Depois da Ruína
13 Mar em Fúria
Notas iniciais
A marola do mar deixa Alex enjoada. Sempre tivera uma relação esquisita com o mar.
“Água no umbigo, sinal de perigo!” Ela ouvia da avó desde pequena. Água no umbigo, pés no chão, banho de mar, sensação boa. Até mesmo quando se aventurava a entrar mais um pouquinho, seduzida pelas ondas do mar.
Mas agora, em uma pequena canoa com outras três pessoas, com um mar de ressaca e a costa tão longe, um arrepio lhe percorre a espinha. Não é sua vez de remar, então seus pensamentos voam. Toda vez que olha para a água, tem certeza de ter visto um peixe gigantesco, um tubarão, uma baleia. Mas sua mente prega peças. Às vezes.
Remam por horas, em um revezamento insano. Cinco horas, Murilo dissera. Cinco arrastadas horas de viagem na imensidão azul.
Distante deles, uma faixa cinza se forma no horizonte.
— Rilo! — Maia grita para a canoa da frente. — Que merda é essa?
— Tempestade! — Ele grita de volta. — Pelos meus cálculos, até chegar aqui, talvez umas duas horas. Vamos chegar antes.
— Tem certeza? — Naomi cochicha no ouvido do amigo, usufruindo da vantagem de estarem no mesmo barco.
— Pode confiar.
Estão chegando. Murilo já havia gritado repetidas vezes para acalmá-los. O dia acima deles já se transformara em uma cinza escuridão. A chuva pode ser vista caindo no mar, muito próximo deles.
Arriscando-se de joelhos, Alex consegue ver a cidade — os altos prédios que enfeitam a orla. Uma faixa de areia.
— Vamos parar! — Grita Diego. — A praia está logo ali!
— Não seja imbecil! Se pararmos na praia, vão saber que estamos aqui, além de que não vamos ter como voltar se confiscarem as canoas. — Murilo grita em resposta.
— Não vamos ter como voltar se não conseguirmos nem chegar! Pelo menos nos leve próximos à orla!
— Eles vão nos ver!
— Não temos escolha, imbecil!
Alex, assim como todos, segura firmemente nas laterais do barco. A marola se intensifica — as ondas ficam mais altas, mais frequentes. Qualquer deslize os levaria a água.
— Estamos quase chegando! — Rilo está decidido.
— Você vai nos matar! — Levi grita, remando o mais forte que pode.
Sem respostas.
As gotas de chuva começam a cair sobre eles.
Alex já está com a mochila nas costas, preparada para qualquer emergência. Sabe que Murilo apenas quer mantê-los seguros, mas ela precisa desesperadamente colocar os pés em terra firme.
A chuva engrossa, e os raios tomam conta do céu. Não se vê nada a frente deles.
Ela coloca o capuz, que dá a falsa sensação de protegê-la da atmosfera caótica.
A água gelada que cai do céu os atinge em diagonal, empurrando-os para longe do destino final. E o caos se alastra.
Enquanto Murilo pensa no pior cenário que pode acontecer e como lidar com ele, já está desnorteado. Imediatamente amaldiçoa seus pensamentos, porque o pior se aproxima.
Ele arregala os olhos ao ver a rocha a frente do barco. Perto demais para desviar ou tomar qualquer providência.
Diego, guiando o barco de trás, em um movimento rápido solta o remo e puxa Naomi para a água, mergulhando o mais distante possível da formação rochosa. Murilo, a frente, espera até o último segundo do barco trombar com a pedra para abandoná-lo, derrotado.
A canoa de trás está próxima demais. Alex fora na frente todo o percurso, olhando o mar transformar-se de amigo a inimigo. Ela olha para trás. Rafael e Maia já estão prontos para saltar na água, mas esperam a mesma coisa que ela — a esperança em Levi, que não chega. Ele joga o remo e puxa a mochila para as costas. Antes mesmo de pularem, a canoa vira.
Hora de descobrir se se lembram como nadar.
Alex imerge na superfície e puxa o ar de volta, tirando o cabelo do rosto.
