Corremos até a beira do prédio e saltamos.
Near gritava como um louco.
Embora os guardas devessem estar pensando que éramos loucos, eu sabia exatamente o que estávamos fazendo. O salto era na verdade apenas um pulo que nos levaria a sacada da cobertura, construída de forma a servir como rota de fuga quando se visse encurralado no terraço.
Esta sacada era especificamente construída para dar a volta em todo o ultimo andar, e posicionada de tal forma que somente que estivesse exatamente na beirada do terraço pudesse vê-la. Felizmente o vento que passava por lá fazia com que a maioria das pessoas jamais cogitasse essa ideia.
Poucas pessoas conheciam este lugar, entre elas estavam eu e Light. No final das contas eu nunca poderia tê-lo usado contra o Kira, pois ele o conhecia tão bem como eu, uma falha que poderia ter me custado a vida, mas felizmente não foi isso que causou minha morte.
Assim que me lembrei deste local, pensei que podíamos fingir pular do prédio. Light pareceu ter percebido o mesmo, pois fez exatamente a mesma coisa que eu.
Quando pulamos para a sacada fomos andando o mais rápido possível para uma das extremidades, para podermos sair de vista, caso alguém se aproximasse da borda.
Agora estávamos lá, abaixados, escondidos, como dois bandidos perseguidos pela polícia. Eu nunca imaginei ter que fazer isso em minha vida toda.
Ouvi quando os empregados de Near se aproximaram para ver se tínhamos caído, mas talvez o medo de atura dele o impediu de se aproximar muito da borda.
–Não tem como eles terem sobrevivido a uma queda dessas Near.
O silêncio, e de repente os passos dos empregados foram se afastando.
Não podíamos arriscar mais pegar o helicóptero, não o helicóptero que estava próximo deles. Mas ainda existia o segundo helicóptero. Lembro como se fosse hoje Watari dizendo "Mas L, tem certeza que vai precisar de dois Helicópteros? Um não é o suficiente?". Pelo jeito não era. Levei a mão para puxar Light para irmos até o segundo helicóptero, sem querer peguei em sua mão. Em reflexo puxei a mão rapidamente. Seus olhos castanhos me encararam. Não precisava dizer mais nada. O olhar durou pouco, logo ele o desviou e corou. Eu também devia ter corado, pois senti meu rosto esquentando.
Ficamos alguns segundos parados até que consegui reorganizar as ideias. O helicóptero, nós tinhamos que ir para o helicóptero.
Desta vez apenas acenei para que ele me seguisse. Fomos andando abaixados, circundando o prédio até chegarmos a uma escada de metal, longe o suficiente de Near. Subimos e demos de cara com o segundo helicóptero. Se tivéssemos sorte poderíamos sair dali ilesos.
Deslizei rapidamente para a lateral do helicóptero e fui seguido por Light. A porta foi aberta o mais vagarosamente possível para que ninguém ouvisse nada.
Agora, se eu não perdi a pratica, estaríamos voando em menos de sete segundo, o que era insuficiente para eles atravessarem todo o terraço e nos pegarem.
–Light, enquanto eu faço o helicóptero voar quero que veja se a arma que escondíamos sob o banco estão ai, se estiverem, quando levantarmos vôo você irá atirar na calda do outro helicóptero, até destruí-la. — Dei as instruções a Light o mais rápido possível.
–Nós vamos conseguir sair daqui?
–Oitenta e sete por cento.
Light apenas balançou a cabeça. Ele havia entendido.
Comecei a ligar os motores.
Um. Light pegava a arma sob o banco. Dois. Near vinha em nossa direção, correndo. Tentei não prestar atenção nele para não perdermos tempo. Três. Light fazia mira na calda do outro helicóptero. Quatro. Near se aproximava. Cinco. Light atirava uma, duas, três, várias vezes. Seis. O fuzil de Light parava de atirar, a calda do helicóptero destruída. Near estava muito perto. Sete.
Estávamos no ar. Eu subia o mais alto que podia com o helicóptero, para que eles não nos pegassem. Light vibrava.
–Conseguimos, conseguimos.
Mas então o helicóptero balançou. Olhei para baixo, um dos homens de Near havia se agarrado ao helicóptero e tentava subir.
–Derruba ele L!
–Não posso.
Eu realmente não podia, se o derrubasse me compararia ao Kira, o que trabalhei todos esses anos para não ser.
–É o único jeito!
–Não, não é não.
O rapaz de terno escalava. Infelizmente o que eu iria fazer faria com que Near tivesse uma visão total de meu rosto, mas era o único jeito de se livrar daquele homem sem que ele fosse morto.
Virei o helicóptero na direção do prédio e fui. O helicóptero pegou velocidade, era uma manobra arriscada, mas era a única alternativa.
O helicóptero foi na direção do terraço, parecia que ia bater, Light fechou os olhos e desta vez colocou a mão sobre a minha por querer. Nem que ele quisesse fingir que foi um acidente não poderia.
É agora. O helicóptero nivelou rente ao chão do terraço. O homem, que estava pendurado no helicóptero, teve que soltar para não ser cortado ao meio, caindo assim na sacada.
Near ficou parado na frente do helicóptero enquanto ele se aproximava. Parecia estar em choque. Seus olhos passavam do meu rosto para o rosto de Light. Ele não saía da frente do helicóptero. Evitei a morte de um de seus empregados para matá-lo? Não pude evitar de fechar os olhos. Fiquei esperando o choque.
–Near!
Abri os olhos rapidamente. O outro rapaz que estava com Near pulou, retirando ele da frente do helicóptero. Os dois caíram no terraço e o helicóptero seguiu seu curso em linha reta.
Quando chegamos ao final do terraço eu virei novamente o helicóptero. Nós havíamos conseguido.
–Light, nós conseguimos.
Light abriu os olhos vagarosamente e um sorriso se formou em sua face, o sorriso mais lindo que eu já havia visto em toda a minha vida. Ele não tirou a mão de cima da minha, aquilo parecia a coisa mais normal. Eu também me sentia a vontade com aquela situação, mesmo ela sendo diferente, algo que eu nunca tivesse vivido, eu gostava daquilo.
Quando passamos sobre o prédio novamente, avistei Near. Ele estava sentado no chão do terraço abraçado suas pernas. Eu imaginava como aquilo havia sido difícil para ele, mas na hora eu não tive escolha.
–Para onde vamos L?
–Para o mar.
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