Depois da Meia-Noite
1 A Névoa Azul.
Uma névoa azul envolvia todo seu corpo. “A salagadula é... nem eu entendo este angu”, alguém cantava, a voz soava familiar, “mas a mágica se faz dizendo”, a música continuava… “Bibidi! Bobidi! Bu!”, o vestido era maravilhoso, de um azul singular que cintilava, enquanto ela girava, pequenas borboletas pousavam em seu dorso e se tornavam inanimadas, como perfeitos adornos do modelo belíssimo. Nos pés, esplêndidos sapatos de cristal faziam-na andar como se flutuasse. “Verá que são muito confortáveis!”, a voz disse.
Aquela voz… quem era? Lembrou-se de ter ido buscar um pouco de água para uma senhora perdida. Seria ela? Com os olhos semicerrados, tentou enxergar o rosto desfocado parado em sua frente. Era uma mulher. Mas era jovem.
— Quem é você? — indagou, surpresa com a dificuldade em proferir as palavras. — Onde está a senhora que tinha sede?
— Oh! Era eu… — respondeu a jovem, guardando a… aquilo era uma varinha? — Costumo chegar disfarçada, para checar a segurança antes de revelar meu verdadeiro rosto por aí.
Não conseguia entender o que estava acontecendo. Sentia a cabeça girar, o vestido pesava e os sapatos não pareciam tão confortáveis.
— Desculpe… mas você ainda não me disse quem é você.
— Dessa vez você ao menos se lembra quem é você, para estar assim tão empenhada em saber quem sou eu? — retrucou a jovem estranha, em voz áspera.
— Eu sou… — tudo estava tão confuso. — Quem eu sou? Onde estamos?
A risada gélida invadiu seus ouvidos e percorreu todo seu corpo, fazendo-a arrepiar-se por completo.
— Você precisava de uma ajudinha para ir a um certo baile, eu vim ajudar…
O baile! O Príncipe!, começou a se lembrar. Mas parecia já ter acontecido. E há tanto tempo… Sentia-se confusa e perdida, os pés doíam.
— Isso é um sonho? — lembrou-se dos pequeninos amigos. — Cadê os ratinhos? Jacque? Tatá?
— Ah, a essa altura do campeonato, creio que já viraram comida de gato — a outra deu de ombros. — E isso está mais para pesadelo do que sonho, não acha, menina?
Comida de gato?, deu dois passos para trás, a fim de tentar conter o pranto, fechou os olhos e respirou. Quando abriu os olhos novamente, a jovem estranha havia desaparecido, levando com ela o jardim ao redor. Estava agora de frente para a maior porta que já vira na vida. Empurrou-a devagar. Quando se abriu, revelou um glamouroso salão, cheio de pessoas vestidas para um grande evento… O baile! Só pode ser o baile! O Príncipe… Preciso acha-lo!, se pôs a andar o mais depressa que podia entre os convidados, que pareciam não enxergá-la.
Esbarrou fortemente com alguém e mais uma vez tudo mudou. Estava ainda no mesmo salão, mas as pessoas se afastaram para abrir espaço, e o Príncipe a rodopiava em seus braços ao som de uma incrível orquestra.
— Príncipe! — sorriu com ternura. — Estou um pouco confusa, poderia ajudar-me?
— Vamos dançar — respondeu com voz fantasmagórica, o olhar estava perdido e o sorriso parecia vazio. — Vamos apenas dançar.
Ding. Dong. O relógio soou alto e o salão tornou-se escuro e as pessoas agora eram esqueletos caindo no chão, o lindo rapaz que ainda agora a abrigava em seus braços havia sumido. É meia-noite, preciso correr!, pensou e disparou a descer a escada que agora havia em seu caminho. Por que estou correndo? De quem estou correndo?, um sapato saiu de um dos pés, mas não havia tempo para pegá-lo, continuou a correr.
Uma carruagem vinha a seu encontro… Ratinhos!, lembrou-se que os cavalos brancos eram seus pequeninos amigos transformados. Se sentiu aliviada, mas o sentimento durou pouco. Os cavalos tropeçaram e caíram, virando novamente os pequenos ratos, que foram esmagados pela carruagem, mas antes que a atingisse também, a grande estrutura de ouro voltou a ser uma abóbora.
Retomou a correria, o vento secava as lágrimas antes que elas pudessem tocar o chão, mas sabia que estava chorando. Doía. Tropeçou e caiu em uma cama coberta de sujeira…
“Cinderella?”, ouviu ao longe.
— Cinderella! — alguém gritou.
— O que? O que foi? — despertou assustada. — Oh! Eu estava dormindo… Que pesadelo horrível.
O rapaz com vestes brancas colocou uma bandeja com pílulas azuis sobre o criado-mudo. Cinderella olhou ao redor e constatou que aquele não era seu quarto. As paredes eram altas e muito brancas, com pequeníssimas janelas quase encostando no teto.
— Onde eu estou?
— No Hospital Psiquiátrico Legrorn — respondeu com apatia. — Tome sua medicação, por favor.
— Deve haver algum engano… Eu…
— Precisa encontrar seu Príncipe e seus amigos, os ratos falantes… sim, sim, eu sei — o rapaz parecia impaciente com ela. — Tome o seu remédio e pode ir encontrá-los, tá?
Quando Cinderella colocou os comprimidos na boca, o rapaz se retirou. Ela então jogou os comprimidos na cama e caminhou sem fazer ruído até a porta, seus pés doíam como se tivesse corrido muito na noite anterior, como se o sonho fosse verdade. Ao espiar pelo vão da porta, pôde ver o rapaz falando com uma bela mulher.
Madrasta!, a reconheceu.
— Como ela está hoje?
— Aparentemente, tendo os mesmos devaneios — o médico respondeu a pergunta da bela mulher.
— Pobrezinha — suspirou. — Perdeu mesmo o juízo.
— A senhora ainda não descobriu o que aconteceu naquela noite? Nos ajudaria a desvendar o que a deixou assim, e então poderíamos tratá-la de forma mais efetiva.
— Eu já lhe disse, doutor — a madrasta respondeu com a voz embargada. — Ela chegou há alguns meses, depois da meia-noite, com um vestido rasgado, descalça e conversando com ratos. É tudo o que eu sei.
De repente, os olhos da madrasta encontraram com os seus… Cintilavam. Cinderella conseguiu, ainda que por uma fração de segundos, ver o sorriso cortante da maldosa mulher.
— Continue cuidando bem dela, está bem? — a madrasta disse, preparando-se para ir.
— Estamos mantendo-a segura, fique tranquila.
Uma enfermeira se aproximava e Cinderella saiu rapidamente da porta, quando a moça adentrou o quarto, percebeu os comprimidos sobre o lençol.
— Vamos lá, mocinha, é para o seu bem — pegou-os e dirigiu-se até Cinderella.
— Não! — bradou relutante. — Por favor, eu posso explicar!
Com habilidade e força absurda, a enfermeira conseguiu fazer com que Cinderella engolisse a medicação.
Se sentiu cada vez mais sonolenta.
— Venha, é melhor se deitar…
— Não… me deixe explic…
Uma névoa azul envolvia novamente todo o seu corpo.
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