Ela olha ao redor — os integrantes do barco da frente estão desconfortavelmente agarrados a uma pedra a direita dela. Suas mochilas não estão mais nas costas, e ela conclui que se perderam no oceano.
Olha com pavor a sua volta — por todos os lados, só mar. A chuva lhes ofusca o horizonte. À frente, pedras dispostas no mar. Elas aparecem e desaparecem com as ondas que as cobrem.
A mochila de Alex pesa em suas costas, o que torna difícil ela se manter na superfície. Murilo está com o braço estendido, e ela o agarra sem pestanejar. O garoto a puxa para que se apoie na pedra, a onda puxando-os e empurrando-os de volta. Como os outros, ela crava as unhas na pedra e olha ao redor, a procura dos companheiros de viagem.
Rafael e Levi estão agarrados na pedra na qual colidiram. Maia têm dificuldade de nadar, e o loiro a alcança pelo braço, em uma investida de sorte, e puxa a garota para a pedra. Estão todos estáveis, mas não por muito tempo. Precisam sair dali.
— Se têm pedras, têm costa! — Grita Murilo, tentando fazer com que sua voz sobressaia-se ao caos ao seu redor. — Precisamos continuar!
— Não dá! — A expressão no rosto de Maia é a de mais puro pânico, agarrada ao pescoço dos amigos, e está claro para todos. Ela não sabe nadar.
— Vamos morrer se ficarmos aqui de qualquer jeito!
Alex não morreria ali. Tinha feito aulas de natação por toda sua vida, e aparentemente seu corpo se lembra bem de como se mexer na água.
— Estamos perto, você consegue! — Naomi grita para a garota.
Maia não conseguiria sozinha. Levi passa a mochila pesada para Rafael, que a ajeita nas costas. Assume a responsabilidade de amparar Maia. Estão prontos para ir, não sabendo ao certo para onde.
Rilo ainda se sente responsável pela parte da operação que envolve o mar, mesmo que essa não seja bem sua experiência. Ele bate os dois pés na pedra e toma impulso, nadando desengonçadamente para a frente. O irmão o segue, depois Levi com Maia nas costas, fazendo o possível para se amparar sem prejudicar o que a carrega. Deposita toda a sua confiança nele e fecha os olhos.
Alex os segue. Bate os dois pés na pedra e mergulha em direção ao vazio. As ondas a puxam e empurram mais do que ela esperava. Sente que precisa desesperadamente tirar a mochila antes que essa a puxe para baixo. Parece nadar uma infinidade até conseguir se amparar em outra pedra, onde os outros estão. E assim se sucederia o jogo às cegas — nadar de pedra em pedra até a costa.
Murilo é o primeiro a chegar na encosta. Ele se arrasta para cima da formação rochosa, puxando o ar aliviado. Pelo menos nisso estava certo.
As onda ainda ameaçam derrubá-lo de volta.
Ele estende a mão para os amigos que se aproximam — Levi empurra Maia, que agarra desesperada as mãos de Rilo. Quando içada para fora do mar, ela deixa lágrimas de alívio escorrerem, aproveitando que ninguém perceberia. Se afasta da água o máximo que pode, escalando de pedra em pedra.
Alex nunca sentira tamanho cansaço no corpo. O peso extra e o mar agitado a fazem muito mais pesada do que é. O corpo começa a desligar.
Ela olha para frente — mais da metade dos companheiros já está a salvo. Ela deixa-se afundar por alguns segundos, relaxando o corpo. O mar a balança como uma boneca de pano.
Quando tenta voltar a superfície para pegar ar, tal ação se mostra impossível. Suas pernas não se movimentam mais, e o peso extra a ancora para baixo.
Em desespero, prestes a desistir e jogar a mochila, mãos a amparam pelas axilas e a puxam para cima.
Ela se vira para Diego, que tenta ao máximo mante-la na superfície.
— O que foi?!
— A mochila. — Ela consegue dizer, engolindo a água salgada do mar.
Mais descansado que ela, ele arranca a mochila de suas costas. Alex se sente livre novamente. Em poucos segundos estão em segurança, na medida do possível.
Maia, ao fugir da água, encontrara uma pequena gruta. Um abrigo longe o suficiente das ondas e fundo o suficiente para os protegerem da chuva.
