Se cuida, cara. E…

— Vamos cuidar dela. — Ele diz. A primeira frase sensata do dia. — Mas ela parece se virar bem.

Ivan observa a irmã partir. Está alta, forte. As roupas pretas e a arma na bainha enquanto se distancia. Sente mais orgulho que medo.