Depois da Maldição
1 Beijos sob o céu.
Notas iniciais
Kenny tossiu. Para seu horror, as chamas continuaram a crepitar, intoxicando o ar com o cheiro deliberante de cinzas. Estava quente. No céu, sobre as árvores, as nuvens decidiram se mover, revelando uma lua cheia com uma eutimia que não deveria estar ali.
Uri o fitou com um desejo, uma vontade imutável. E os olhos de Kenny arderam, levando-o a piscar várias vezes. Lento, Uri se aproximou dele como um ser seráfico abençoado pela luz da lua e do fogo. Com todo cuidado, o beijou. Era um toque de lábio manso e marejado, que o arrepiou por inteiro, trazendo borboletas em seu estômago.
Kenny congelou.
Ele havia falado que não era a melhor pessoa para ficar! Não queria ser um labéu na vida do Príncipe. Embora se pensasse bem, Uri teve sua vida manchada pela maldição da bruxa, levando seu pai a desistir dele e colocar uma recompensa por sua cabeça. Não era nada comparado com o modo como Kenny vivia, matando mais e mais pessoas.
Devagar, Uri se afastou, mostrando, por um momento, um pequeno beicinho. Não tirando os olhos azuis do assassino, esperou o outro dizer alguma coisa, qualquer coisa.
Kenny suspirou. O toque quente e fantasmagórico continuou permeando seus lábios, acendendo um novo tipo de incêndio por suas veias e enviando calafrios em sua espinha. Era um desejo voraz, que o fez querer a pessoa em sua frente, queria-o só para si. Uma brisa soprou a fumaça diretamente para seu nariz, fazendo-o contorcer suas narinas.
Inabalável, Uri avançou novamente, decidido. Dessa vez, não foi cumprimentado por um par de dentes. Kenny abriu a boca e respondeu na mesma intensidade. Logo, esticou seus braços ao redor do corpo do outro, puxando-o para mais perto em um abraço apertado, já suas mãos calejadas mapearam as costas de cima para baixo.
Depois de um tempo, eles se separaram sem folego.
Não demorou para Kenny enterrar seu nariz naqueles cabelos loiros. Então, olhou ao redor. O incêndio continuava abalando a floresta. E se houvesse mais assassinos apenas esperando uma deixa para atacar? Ele cerrou seus punhos. Não deixaria nenhum sarpar para outro dia.
“Nós temos que sair daqui.”
Uri concordou com a cabeça, arregalando os olhos. Havia esquecido do estrago que ocorreu naquela luta. Ele não era mais um dragão para apenas levantar asas e voar. Não tinham mais tempo para perder.
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Ambos correram até a vila mais próxima.
Uri respirou em dificuldade, quase não aguentando a corrida.
O vilarejo em si era um lugar pobre, com casas de madeira e com poucos recursos.
Kenny insistiu em roubar dois cavalos e fugir usando trilhas perto das estradas. Ninguém sabia se todo o lugar iria encher de cavaleiros procurando um dragão, ou não, era melhor não ariscar e não ficar aos arredores. Embora Kenny fosse o único que sabia que a maldição se quebrou, ele ainda era procurado como um assassino infame e sempre poderia haver alguém que reconhecesse o Príncipe. Além dos cavalos, roubou mantimentos de uma casa mais chique, era o bastante para uma viagem longa.
Como se não tivessem problemas o suficiente, Uri avisou todos os que estavam passando na praça da queimada, assustando alguns moradores. Felizmente, nenhum o reconheceu. Cinco homens decidiram verificar a extensão do fogo, para descobrir se haveria um perigo potencial.
Na ocasião, Uri o puxou para o lado. “Não fique bravo com isso, já causei muita devastação e não quero ser motivo de mais mortes.”
“Eu não estou. Mas você percebe que sou um assassino procurado, não é? Ser bonzinho não é meu estilo.”
Uri fez uma careta. “Eu sei, eu sei.” Então, sorriu pensativo. “Mas você sempre foi um amor comigo.”
“Isso é completamente diferente! Está se esquecendo que, se você não tivesse me derrotado e depois me impressionado, nem estaríamos aqui. Eu estava querendo te matar.”
“E eu encontrei uma pessoa em que a maldição permitiu não colocar fogo. Supere isso.”
Sem perder mais tempo, os dois seguiram estrada pela floresta.
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Cerca de três horas depois, eles decidiram fazer uma pausa.
O dia já havia amanhecido. No começo, deu as boas-vindas em uma névoa fria dissipada quando o sol pôs seus raios para esquentar a terra.
Pararam em um pequeno riacho, deixando os cavalos beber água. Uri se sentou abaixo de um sombreiro, suado e pensativo. Kenny se aproximou, acabando do seu lado em pé.
“O que planeja fazer agora?” Questionou com a voz baixa. “Nós nunca entramos em detalhes, antes.”
Uri moveu um pouco a cabeça, virando-se. “Acho que eu deveria escrever uma carta para meu pai.”
“Ah! Então, você pretende ganhar seu perdão, para conseguir voltar para seu castelo de ouro.” Kenny disse, severamente, cerrando os dentes. “Eu não esperava isso de você.”
“Na verdade, não.” Uri fitou-o com o rosto pálido, um tom de pânico em sua voz. “Não vou me mudar para nenhum lugar! Só quero que ele saiba que agora não tenho mais a maldição.”
Ele explicou, que seu pai poderia até tirar a recompensa por sua cabeça, entretanto os civis não iriam o perdoar facilmente e a nobreza não deixaria o fato dele ter sido amaldiçoado passar em branco. Ainda assim, Uri queria se entender com seu pai. O rei sempre teve uma saúde debilitada. Era melhor resolver tudo o mais rápido possível. Já Rod, o irmão de Uri, deveria ficar feliz pelo ocorrido, depois de tanto tempo. Mas nenhum deles amaria sua escolha amorosa e aprovaria esse relacionamento.
Kenny se abaixou, inclinando-se para mais perto. “Tem certeza que quer ficar comigo?”
“Eu já estou com você por cinco anos, por que agora iria embora?”
“Não sei. Talvez agora tenha a opção de optar por algo melhor.” Ele fez uma careta. “Afinal, não sou o cara dos sonhos.”
Uri riu, chegando mais perto. “Talvez não. Mas estou completamente apaixonado e não quero nem saber de outras pessoas.”
“Então, agora você pertence a mim.”
Kenny encarou a boca de Uri, umedecendo seus lábios. Deixando todas as suas dúvidas de lado, ele coloca as mãos nas bochechas do Príncipe, segurando-as e colando ambos os rostos um no outro, beijando-o. Era um beijo firme, cheio de luxúria. Uma eletricidade passou zumbindo num calor assativo, levando seus corações a acelerar em um ritmo igual. Ofegantes, eles se separaram. Uri o puxou de volta, fazendo-o soltar um gemido.
Amanhã, Kenny poderia começar a pensar em maneiras de como o proteger.
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