Seguros, o apedrejamento começa.
— Imbecil! — Levi está prestes a investir contra Murilo, que não recua, mas Rafael, se coloca entre ambos.
— Eu só fiz o que achei certo! Como eu ia imaginar que ia dar nessa merda?
— Me diga você, bonzão! Não é você que manja tudo? Temos sorte de estarmos vivos, mas sem nada! A gente não dura um dia aqui sem nada, e mesmo se durassemos, a gente não tem como voltar!
Rafael empurra Levi de volta, sem agressividade. Tem um ar de pacificidade que o irmão não tem.
— Mas que merda, calem a boca! — Naomi grita. Está sentada separando as coisas que sobreviveram ao naufrágio.
— E você, gracinha? Quem colocou você na liderança, hein? — Ele joga sua raiva para cima da morena.
— E quem vai liderar? Você? — Ela se levanta de onde estava, encarando Levi, bem mais alto que ela, sem um pingo de receio no olhar.
Levi tem diversas respostas prontas, mas de uma coisa ele sabe. Não quer ser responsável por ninguém, só pela própria pele.
— Faça o que quiser, mas você não manda em mim.
Ele praticamente cospe as palavras em cima dela. Não é a melhor companhia quando sua cabeça está quente, e ele sabe. Não querendo mais discutir, retoma seu lugar na chuva, sem rumo. Só o veriam amanhã.
x
Alex sempre tivera o sono pesado, mas depois do incidente com o trem há sete anos, qualquer mísero som a acorda.
Ela abre os olhos e vê Levi voltando de uma caminhada misteriosa.
Já é noite. Eles armaram acampamento ali mesmo, dividindo a pequena gruta com os animais nativos.
As armas que trouxeram a tiracolo estão dispostas no canto mais distante, abertas e secando com as munições. Diego ainda tem esperança que os walk talks funcionarão. Foi a primeira coisa que salvou quando a chuva começou, embrulhando-os nas sacolas de comida e amarrando na calça.
Tudo que conseguira ser resgatado está estendido para secar o quanto possível, parecendo impossível na noite fria que cai.
Todos os outros dormem.
Levi joga sua arma na pilha com as outras e tira o blusão molhado, ficando só com a camiseta preta. Se senta exatamente na extremidade oposta de Alex, e a olha. Sabe que está acordada.
Alex vira para o outro lado. O frio a tortura e, sabendo que não conseguirá dormir tão cedo, se levanta, tomando um inesperado rumo.
Sem uma palavra, ela se senta ao lado de Levi.
— O que foi?
— Nada. Não quero ficar sozinha.
Ele solta um riso abaixado.
— E acha que eu sou uma boa companhia?
— É uma companhia intrigante.
Eles cochicham.
— Intrigante é a pior coisa que já falaram de mim.
— É um bom adjetivo.
Silêncio.
— Se quer falar alguma coisa, fale logo. — Ele diz.
Alex encosta a cabeça na parede. Não se intimida mais por ele.
— Por que é assim?
Ele a olha com incredulidade, como se ela tivesse acabado de perguntar porque ele é um monstro. Em outras palavras, ela perguntou.
— Conversei com Ivan, ele comentou que vocês são uma família. — Ela conclui, sinceramente não esperando uma resposta.
Mas Levi não parece irritado, parece cansado. Ele olha para frente com um rosto inexpressivo.
— É foda se afeiçoar às pessoas aqui fora.
É tudo o que ele diz, e finalmente Alex entende. Esse é seu mecanismo de defesa.
Por instinto, ela apenas para de falar. Ele também. Os dois apenas ficam sentados lado a lado ouvindo o barulho da chuva cair até Alex pegar no sono de novo.
Levi olha para fora, para a escuridão, e dá um sorriso amarelado, aproveitando que ninguém está vendo. Alex acabara de peita-lo sobre sua personalidade. A garota novata e — talvez nem tanto — indefesa. Ele acaba de perceber algo. Ele gosta da palavra que Ivan usara para descreve-los — uma família. Apesar de tudo, finalmente se sente feliz em ter uma.
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